Pilotos e escalabilidade – Parte I

By: Author Raul MarinhoPosted on
728Views21

Escalabilidade e suas conseqüências para o mercado de trabalho

Embora possa ter muitos outros significados, quando relacionada a questões de mercado de trabalho, “escalabilidade” significa quanto uma determinada atividade profissional pode ter sua renda multiplicada sem acréscimo de trabalho. Considere, por exemplo, um cantor. Se esse profissional cantar em um pequeno clube para 30 pessoas, ou em um estádio para 30mil pagantes, não haverá substancial acréscimo na sua carga de trabalho, enquanto que seu rendimento será substancialmente incrementado no segundo caso. Se este mesmo cantor gravar suas músicas em um CD, poderá gerar um ganho ainda maior com sua atividade, e não importa a quantidade de CDs vendidos: seu trabalho será sempre o mesmo. Isso significa que a profissão de cantor é altamente escalável, já que é possível multiplicar sua renda milhares de vezes sem nenhum acréscimo de trabalho. Agora, vejamos o que acontece com um dentista. Na odontologia, não é possível atender mais que um paciente ao mesmo tempo, muito menos multiplicar o trabalho por meios externos, como CDs. O máximo que um dentista pode fazer para aumentar seus ganhos sem aumentar o número de horas trabalhadas é cobrar mais caro, proporcionando um melhor atendimento se sua experiência ou habilidade forem mais elevadas. De qualquer forma, comparando a renda de um dentista recém-formado e a de um profissional experiente e pós-graduado com um consultório ultra-luxuoso, veremos que, para uma mesma quantidade de horas trabalhadas em um determinado mês, o segundo ganhará umas dez ou vinte vezes o salário do primeiro (ex.: o recém-formado ganha R$1mil e o experiente ganha R$20mil ou R$30mil), o que é uma diferença muito menor que a verificada entre cantores iniciantes e os astros da música pop. Isso ocorre porque a profissão de dentista é muito pouco escalável.

Algumas profissões são essencialmente muito escaláveis, como cantor, ator, jogador de futebol, executivo e empresário; e, por outro lado, existem profissões tipicamente pouco escaláveis, como dentista, contador, engenheiro e funcionário público. Mas também existem profissões que podem muito ou pouco escaláveis, dependendo da maneira como o profissional atua. É este o caso dos advogados, por exemplo, que podem atuar em regime “de partido” – isto é, cobrando uma taxa mensal fixa de seu cliente para defendê-lo no que for necessário, de maneira pouco escalável –, ou cobrando “taxas de sucesso” sobre as demandas, o que faz com que a atividade seja altamente escalável, uma vez que atuar num processo de baixo ou alto valor envolve praticamente o mesmo trabalho, mas ganhar 10% de R$1mil ou 10% de R$1bilhão são coisas completamente diferentes. Na verdade, a maioria das profissões permite que se atue de maneira mais ou menos escalável – por exemplo: um cantor que possui contrato com um Piano Bar para cantar toda noite durante anos a fio trabalha com baixa escalabilidade, e um contador que repassa a maior parte de seu trabalho para associados acaba obtendo alta escalabilidade –, e quando disse que algumas profissões são essencialmente ou tipicamente escaláveis ou não, estava me referindo à regra geral, à maioria.

A conseqüência mais direta da alta escalabilidade em uma determinada atividade profissional é proporcionar a ocorrência de mercados de “tudo-ou-nada” ou “o-vencedor-fica-com-tudo”, caracterizados por uma excessiva concentração de renda. Voltando aos cantores, é fácil perceber que algumas dezenas de nomes (Roberto Carlos, Caetano Veloso, Chico Buarque, etc) obtêm ganhos estratosféricos, enquanto uma multidão de anônimos ganha quase nada ou até paga para cantar. Já entre os dentistas, será muito difícil encontrar algum que ganhe tanto quanto um astro da música pop; em compensação, também vai ser muito raro encontrar algum dentista passando fome. É fácil perceber que a concentração de renda entre os dentistas é muito menor que entre os cantores, e isso não ocorre porque estamos no Brasil, trata-se de um fenômeno universal. É por este motivo que muitos postulantes à carreira de ator, por exemplo, mantém um “bico” (garçom é um dos mais comuns), enquanto encenam suas peças de teatro pouco vistas, à espera de uma oportunidade na Globo ou em Hollywood. Dificilmente você verá um dentista atendendo uma mesa de bar, e isso não é por acaso.

A realidade da vida é que, por mais que as profissões muito escaláveis sejam muito rentáveis e sedutoras, é muitíssimo difícil obter sucesso neste tipo de carreira, e mesmo para um cantor talentoso ou um empresário genial, o fracasso é a regra (e isso não é uma afirmação pessimista, por mais que pareça; trata-se de simples observação e estatística). O fato é que, seja por legítima opção, seja por receio do fracasso em mercados de “tudo-ou-nada”, grande parte das pessoas escolher seguir uma carreira pouco escalável e lutar para ir o mais longe possível nela. Se a carreira escolhida for a de dentista, isto significa fazer cursos e especializações, ter um consultório bem arrumado, e adotar outras atitudes deste tipo. Para um funcionário público, estudar para prestar melhores concursos ou galgar promoções internas, e assim por diante. Trata-se de uma boa estratégia, que resultará em ganhos muito maiores que a média das pessoas que se arriscam em atividades muito escaláveis.

Ocorre que também existem muitas pessoas interessadas em seguir uma das carreiras que chamamos aqui de “muito escaláveis”, e para um indivíduo que não possua reservas financeiras próprias ou conte com um forte apoio familiar, a opção mais comum é a do já citado “bico”, uma situação provisória que só deveria durar até que o sucesso finalmente chegasse. O problema é que, como se trata de um mercado de “tudo-ou-nada”, é mais provável que esse sucesso nunca chegue, e após muitos anos de tentativas, a pessoa se vê no pior dos mundos: nem alcançou a glória, nem possui estabilidade profissional para uma vida com um mínimo de conforto. Por isso, o mais sensato a fazer para quem quer tentar a sorte como cantor, jogador de futebol ou empresário é ter duas carreiras em paralelo: uma pouco escalável, para garantir o sustento (mas não como um “bico”, o enfoque não é provisório neste caso) e, em paralelo, desenvolver a segunda carreira, muito escalável. Na medida em que a segunda carreira (muito escalável) se mostrar sólida, essa pessoa poderá abandonar ou diminuir as atividades da primeira carreira (pouco escalável), até que seja viável ficar só com a atividade muito escalável. Os exemplos são muitos, mas um dos mais interessantes é o que fez o comandante Rolim Adolfo Amaro, que era o dono da TAM, a maior empresa de aviação do Brasil quando faleceu, em 2001. Estudaremos este caso na segunda parte deste artigo.

21 comments

  1. Erick
    4 anos ago

    Olá !!. Meu nome é Erick, tenho 22 anos, pretendo ser piloto, minha lista de cursos que pretendo fazer é enorme, quero pilotar aviões, helicópteros, fazer acrobacia aérea, só que as condições atualmente não são favoráveis para ingressar em um curso desse por ser muito caro, não sei o que fazer, estou desesperado, pois, meu desejo desde que me conheço por gente foi de ser piloto, gostaria de perguntar umas coisas, sei que pode me ajudar. Ainda existe bolsa de horas de vôo ou a ANAC acabou com isso?
    E eu também gostaria de ser piloto executivo um dia, quem sabe, como faço para chegar lá? Me dê algumas palavras de incentivo pois sei que não é fácil, tem que estudar muito e eu estou disposto à isso.
    Muito obrigado.
    Atenciosamente Erick.

    • Raul Marinho
      4 anos ago

      O que eu acho Erick, é que vc tem que ficar calmo, e analisar a aviação de maneira isenta. Para começo de convresa, eu acho que vc tem que entender como funciona o processo de formação de piloto, que está no meu e-book “Como tirar brevê e quanto isso vai custar”. Depois, acompanhe o blog para ficar por dentro de como está o mercado de trabalho, etc. E respondendo á sua pergunta específica sobre bolsas da ANAC: não, elas não mais existem, e nem há perspectivas de que retornem.

      • Erick
        4 anos ago

        Olá. Obrigado por retornar o meu contato, fiquei feliz. Peço perdão, mas, por estar nervoso em querer demais esse curso, pois é minha vida, gostaria que o senhor tirasse a minha dúvida, quando o senhor diz que eu tenho que pensar de maneira isenta, como assim? Obrigado pela atenção. Aguardo resposta.

        • Raul Marinho
          4 anos ago

          Eu quero dizer que vc tem que pensar sobre a carreira de piloto sem paixão, com objetividade. Porque muita gente toma decisões levado pelas emoções, e acaba se dando muito mal lá na frente. Então, tente isolar ao máximo as suas emoções, e tente entender os prós e contras da aviação de maneira racional.

          • Erick
            4 anos ago

            Mas uma vez venho lhe gradecer por mais uma dúvida esclarecida, seguirei meu objetivo de ser piloto, porém, depois de esclarecer minhas dúvidas irei seguir de maneira racional sem me levar pelas emoções e com muita precaução, desde já, agradeço.

  2. Tony maia
    6 anos ago

    E outra. Temho amigo que ganha 32 mil como copiloto de falcon 7x com 28 anos de idade, conheco piloto de r44 que ganha 12 mil no nordeste, 10, 12 mil de monomotor com 3 , 4 anos de carreira. Ai pessoa vem comparar com um pessoa que teve que estudar 5 anos de faculdade, 3, 4 estudando pra concurso pra passar num cargo mediocre e ficar atras de um mesinha levando carao de chefe nomeado por peixada ou se estressando pra resolver problema dos outros. E quem começa a carreira ganhando salarios altos ? Voce ta falando da excecao da regra amigo! E concurso por concurso, como piloto Vc pode ser piloto da petrobras, da chesf, entre outros orgaos federais, estaduais e municipais… E acho que o caminho mais curto e prazeroso de se realizar profissionalmente na vida é fazendo o que gosta, e pra nos apaixoados por aviação, podemos juntar o util ao agradavel, trabalhar no que gosta e ganhar sim muito dinheiro!

    • Raul Marinho
      6 anos ago

      Bem… Primeiro ponto: o que é ser “rico”? Não há uma definição objetiva do que é ser rico, obviamente. Para um agricultor de subsistência que sobrevive da Bolsa Família no sertão da Paraíba, talvez eu ou vc sejamos considerados ricos. Já para o Eike Batista, um sujeito com um milhão de dólares na conta é no máximo classe média, né? Bem, mas a gente precisa definir o que é ser rico, senão a gente não sai do lugar. Eu acho que uma boa definição do que é ser rico é “uma pessoa que pode parar de trabalhar que sua renda e seu patrimônio não diminuem”, que tal? Por exemplo: se o seu amigo do Falcon parar de voar hoje, ele consegue manter uma renda de R$32mil até morrer sem perder patrimônio? Acho que não, né? Então, por este critério, ele não é rico. E olhe que estamos falando de um piloto que, certamente, está entre os mais bem remunerados do país, hein! De qualquer maneira, existem muitos outros critérios para definir o que é ser rico, e tem muito especialista no assunto. Bancos segmentados (os Private Banks), comerciantes de produtos de alto luxo (vendedores de Ferrari, jatinhos, iates, etc), imobiliárias que lançam empreendimentos de altíssimo padrão (apartamentos cujo condomínio excede o salário do piloto do R44 que vc falou), etc, tem critérios mais objetivos para definir o que é ser rico. E, em nenhum destes, um piloto – mesmo um top de linha, que ganha R$40-50mil – pode ser considerado rico. É do “rico de verdade” que estou falando, meu caro…
      Aí vc diz que eu estou falando da “exceção”… Bem, é lógico que o rico é a exceção! Justamente por isso que ele é rico, oras. Se ser rico fosse comum, isso não seria riqueza, meu jovem. E “concurso por concurso”, nenhum funcionário público fica rico (honestamente, ao menos) com o salário de funcionário público. é uma atividade não escalável, meu caro, é isso o que explico no artigo. Agora, se vc quer falar de prazer, de felicidade, tudo bem. Mas isso não tem nada a ver com o que eu abordei no artigo.
      É isso, meu jovem. Reflita mais sobre o que vc lê antes de argumentar.

      • Diego
        5 anos ago

        Muito boa essa resposta, haha.

        • Rafael Moreira
          5 anos ago

          hahahahahaha Observar é uma tarefa fácil para muitos (Mas nada cheia de sucesso). O mote da observação é tirar uma conclusão para se partilhar, uma pena que na maioria das vezes as conclusões são terríveis e os argumentos piores ainda. Boa Resposta Raul.

  3. Tony maia
    6 anos ago

    “voces jamais serão ricos sendo piloto” acho muito errado dizer isso. Porque isso é tão relativo que podemos dizer que em nenhum emprego você vai ficar rico! Sendo medico você enrica se construir com muito esforço seu consultorio e com sorte fazer sucesso, ou seja, vc enricou pq se tornou empresario! Se voce for engenheiro vc enrica se abrir uma construtora e ter competencia pra ser empresario do ramo e etc. Então sendo empregado realmente vc nao enrica mais pode viver muito bem, e no caso de piloto fazendo o que ama que é voar. Quer enricar ? Se torne empresario do ramo, como temos diversos exemplos de pilotos com frotas milionarias de jatos e helicopteros fazendo taxi aereo e transporte de cargas.

    • Raul Marinho
      6 anos ago

      Então, Tony… É isso mesmo, em nenhum emprego vc vai ficar rico (de piloto, inclusive), porque se vc tem um emprego, vc está exercendo uma função pouco escalável, e vc só fica rico com atividades muito escaláveis, é este o ponto do artigo! Mas vamos falar da “relatividade da riqueza” nos comentários seguintes.

    • Tarcísio Neto
      5 anos ago

      Concordo Com vc Tony, tambem penso da mesma maneira.

Deixe uma resposta