Pilotos e escalabilidade – Parte II

By: Author Raul MarinhoPosted on
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Particularidades da escalabilidade para pilotos

A profissão de piloto de avião ou de helicóptero é claramente pouco escalável: não há como pilotar mais de um avião ao mesmo tempo, é impossível para um piloto reproduzir o seu trabalho por meios externos (como CDs, por exemplo), e há relativa pouca distância entre a base e o topo da pirâmide salarial – enquanto um piloto de monomotor a pistão ganha entre R$2mil e R$5mil, um piloto de jato internacional ganha entre R$20mil e R$30mil. Com isto, um piloto consegue maximizar seus ganhos horários somente de duas formas, que são cumulativas: por meio do aumento de sua experiência (acrescentando horas de vôo em sua CIV), e agregando novas habilitações ao seu currículo, como a de voar por instrumentos (IFR), aeronaves multimotoras (MLTE), e assim por diante. Uma terceira forma seria a de trocar de empregador, eventualmente indo pilotar no estrangeiro. Ok, isso é válido, mas para efeitos didáticos, vamos desconsiderar essa alternativa, mesmo porque o aumento salarial num caso desses não é tão elevado a ponto de transformar a carreira de piloto de pouco para muito escalável. O fato é que a remuneração de um piloto depende basicamente do número de horas voadas, assim como um dentista ganha pelo tempo dedicado ao consutório: ambas são atividades de baixa escalabilidade.

Acontece que um dentista pode trabalhar 10, 12 horas por dia ou mais, enquanto que um piloto sofre restrições legais quanto ao número máximo de horas voadas num determinado período. A regulamentação é complexa, mas em linhas gerais, um piloto não pode exceder 80 horas voadas ao mês, o que dá menos que 20 horas por semana. Mesmo contando com o tempo gasto com planejamento de voo, inspeções de aeronaves, e outras atividades necessárias para que o vôo aconteça, o piloto acaba tendo muito tempo livre em sua agenda – isso sem contar que, ao contrário de muitas outras profissões, um piloto pode ter uma rotina de trabalho alternativo, como os pilotos de helicóptero que atuam em plataformas de petróleo, que trabalham em regime “15 por 15” (15 dias voando e 15 dias de folga). Isto facilita muito a vida de um piloto que deseje usar a carreira de piloto como contraponto a uma tentativa de alavancar uma carreira muito escalável, conforme vimos no final da parte I deste artigo. Por exemplo: um piloto poderia, perfeitamente, utilizar seu tempo livre em solo escrevendo livros, e ir tentando emplacar um best seller. Na medida em que seus livros começassem a vender bem, ele poderia diminuir sua atividade como piloto, e até deixar de voar, se quisesse – mas, caso seus livros nunca chegassem ao sucesso de um “Senhor dos anéis” ou “O diário de um mago” (o que é muito mais provável, já que a profissão de escritor é tipicamente de “tudo-ou-nada”), a atividade de piloto proporcionaria a esse sujeito uma vida confortável e sem dificuldades financeiras.

Na realidade, o mais comum é a configuração piloto+empresário – ou seja: o sujeito pilota para garantir o sustento, enquanto tenta a sorte numa atividade empreendedora –, o que é particularmente eficaz quando o empreendimento é do ramo aeronáutico e/ou requeira acesso a figurões do mundo empresarial. Por exemplo: se o piloto do jatinho de uso do presidente de uma grande corporação constitui uma pequena empresa de táxi aéreo, ele pode utilizar-se da proximidade com este alto executivo para fechar um contrato de transporte de malotes para a empresa do seu passageiro habitual. Com isso, ele resolve três problemas simultaneamente: 1)Com seu salário de piloto, ele garante o seu sustento e não sobrecarrega sua empresa com retiradas de pro-labore no seu início, além de sempre ter um plano B no caso do empreendimento não der certo; 2)Como ele já está no ambiente aeronáutico, será muito mais fácil cuidar dos detalhes de sua empresa de táxi aéreo, como contratar tripulação, efetuar a manutenção ou resolver as questões burocráticas; e 3)Como os usuários do transporte aéreo executivo são, geralmente, grandes empresários e executivos, ele sempre estará próximo de pessoas que podem ser importantes para sua empresa, como clientes, fornecedores, financiadores, etc. Foi utilizando esta estratégia que um sujeito pobre tornou-se um dos maiores empresários que o Brasil já viu.

A biografia do comandante Rolim é bastante conhecida, mas a melhor fonte para saber de seus detalhes é o livro “O sonho brasileiro – Como Rolim Adolfo Amaro criou a TAM e sua filosofia de negócios”, de Thales Guaracy (A Girafa Editora, 2003): em suas páginas, está um exemplo real de como um piloto pode utilizar a estratégia de desenvolver uma carreira pouco escalável para alavancar uma carreira altamente escalável. O Rolim nasceu em uma família muito pobre do interior de São Paulo, e conseguiu tirar seu brevê trabalhando como motorista de praça na zona de meretrício de Catanduva-SP. Brevetado, fez de tudo na aviação: pilotou aviões particulares de fazendeiros, deu instrução, foi funcionário de táxis aéreos, e inclusive atuou por um curto período na VASP, à época, estatal. Até que, por ter pilotado para o usineiro Orlando Ometto, acabou conhecendo o banqueiro Amando Conde, que aceitou financiar seu primeiro avião monomotor. Neste momento, o Rolim deixou de ser somente piloto para ser piloto e empresário, iniciando a transição do pouco para o muito (no caso dele, muitíssimo) escalável. Com a renda obtida com o avião financado, comprou o 2º monomotor, e com a renda destes 2 aviões, comprou o 3º, 4º… 10º monomotor, sempre pilotando aviões de terceiros em paralelo. Os negócios foram indo bem, até que surgiu uma oportunidade para que ele se tornasse sócio de seu ex-patrão usineiro, quando ambos adquiriram o controle da Táxi Aéreo Marília, a T.A.M.. Alguns anos depois, o Rolim comprou a parte de seu sócio, tornando-se único proprietário da TAM que conhecemos hoje. O resto é história.

Evidentemente, a maior parte dos pilotos dedica-se exclusivamente a ser somente piloto, e não há nada de errado nisso, pelo contrário. Mas é importante evidenciar esse outro lado da carreira de piloto, a de permitir arriscar a sorte no cassino de uma carreira “tudo-ou-nada” sem o risco de se machucar. Justamente por ser uma carreira de “tudo-ou-nada”, é muito provável que essa tentativa termine em fracasso e, no fim das contas, para a esmagadora maioria, o resultado é o mesmo que seria obtido se a pessoa se concentrasse só em pilotar. Mas para muita gente, só por viabilizar a tentativa, ainda que improvável, de conseguir vencer numa carreira de “tudo-ou-nada”, já vale a pena. Este é um diferencial que a carreira de piloto proporciona que nenhuma outra o faz.

15 comments

  1. Flávio
    2 anos ago

    Olá boa noite sr. Raul Marinho eu tenho 31 anos e estou muito interessado em iniciar o curso de monomotor gostaria de saber como é o mercado será q o sr pode me dar alguma dica?

  2. Oswalney
    4 anos ago

    Boa mesmo! Voce pode escrever um livro. Para os interessados a sua forma de mostrar envolve. Parabens!

  3. Wanderley Raphael
    4 anos ago

    Realmente, são pequenos detalhes abordados neste artigo e em outros artigos anexados neste blog que demorariam um bom tempo para atingir tal conhecimento.

    Obrigado Raul por compartilhar o seu conhecimento, atenção e carinho por nós leitores, futuros pilotos e apaixonados pela aviação…

  4. Freddy
    5 anos ago

    É o que tenho feito Raul.
    Concilio os voos pra alcançar as horas de PC com o controle de tráfego aéreo.
    abraço

  5. Vitor Gomes Catro
    6 anos ago

    Sr Raul Marinho.. Tive o prazer, de recentemente conhecer o seu magnífico trabalho e ler praticamente todos os seus artigos postados. Sou PP, no momento, esperando a data da banca de 2ª época de PC (Navegação). Acho que seus textos esclareceram muitas informações que jamais os pilotos e candidatos a pilotos encontrariam em apostilas, ou em qualquer outro lugar. Talvez me ajude com três duvidas?
    (1) Em relação à Escalabidade; Como disse, a profissão de piloto, é pouco escalavel, então.. Será que poderia fornecer e indicar exemplos de Pilotos (fora o Cmte Rolim, que já foi exemplificado) que conseguiram encontrar outra profissão de Alta Escalabidade, e se deram bem nesta profissão? ou seja: quais as profissões de alta escalabilidade que os pilotos mais conseguem como alternativa de tentar melhorar a renda, ou coisa do tipo. Exemplo: tenho um amigo, piloto que entende bastante sobre construção civil, então, com a renda de piloto, ele constrói casas para vender; demora 3 meses para construir, e vende pelo dobro do preço. Então, consegue aumentar a renda em pelo menos quatro vezes, e mesmo assim, ele não larga a profissão de piloto de avião, que garante o sustento primário de sua vida, e é o seu maior prazer.
    (2) Na Possibilidade de Trabalho, foi mencionada a profissão de “Piloto de Recreio” de testes. Gostaria de saber qual a possibilidade que tem um piloto “Civil” se tornar Piloto de Recreio, e trabalhar numa empresa como a Embraer, uma vez que pude pesquisar, e percebo que na grande maioria, são pilotos militares formados pela AFA ou engenheiros do ITA que também viraram pilotos.
    (3) Como é também a sua área, pode me dizer em que um Piloto de Avião que seja Graduado no Curso de “Recursos Humanos” (meu caso) pode fazer para agregar as duas profissões? Ou seja, imagino que numa empresa aérea, existem pilotos que ficam por conta do RH dos outros pilotos da empresa? ou não?
    É possível agregar “Piloto de Avião X Recursos Humanos” numa mesma empresa?

    Desde já, deixo aqui os meus agradecimentos. Tenho certeza que as respostas destas perguntas iram ajudar muitos pilotos, inclusive eu Obrigado

    • Raul Marinho
      6 anos ago

      1)O exemplo do seu amigo construtor está correto, e o que eu vejo na prática é isso: pilotos com pequenos negócios, como restaurantes, lojas, etc.
      2)Não é “piloto de recreio”, mas “piloto de ensaios em voo”. Eu não conheço muitos exemplos nesta área, mas eu acho que a maioria vem da FAB ou do ITA mesmo… Mas, em tese, um piloto muito experiente e dedicado pode se tornar um piloto de ensaios.
      3)Eu acho que vc pode tentar uma carreira em consultoria de RH. O meio aeronáutico é muito carente deste tipo de profissional, diga-se de passagem. Por exemplo: se vc criar uma espécie de “Catho aeronáutica”, acho que vc pode ter sucesso. E, sim, nas cia aéreas, existem pilotos alocados ao depto de RH, mas geralmente são os mais antigos, não necessariamente os com formação acadêmica na área.

      • vitor
        6 anos ago

        Obrigado pela atenção Raull….

  6. Richard
    6 anos ago

    Desculpe o comentário acima XD.
    Fui explorando o blog todo agora, e li a bendita parte “SOBRE O AUTOR”.

    Acho que não preciso dizer mais nada. xD

  7. Richard
    6 anos ago

    Parabéns pelos artigos Raul! Excelentes.
    Chega a “dar gosto” de ler. Objetivos, bem pontuados, claros, enfim, envolventes ao ponto de deixar agente querendo mais. xD
    Bom, eu diria que você poderia até arriscar escrever um livro… vai que vira best-seller? =D

    E se não der certo? Não da nada, você é piloto. Hehe.
    Um abraço. E parabéns novamente.

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