Carta aos editores

By: Author Raul MarinhoPosted on
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Estou tentando, já há algum tempo, sensibilizar os órgãos de imprensa do Brasil sobre esta falácia de que o país está á beira de um “apagão de pilotos”. Porém, nunca, até hoje, tive um único retorno de um editor para quem escrevi.

Ocorre que, pela boa repercussão que eu senti que o meu post “Apagão de pilotos??? Bullshit!!!” teve, resolvi tentar novamente. Vou enviar o texto que segue abaixo para os jornais e revistas que eu conheço, para ver se alguém, finalmente, se sensibiliza. E se alguém puder ajudar, com algum contato numa publicação que se inteteresse pelo assunto, seria formidável.

Prezado Sr. Editor,

Já há algum tempo, a imprensa vem noticiando que estamos à beira de um apagão de pilotos, e que a solução para que os aviões não fiquem no chão por falta de tripulantes é alterar a legislação de modo a permitir a contratação temporária de pilotos estrangeiros. Eu discordo de ambas afirmações: tanto acho que não vivemos o risco de termos aviões parados por falta de pilotos, como entendo que a permissão da contratação de pilotos estrangeiros será prejudicial à escassez de pilotos no Brasil (no longo prazo, ao menos).

Primeiro, vamos entender o que significa essa história de “apagão de pilotos”. Quando se diz que “vai faltar pilotos no mercado”, o que se quer dizer realmente é que “o valor médio do salário dos pilotos deverá subir”, o que são coisas bem diferentes. Na medida em que os salários aumentem, mais e mais pilotos que hoje voam no exterior, ou que abandonaram a profissão, e mesmo os que se aposentaram precocemente irão voar nos céus brasileiros. E em pouquíssimo tempo, o aumento na procura pela profissão devido a esse aumento de atratividade irá suprir o mercado com novos talentos mais que suficientes para dar conta da eventual escassez destes profissionais – nós temos infra-estrutura para isso, assim como um enorme potencial de recursos humanos. Além disso, a mão invisível smithsoniana irá operar de modo a realocar os profissionais de maneira mais eficiente no mercado, com os profissionais sobre-qualificados da aviação executiva indo para as linhas aéreas; os jatinhos executivos contratando pilotos não tão qualificados quanto antes; e assim por diante. É a mesma coisa que aconteceu na recente crise do setor, quando Vasp, Varig e Transbrasil quebraram, só que ao contrário – naquela época, os salários diminuíram, os pilotos brasileiros emigraram, e os pilotos de linha aérea foram dar instrução nos aeroclubes, vocês se lembram? É assim que funciona o mercado. Qualquer mercado.

O problema é que as companhias aéreas querem evitar a todo custo que haja uma explosão nos salários de seus pilotos, pois uma vez que os salários aumentarem, é muito complicado reduzi-los. E, pior, se o salário ofertado para atrair novos pilotos for majorado, será necessário aumentar o salário dos que já estão voando na empresa hoje, e aí a folha de pagamentos vai à estratosfera. Daí o grande charme (para as companhias) da contratação de pilotos estrangeiros. Mesmo que estes ganhem mais que os brasileiros, o fato de serem temporários (e estrangeiros) justificaria que as empresas pagassem salários maiores somente para estes profissionais – o que talvez nem seja necessário, uma vez que o aprofundamento da crise econômica mundial poderá criar um excedente de mão-de-obra na Europa e nos EUA. Mas o ponto que precisa ficar bem claro para a opinião pública é que ninguém corre o risco de ter que deixar de viajar de avião por conta de uma eventual falta de pilotos; o que pode acontecer é que venha a ocorrer um aumento significativo nos salários destes profissionais. É a mesma coisa que aconteceu recentemente na construção civil, por exemplo. Houve um apagão de pedreiros e mestres-de-obras? Alguém está vendo prédios em construção abandonados pela cidade? Não! O que aconteceu é que aumentaram os salários pagos aos profissionais da construção, nada além disso.

Agora vejamos quais as conseqüências que a entrada de pilotos estrangeiros acarretará ao país. A aviação possui uma característica peculiar, que é a necessidade de que se realizem investimentos muito elevados em treinamento para uma parcela significativa de seus funcionários – os pilotos, especificamente. Numa indústria, onde o investimento mais significativo é em máquinas e equipamentos, há total segurança de que o bem adquirido continue servindo à empresa por tempo indeterminado. Já numa companhia aérea, não há nenhuma garantia de que um piloto, após treinado, continue pilotando seus aviões – e, de fato, esse profissional poderá ir voar em qualquer outra companhia após estar qualificado. Isto significa que a companhia que realiza o investimento não tem segurança alguma de que poderá usufruir dos recursos investidos, daí o enorme interesse que elas têm na contratação de mão-de-obra estrangeira. Um piloto que venha do exterior já treinado, mesmo que ganhando mais que um brasileiro, pode se tornar uma mão-de-obra mais barata no fim das contas, já que a empresa não precisou alocar capital no seu treinamento (um capital que pode ser perdido a qualquer momento, para piorar).

Ocorre que, na medida em que as companhias passarem a importar pilotos, menos brasileiros serão treinados; e depois de algum tempo, o resultado será que simplesmente não haverá mão-de-obra qualificada nativa no país – ou, no mínimo, ela será muito diminuída. É a opção que a China fez: os aviões daquele país voam basicamente com pilotos estrangeiros (brasileiros, inclusive). É isso o que a gente quer para o nosso país? Se sim, tudo bem: os brasileiros ficam restritos a voar os aviões mais simples, ganhando menos; enquanto os estrangeiros ficam com o filet mignon, na cabine dos Boeing e Airbus, e enviando o salário para fora. Como se vê, não se trata, como estão alardeando por aí, de que os pilotos brasileiros estão “temendo a concorrência estrangeira”. Sem receber treinamento adequado, não há como competir com quem é treinado, esse é que é o problema.

Praticamente todo dia sai uma matéria nova na imprensa falando que o Brasil está vivendo uma era de ouro na aviação. Com isso, mais e mais jovens (e alguns nem tão jovens assim) se matriculam nos cursos de formação de pilotos Brasil a fora. É preciso alertar esse pessoal de que as perspectivas não são tão róseas assim; que o tal do apagão de pilotos não vai acontecer, e que corremos o risco de ocorrer justamente o contrário: a profissão de piloto poderá entrar numa crise que nunca se viu no Brasil, apesar da aviação estar em crescimento. Ou vamos continuar batendo palmas para os doidos dançarem?

Por isso, peço a sua atenção no sentido de levar em conta este ponto de vista quando sua publicação for realizar alguma matéria sobre a situação da aviação brasileira. Eu estou às suas ordens para lhe passar mais explicações e detalhes do mercado aeronáutico, caso necessário. Sou Piloto Comercial e Administrador de Empresas especializado em Estratégia Profissional (sou autor de dois livros sobre o assunto), além de blogueiro sobre formação aeronáutica (paraserpiloto.wordpress.com).

Atenciosamente,

Raul Marinho – raulmarinho@yahoo.com

16 comments

  1. Cristiano Aranda Flaminio
    6 anos ago

    Boa tarde Raul,

    Esse trabalho de informação para a imprensa é formidável, principalmente porque nós que estamos desempregados na aviação, sabemos que o mercado não tem nenhum apagão, nem hoje nem no futuro próximo.
    Volto ao Brasil depois de muitos anos morando na Europa e gostaria de ver a sua opinião em relação ao formato que as empresas têm na Espanha por exemplo, onde trabalhei como co-piloto de helicópteros. Comento isso porque recentemente li uma reportagem na revista Exame de 16 de novembro 2011 (http://dpempresarial.blogspot.com/2011/11/solucoes-para-o-apagao-da-mao-de-obra.html) onde são apresentadas 7 soluções para o apagão de mão de obra. Pois bem, na terceira solução, é apresentado a solução de se pagar pela fidelidade. Bom, o ponto que nos interessa é onde menciona que a empresa, uma vez que investe no profissional (cursos, tipo, IFR, etc) exige com um contrato que o funcionário cumpra 2 anos na empresa com o risco de se sair, restituir o valor investido nele.
    Assim funciona na Europa onde uma vez que o piloto é contratado e a empresa investe em formação, o profissional se compromete ficar sob o risco de pagar a “multa”. Já havia escutado isso aqui, mas muitos me disseram que a legislação não permite fazer esse tipo de contrato. Se é assim, porque empresas de outros setores já estão fazendo?
    Acredito que isso acabaria com o maior problema de contratação na aviação brasileira, onde o empresário, com medo de perder o funcionário depois do investimento e mudar de empresa com o curso já feito, pode assim garantir esse nosso sonhado formato de negócio.

    O que você acha? Há alguma forma de fazer essa ideia expandir pelo setor?
    Um abraço,
    Cristiano

    • Raul Marinho
      6 anos ago

      Pois é, Cristiano, eu comprei essa revista ontem, e pretendo rscrever um post sobre essa reportagem…

      Mas o ponto é que, no Brasil, se o empregador tentar executar um contrato desses, com multa por saída antecipada, perde feio na Justiça do Trabalho. As empresas (companhias aéreas, inclusive) muitas vezes obrigam seus funcionários a assinarem contratos com esse tipo de clausula mais para fazer uma pressão, tentar impor um “compromisso moral”, mas legalmente não tem valor.

  2. Paulo Travaglini
    6 anos ago

    Excelente, Raul.
    Algo muito parecido está ocorrendo nas áreas de Engenharia e de Tecnologia da Informação.
    Manchetes tipo “Faltam 70.000 engenheiros no Brasil”, na verdade deve-se ler “Faltam 70.000 engenheiros dispostos a ganhar R$ 1500 por mes….” . Com remuneração justa as empresas não sentirão falta de mão-de-obra.

    Um grande abraço,

    Paulo Travaglini

    • Raul Marinho
      6 anos ago

      Poxa, Paulo, que agradável surpresa tê-lo aqui!!! Seja bem vindo, meu amigo!!!

      O que vc disse é exatamente o ponto do artigo do Cláudio Moura e Castro. Só que, na aviação, tem um “plus a mais adicional”: a legislação atual proíbe que pilotos estrangeiros atuem no Brasil. E estão usando essa falácia do “apagão de pilotos” para manobrar a opinião pública no sentido de alterar a legislação, permitindo a “importação de pilotos”. A idéia a apavorar o povão dizendo que a aviação vai parar se não for aprovada a mudança na lei, percebe o drama?

  3. Fabio Saucedo
    6 anos ago

    Parabens Raul!

  4. Wilker Zamboni
    6 anos ago

    Raul,
    parabéns pelo texto, você tem muita facilidade com as palavras!
    Seus textos são ótimos!

  5. Arthur
    6 anos ago

    Raul,
    Infelizmente não conheço ninguém neste meio jornalístico para te ajudar.
    No entanto, se me permite, gostaria de fazer uma observação em relação ao seu texto. Mais especificamente ao encerramento do mesmo.
    Me pareceu que você apenas pede à redação (produção), dos meios de comunicação aos quais você encaminhou este texto, que levem em consideração os argumentos por você fornecidos QUANDO forem publicar alguma matéria sobre este assunto.
    Você não acha que seria melhor sugerir que eles FAÇAM uma matéria abordando este assunto do ponto de vista por você abordado!?

    Abraço.

    • Raul Marinho
      6 anos ago

      É uma estratégia minha. Jornalistas são muito assediados, e detestam receber sugestão de pautas. Por isso, é melhor se colocar como uma fonte de “outro lado” do que tentar vender o peixe. E se eles gostarem do argumento, publicam mesmo assim.

      • Arthur
        6 anos ago

        Entendi. Nunca tinha olhado por este prisma.
        Sempre aprendendo!
        Valeu!

  6. Alessandro Almeida
    6 anos ago

    Raul,

    Parabéns pelo texto! Ficou muito bom.

    Por que você não tenta publicá-lo na revista Frequência Livre?

    Um abraço,
    Alessandro.

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