Ainda o “apagão de pilotos”

By: Author Raul MarinhoPosted on
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A revista Exame desta quinzena tem como matéria de capa “Sete soluções para o apagão da mão de obra – Os exemplos de empresas que estão enfrentando um dos maiores obstáculos ao crescimento: a escassez de profissionais qualificados”. Neste post, vou fazer algumas considerações sobre o que está na revista que interessam para o problema do “apagão de pilotos”, que temos focado neste blog ultimamente (vide este post aqui, onde começamos a tratar deste problema, e este aqui, sobre o mesmo tema) – e também vamos falar um pouco (bastante, na verdade) sobre o que NÂO está na revista.

Em primeiro lugar, é preciso ressaltar que a matéria da Exame não é específica sobre o setor aéreo, ou sobre qualquer outro setor em particular – pelo contrário, a revista se baseou numa pesquisa com 335 empresas nacionais para o seu texto (não está claro se existem exemplos de companhias aéreas nesta amostra, mas é provável que sim). Alguns dados interessantes sobre esta pesquisa:

  • 35% das empresas estão enfrentando dificuldades para contratar em todos os níveis e ocupações, e 26% afirmam que as dificuldades se restringem somente aos cargos operacionais (caso dos pilotos). Ou seja: 61% das empresas do Brasil estão na mesma situação das companhias aéreas!
  • Para 48% das empresas entrevistadas, o principal problema na contratação se refere à dificuldade de encontrar profissionais com a experiência desejada, contra 24% que dizem que o problema está na formação dos candidatos, e 14% que alegam que os candidatos têm uma pretensão salarial exagerada. Como se vê, novamente neste aspecto, o segmento aéreo acompanha o restante do mercado.
  • Agora, vejam isso: somente 16% das empresas contratam profissionais no mercado já formados! O que parece ser a regra de boa parte dos empregadores de pilotos é a exceção no restante da economia. Comentaremos este assunto no final do post.

Passando à matéria propriamente dita, vejamos alguns trechos interessantes que possuem ligação com o problema por que passa o setor aéreo:

  • No caso da MRV (construção civil), a reportagem afirma que “A lei da oferta e demanda funciona à perfeição. Nos últimos três anos, os salários de pedreiros aumentaram 30%.” É isso que está ocorrendo no setor aéreo? “Se não, todo o resto é ruído”, já disse o Cláudio Moura e Castro na reportagem citada aqui.
  • No caso do grupo de publicidade ABC, há o relato de que a empresa foca os seus 250 funcionários “imperdíveis”. Como? “Todos os meses, os principais executivos do grupo ABC se reúnem com os imperdíveis para discutir carreira e encontrar soluções para os eventuais problemas”.  Enquanto isso, empresas líderes do setor aéreo se comportam como 84% das companhias nacionais, que não possuem programas de retenção (pesquisa Hay Group entre 2008 e 2011), e simplesmente não dão a mínima para os funcionários que pedem demissão.
  • A empresa de TI Tivit, de Curitiba, praticamente adotou um colégio, investindo nos seus possíveis futuros funcionários. Algum aluno de aeroclube já viu um rpresentante de alguma companhia aérea circulando nos corredores das salas de aula ou no pátio das aeronaves? Por que as companhias aéreas do Brasil ignoram solenemente os estudantes de aviação (com a honrosa exceção da Azul, que recentemente firmou um convênio com o curso de Aviação Civil da PUC-RS?

Sem dúvida, nenhuma das “soluções” apresentadas na revista é 100% aplicável às companhias aéreas – não estou sugerindo que as companhias aéreas adotem alguma das idéias propostas na matéria da Exame, que fique claro –, mas o que chama a atenção é o que não está escrito. Embora o tal do “apagão de pilotos” seja um grande problema para as companhias aéreas (segundo elas mesmas, aliás), não há nenhum exemplo de empresa do setor aéreo dizendo o que está fazendo para lidar com a situação. Não há ninguém da TAM falando que se reúne com seus comandantes mensalmente para detectar eventuais motivos de insatisfação. Não há um diretor da Gol dizendo que está oferecendo bolsas de estudo para estudantes de aviação. Não há um representante da Avianca dizendo que está lutando contra os descalabros da ANAC, que sugam seis meses do tempo de formação dos alunos de aviação só para aprovar os cheques de PP e PC. Na verdade, a única empresa que poderia estar na reportagem é a já citada Azul Linhas Aéreas, com seu projeto em conjunto com a PUC-RS, mas é só a exceção que confirma a regra. Por que essa falta de exemplos das companhias aéreas, se o setor é um dos mais sensíveis à escassez de mão-de-obra especializada?

Diz-se por aí (e não se trata de ilação minha) que as companhias estão apostando na abertura do mercado aos tripulantes estrangeiros para resolver o problema do “apagão de pilotos”. Se isto for verdade mesmo, trata-se de um dos maiores erros estratégicos da história da Administração de Recursos Humanos no mundo, um equívoco que vai figurar nos livros acadêmicos para as gerações futuras estudarem como não se deve pensar estrategicamente. Vamos ver por quê.

Suponhamos que a alteração no CBA que permite a contratação de estrangeiros seja aprovada, de fato. A conseqüência óbvia é que as empresas diminuirão o investimento (pesado e arriscado, como explicado nos posts acima linkados) em treinamento de pilotos nativos, optando pela contratação de tripulantes estrangeiros já formados, especialmente na atual conjuntura de crise econômica no mundo desenvolvido. Vale a pena para as companhias aéreas brasileiras? Ô se vale! Com a crise, é de se esperar que haja pilotos desempregados em grande número na Europa e nos EUA. Mas o que vai acontecer no médio e longo prazo? Haverá uma redução ainda maior na oferta de mão-de-obra brasileira qualificada, e assim que a crise arrefecer (e ela vai passar um dia, isso é evidente), os estrangeiros voltam para suas bases, deixando as companhias nacionais em situação pior que a atual. Ganham-se uns trocados hoje, e vai-se à falência lá na frente.

Está faltando criatividade nos departamentos de RH das companhias aéreas! Se uma empreiteira pode construir soluções inovadoras para lidar com a falta de pedreiros, por que uma companhia aérea não pode pensar em maneiras eficientes para atrair e reter comandantes? Se uma empresa de TI investe em estudantes de ensino médio pensando na sua demanda por engenheiros de software daqui a cinco anos, por que uma companhia aérea não pode “adotar” um aeroclube, de modo a aumentar o número de pilotos formados, por exemplo? Por que, salvo a citada exceção da Azul, nenhuma companhia aérea investe em formação aeronáutica?

Está sobrando miopia nos departamentos de RH das companhias aéreas! Parece que o que se passa além da soleira da porta da empresa não lhe diz respeito. A ANAC está infernizando a vida dos alunos de aviação? “Não é problema meu, enquanto ela estiver aprovando o cheque dos meus PLAs no prazo, tudo bem”. Um piloto recém-formado tem dificuldades terríveis para conseguir uma colocação no mercado para adquirir experiência? “O novato que se vire, eu só quero contratar pilotos experientes para o meu quadro”. Não há opções de financiamento para a instrução aérea? “Problema de quem quer ser piloto, minha preocupação é como fazer o leasing do meu avião”.

E, principalmente, as companhias aéreas não estão compreendendo o jogo que elas estão jogando no departamento de RH, e por isso não conseguem estruturar estratégias eficientes. Quando falo em “jogo” aqui, estou me referindo aos modelos da teoria dos jogos, que explicam a cooperação e a deserção de agentes econômicos racionais. Por exemplo: se o risco do investimento em treinamento é elevado para todo mundo (pois o piloto treinado pode simplesmente ir para o concorrente), por que não estruturar o treinamento das operadoras do mesmo tipo de aeronave de maneira conjunta?

Para encerrar, quero tratar da questão da contratação de funcionários já formados, que citei quando falava sobre a pesquisa realizada pela revista Exame. Vou citar um exemplo real que ocorreu na aviação executiva recentemente, para exemplificar como os profissionais de RH estão despreparados para lidar com a mão-de-obra aeronáutica, e acabam chegando a conclusões erradas.

Um empresário adquiriu um Phenom-100 (jato de pequeno porte da Embraer), e pediu a uma empresa de consultoria em RH que recrutasse um piloto para comandá-lo, com um salário dentro da média de mercado para comandantes de aeronaves similares, de R$Xmil/mês. Muito bem, esta consultoria então anunciou a vaga no mercado, e apareceram vários currículos, basicamente divididos em dois grupos: A)Pilotos já habilitados no Phenom-100 (sem necessidade de treinameno), dispostos a sair do emprego atual por um salário de R$X+Ymil/mês; e B)Pilotos não habilitados no Phenom-100 (com necessidade de treinamento), dispostos a trabalhar pelo salário ofertado de R$Xmil/mês. Obviamente, não apareceu nenhum comandante habilitado de Phenom-100 disposto a sair do emprego atual pelo salário ofertado de R$Xmil/mês, o que levou à consultoria concluir que há um “apagão de comandantes de Phenom-100 no mercado”! Parece um equivoco de uma empresa de segunda linha, mas não é: as empresas de RH, inclusive as mais conceituadas no mercado, não entendem o mercado aeronáutico nem nos seus fundamentos mais simples, como no caso acima. E, por isso, alardeiam por aí falsas conclusões, para justificar sua ineficiência para seus clientes – ajudando a criar o mito do “apagão de pilotos”.

4 comments

  1. Fred Mesquita
    6 anos ago

    Na aviação mundial é bem sabido que, o que segura piloto na empresa é “Salário”. Como é que as atuais empresas comerciais brasileiras querem manter seus comandantes no seu quadro de funcionários oferecendo salários bem abaixo da média? Como é que as companhias querem competir com a aviação executiva sem querer fazer investimentos? Por exemplo: empresas da executiva que adquirem um Phenom 100 ou outro avião parecido, geralmente enviam seus “novos” piloto e co-piloto aos EUA estudar na Flight Safety a fim de adquirirem mais experiências na aeronave. Esses novos tripulantes ao retornar ao Brasil já começam a trabalhar com salários iniciais que variam entre 20 e 40 mil, valor salarial muito acima do que pagam hoje e GOL ou a TAM a seus comandantes, e como essas querem competir? A lei da oferta e da procura é assim mesmo, quem paga mais, pega os melhores profissionais, e ponto final. Não adiante sair por aí reclamando e tentando criar desculpas esfarrapadas dizendo ser um “apagão de pilotos” quando na verdade todos sabemos que é por falta de um bom salário que hoje essas companhias estão tendo, cada vez mais, dificuldades em contratar. O que mais vejo hoje em dia são comandantes e co-pilotos da comercial abandonando seus empregos na comercial para irem voar na aviação executiva em busca de um salário que já de início equivale a 2 ou 3 vezes mais do que ganhavam antes. Não existe fórmula básica para esse entendimento, é simples e objetivo: quem valoriza o funcionário (pagando bem, dando treinamento e valorizando o piloto) sai na frente dessa competição. Eu falei SALÁRIO que o a válvula de tudo isso, SALÁRIO. Pra mim essa abertura para pilotos estrangeiros vai abalar um pouco a aviação executiva e nada afetar a comercial, já que essas empresas não estão nem aí para com seus pilotos. Quem vem de fora quer bom salário e quem paga bem é a aviação executiva, e somente ela.

    • Raul Marinho
      6 anos ago

      Pois é, Fred, é justamente essa desculpa esfarrapada do “apagão de pilotos” que eu estou tentando desmistificar. Quanto subiu o salário de comandante de B737/A320 nos últimos 12 meses? Se subiu 30%, como no caso dos pedreiros, aí sim podemos dizer que está havendo escassez de mão-de-obra, mas não parece ser este o caso dos comandantes, não é verdade?

      Mas, por outro lado, um bom salário, sozinho, também não leva a lugar algum. Hoje em dia, tem muita gente saindo da TAM para a Avianca para ganhar menos, só para escapar da escala tirânica da vermelha. E vc deve saber da alta rotatividade que existe na cabine do BBJ do Safra, um dos empregos mais bem remunerados da aviação – só que ninguém aguenta o esquema imposto pelo banco, e acaba saindo por uma melhor qualidade de vida. O ponto é o seguinte: de fato, “dinheiro não traz felicidade”, mas a falta de dinheiro traz infelicidade.

      • fernando
        5 anos ago

        não se iludam!!!!
        não falta piloto no mercado Não!!!!!!!
        tem piloto de sobra…os únicos interessados nessa oferta abundante de pilotos são as escolas que os formam e as cias. aéreas que com muita oferta poderão abaixar cada vez mais os salários! converse com qq piloto de linha aérea e pergunte se falta piloto!
        não acredite na nossa mídia!!!!!!!

  2. Luiz
    6 anos ago

    Mais uma vez, excelente artigo Raul. Parabéns pela sua lucidez. Luiz

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