O especialista e o “apagão de pilotos”

By: Author Raul MarinhoPosted on
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Clique aqui  e assista ao vídeo com a entrevista na GloboNews com o sr. Gustavo da Cunha Mello (vide currículo), sobre a alteração na legislação que, se aprovada, permitirá o aumento da jornada de trabalho de pilotos. Concordo com a maior parte de seus argumentos, que são extremamente lúcidos e bem embasados, mas quando ele fala sobre o “apagão de pilotos” e a entrada de mão-de-obra estrangeira, discordo frontalmente. Depois de assistir à entrevista, retorne aqui para ler minhas considerações ao especialista sobre estes temas, que considero ter sido mal explorados (mas, quanto ao assunto da jornada de trabalho, o entrevistado foi brilhante, que fique bem claro isso).

Sr. Gustavo, como economista, o sr. deve saber que, se há escassez de um determinado bem ou serviço, o preço deste deverá subir no mercado. Assim, se há escassez de pilotos como o sr. afirma, os salários dos pilotos devem estar explodindo, não é verdade? Se é assim, sugiro que o sr. pesquise junto às companhias aéreas sobre quanto aumentou o salário médio dos pilotos nos últimos 12 meses. O sr. vai se espantar ao descobrir que, apesar do iminente “apagão de pilotos” tão divulgado pelas próprias companhias, o salário dos aviadores tem se mantido praticamente estável neste período. Como o sr. explica isso?

Na aviação, existe uma particularidade muito mal entendida fora do meio, que é o problema do custo do treinamento avançado de pilotos (após eles se formarem Pilotos Comerciais) e seus riscos associados. Entender bem este aspecto da aviação é importante para compreender por que não estamos, de fato, à beira de um “apagão de pilotos” – e, pior, acreditar que a abertura do mercado à mão-de-obra estrangeira seja sua solução mais natural. Se o sr. parar um minutinho para ler este artigo aqui, o sr. vai entender por que ambas afirmações são falaciosas. Mas eu faço um resumo para o sr. não perder tempo.

Antes de entrar na questão do treinamento, vejamos como resolver o problema mais imediato. Na verdade, os pilotos habilitados a comandar os jatos da aviação comercial existem em número suficiente, sr. Gustavo. Se as companhias aumentarem o valor dos salários ofertados aos tripulantes das companhias nacionais, hordas de pilotos brasileiros retornarão do exterior, para onde fugiram após o caos que se seguiu às falências da trinca Vasp, Varig e Transbrasil. Inúmeros profissionais qualificados que abandonaram a profissão pelo mesmo motivo, ou se aposentaram precocemente, certamente voltariam às cabines de comando num cenário de salários mais elevados. E os PLAs pilotando aviões executivos, onde eles são desnecessários (estas aeronaves poderiam ser operadas por Pilotos Comerciais), poderiam ser realocados para preencher eventuais lacunas na aviação comercial. Isso seria suficiente para resolver o problema emergencial.

Mas para resolver a futura escassez de pilotos, e acabar de vez com essa história de risco de “apagão de pilotos”, a solução é o treinamento de pilotos formados, mas não-qualificados para as companhias aéreas – que, por sua vez, também abundam no mercado. O problema é que as companhias querem contratar somente os profissionais experientes, já treinados, para não incorrer nos elevados custos de treinamento – treinamento este que pode virar pó se este piloto resolver ir voar em uma empresa concorrente ganhando mais após ter sido treinado. Este é o verdadeiro nó da aviação, no que se refere à escassez de mão-de-obra. Mas investir maciçamente em treinamento avançado é tudo o que as companhias não querem, e por isso estão difundindo a idéia de que a aviação brasileira vai parar se não for aprovada a alteração na lei que permitirá a entrada de aviadores estrangeiros. Tese, aliás, que o sr. alegremente embarcou, pelo que vi na entrevista.

Acontece, meu caro economista, que isto não é um problema de “cabo de guerra entre pilotos e governo”, e que “isso facilitaria o mercado a entrar num ponto de equilíbrio”. Isto é o que se enxerga superficialmente, mas se o sr. se aprofundar no entendimento do problema, vai perceber rapidamente que a abertura do mercado vai estrangular a aviação brasileira no futuro. Uma vez que as empresas tenham a possibilidade de evitar os investimentos em treinamento de pilotos, contratando tripulantes estrangeiros já qualificados (o que é relativamente fácil num cenário de crise internacional), elas irão adotar esta alternativa, mesmo sendo necessário pagar salários mais elevados para estes estrangeiros, já que isto evita tanto o investimento, quanto o risco a ele associado. Ocorre que, diminuindo o volume de investimentos em treinamento de mão-de-obra nativa hoje, menos brasileiros estarão aptos a freqüentar as cabines dos jatos de companhias aéreas no futuro, o que irá perpetuar nossa dependência dos estrangeiros. Aí, em um dado momento, a crise econômica mundial arrefece (e ela vai passar, um dia, isso é certo), os estrangeiros retornam às suas bases, e simplesmente não haverá brasileiros aptos a pilotar nossas aeronaves. Aí, sim, teremos o verdadeiro “apagão de pilotos”.

Eu também li o seu artigo de um ano atrás sobre este assunto. E naquele texto, o sr. igualmente não percebe o cerne da questão. O problema, meu caro sr. Gustavo, não está nos R$58mil que o sr. arbitra como custo de formação de um piloto (que é mais, mas tudo bem, não é este o problema). Piloto que já investiu em sua própria formação existe aos montes, e muitos deles estão desempregados. Sim, meu caro, pode acreditar: apesar do tal “apagão de pilotos”, tem muita gente desempregada na aviação! O problema está na falta de investimento no treinamento avançado, que é várias vezes superior aos R$58mil, e que, portanto nenhum piloto teria condições de pagar do próprio bolso. E também está no fato de que um piloto recém-formado tem poucas oportunidades de iniciar uma carreira na aviação, pois ninguém quer contratar piloto sem experiência, e sem emprego ele jamais conseguirá obter a experiência necessária.

Já que o sr. se interessa tanto por riscos, o sr. sabia que a maneira mais usual para um piloto obter suas desejadas horas de voo é dando instrução? Isso significa o seguinte: um piloto se forma com 150h de voo, e mais 20h ele se torna instrutor. Aí, esse sujeito, com 170h de voo, coloca um aluno com 0h de voo em um avião, e é assim que começa a instrução de um piloto. Isso é a rotina nos aeroclubes de todo o Brasil, pode ir a qualquer um deles para comprovar. E isso ocorre porque esse piloto recém formado não tem outra opção para acumular horas de voo que não a instrução. Aí, esse instrutor, depois de mil horas de experiência em Paulistinha, vai ser contratado por uma companhia aérea para voar Boeing/Airbus/ATR/etc. – justamente quando ele estaria verdadeiramente apto a dar uma instrução de qualidade e segura. E, ainda por cima, a companhia que o contratou vai reclamar que ele precisa receber muito investimento para se tornar um piloto de verdade porque ele só sabe voar Paulistinha!

É isso o que está acontecendo na aviação real, meu caro sr. Gustavo. Só que estas informações não chegam à imprensa, infelizmente… Espero que o sr. possa nos ajudar a divulgar a verdade sobre o “apagão de pilotos”, e esclarecer a opinião pública quanto ao correto entendimento deste problema, assim como o sr. fez em relação à alteração na jornada de trabalho dos aeronautas, que foi espetacular.

8 comments

  1. DIEGO SAYRON SANTOS PEREIRA
    7 meses ago

    Meus amigos, depois de ouvir o relato desse ‘especialista’ da aviação, dizendo que um piloto não consegue ouvir a fonia de outra aeronave, eu jamais ouviria esse cidadão sequer rezando o pai-nosso.

    Que especialista!

    • Raul Marinho
      7 meses ago

      Especialista que, a propósito, continua fazendo suas análises no mesmo canal ainda hoje (foi o 1o. a falar sobre o caso da Chapecoense).

  2. Gustavo Cunha Mello
    6 anos ago

    Meu caro Raul, concordo em gênero, número e grau! Tem piloto desempregado, falta pagar melhores salários, falta as operadoras pagarem treinamentos avançados e contínuos. Estamos juntos e penso tudo igual. Ocorre que tempo de TV é curto, a adrenalina é grande e nada é combinado antes. Muitas vezes passamos 80% da idéia que queremos. Mas acho que desta vez vc ficará feliz comigo. Pois sem ter lido seu artigo (cai aqui pelo google e já coloquei em favoritos!) dei outra entrevista nesta semana, falando muito disso que vc reclama. Veja em http://migre.me/79soT Lembre-se que sou gerente de riscos, sobretudo para seguros aeronauticos, minha visão é evitar o acidente aéreo. E isso passa pela fadiga de pilotos, melhores salários (de forma indireta) e treinamento. Apesar de apoiar suas idéias, não posso perder o meu foco e mudar muito do assunto. Um forte abraço, Gustavo Cunha Mello

    • Raul Marinho
      6 anos ago

      Poxa, Gustavo, que grata surpresa tê-lo aqui!

      Seja bem vindo!

  3. Fred Mesquita
    6 anos ago

    Vejo certas greves que param tudo. A greve dos policiais, quando acontece em quase todos os estados o Brasil vira o caos, paralização total. A greve dos pedreiros é outra forte, se param, nenhuma construtora resolver se opor a nada contra eles. Com os médicos é mesma coisa. Já com os pilotos nada funciona. Mexem na legislação, aumentam a carga de trabalho, mudam de DAC para ANAC, alteram leis à vontade, criam normas absurdas e ninguém faz ou fala nada. São uns verdadeiros cagões. Depois de o leite derramado é que ficam por entre as vielas falando baixinho e choramingando o que não pode mais resolver. Pagam as contribuições sindicais em dia mas sequer sabem o que está em pauta no sindicato. Não brigam por seus direitos. Ainda há aqueles que nos dão dicas de ter que falar pouco para não se queimar no meio. São uns verdadeiros cagões categóricos.

  4. Luiz
    6 anos ago

    Veja o que está no site do SNA:
    “Dirigentes do Sindicato Nacional dos Aeronautas (SNA) participaram, nesta terça-feira (6/12), da reunião da Comissão de Assuntos Sociais (CAS) do Senado, que discutiu o Projeto de Lei 434/11, que quer aumentar a jornada de trabalho do aeronauta, de autoria do senador Blairo Maggi (PR-MT)” …. “Na audiência, foi anunciada a criação de uma subcomissão temporária, que será vinculada à Comissão de Serviços de Infraestrutura e terá seis meses para estudar a situação da aviação brasileira e realizar audiências públicas para discutir o tema. Esta comissão será composta por especialistas em aviação, representantes dos trabalhadores, de empresários do setor e do Ministério do Trabalho, e terá também a participação de técnicos de segurança do trabalho e médicos especialistas em aviação, entre outros”.

  5. Luiz
    6 anos ago

    Brilhante artigo, mais uma vez, Raul. Prova dos seus argumentos é a China, que oferece ótimos salários aos pilotos estrangeiros e, mesmo assim, todos o dias existem aviões que ficam no chão por falta de tripulantes. A população chinesa não tem poder aquisitivo para formar pilotos e lá já ocorre o que você prevê para o Brasil, caso esse projeto de lei, sem cabimento e formulado sem o suporte de pessoas realmente lúcidas e “do ramo”, seja aprovado.

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