O verdadeiro nó da formação aeronáutica

By: Author Raul MarinhoPosted on
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A formação completa de um piloto – PP+PC-MLTE/IFR, Jet Training, ICAO (certificação em inglês), etc. – sai por mais de R$70mil. É caro, e não há opções de financiamento, nem bolsas de estudo. Mesmo assim, é uma formação possível para muita gente, tanto é que os aeroclubes estão lotados. Na verdade, o elevado custo da formação básica do piloto é mais uma questão de injustiça social do que um problema aeronáutico, pois a aviação consegue se sustentar com o volume de estudantes de aviação que hoje existem. O grande problema de formação para a atividade aeronáutica é que, depois de formado, um piloto requer investimentos ainda maiores para se tornar um profissional apto a operar os equipamentos mais sofisticados da aviação – jatinhos executivos, aviões de linha aérea, etc. E esta formação custa várias vezes o valor da formação básica, e nem os pilotos mais abastados poderiam pagá-la – na prática, quem paga a formação pós-PC é sempre o empregador. Mas estes não estão dispostos a gastar mais que o mínimo necessário para manter seus aviões voando, e o que ocorre é que há um enorme déficit de treinamento para a formação avançada de pilotos.

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Então, o que se vê na prática é que, entre o aeroclube e a cabine do jato, existe um vácuo difícil de transpor. Há muito pouca oferta de instrução avançada para os pilotos com experiência reduzida, e é difícil adquirir experiência (isto é, conseguir um emprego) se não se tem esse treinamento. O que dá para fazer é agregar “horas de voo”, para tentar compensar a falta de treinamento com um nível maior de experiência. Para somar horas na CIV, muita gente recorre ao expediente da instrução: o PC recém-formado faz o curso de INVA, e com sua experiência de menos de 200h de voo, vai ensinar quem tem 0h a voar (o que é um absurdo). E outros vão “peregrinar pelos hangares”: mendigar aos comandantes de aeronaves “single pilot” (que só requerem um piloto, de acordo com a regulamentação) que os levem de copiloto – obviamente, sem remuneração. Basicamente, é assim que a maioria das pessoas consegue experiência de voo atualmente. Aí, depois de anos nessa luta, começam a aparecer oportunidades para o sujeito ser contratado para voar dignamente, e é aí que começa a carreira de um piloto de fato.

Num cenário de “apagão de pilotos”, é preciso aumentar a eficiência da formação aeronáutica avançada em duas frentes. Primeiro, facilitando a aquisição de experiência de voo para os recém-formados. E, em segundo lugar, incentivando o treinamento avançado para pilotos. Eu acho que deveriam ser criados mecanismos institucionais para viabilizar estes objetivos – e, para isso, eu tenho algumas idéias sobre o tema:

Residência aeronáutica

Poderia haver na aviação algo parecido com o que existe na medicina, que é a residência. As companhias aéreas, empresas de táxi aéreo, e demais operadores de aeronaves poderiam abrir concursos para contratar pilotos-residentes, que passariam um período em treinamento “on the job”, voando em missões específicas, fazendo estágios em diversas áreas (despacho, manutenção, etc.), e sendo avaliados continuamente. O salário de um piloto-residente poderia ser sem encargos (como é o dos estagiários), e também seria interessante haver alguma regra quanto à necessidade de contratação desse tipo de profissional (ex. 10% do total de pilotos da empresa). Poderia haver residência até na aviação executiva, com regras diferentes, inclusive.

Incentivos legais ao investimento em treinamento aeronáutico

Hoje, não existe garantia alguma do empregador sobre a real possibilidade de desfrutar do investimento realizado em treinamento de um piloto. Nossa legislação trabalhista não permite que se façam contratos de fidelidade do piloto por um determinado período após o treinamento. O resultado disso, ao invés de ajudar o trabalhador, o prejudica, pois desestimula o investimento em treinamento por parte das empresas. Poderia haver um acordo entre o Ministério Público do Trabalho, e os sindicatos patronais e de empregados de modo a permitir que, sob determinadas condições, pudesse haver cláusulas de fidelidade nos contratos. É o que a FAB faz, em relação aos seus oficiais aviadores: se eles quiserem pedir demissão logo após formados, têm que indenizar a Aeronáutica. Outra possibilidade é a desoneração tributária dos gastos em treinamento por parte das empresas, similar aos incentivos que muitas outras atividades já desfrutam (por exemplo, em pesquisa e desenvolvimento).

Essa idéias são incipientes, e talvez nem sejam aplicáveis. Elas são só algumas sugestões iniciais, mas o fato é que alguma coisa tem que ser feita sobre o assunto. Não dá para deixar a coisa como está; a situação ficou séria demais. Precisamos desatar esse nó da aviação brasileira urgente!

5 comments

  1. gabriel
    6 anos ago

    só uma coisa eu discordo, sobre não existir bolsas de estudo, essa informação está errada. A ANAC oferece concurso para bolsas da parte prática tanto para PP quanto para PC.

    • Raul Marinho
      6 anos ago

      Negativo. No passado, a ANAC até ofereceu bolsas, realmente – num programa muito mal estruturado, aliás, vide isso aqui -, mas o programa não se repetiu em 2011, e não há nenhuma informação de que ele possa voltar algum dia.

  2. diego
    6 anos ago

    Realmente algo deve ser feito, o que vemos muitas vezes é que não há interesse na discussão desse assunto por parte dos órgãos governamentais e muito menos das empresas aéreas. O que é feito aqui no Brasil (e isso não acontece apenas na aviação) é tentar resolver o problema da forma mais rápida e fácil possível o que nem sempre é o melhor caminho pois no longo prazo a situação pode piorar. Maldita cultura que não nos ensina a ter nenhum tipo de planejamento e também a fazer a coisa certa da maneira como deve ser feita! Para tudo se da o maldito “jeitinho” e no final das contas o resultado se torna catastrófico. Como vi na entrevista com o dono da Azul, a resolução da maioria dos problemas é fácil mas esbarramos muitas vezes no jogo de influência, falta de planejamento,FALTA DE PESSOAS PREPARADAS NO NOSSO GOVERNO! e outras cositas mais. Infelizmente é um cenário trágico e sinceramente não creio que do jeito que as coisas andam teremos melhoras. Por isso um conselho a todos! (esse é o meu pensamento) Formem-se, tentem adquirir o máximo de experiência possível, estudem bem o inglês e Vamos para a Emirates!

    • Delta Wing
      6 anos ago

      Como já dizia um outro Raul: “Vamo embora dar lugar, pros gringo entrar”

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