A genial bolsa da ANAC – versão para leigos

By: Author Raul MarinhoPosted on
358Views2

Pô, ANAC, colar post it na nossa testa também não, né!?

.

Esses dias, eu estava explicando para um amigo jornalista por que o programa de bolsas para pilotos da ANAC é de uma imbecilidade atroz. Fazendo um paralelo com uma profissão não relacionada à aviação, fica ainda mais evidente como aquela estrovenga foi mal concebida. Acho que vale a pena repetir a explicação aqui, para os leigos entenderem o absurdo que é o programa de bolsas da ANAC.

.

Imagine uma bolsa para custear a formação em Jornalismo, que é um curso que dura quatro anos – e vamos supor que só existam faculdades de Jornalismo privadas, para haver um bom paralelo com a aviação. Também vamos supor que, para exercer a profissão de jornalista, é obrigatório ter diploma de mestrado, para ficar equivalente à formação de pilotos, que requer um curso básico (o de PP-Piloto Privado), e um avançado (o de PC-Piloto Comercial).

Em primeiro lugar, para você se candidatar à bolsa, você já tem que estar com o primeiro ano da faculdade completo, isso é um pré-requisito fundamental: a bolsa só vai pagar o 2º, 3º e 4º ano de estudos de cada curso. “Ah, mas se eu tive dinheiro para pagar as mensalidades do meu primeiro ano, é porque eu tenho condições de bancar o meu curso, então eu não preciso mesmo da bolsa – na verdade, ela só vai ser uma maneira de eu economizar algum dinheiro, não uma maneira de viabilizar um curso que eu não teria condições de bancar de outra forma”. Pois é, seu raciocínio está certo, mas é assim que são as regras, e não há o que discutir. Prossigamos.

Para você participar do processo seletivo às bolsas, você terá que trancar a matrícula após encerrar o seu primeiro ano, pois se você prosseguir estudando, a bolsa não vai cobrir o período em que você estiver pagando as mensalidades do seu próprio bolso. “Então quer dizer que eu vou atrasar minha formatura em pelo menos um ano?” Sim, mas em compensação você poderá cursar três anos de graça! Olha só que beleza! “Ok, mas e se eu não for aprovado, como é que fica?”. Aí, sinto muito,  você jogou um ano da sua vida fora… “E esse um ano a mais que eu vou levar para entrar no mercado de trabalho… Isso tem um custo, que é o deixar de exercer um trabalho remunerado por esse período.” Ah, larga mão de ser chato, você quer a bolsa ou não? Vamos prosseguir com a explicação.

O programa de bolsas é baseado em convênios com as universidades, mas infelizmente não encontramos nenhuma instituição disposta a participar em S.Paulo, Rio, BH… Logo, se você for de uma dessas cidades, vai ter que se deslocar para onde tem vagas: no interior do Rio Grande do Sul, no Paraná, em Juiz de Fora, etc. “Espera aí, mas eu moro em São Paulo, minha família é daqui, eu cursei meu 1º ano aqui, eu pretendo trabalhar aqui depois de formado… Você está me dizendo que eu vou ter que me mudar, e arcar com todos os custos de morar fora pelo tempo que durar minha faculdade?” Ah, mas a gente só está aceitando faculdades com alojamento no programa! Viu como a gente pensa no seu bem estar? “Ah, tá, mas hospedagem não é nem metade dos meus custos. E, fora isso, eu vou ter que largar o meu emprego no banco para ir morar em outra cidade. Xiiii… Está ficando mais caro o molho que o peixe, pelo visto. Mas, pelo menos, vocês vão me pagar a graduação e o mestrado, né? Ainda bem…” Errrr… Quer dizer, a gente até paga os dois cursos, mas são dois programas separados, você termina um, e depois começa outro. “Com todas as exigências de novo, inclusive a de ter cursado o primeiro ano por minha conta?” Sim, é. “E depois de quanto tempo após a minha formatura na graduação eu vou poder entrar no programa de bolsa de mestrado?” Bem, na verdade, não há certeza de que o programa vai continuar existindo. Pode ser que sim, pode ser que não, vamos ver. “Programão, né? Tô fora.”

Você não entrou no programa, mas teve gente que entrou. Um amigo seu conseguiu uma bolsa de mestrado, e estava indo tudo bem, até que chegou a hora das mensalidades mais caras do curso. Nesse momento, a bolsa foi cancelada, porque acharam que a faculdade não estava preparada para ministrar essas aulas mais avançadas (um problema da administração da bolsa, não do bolsista, evidentemente). Aí, seu amigo precisou ser transferido para uma outra faculdade, só que esse processo está emperrado há seis meses, e não há perspectiva de solução. Ou seja: conseguiram piorar o que já era péssimo!

Mesmo assim, para algumas pessoas a bolsa pode ser boa. Se você der sorte de: 1)ter acabado de terminar o 1º ano, quando o programa de bolsas aparecer; 2)não ter muita pressa em se formar; 3)morar numa cidade em que haja uma faculdade conveniada ao programa; e 4)que essa faculdade não seja descredenciada no meio do caminho; pode até ser que a bolsa seja um bom negócio. Mas, para a esmagadora maioria da população, é uma barca furada!

Tá achando que é brincadeira? Leia isso.

2 comments

  1. tadeuprimo
    6 anos ago

    Cheguei a me candidatar, mas já estava com a grana do PC juntada no banco.
    O Aeroclube de Jundiaí não é credenciado e mudar para Juiz de Fora ia me trazer um custo de quase 600,00 mensais.
    Acabei não optando por voar lá.
    Acho que fiz um bom negócio.

Deixe uma resposta