Debate sobre os pilotos estrangeiros na Câmara

By: Author Raul MarinhoPosted on
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O amigo e leitor Adriano Zanatta me enviou este link sobre uma notícia veiculada no site da Câmara dos Deputados, relativa aos debates que lá estão ocorrendo, acerca da alteração do CBA que permitiria a contratação de pilotos estrangeiros. A nota é positiva para quem defende a manutenção da restrição aos estrangeiros, muito embora a argumentação esteja sendo muito mal conduzida. Dêem uma lida na nota, e depois voltem aqui para ler meus comentários.

1)      O argumento de que a lei não deve ser aprovada porque dificulta a coordenação na cabine é fraco, e facilmente contestável. Fosse este o problema, era só a lei exigir que todos os tripulantes fossem da mesma nacionalidade, ou definir que somente brasileiros com a certificação ICAO poderiam dividir o cockpit com estrangeiros. Seria muito mais produtivo ir direto ao ponto: liberar o mercado para estrangeiros só faz sentido se quisermos abrir mão da formação aeronáutica nacional, é esse o ponto! Basta ver os exemplos dos países que permitem pilotos estrangeiros, e os que não permitem: não há país com estrutura de formação aeronáutica própria que aceite estrangeiros no cockpit.

2)      Deputado Otávio Leite, quer dizer então que 500h de voo a R$700/h custam R$35mil?? Fosse isso verdade (que não é: ninguém paga 500h de voo, e nem R$700/h em média mo treinamento de PCA), o valor seria de R$350.000, né? Se estiver faltando assessor com um mínimo de preparo no seu gabinete, contrate um aspirante a piloto bom de conta, assim o sr. ajuda pelo menos uma pessoa a custear suas horas de voo… E vamos mudar um pouco o disco da formação básica, que este é o problema mais fácil de resolver (basta estender o FIES para financiar horas de voo, subsidiar a instrução, e/ou montar um programa de bolsas bem feito, não tem muito mistério)… O complicado mesmo é como resolver o problema da instrução avançada, depois que o cara recebe a carteira de PC. É aí que está o grande gargalo da formação aeronáutica, deputado!

3)      E lá vem a ANAC querendo tirar vantagem em cima do programa de bolsas que ela NÂO TEM! Como se não bastasse o absurdo que foi o programa concedido no passado, um programa acessível a pouquíssimos, e que obrigava os participantes a estender sua formação em mais que o dobro do tempo normal, nem isso existe mais… Se a agência fizesse o que deveria fazer – p.ex.: liberar licenças dentro de um prazo razoável – ela faria muito mais pela aviação do que ficar com esse engodo das bolsas.

10 comments

  1. Pilotasso
    5 anos ago

    Toda esta discussão não faz sentido num mundo globalizado. O mundo da aviação sobrevive, e ainda bem, da excelência e do profissionalismo de quem nele trabalha, e de quem nele voa, e não da sua nacionalidade, língua, origem, etc… Prova disso são as companhias e empresas aéreas que, em todo o mundo, têm um quadro multi-nacional de pilotos e, ainda por cima, o incentivam de modo a conseguir captar os melhores profissionais possíveis. A preocupação no Brasil é ter de obrigar todos os pilotos a terem um certo nível de ICAO!? Ainda bem, deve-se nivelar por cima, nunca por baixo! É a linguagem no cockpit!? Mas não temos todos de falar bem Inglês!? Ou alguém tem dúvidas que a resolução de uma emergência na EMIRATES ou na CHC com tripulantes, por exemplo, da Alemanha e da França corre mal por ser feita em Inglês!? Não se compreende, num mundo globalizado, este tipo de atitude. Esperemos que o isolacionismo não funcione de forma negativa para a aviação brasileira. E já agora, a ANAC que retire do site os anúncios ao recrutamento em empresas como a EMIRATES e a QATAR… já que não aceitam estrangeiros também não deveriam incentivar a saída dos pilotos brasileiros…

    • Raul Marinho
      5 anos ago

      O problema não é de globalização ou de inglês, o buraco é muito mais embaixo. Somente países sem estrutura de formação de pilotos, como as nações do Oriente Médio e a China, é que permitem o ingresso livre de pilotos estrangeiros. Já os EUA e a Europa têm as mesmas restrições que o Brasil, porque se liberassem a entrada de estrangeiros, haveria um desestimulo à formação aeronáutica avançada em seus países. Esta formação, custeada pelas companhias aéreas nacionais, deixaria de existir, pois para elas, seria muito mais vantajoso “importar pilotos” já formados, mesmo pagando mais. Percebe onde a roda pega mesmo?

      • Pilotasso
        5 anos ago

        Compreendo, e sem dúvida é uma questão que tem muitas faces da mesma moeda.

        No entanto, o mesmo não acontece nos restantes países ( embora o possa parecer ). Pode voar nos EUA. Pode voar na Austrália. Pode voar na Europa. Pode voar na Coreia do Sul. Pode voar no Japão.
        A exigência destes locais nunca passa pela cidadania do piloto. Passa sim pela admissão e avaliação por parte da sua autoridade nacional da competência e capacidade do piloto, independentemente da sua nacionalidade, e claro, do respectivo VISA de trabalho ou autorização de residência ( igual para qualquer trabalhador estrangeiro, seja piloto ou não ).

        Bloquear pura e simplesmente todo um mercado com base da nacionalidade é, a meu ver, incorrecto. A partilha de experiência e conhecimento sempre foi uma base essencial da aviação e este isolacionismo tende a contrariar isso. É o mesmo que – comparação simples – a dobragem de todas as séries televisivas. A curto prazo pode ser bom, mas a médio prazo teremos uma população com um conhecimento e sotaque de inglês muito inferior àqueles que não dobraram os seus programas ( é um fenómeno sociológico interessante, e estranho, mas Portugal e Espanha são um exemplo disso ).

        Cada país tem de ter as suas restrições. Ninguém pede ao Brasil que abra o seu mercado com carta branca. Pede-se que abra com responsabilidade. Que avalie, que estude quem pretende trabalhar. E aceite consoante o conjunto de regras. A nacionalidade nunca poderá ser a base de um bom piloto. O seu trabalho e dedicação sim.

        E não é por aceitar pilotos estrangeiros que as escolas de aviação deixam de ter sucesso ( por vezes acontece o contrário, por vezes abrem-se novos nichos de mercados ). Basta ver o exemplo europeu.

        Cumprimentos,

  2. Arthur
    5 anos ago

    Raul,

    Em relação aos valores, realmente estão todos atrapalhados, mas eu pago, no pacote de 10 horas R$ 7.000,00 (se fosse avulsa, a hora sairia por mais de R$ 800,00), ou seja, R$ 700,00/hora de R22 no Campo de Marte.
    Como a lei se aplica tanto a pilotos de avião quanto a pilotos de helicópteros, provavelmente o que aconteceu foi uma “salada” nos números.
    Sei que você, assim como eu e muitos outros, está apreensivo (e até um tanto revoltado) com esta palhaçada de prostituir a aviação no Brasil, mas tente respirar fundo antes de fazer as críticas para não exagerar na dose e correr o risco de perder a razão.

    Um grande abraço.

    • Raul
      Se abrir o acesso a pilotos estrangeiros é prostituir a aviação no Brasil, diga-me lá qual é a sua razão. No meu país, a equipa dirigente da maior companhia aérea é composa por brasileiros. Me desculpe, mas nunca senti essa prostituição de que vc fala por aqui!.

      • Raul Marinho
        5 anos ago

        Em 1o lugar, o argumento da “prostituição” não é meu. Mas o principal é o seguinte: um executivo ser estrangeiro não tem nada a ver com o piloto ser de outro pais. Se vc não entende isto, lamento, mas não dá para prosseguir com a discussão.

  3. Gervazio Degan
    5 anos ago

    É a total falta de comprometimento dos orgãos publicos com a nação que causa esses atropelos estupidos. Todos os ocupantes de postos nos 3 bandos dominantes (entenda-se Executivo Legislativo e Judiciário) só estão comprometidos com seus próprios umbigos e danem-se os brasileiros, pois estes apenas reclamam e protestam batendo panelas, e isso não doi em ninguém.

  4. Adriano Zanatta
    5 anos ago

    Ótima análise Raul, vamos ver agora como o debate vai evoluir e se a pressão dos abaixo-assinados e emails que o pessoal está enviando funciona. Num mundo perfeito, esses “especialistas” leriam o Para Ser Piloto antes de um debate!

  5. Athos G.
    5 anos ago

    Um comentário no site da câmara que cita um cenário global, que ainda não vi ninguém comentar.

    “Poxa! então é melhor chamar de volta os brasileiros que estão pilotando na Ásia e Oriente Médio. Que desculpa esfarrapada. Remunere dignamente os aeronautas que eles próprios voltam para o Brasil e não precisam contratar estrangeiros. Por outro lado, se colocarem isso explicitamente na lei, corremos o risco de “um dia” ficarmos com aviões no chão por falta de pilotos estrangeiros ou não. Reciprocidade minha gente. Vivemos agora num sistema globalizado. E tenho dito.”

  6. Fred Mesquita
    5 anos ago

    A falha de comunicação na cabine de comando de uma aeronave, provocada pela barreira da língua é apenas um dos motivos para a não abertura de pilotos estrangeiros no Brasil. Outro problema ainda mais drástico eu ponto como o grande número de pilotos desportistas, pilotos casuais, pilotos donos de aviões de pequeno porte, quase todos com “somente” o curso de Piloto Privado dividindo o espaço aéreo com os demais pilotos. Imagine então a dificuldade de entendimento desses pilotos na questão da linguagem? Se for abrir para o piloto estrangeiro voar no Brasil, a ANAC vai obrigar a todos os pilotos desportistas e casuais a terem o ICAO 4? Claro que não. Essa idéia da abertura para profissionais de fora é o fim da aviação brasileira.

    Quanto a capacitação de pilotos brasileiros, na época do DAC havia mais incentivos por parte do governo em formar a mão de obra e atualmente a ANAC é a única responsável para criar e manter a formação dos novos pilotos mas que está se esquivando de suas responsabilidades e jogar a culpa dessa formação na iniciativa privada. Claro que as empresas poderiam ajudar nessa formação, mas a o principal órgão responsável por essa formação é o Governo Federal.

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