“O voo ‘visumento’: 178 segundos para morrer”

By: Author Raul MarinhoPosted on
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Encontrei este artigo aqui, mas como ele não é de autoria daquele blog, não vejo problemas em reproduzi-lo – mesmo porque o “Cultura Aeronáutica” está no meu blogroll há meses (sem retribuição), e eu já o indiquei em diversas ocasiões, como volto a fazê-lo agora.  Bem, mas o que importa é o texto. Trata-se de um relato dramático do que acontece num voo visumento. É uma leitura obrigatória para todo aviador em formação.

Se algum dia você for tentado a decolar com tempo duvidoso e não tiver sido treinado a voar por instrumentos leia este artigo antes de sair.

Se apesar de tudo você decidir ir, e perder o contato visual, comece a contar regressivamente a partir de 178 segundos. Quanto tempo um piloto sem IFR pode esperar viver, depois que entra em condições adversas e perde o contato visual?

Pesquisadores da Universidade de Illinois encontraram a resposta a essa pergunta: 20 estudantes “cobaias” simularam um vôo em tempo adverso e todos entraram em atitude anormal. O resultado era diferente em um aspecto: o tempo que se passava até a perda do controle. Esse intervalo variava de 20 a 480 segundos. O tempo médio era de 178 segundos, ou seja, faltando 2 segundos para completar 3 minutos.

Eis o cenário fatal…O céu está muito nublado e a visibilidade é restrita. A visibilidade de 5 Km do Boletim Meteorológico parecem ser inferior a 2 Km e você, em vôo, não consegue avaliar a base da camada. Seu altímetro acusa 3.500 pés. Seu mapa diz que a topografia local atinge pontos com até 2.900 pés. Pode até haver linhas de transmissão por perto, porque você não sabe com certeza o quanto está fora do curso.

Mas, como você já voou em tempo pior que este, então continua. Inconscientemente, você começa a diminuir um pouco a atenção nos instrumentos de controle para tentar enxergar mais claramente essas linhas de transmissão. De repente você está nas nuvens. Você se esforça para enxergar na neblina, tão branca, que seus olhos começam a doer.

Você luta contra uma sensação no seu estômago. Você engole, só para descobrir que sua boca está seca. Agora você percebe que deveria ter esperado o tempo melhorar. Seu compromisso era importante, mas não tanto assim. Em algum lugar uma voz fala: “É isso aí – tudo passou”.

A partir de agora, você tem somente 178 segundos de vida. Você sente sua aeronave como em equilíbrio mas sua bússola gira devagar. Você comanda levemente os pedais para cessar o desvio, mas isso parece ser artificial, e assim você volta os comandos a sua posição anterior. Isso dá uma sensação melhor mas sua bússola agora vira mais rapidamente e a velocidade está aumentando.

Você esquadrinha seu painel para receber ajuda, mas o que você vê de uma maneira ou outra não lhe parece familiar. Você tem certeza que só se trata de uma situação ruim. Em poucos minutos você sairá dela.

Agora você só tem 100 segundos de vida. Você olha para seu altímetro e se assusta. Você já está a 2.800 pés. Instintivamente, você aplica potência no motor mas o altímetro e o variômetro insistem em acusar um climb negativo. O motor trabalha a toda força e a velocidade está quase no máximo.

Só lhe restam mais 45 segundos de vida. Agora você transpira e treme. Alguma coisa deve estar errada com os comandos; diminuir a potência só faz o indicador de velocidade entrar mais ainda no vermelho. Você escuta o vento gritando ao redor da aeronave.

Agora só lhe restam 10 segundos de vida. De repente, você vê o chão. As árvores se aproximam rapidamente. Se virar sua cabeça o suficiente verá o horizonte, mas ele está num ângulo incomum. Você está de cabeça para baixo!

Você abre sua boca para gritar, mas já não lhe resta mais nenhum segundo…

15 comments

  1. jordialisson
    4 anos ago

    Poético!

  2. Jonas Liasch
    5 anos ago

    Olá, amigo, sou o Prof. Jonas do Blog Cultura Aeronáutica. Não há problema nenhum em vc reproduzir aqui quaisquer artigos do meu blog, é só citar a fonte e pronto, sem problemas… Vou incluí-lo nos meus links. Grande abraço.

    • Raul Marinho
      5 anos ago

      Idem quanto ao meu blog, professor!

      E parabéns pelo Cultura Aeronáutica, o blog de aviação com melhor conteúdo que eu conheço.

      Obrigado pela retribuição!

      Abs,

      Raul

  3. Luiz Corrêa
    5 anos ago

    Senhores, este texto é bem mais antigo do que parece. Eu o ví em inglês, em 1978 ou 1979, em uma revista do MAC (Military Air Command) da Força aérea dos EEUU, falando sobre a operação do “Bird Dog” (na FAB, era o L-19, acho), um avião parecido com o Cessna 152 ou o 172, usado para missões de “Observação e Ligação”.
    Como o avião não voava IFR (não tinha os instrumentos), este texto visava impedir os visumentos, com o mesmo objetivo dos dias de hoje.

    Não é do controlador de vôo, nem da AOPA, também.

    Mas é muito bom !

    Forte abraço em todos. Vou voltar a escrever em meu blog, depois de um semestre de falta de inspiração…

  4. Fred Mesquita
    5 anos ago

    O voo em atitude anormal já ceifou muitas vidas. Vidas essas que poderiam ser economizadas se o bendito piloto não voasse com tanta arrogância do saber. Em mais de 20 anos de carreira, perdi quase a metade de meus amigos pilotos, muitos desses os ditos “corajosos”. E sempre me lembrava de um ditado muito falado na aviação, que o colega Alisson lembrou-me: “É melhor estar aqui em baixo querendo estar lá em cima do que estar lá em cima querendo estar aqui em baixo”. São sábias palavras e dou mais uma apimentada no assunto falando de outros ditados muito conhecidos no meio aeronáutico: “- Piloto que não tem medo algum, é piloto perigoso. Piloto condenado a morrer cedo”. “- Melhor ser um piloto um pouco medroso (ou metódico) do que ser um piloto destemido”. “- Os verdadeiros heróis da aviação são os pilotos que se aposentaram”.

    • Fárney Alexandre
      4 anos ago

      Falou tudo caro Fred mesquita…vc é um sábio! Tbm n entendo pq a ARROGÂNCIA sobe tanto À cabeças de boa parte de pilotos na aviação. Se acham deuses!

  5. Rodrigo
    5 anos ago

    Raul, este é um texto de Luiz Carlos chaves,que é Controlador de Voo. Este e muitos outros podem ser encontrados aqui: http://aviacaocometica.blogspot.com/

  6. Luciano Cavalcante
    5 anos ago

    Esse texto é muito bom mesmo! Uma lição.

  7. Alisson
    5 anos ago

    Esse texto é bem antigo mas sempre atual. Toda vez que fico sabendo de um acidente acontecido quando as condições de tempo eram IMC, sempre lembro dele e de um antigo ditado da aviação bastante pertinente: “É melhor estar aqui em baixo querendo estar lá em cima do que estar lá em cima querendo estar aqui em baixo”.

    Abraço

    • Raul Marinho
      5 anos ago

      É antigo sim, mas enquanto houver voo visual, ele sempre vai ser atual.
      E tem aquele outro ditado, que diz que depois da nuvem sempre tem uma pedra…

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