Um comentário de arrepiar

By: Author Raul MarinhoPosted on
831Views9

Na foto acima, um flagrante de um leitor do Para Ser Piloto lendo uma notícia de que alguém quer vender tudo para investir na carreira de piloto

.

Recebi o seguinte comentário hoje, que me arrepiou os cabelos:

Tenho uma unica casa e estou colocando a venda para ter o capital total e realizar meu sonho.

Estou iniciando na aviaçao em asa rotativa, mais tenho mto medo q apos terminar PCH + INV-H nao consiga serviço pra atingir as 500hs necessarias, pois é um investimento mto alto!

Sobre o IFR é necessario msmo e qual a melhor forma $ de adquirir esse curso ??

Como esta o mercado de trabalho para os novatos q acabaram de checar PCH com IFR ou sem ??

Quem acompanha o blog também deve ter sentido um frio na espinha com essa frase inicial: “Tenho uma unica casa e estou colocando a venda para ter o capital total e realizar meu sonho”. Bem, mas como (infelizmente) nem todo mundo é leitor assíduo deste blog (que absurdo isso, não!?), vamos entender porque esse comentário causa tanto medo:

As escolas de aviação, por meio da imprensa preguiçosa (repórteres que têm preguiça de investigar um assunto, e que acham mais fácil dar a opinião de um presidente de aeroclube do que checar a informação para ver se é isso mesmo), disseminaram o mito do “apagão de pilotos”, segundo o qual a aviação está passando por um momento de extrema euforia, e que qualquer um com brevê na mão consegue um empregão mole mole. Com esta informação equivocada, as pessoas são induzidas a arriscar tudo o que tem na formação aeronáutica, afinal de contas não falaram que está faltando pilotos no mercado? Isso sem contar com a Copa, as Olimpíadas, a “hora e a vez dos BRICs”, o pré-sal (principalmente para os helicópteros), e por aí vai. Bem, mas o buraco é bem mais embaixo, como eu canso de alertar aqui no blog.

Em primeiro lugar, o tamanho do mercado é muito menor do que se imagina. Quando se fala que está faltando gente na construção civil, por exemplo, a ordem de grandeza é de milhões de pessoas; então tem espaço para muita gente entrar no mercado que, ainda assim, ele não fica saturado. Mas o total de pilotos ativos no país não passa de algumas dezenas de milhares, o que faz com que o mercado de trabalho para pilotos sofra alterações drásticas muito rapidamente – basta algumas centenas de pilotos a mais entrando para desequilibrar a balança da oferta e demanda de profissionais na aviação. Existe, de fato, uma relativa falta de pilotos em alguns segmentos da aviação – por exemplo: comandantes de jatos executivos com ICAO-4+ e experiência superior a 1.500h estão realmente em falta. Mas quantos profissionais com essas características estão faltando? Seguramente, se entrarem 120 novos pilotos habilitados (com carteira de jato, milhares de horas, e ICAO-4+) no mercado, a escassez se tornará excesso, e a Gol está demitindo exatamente esse número de pilotos neste momento. Isso significa que tudo pode mudar de uma hora para outra, muito mais rápido do que o tempo necessário para que o profissional possa reagir à mudança. Este é um primeiro ponto a se considerar.

Ainda em relação às mudanças, mas em outro aspecto, temos que levar em conta que estamos na iminência de haver grandes alterações na legislação relacionada à atividade dos pilotos. A mudança no CBA-Código Brasileiro de Aeronáutica que permitiria a entrada de pilotos estrangeiros está para ser votada no Congresso, e o novo RBAC-61 (regulamento que trata das licenças e habilitações para tripulantes) está na véspera de ser publicado. Estes dois eventos podem alterar substancialmente o mercado de trabalho para pilotos, e ninguém sabe exatamente em que sentido e com que intensidade.

Fora estas questões conjunturais, há a própria dinâmica pessoal que interfere na possibilidade de sucesso de alguém como piloto. Uma pessoa decide se tornar piloto porque imagina que irá gostar de voar, mas só voando muitas horas é que dá para saber se aquilo é realmente para ela ou não. Ou o estilo de vida da aviação, que é bem peculiar; ou a necessidade de estudar continuamente, e por aí vai. Recentemente, eu publiquei um post com os principais bons e maus motivos para alguém ser piloto, e acho que vale a pena dar uma conferida lá. O ponto que quero ressaltar é que, na prática, você só vai saber se gosta mesmo da profissão de piloto depois de formado, mas aí já é tarde demais, você já investiu tudo o que tinha para investir na carreira… Percebe o dilema?

Por isso tudo, acho extremamente temerário você vender seu único bem para “investir no sonho”. Pegue leve, vá devagar… Faça o curso teórico de PPH, enturme-se no meio da aviação com outros alunos, professores, etc. Faça o exame médico de 2ª classe, e avalie se você seria aprovado no de 1ª classe também. Faça algumas horas de voo, na medida da sua capacidade financeira sem ter que vender nada (nem que seja uma ou duas horinhas). Nesse meio de tempo, veja o que está a acontecendo no mercado, compre revistas especializadas, leia blogs e fóruns de discussão, converse pessoalmente com PCHs já formados. Em seis meses, você estará com uma visão muito mais realista do mercado e de você mesmo, e aí você poderá tomar uma decisão mais acertada.

Eu, pessoalmente, acho que mesmo que sua avaliação seja a mais positiva possível, ainda assim você deve evitar vender seu único bem para custear sua formação. Sempre há maneiras de aumentar a renda: venda joias ou cosméticos para as amigas da sua esposa, faça bicos no final de semana, sei lá, existem inúmeras maneiras de ganhar um dinheiro extra se você tiver disposição e não possuir preconceitos. Pois, se você vender seu único bem, isso vai ser uma pressão a mais na sua formação aeronáutica, e voar pressionado nunca é bom: muitos acidentes aeronáuticos acontecem por esse fator. Mas a decisão quanto a isso é sua.

Isso é o que tinha de realmente importante para te falar. Mas como você tem algumas outras dúvidas pontuais – que, inclusive, podem ajudar na sua tomada de decisão da venda da casa –, vamos respondê-las uma a uma:

1)      “Estou iniciando na aviaçao em asa rotativa, mais tenho mto medo q apos terminar PCH + INV-H nao consiga serviço pra atingir as 500hs necessarias, pois é um investimento mto alto!”

Como INVH é mais fácil conseguir trabalho do que só com o PCH (vou tratar dos PCHs recém formados na 3ª pergunta). Mas você tem consciência do risco associado à atividade de instrução na asa rotativa? Só no ano passado, e só aqui em São Paulo, deve ter ocorrido uma meia dúzia de acidentes com INVHs – a maioria com pouca experiência. Agora é fácil tomar a decisão de ser INVH, mas será que na hora do vamos ver mesmo, você vai ter coragem para tal? (Vou ser franco com você: eu não encararia ser INVH). Estou falando isso porque você se planeja para seguir uma carreira de um jeito, e na hora de executar você vê que não é por aí, e seu plano todo desaba. Então, reflita mais a fundo se você encara mesmo a atividade de INVH, para que seu plano não naufrague por isso.

2)      “Sobre o IFR é necessario msmo e qual a melhor forma $ de adquirir esse curso ??”

Para voar nas plataformas, o IFRH é mesmo necessário, assim como ter 500h – isso é obrigatório por causa da convenção coletiva de trabalho dos petroleiros, não é frescura dos táxis aéreos. Porém, como praticamente não existem pilotos com essa qualificação disponíveis no mercado, as empresas estão contratando PCHs somente com o IFRH teórico e proficiência em simulador IFR (de avião, inclusive), e dando elas mesmas o treinamento IFRH no helicóptero. Na prática, é muito difícil (e caríssimo) obter o IFRH por conta própria no Brasil, a melhor forma é ir realizar o treinamento no exterior. Mas se você tiver o IFRH checado, sua empregabilidade aumenta muito, isso é fato.

3)      “Como esta o mercado de trabalho para os novatos q acabaram de checar PCH com IFR ou sem ??

Complicado. Na aviação executiva, o limitante das 500h é decorrência de exigência das seguradoras (o seguro de equipamentos comandados por novatos é caríssimo, ou elas nem aceitam fazer), o que deixa somente uma pequena parcela do mercado viável para os novatos: equipamentos sem seguro e atividades “marginais”. Existem proprietários que aceitam voar sem seguro, geralmente helicópteros mais velhos e menos caros, mas são poucos; e mesmo estes, justamente por não estarem segurados, são pilotados em grande parte por comandantes mais experientes. Sobram as atividades “marginais” (não porque são criminosas, mas porque não são as principais), como voar para empresas de rastreamento de veículos e bancos, mas tem muito mais gente querendo voar do que helicópteros voando, o que reduz drasticamente a remuneração. Para piorar, a maioria dos helicópteros de pequeno porte voa só com um piloto, e a presença de um copiloto, mesmo que de graça, fica inviável porque há pouco espaço disponível no equipamento. Resumindo: a “barreira das 500h” é terrível mesmo!

Adicionalmente, eu recomendo que você leia este artigo que eu publiquei recentemente no Canal Piloto. E boa sorte com a sua decisão e com a sua nova carreira!

9 comments

  1. DANIEL
    9 meses ago

    Raul, ressuscitando o post…

    Vender um apartamento acredito que nos dias de hoje seria uma média de 500 mil reais disponíveis…

    torrar em um PCA/H não seria mais inteligente procurar uma aeronave para investir?

    Existe algum estudo que mostra a rentabilidade de um investimento como este? Ir na América do Norte e trazer um Seneca para fazer vôos por aqui? (sei que tem toda a burocracia com a ANAC mas ainda sim é melhor que arriscar tudo em um aeroclube e depois passar 10 anos voando em troca de comida como INVA).

    Abraço

    • Raul Marinho
      9 meses ago

      Abra uma consulta via “Atendimento ParaSerPiloto” que nossa equipe poderá ajudá-lo com isso.

  2. Bruno Leite
    5 anos ago

    Pessoal uma coisa que aprendi na minha profissão (e alguns outros amigos de longa data já compartilharam este pensamento comigo) é: quem tem força de vontade e é bom no que faz, então as barreiras que (concordo são muitas) podem ser superadas.

    Vender a casa tem que significar mais que o dinheiro depois da venda. Tem que significar o valor que representou essa venda, ou seja, dedique-se o máximo que puder… não vale a pena, mas faça valer a pena.

    E já que vai ter dinheiro com a venda da casa, então faça sua imersão completa no mundo da aviação… respire aviação, não fique só a parte da manhã de um sábado em sua escola/aeroclube… monte seu círculo de amizades (QI)!

    O Alexandre Sales do Canal Piloto tem um vídeo onde ele diz que “Você não vai ser piloto”… sugiro que assista, mas que depois de assistir não deixe a emoção lhe tomar por completo, afinal dedicação é diferente de emoção.

    Difícil todo mundo acima já disse que é e não preciso dar mais detalhes, apenas digo que se está decidido então siga em frente, seja humilde (de verdade), escute os mais experientes, não esnobe os novatos (em seu tempo) e boa sorte!

    Bom é isso!

  3. Paulo
    5 anos ago

    Que revista você indicaria para Helicóptero?

    • Raul Marinho
      5 anos ago

      As tradicionais (Flap, AeroMagazine, Avião Revue) mais A publicação da ABRAPHE, que vc baixa via site.

  4. Fred Mesquita
    5 anos ago

    Em uma de minhas passagens por São Paulo, visitando certa cidade do interior, conheci um piloto privado cuja situação não estava muito boa a meu ver pois o nobre colega é daqueles meio turrão e notei (também me falaram) que é pessoa que não aceita nenhum tipo de conselho quando o assunto é aviação. É filho de mãe solteira, máe muito humilde, que durante décadas de muito sofrimento conseguiu adquirir 2 casa e uns terrenos de sítio e o jovem como filho único a mãe vendeu todos os imóveis disponíveis justamente para que o filho tirasse as carteiras de PP/PC/IFR e o mesmo já está perto de fazer o curso de PPH. Mas acreditem, ese hoje com o PC já checado, ainda não aprendeu (não sabe nada mesmo) a fonia padrão, pois voando sempre em aeroclube, sempre deixou a cargo do instrutor. Resumindo, o sujeito está “torrando” tudo o que a mãe adquiriu com décadas de esforço e muitas dificuldades e o dinheiro já está acabando e o colega ainda está muito crú no assunto aviação. Mas, devido ao fato de não escutar ninguém, de não aceitar dicas, de não ser humilde, está crente que em pouco tempo estará empregado numa empresa aérea. Finalisando, descobri uns dois ou três mais pessoas na mesma situação que acabo de escrever nessas linhas e que já se acham muito bem empregados na aviação. — Fico só imaginando essas pessoas em um futuro bem próximo quando resolverem “abrir os olhos” e verem que as coisas não são como eles pensam… vão notar o “leite derramado” e já poderá ser tarde demais. Tenho dó de ver que muitos ainda pensam dessa forma. Não estou sendo pessimista, como o Alisson Santana acabou de falar mais abaixo, mas sim, estou tentando ser realista. Avida é Druris mas dá muitas Vodkas… Não é bem por aí escolher um caminho sem aceitar uma opinião amiga. Fazer o quê, não é ????

  5. Roberto Lima
    5 anos ago

    Concordo com o Raul e também com o Alisson, mas vou tentar colaborar um pouco mais.

    Veja bem, vender um bem já adquirido sabe-se lá a que custo (quanto tempo Você investiu para poder comprar este bem) é temeroso em qualquer profissão que exija todo um investimento em formação e só depois disto é que Você poderá saber se gosta ou não.

    E a aviação tem todo um conjunto de características próprias. 1. Formação cara, exigência de horas de vôo nesta formação, proficiência em inglês, etc. 2. Empresas muito grandes, maiores que os governos por vezes. Isto lhes propicia burlar regras de legalidade com uma certa facilidade. Quando Você vê, fizeram alguma manobra, apoiada por algum jurista, e Você dançou. 3. O mercado é pequeno como bem comparou o Raul no artigo. Num mercado grande, Você sendo de médio para bom, já fica mais garantido para seguir recebendo numa empresa para ir se qualificando mais e mais. Num mercado pequeno, dançam os com menos formação rapidamente, em qualquer mudança de tempo.

    Bom, era isto, acho que chega.

    Minha opinião: invista como já lhe foi indicado, lentamente para ir se formando e sentindo o gosto de seu sonho. Para não ocorrer de Você acabar achando amargo o resultado lá adiante.

    Abraços, juízo e sorte para Você!

  6. Resumo esses questionamentos assim:

    Como as pessoas perguntam: “Vou vender minha casa pra investir no meu sonho de ser piloto. Será que vale a pena?”.

    Como eu escuto: “Vou vender minha casa e apostar na loteria. Será que vou ganhar?”.

    Na minha opinião, trocar o certo pelo duvidoso (e no caso da aviação, esse duvidoso é com D maiusculo), não vale a pena.

    Não sou pessimista. Sou pé no chão. Vou dando um passo de cada vez. Não estabeleci prazo limite pra concluir meus planos. Embora isso seja desejável. Mas na aviação, pra quem não tem grana, fixar prazos pode tornar sua missão meio frustrante quando vc não conseguir chegar no ponto “x” no tempo “y” q vc preestabeleceu.

    Já diz o ditato: “A aviação é o meio mais rápido pra quem não tem pressa!” :)

    Minha principal dica é ter “Prudência” hehe

Deixe uma resposta