iFly-B: discussão sobre um aplicativo brasileiro para pilotos novatos

By: Author Raul MarinhoPosted on
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Neste post, eu falei de um aplicativo para iPad/iPhone que eu comprei (o “iFly Low Hour Pilot Jobs”), que é uma ferramenta para ajudar pilotos com poucas horas a encontrar uma colocação profissional. Naquela oportunidade, eu perguntei se havia alguma coisa parecida no Brasil, e se alguém teria interesse em desenvolver algo semelhante. Quanto à primeira pergunta: zero – ninguém se manifestou sobre a existência de algo similar ao iFly, e acredito mesmo que não haja nada parecido no mercado brasileiro. Já quanto ao meu convite, tive vários retornos, muitos que ainda nem respondi, e este post tem, entre outros objetivos, dar uma satisfação para quem se interessou pelo assunto. Mas o foco aqui é debater que modelo de aplicativo poderia funcionar para a nossa realidade, algo que tem que ser mais bem definido antes de passarmos à tecnologia do negócio (que é importantíssima, lógico, mas vem depois das definições do modelo).

Começando pelo tal do aplicativo que eu comprei. O iFly é ultra-simples: você faz um cadastro (que, na verdade, nada mais é que seu nome e e-mail), e tem acesso a um banco de dados com ofertas de companhias aéreas (a maioria, regionais), táxis aéreos, escolas de aviação, e operadores particulares, com ofertas de vagas. Havendo interesse em algum item, você clica no título do anúncio, e é levado a uma página-resumo da oferta com o nome da empresa, a data da publicação do anúncio, e a localização da vaga. Se este item lhe interessar, você clica em um botão chamado “description”, que dá acesso a uma página não-padronizada com detalhes sobre a vaga: requerimentos para os candidatos, breve descrição da empresa/vaga, e dados para contato. Há, ainda, uma opção de busca, onde você pode selecionar a localização – EUA, América Central, do Sul, Caribe, Europa, África, Oriente Médio, Ásia e Oceania –, e um campo para busca por palavra-chave. Pronto, é isso a que se resume o sisteminha. Não sei se funciona bem nos EUA, mas aqui no Brasil é totalmente inútil. As vagas para o nosso país se resumem às ofertas da Azul Linhas Aéreas, e só – onde eles repetem, no “description”, o texto do site da empresa com os requerimentos para copilotos júnior, e dão um link para você se inscrever (o mesmo do site, é lógico). Ou seja: não há nada no iFly que qualquer piloto recém-formado iniciando a busca por emprego ainda não saiba.

OK, sabemos como é um sistema que NÂO funciona, mas como seria um aplicativo de aproximação entre pilotos com poucas horas e possíveis contratantes que realmente funcionasse? Ou, antes disso, será que é possível desenvolver um aplicativo baseado na internet para este fim?

Acho que um bom começo para pensarmos nisso é partir da maneira como um piloto novato consegue emprego hoje no mercado brasileiro. Fora o caso da Azul, única empresa que admite PCs recém formados para entrar direto na linha aérea, as maneiras mais populares de um piloto recém-formado encontrar emprego são:

1)      Como instrutor, de preferência no aeroclube/escola em que o piloto se formou (mas, hoje em dia, está muito comum os aeroclubes/escolas contratarem instrutores de fora);

2)      Em algum táxi aéreo, geralmente os de transporte de encomendas (os “maloteiros”), como copiloto (opção em baixa desde que os malotes bancários deixaram de existir);

3)      Na aviação executiva, comandando aeronaves mais simples (mono/bi-motores a pistão), ou como copilotos em pequenos turbo-hélices e jatinhos; ou, ainda:

4)      Como “safety”, ou seja: como “copiloto” (na verdade, voando em duplo-comando) em aeronaves homologadas para serem operadas por somente um piloto (uma atividade que é, muitas vezes, não remunerada).

Partindo destas 5 opções (incluindo a linha aérea), as maneiras mais usuais dos pilotos recém-formados encontrarem uma colocação são as seguintes:

A)     Via processos de seleção formais (caso da Azul): o sujeito se inscreve no processo de seleção via site (na realidade, no sistema da Elancers, uma empresa de RH);

B)      Por meio de relacionamentos pessoais (QI): ou pelos relacionamentos formados no decorrer da instrução (caso mais comum entre os instrutores que ingressam no quadro de funcionários do próprio aeroclube/ escola em que se formou), ou por amizades pessoais;

C)      Por meio de envio de currículo para as empresas de táxi aéreo e demais operadores; ou

D)     Pelo que se conhece na aviação como “peregrinar pelos hangares”, que é o sujeito passar o dia visitando os hangares de um determinado aeroporto, vendo se consegue uma oportunidade de voar com alguém.

Em função do acima exposto – e se alguém tiver alguma informação para acrescentar, fique à vontade, eu não tenho a pretensão de conhecer todas as possibilidades –, se a ideia for transportar para a web o que acontece no mundo físico, o tal aplicativo que estamos discutindo (vamos chamá-lo de iFly-B, para facilitar), deveria focar nos processos “C” e “D”, acima, uma vez que:

– No Brasil, são poucas as companhias aéreas que contratam recém-formados, e todo mundo sabe quem são elas, e como fazer para concorrer a uma vaga (hoje em dia, como disse, só há a opção da Azul, mas estou considerando que possa ocorrer de outras empresas passarem a contratar recém-formados no futuro); e

– Se o sujeito possui um bom QI, ele não precisa de aplicativo algum, basta entrar em contato diretamente com o operador para ser contratado.

Assim, o iFly-B deveria, na minha opinião inicial, ser focado nas possibilidades de trabalho da aviação geral (táxis, aviação executiva e instrução), abertas para não-indicados. Ou seja: o aplicativo seria útil para quem procura emprego como instrutor e/ou via distribuição de currículos para as empresas e/ou para os “peregrinos de hangar”. Para estas duas primeiras opções, eu acredito que um aplicativo um pouco mais completo (i.e: com cadastros um pouco mais detalhados para pilotos) que o iFly daria conta do recado. O grande desafio, então, seria como trazer a “peregrinação” para o ambiente virtual. Ou, antes disso: seria possível criar um sistema de “e-peregrinação”? Este sim seria um aplicativo que realmente ajudaria os pilotos novatos, na minha modesta opinião.

Quem já “peregrinou” pelos hangares da vida sabe como é importante o contato olho-no-olho para conseguir uma oportunidade; e também sabe como é pouco eficiente procurar uma colocação desta forma. Outro problema é a assimetria entre pilotos e oportunidades: tem muito mais gente procurando emprego do que operadores dispostos a conceder uma chance para um recém-formado. E, dentre os “peregrinadores”, tem de tudo: desde PP procurando como fazer hora de graça, até PC com alguma experiência, pronto para assumir uma vaga de comando. E as vagas variam desde a de “safety” gratuito até oportunidades de emprego com carteira assinada, passando pelos free-lancers (o mais comum), com e sem remuneração. Como lidar com essa diversidade de opções? E, principalmente, como atrair os operadores (donos de avião e comandantes) para um aplicativo desses?

Fora essas questões iniciais, há o problema do modelo de negócios do aplicativo. Eu ainda não consegui me convencer que um aplicativo desses seria lucrativo para quem o desenvolvesse. Primeiro, porque o universo de usuários não seria grande o suficiente para haver uma escala que permitisse obter receita via fees ou publicidade. Depois, porque é muito difícil cobrar destes usuários para usar o sistema. Teria que ser um aplicativo gratuito e com pouca atratividade para publicidade, então quem é que pagaria o seu desenvolvimento?

Eu, certamente, devo estar enganado em alguns pressupostos que assumi, e é bem provável que não esteja vendo alguma coisa que pode mudar tudo; mas, em princípio, não sou muito otimista com um aplicativo do tipo iFly-B, infelizmente. Entretanto, este post está aqui justamente para colher opiniões de quem enxerga melhor que eu, e a seção de comentários está aberta para quem quiser expor sua opinião. Novamente, coloco-me à disposição para quem quiser entrar em contato diretamente comigo pelo e-mail raulmarinho@yahoo.com. Vamos ver se a gente consegue alguma coisa viável, pois a necessidade de um aplicativo destes para os recém formados é evidente.

Abraços a todos, e aguardo feed-backs.

Raul Marinho

4 comments

  1. Raul Marinho
    5 anos ago

    Alguém teria contato na ABAG-Associação Brasileira de Aviação Geral?
    Acho que eles seriam os parceiros ideais para esse tipo de iniciativa…

  2. Vinicius Piassa
    5 anos ago

    Raul, a idéia do aplicativo é boa, mas para isso funcionar as contratantes tem que mudar a forma de seleção por que do modo que estão os Q.Is pouco sobra vagas disponíveis para meios como o do aplicativo a exemplo disto podemos fazer uma analogia a um escritório de contabilidade quando necessita de um técnico em contabilidade, o escritório vai primeiro perguntar para os “conhecidos” se existe alguém que eles possam indicar e se caso ninguém souber eles vão em um jornal e publicam a disponibilidade da vaga. Acredito que seria essa a essência da idéia do atual mercado!

  3. rafamsv
    5 anos ago

    Raul, bom dia.
    Vamos lá…

    A ideia realmente pode não ser viável mas, é necessária. Não acredito realmente que seja possível conseguir nenhuma receita pois é um aplicativo simples e para um “pequeno” publico.

    Primeiramente temos que ver as partes interessadas, pois não adianta desenvolvermos tudo isso e não termos o principal: Anunciantes! Não sei se você vai conseguir me responder porem, pergunto a você mesmo assim: As empresas de taxi, LA, aviação executiva, aeroescolas etc vem encontrado dificuldades em contratar este tipo de profissionais? (Pilotos com poucas horas de voo)? Caso sim seria algo importantíssimo que pudéssemos ter contato com alguns para realizar levantamentos e necessidades para melhor modelar o sistema de acordo com a nossa realidade.
    Lembro que a realidade do EUA hoje é outra. A tecnologia lá funciona, é disseminada e existe a cultura da utilização da mesma. Coisa que aqui é muito baixa ainda.

    Caso o objetivo da ação seja aproximar estes aviadores dos hangares e dos possíveis contratantes, acredito que existem vários tipos de ações que podemos fazer em parceria com faculdades, aeroescolas etc para que isso seja possível. Inclusive utilizando ate o blog e o canalpiloto do Sales como publicidade etc (Caso tenha interesse).

    Voltando um pouco ao foco da aplicação, não sei temos desenvolvedores para isso, mas podemos estudar e fazer acontecer.

    De qualquer forma, aguardo outros comentários dos amigos para que possamos dar continuidade a está aplicação.

    Desculpe se falei besteira em alguns dos momentos, estou inserido na área de tecnologia e apenas iniciando na área de aviação, ainda tem algumas coisas que não sei ou posso ter me equivocado no que falei.

    Abraços,
    Rafael Gonçalves

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