Formação aeronáutica no Estadão

By: Author Raul MarinhoPosted on
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Para não dizerem que eu estou pegando no pé só do Estadão, veja acima a intimidade que o portal UOL (da concorrente Folha de São Paulo) tem com os assuntos ligados à aviação. É impressionante a mediocridade dos repórteres designados para a maioria das matérias ligadas à aviação… Salvo o William Waack, da Rede Globo, que realmente conhece o assunto (até porque é piloto), só tem repórter meia-boca cobrindo a aviação. Por que isso?

O jornal “O Estado de São Paulo” (o popular “Estadão”) é, na minha opinião, o melhor jornal do Brasil na atualidade. Mas quando o assunto é formação aeronáutica, ele infelizmente cai na vala comum dos piores tabloides do país.  Prova disto é o conjunto de duas matérias publicadas na edição de ontem (domingo, 29/04/12), de autoria de Cris Olivette, que podem ser acessadas aqui e aqui. As reportagens estão copiadas abaixo para poder destacar os trechos que vou criticar.

Matéria #1

Formação permite que profissional atue como piloto ou na área administrativa Aviação civil

O mercado de trabalho no setor de aviação está bastante aquecido“, afirma o coordenador do bacharelado em aviação civil da Universidade Anhembi Morumbi (UAM), Edson Gaspar. “O potencial de crescimento do setor na América Latina está entre os maiores do mundo.” No entanto, contrariando a opinião do coordenador, as maiores empresas aéreas nacionais registraram prejuízo em 2011 e a Gol colocou em prática um plano de demissões, inclusive para pilotos e comissários.

Ainda assim, Gaspar lembra que para cada avião comercial são necessárias, no mínimo, sete tripulações completas, que atuam em esquema de rodízio. O professor também afirma que o contingente feminino tem crescido na profissão.

O curso da UAM, diz Gaspar, recebe há cinco anos o conceito máximo do Ministério da Educação (MEC), e também tem o reconhecimento da Agência Nacional de Aviação Civil (ANAC). “Além de seguir a carreira de piloto, esses profissionais podem atuar na área administrativa de empresas aéreas.”

Enquanto pilotos sem curso superior necessitam de 1500 horas de voo para serem contratados, os bacharéis em aviação civil precisam cumprir 500 horas. O custo da hora de voo em avião monomotor está em torno de R$ 400 e o de helicóptero custa cerca de R$ 750.

Matéria #2

Estudante do 1º ano sonha em conduzir um Airbus

Aos 19 anos, a estudante Thamires da Silva Freitas, está no primeiro semestre do curso de aviação civil da Universidade Anhembi Morumbi (UAM). “Comecei a estagiar há um mês na Helimarte Táxia Aéreo, no Campo de Marte, e estou gostando muito da experiência.”

Thamires afirma que desde criança gosta de aviação e sempre alimentou o sonhou de ser piloto. “Tenho alguns amigos que já são pilotos, foram eles que me falaram do curso da UAM. Depois de conhecer a grade curricular, não tive dúvidas de que era exatamente o que eu queria.”

No trabalho, a jovem coordena o treinamento de atualização para pilotos que precisam renovar a carteira de habilitação. “Essa experiência está sendo muito rica porque vejo na prática muitas coisas que foram citadas durante as aulas. Mexo bastante com a área de regulamentação, que também me atrai.”

A estudante pretende fazer aulas de voo após tirar a Licença de Piloto Privado(PP). “No primeiro semestre somos preparados para fazer a prova de PP, só depois disso podemos iniciar as horas de voo.”

Thamires diz que já existem várias mulheres pilotando. “No futuro, quero pilotar um Airbus.”

Comento

A primeira matéria começa com o velho chavão do “mercado de trabalho super-aquecido”, mas a astuta repórter logo faz um contraponto com a situação deficitária das lideres do setor, TAM e Gol, e informa que esta última está demitindo pilotos.  Bem… Mas o mercado está aquecido ou está demitindo? Isso a repórter não esclarece. Quem está contratando? Quantos pilotos estão sendo contratados e quantos foram demitidos? Quais as perspectivas para os próximos anos? Isso tudo a repórter não pesquisou – e se você, leitor, achar importante, corra atrás você mesmo das informações! Afinal de contas, você tem Google e e-mail para quê, não é mesmo? Estamos na era do jornalismo self-service: o leitor que produza sua própria matéria. “Que deselegante”, como diria a outra…

Mas a matéria consegue piorar. No seu final, ela comete a atrocidade de desinformar o leitor que os pilotos com faculdade de Aviação Civil precisam de apenas 500h para serem contratados, ao passo que os sem faculdade precisam de 1.500h. Isso, sra Cris Olivette, está simplesmente errado! Não sei quem disse essa baboseira para a sra (presumo que seja sua fonte da Anhembi Morumbi), mas a sra deveria ter checado essa informação antes de publicá-la. Bastava consultar o site da ANAC, ligar para algum aeroclube, googlar o assunto, que a sra saberia que essa informação não procede. Não vou nem dizer que se a sra lesse o meu blog, a sra não afirmaria uma asneira dessas, porque não quero parecer estar puxando a brasa para a minha sardinha, mas a realidade é que:

  1. De acordo com a legislação vigente, tanto faz o piloto ter formação em Aviação Civil, Ciências Aeronáuticas, etc, ou ter realizado toda sua instrução em aeroclube ou escola homologada: ele só precisa ter as horas mínimas para checar a licença de PC-Piloto Comercial (150h) para poder ser admitido em uma companhia aérea  como copiloto (é o que a Azul efetivamente faz hoje em dia), ou então ter 1.500h para ser comandante.
  2. As empresas, em sua maioria, exigem um mínimo por volta de 500h para admitir novos copilotos, independente do candidato ter nível superior ou não. Formação em Aviação Civil, Ciências Aeronáuticas, etc, são entendidos como um “diferencial”, algo “desejável”, não existe essa história de reduzir os requisitos de experiência em 1.000h por causa do bacharelado. Aliás, nenhuma empresa requer 1.500h de experiência para contratar hoje em dia, não sei de onde a reportagem tirou este número.
  3. A única exceção, no que diz respeito à redução de horas para pilotos com nível superior, é a TAM, que implantou recentemente um esquema de pontos para definir os requisitos mínimos para contratação. De fato, a empresa privilegia os candidatos com nível superior, e lá a faculdade se traduz em menos horas (veja este post para a sra entender como isso funciona). Só que, para a TAM, vale QUALQUER CURSO DE NÍVEL SUPERIOR; até a sra, se fosse piloto, obteria essa redução devido ao seu curso de Jornalismo.

E em relação à segunda matéria, a sra erra de novo quando afirma que a aluna deverá fazer suas aulas de voo após tirar a licença de PP. Ora, sra Olivette, a licença de PP é obtida após o(a) aluno(a) efetuar, no mínimo, 35h de aulas de voo! É o contrário do que a reportagem afirmou, na verdade. Provavelmente, a sra quis dizer que a aluna somente estaria autorizada a fazer as aulas de voo após ser aprovada na prova teórica da ANAC para PPs, mas mesmo isso não é totalmente correto. De acordo com o regulamento, o aluno pode iniciar as aulas de voo mesmo sem estar aprovado na prova da ANAC, ele não pode é solar (voar sem o instrutor presente no avião) sem estar aprovado neste exame.

Fora isso, há a superficialidade geral da reportagem, e o fato da repórter não ter se aprofundado nos assuntos que realmente interessam para quem poderia se interessar pela carreira. Por exemplo: como um recém-formado ingressa na carreira, se as companhias só contratam após 500h? Quais os aspectos de saúde requeridos para poder voar? Quanto tempo leva a formação teórica e prática? Fora a Anhembi Morumbi, quais outras opções de curso superior existem no Brasil? E se a pessoa quiser se formar no exterior, é possível e/ou mais vantajoso? Tem tanta coisa interessante para falar do que ficar com essa lenga lenga de “o mercado está aquecido”, dona Cris… Lamento pelo Estadão ter desperdiçado uma oportunidade de esclarecer sobre a carreira aeronáutica para quem quer saber mais sobre a profissão de piloto com essa reportagem medíocre.

21 comments

  1. Jônatas Gabriel
    5 anos ago

    Olá!
    De muito aprecio seu blog, contudo discordo de algumas das suas críticas. Explico:
    Concordo com o centro de seus comentários: faltam melhores informações nas reportagens aeronáuticas. Contudo, boa parte destas duas estão corretas. De fato seria interessante que ela especificasse que empresas estão contratando e que ela melhor justificasse sua afirmação. Porém, é compreensível o fato dela não fazê-lo, uma vez que as empresas que estariam contratando na época podem não estar mais no outro dia, ao passo que empresas que não estavam agora estarem. Neste exato momento, a Avianca precisa de co-pilotos para suas aeronaves Airbus, a NHT precisa de comandantes e até ontem à tarde, após semanas de divulgação, solicitava co-pilotos com 250h de voo EXIGINDO CIÊNCIAS AERONÁUTICAS, sendo que antes ela contratava co-pilotos sem ciencias aeronáuticas mas com um mínimo de 500h de voo. Neste último período, porém, só quem tivesse C.A. poderia candidatar-se. Já a Azul busca mais profissionais, aceitando currículos e tomando medidas quanto ao preenchimento de vagas futuras (como a criação da ASA). Além disso, a TRIP e a Passaredo vão aos poucos contratando mais pilotos e co-pilotos, especialmente com a chegada de novas aeronaves. E, ainda, a ABSA contrata tripulantes para seus Boeings 767. (Dados dos sites das empresas e do pilot career center – http://www.pilotcareercenter.com)

    Quanto à informação ao mínimo de horas, elas estão incorretas, mas não por completo. Na verdade, elas estão desatualizadas. Há alguns anos, por volta de 2008 a 2009, era fato o que ela informou: 1500h para co-pilotos sem C.A. e 500h para com C.A. De fato, a TAM, HOJE, conta pontos para nível superior não especificamente C.A., mas sabe-se muito bem que a preferência é para estes, uma vez que este é o curso específico para formação, a nível superior, de pilotos. Na Avianca especifica-se nível superior com preferência em Exatas e na Azul fica claro na página de contratação que C.A. é vantagem, embora não seja mínimo. Contudo, algumas empresas começam a serem bem específicas, como é o caso da NHT, que antes exigia 500h para ingresso como co-piloto sem C.A. e 250h com C.A. Nas últimas semanas, contudo, a companhia abriu vagas somente para pilotos com C.A., continuando a exigir apenas as 250h horas de voo. E, ainda, a Passaredo Linhas Aéreas, no início do ano, contratava co-pilotos com C.A. exigindo 300h de voo. Já para co-pilotos sem C.A., eram exigidas 500h de voo. Além disso, a Azul tem parcerias com o Santander e a PUCRS, onde os recém-formados ingressam direto nas cabines da Azul (http://www3.pucrs.br/portal/page/portal/facauni/facauniCapa/facauniNotEventos) e o Santander possibilita o financiamento da prática de voo tendo a Azul como fiadora.

    Quanto à afirmativa da segunda reportagem, ela está errada quanto ao termo que a jornalista empregou, porém, ainda assim, é possível entender-se que ela referia-se à prova teórica, uma vez que a graduanda explica que o primeiro período prepara para a prova de piloto privado para, então, começarem-se as horas práticas. Porém, é fato que ficou muito mal explicado, especialmente para um leitor leigo no assunto.

    Concluo concordando que as reportagens, de fato, deixarem a desejar, e em muito. Espero, tão somente, ter colaborado no esclarecimento e na comprovação de alguns assuntos que, possivelmente, sejam de interesse. Por fim, porém, se em algum momento ofendi ou faltei com respeito a alguém, peço adiantadamente desculpas e espero que se entenda que meu intuito único foi o de colaborar com conhecimento e informações a todos companheiros e amigos aviadores e futuros pilotos.

    Bons voos a todos!

    • Raul Marinho
      5 anos ago

      O problema maior da reportagem, na realidade, é que ela é mais um merchamdising do curso da Anhembi Morumbi do que uma matéria jornalística. Ou seja, ela não é imparcial. E, se reflete a realidade de 2008, está desatualizada. Além de imprecisa, como vc mesmo apontou.
      Então, juntando os adjetivos acima citados, concluímos que a reportagem é um lixo.

  2. André Araújo
    5 anos ago

    Faz tempo que a questão da formação e regulamentação do jornalismo é questionada. De fato, o que se via antigamente é que os jornais eram o reduto de gente pensante, esclarecida, informada; e que, quando tinha um ou outro assunto mais técnico a esclarecer, buscava a orientação de alguém “do ramo” – que acabava virando colunista, através de suas contribuições.
    O que vemos hoje é nada mais nada menos que um reflexo dos dias atuais: um povo novo, desinformado, sem noção de história e de como a humanidade chegou até aqui, servido como repórteres – não jornalistas. E a função do repórter parece ter sido descaracterizada tanto quanto a de garçom em self-service; já nem abre a garrafa, apena traz até a mesa e rabisca a comanda.
    Assim, pouco parecem importar os fatos para quem faz da vida um mero corre-corre atrás da manchete que irá vender o jornal – que aliás, tá mais para quadrinhos que para jornal (menos texto, mais figuras e manchetes).
    A informação, de fato, está a cada dia mais difícil e as pessoas tem uma “opinião formada” sobre assuntos que pouco conhecem. A internet é um oceano vasto, mas também repleto de bobagens ecoadas das mesmas fontes. Aliás, podíamos dividir o tempo em antes e depois do control-c/control-v.
    “Motorista de bimotor”? Gostei. Aliás, combina com o novo uniforme da Gol…

  3. Fred Mesquita
    5 anos ago

    O que deve acontecer é que algum jornalista do “Estadão” deve ser muito amigo dos diretores dessa faculdade e com essa matéria super sensacionalista (e por que não dizer pretenciosa), a cada novo aluno matriculado no curso, uma “comissão” vai ser paga ao jornalista que fez a matéria. Só isso que imagino e é o que muitos hoje fazer em outros meios de comunicação sensacionalistas e irresponsáveis. Em épocas passadas lembro muito bem das “panelinhas” no qual cada novo emprego indicado pelo fulano de tal, os 2 ou 3 primeiros salários do “novo contratado” ia direto para o bolso de quem o indicou no emprego de piloto. Era assim sempre, ou ninguém conseguia sair do buraco. Estão fazendo o mesmo nessas matérias escritas por redatores idiotas e despreparados.

  4. Heron
    5 anos ago

    Raul, será que porventura o Sr Edson Gaspar não quis dizer por exemplo que, em breve eu, aluno de Administração, poderei pilotar um avião também, uma vez que seus alunos de Aviação Civil estarão aptos e legítimados para administrar empresas?

    Heron

    Estudante do 4º de Admisnistração

    • Raul Marinho
      5 anos ago

      Rarararara! Boa!

      Enviado via iPad

    • Raul
      5 anos ago

      Aff!! Estudante de Aviação Civil

  5. Matéria de Aviação em alguns jornais e site eu não tenho nem vontade de olhar porque não acredito nas besteiras que colocam. O pior (ou melhor, não sei), quando alguém, alheio a aviação lê algumas destas matérias e posteriormente vem comentar conosco que estamos no meio, começamos a desmentir, apontar e explicar a real situação de mercado, formação, etc. Tenho uma prima cursando jornalismo, já estou aproveitando para apresentar nosso mundo para ela, para num futuro quem sabe, ela não venha a fazer reportagens medíocres a respeito de aviação.

  6. betoarcaro
    5 anos ago

    Raul…
    Cruz Credo!!!
    Quanto mais a gente “Reza”, mais assombração aparece!!!
    Acredito que a própria ANAC, como o órgão relacionado ao setor, deveria elaborar “Reprimendas” a matérias como essas! Como órgão “político”, também, e obvio que ela nao vai fazer isso!
    Precisa ser Jornalista pra escrever no “Estadão”? Estão formando jornalistas de forma pior do que estão formando Pilotos ?
    Vamos publicar uma revista “especializada”?
    Só uma idéia !

    • Raul Marinho
      5 anos ago

      ANAC preocupada com matéria no Estadão???? Pfffff… Conta a do padre, agora! Eu fiz faculdade de Jornalismo (não me formei, mas cursei um ano), e se vc soubesse como o curso é esculhambado… Mas o Estadão costuma manter um certo nível, daí a minha surpresa com a matéria. Lamento que até ele tenha sucumbido. Quanto à revista, do jeito que a gente é “mala”, vai ser difícil arrumar patrocinador… Talvez a Samsonite ou a Le Postiche topem! Abraços, Raul

      • betoarcaro
        5 anos ago

        Hahaha!! Revista “Mala do Bem”, nao tem vez!!
        A gente fica “Mala” quando percebe que o “Marketing”, a “Política”, e a “Ignorância”, estão levando a Aviação para um lado muito, digamos, “Permissivo”! Mas, infelizmente, se eh isso que o povo gosta….Melhor ficar com o “Blog”, mesmo!

  7. Ricardo
    5 anos ago

    Disciplinas:
    Teoria de voo e aerodinâmica, conhecimentos técnicos, meteorologia aeronáutica, regulamento de tráfego aéreo

    Opa, não mais preciso aprender a navegar? cadê a matéria de Navegação Aérea? kkkk

  8. roquini
    5 anos ago

    Raul, ótimos comentários!
    Aproveitando a “deixa”, você pode nos dizer alguma coisa sobre a formação no exterior? Especificamente nos EUA?
    Estou pesquisando muito na internet sobre isso, de fato, financeiramente, o valor fica próximo (nos EUA) à formação no Brasil. Quais os benefícios (sem considerar, óbvio, o inglês) de se formar lá? A sua habilitação FAA faz tanta diferença aqui? É difícil validar suas horas e habilitações aqui no Brasil?

    Muito Obrigado!!!
    Abcs

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