Já sou PC! E agora?

By: Author Raul MarinhoPosted on
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“Depois dos relacionamentos que levarão a um bom QI, a principal preocupação do PC recém formado deve ser quanto à sua indicabilidade: quanto melhor o currículo do piloto, mais fácil dele ser indicado, e maiores as chances da indicação resultar em uma contratação efetiva” – Tite, técnico do Corinthians

Há um leitor deste blog que, já há bastante tempo, corresponde-se comigo, tirando dúvidas pontuais. Ocorre que, agora, ele levantou uma questão realmente importante, como se pode perceber pelo trecho de seu e-mail que eu reproduzo abaixo. Resumidamente, a questão dele é: “Ok, e quando eu já tiver com minha carteira de PC, o que eu faço para me tornar um piloto viável profissionalmente? Como conseguir obter a experiência mínima necessária para conseguir um bom emprego, uma vez que ninguém contrata os inexperientes?”. Esta é a pergunta de US$1milhão da formação aeronáutica! Passar nas provas teóricas e nos exames médicos, conseguir a grana para pagar as horas de voo, lidar com as idiossincrasias da ANAC… Nada disso é fácil, mas pelo menos há um caminho que, se trilhado corretamente, chega-se a um resultado favorável – um caminho muitas vezes com enormes ladeiras para subir, esburacado, mal sinalizado, mas uma trilha que existe, pelo menos. O problema é que, depois de formado PC, não existe mais nenhuma trilha previamente construída: a partir do momento em que o carteiro te entregar a CHT de PC, é preciso aprender a abrir seu próprio caminho. E é aí que a coisa aperta de verdade!

Ocorre que, se não existem trilhas, pelo menos há “técnicas de engenharia” para que você possa construir seu próprio caminho para se tornar viável profissionalmente. Lógico que não bastará conhecer essas técnicas, você precisará de “tratores, concreto, asfalto, operários, etc.” – mas saber o que você precisa fazer já é um começo, então vamos ver o que dá para fazer: este é o objetivo deste post. Vamos começar pelo e-mail do leitor, cujos trechos principais seguem abaixo:

 (…)

Estou descrevendo meu planejamento para a formação aérea e transição de carreira e ai cheguei em um nó.

A questão é a seguinte após a formação de PC todo piloto precisa partir para obter experiência ou se for sortudo conseguir logo um emprego, porém enxergo a situação do seguinte prisma :

Conseguir um emprego após o PC é praticamente impossível (menos que exista um ótimo QI) pois para um empregador sério contratar um uma pessoa sem experiência profissional é muito arriscado, pois para alguém ser considerado  profissional não basta ter habilitação técnica, outros fatores como comprometimento, responsabilidade são fundamentais e isto não é todo profissional que possui e tenho certeza que a aviação não é diferente.Se eu fosse o patrão daria preferência para quem já tem alguma experiência nem tanto pelo candidato ter algumas horas de voo a mais porém a vivência num ambiente profissional seria uma boa referência apesar de não ser uma certeza de sucesso.

A segunda opção seria a de  instrutor de voo; acredito que esta opção seja a preferida dos recém brevetados, inclusive meu irmão que está com aproximadamente 300h adotou está opção  além de fazer uns voos freelancer em um bi-motor (claro que de graça)

A terceira opção que observo é justamente voar para alguma alma bondosa ou esperta, mesmo que de graça todo o tempo; nem sei se na prática esta opção existe.

Sendo assim podemos concluir que : Se emprego remunerado não existe; como instrutor você vai ganhar uns 2 paus tendo que ficar quase que a todos os dias a disposição e voar de graça parece algo que não vale a pena, pois se existe uma opção de pelo menos ganhar pouco porque alguém trabalharia de graça.

Com este raciocínio estou pensando como vou chegar nas 500 horas para disputar uma vaga de copila.Sem duvida as circunstâncias pessoais diferem, no caso do meu irmão se ele precisar ficar 2 anos ganhando uma merreca não será problema, para ele realmente oque mais importa é voar independente da remuneração.

Mas para mim a situação já é diferente preciso faturar algum para cuidar da familia, obviamente exercendo minha profissão em paralelo com a aviação isto é possível, mas será que dá para fazer isso? ou se virou o piloto esquece o resto pois não dá para acompanhar ?

Outra opção que pensei era de trabalhar numa empresa da aviação executiva para uma função na qual a engenharia possa ser aproveitada juntamente com a formação de piloto e desta forma poderia voar e trabalhar em uma outra função, para ganhar um salário suficiente, mas não sei se isto é possível.

(…)

Pois é, esse nó que você se refere é o que eu chamo de “dilema de Tostines ao contrário”. A Tostines tinha uma propaganda em que perguntava se seu biscoito é mais frequinho porque vende mais, ou vende mais porque é mais fresquinho. Já o piloto recém-formado não consegue ter experiência porque não arruma emprego, e como não arruma emprego, tem dificuldades para conseguir acumular experiência. É um dilema complicado mesmo, mas pense da seguinte forma: cada um dos milhares de pilotos profissionais que existem hoje em dia já enfrentou esse mesmo dilema e, de alguma forma, conseguiu superá-lo. Saber disso não te ajuda em nada a saber como resolver a charada, mas pelo menos te tranquiliza quanto ao fato do problema ser solucionável. Não é preciso haver um milagre para chegar às 500h: Deus não precisa abrir o Mar Vermelho para você ser contratado; a Virgem Maria não precisa descer no departamento de RH de uma companhia aérea para seu currículo ser selecionado . Essa é a primeira coisa que precisa ficar clara: tenha confiança no seu taco – a coisa é difícil, mas não é impossível.

Você fala que, “Conseguir um emprego após o PC é praticamente impossível ([a] menos que exista um ótimo QI)”. Ora, meu caro, então porque você não trabalha para obter o seu ótimo QI? Muita gente acha que QI é uma dádiva divina, mas na realidade o QI é, na maior parte das vezes, construído no decorrer do processo de formação aeronáutica. Eu já escrevi muito sobre isso, dê uma olhada aqui que você encontra bastante informação sobre o assunto. É construindo uma boa rede de relacionamentos que você encontrará as respostas para as duas próximas questões que você levantou, por sinal.

A primeira é quando você avalia a possibilidade de ser INVA, mas já a descarta porque esta seria uma atividade que tomaria demais o seu tempo, o que o obrigaria a abandonar seu emprego atual, inviabilizando sua vida, na prática. Bem, de fato a profissão de instrutor (o INVA “típico”, pelo menos) é mal remunerada e requer muita dedicação, o que faz com que ela seja muito mais adequada para os jovens que não precisam sustentar uma família, o que não é o seu caso. Mas existem INVAs que trabalham somente nos finais de semana, por exemplo (no ASP, conheço vários assim), e embora isto não seja a regra, o fato é que é possível encontrar um aeroclube que concorde com um contrato de trabalho nestes termos. Assim, você poderia manter o seu emprego atual por um tempo, enquanto acumularia horas voando nos finais de semana como INVA. Dá para fazer isso, é só uma questão de ter um bom QI com os dirigentes do aeroclube (e aí voltamos ao item anterior…) – está vendo como até para isso é importante construir uma boa rede de relacionamentos?

E também será por meio de uma boa rede de relacionamentos que você poderá resolver o problema do primeiro emprego da outra maneira que você apresentou. A “alma bondosa ou esperta” que poderia lhe oferecer uma oportunidade na aviação executiva somente o fará se você tiver um bom relacionamento com ela. E diria mais: seus relacionamentos poderão lhe abrir portas também no táxi aéreo, e até na aviação comercial (que também contrata recém-formados em alguns casos). Percebe como essa história de “QI & Relacionamentos” é importante?

Sua última questão – trabalhar em empresas de aviação em funções que não de piloto – é uma possibilidade viável e interessante também. Se você encontrar uma brecha para se infiltrar no meio aeronáutico pela porta da Engenharia, ótimo! Por que não? Na verdade, esta nada mais seria do que uma maneira de construir relacionamentos que poderão lhe ser úteis na sua carreira de piloto. E o QI é obtido assim mesmo: cavando alternativas e aproveitando as possibilidades que surgirem, das mais variadas maneiras.

Finalmente, há que se falar sobre a, digamos, “indicabilidade” (sem querer dar uma de Tite aqui). A questão é a seguinte: de nada adianta você ter um baita de um QI, mas um currículo sofrível. Não é por que você tem bons relacionamentos que você pode descuidar da qualidade da sua formação, o que significa ter, além da licença de PC, as habilitações de MLTE e IFRA (e se for possível agregar algum TIPO, tanto melhor), ICAO-4 ou mais, Jet Training, e PLA teórico, além de curso superior (que você já possui). Assim, ficará muito mais fácil de você ser indicado, e, principalmente, de sua indicação resultar em contratação. Aí, meu amigo, você rompe esse círculo vicioso do “dilema de Tostines ao contrário”, e consegue se estabelecer na aviação.

Boa sorte!

P.S.: Recentemente, publiquei um post com conselhos de um veterano para obter o primeiro emprego que talvez ajude. Dê uma olhada nisso.

8 comments

  1. Valdnei de Carvalho Suzzio
    5 anos ago

    Jamais voarei de graça , pra voce se formar vai quase R$100mil , ninguem tem que voar de graça não , senão só aparecerão empresários espertos e a carreira de Piloto ficará deteriorada .

    • Marco
      3 anos ago

      Cara eu também acho isso ridículo, e ando me arrependendo de tre feito o curso, é meu sonho, mas nao gastei uma nota preta co hrs de voo, passagens aereas, alojamentos, faculdades, dificuldades com anac, dificuldades com aeroclube, 5 anos numa faculdade de 1200 reais por mes pra agora servir de otário pra filha da puta, isso é ridículo, trabalhar de graça, e ainda querem que vc chegue 6 da manha todos os dias. ah meu, vao pra porra, sinto muito, mas se for assim… tanto esforço, tanto gasto pra depois de checado PC MULT IFR trabalhar de graça? ah nao, vou trabalhar como engenheiro mesmo por enquanto, é mais digno.

  2. Marcel
    5 anos ago

    Já sou PC! E agora?
    Tira o PLA e jet training e vira instrutor de voo acumula horas de voo e tenta uma linha aérea ou um taxiaereo então.

  3. Fred Mesquita
    5 anos ago

    Vai aí a dica, muitas vezes falada em alguns Blog e aqui também… No início da carreira, ainda nas aulas teóricas, “construir” amizades é o caminho mais viável e sólido. É dessas amizades que surge as oportunidades. Praticamente só se consegue entrar num avião se for através do convite de um “amigo” da aviação. Continue com seus estudos e sempre procure ser o mais humilde possível. Ser humilde não é a mesma coisa do que se humilhar, mas a humildade é o bom caminho em qualquer profissão. Boa sorte a todos.

  4. Hudson Eduardo
    5 anos ago

    Bomm, a pessoa nao querer voar porque é ‘merreca” e depois reclamar que nao tem opcao? Quem quer,faz… sei que é realmente dificil, mas no comeco, tudo é dificil e mesmo tendo um otimo QI e amizade e talz, se vc nao tiver um curriculo “bom”, nem se a Virgem Maria descer no RH, nao tem jeito.
    Ah, se o irmao é PC, nao entendo o motivo de “trabalhar” de graca, pra min, isso nao existe….
    VLW!

  5. Davysson
    5 anos ago

    Olá
    Não querendo ser alguém experiente no ramo , mas pretendo seguir carreira e vou ,na minha opinião ficara difícil para ele se empregar , por que nem como INV pretendo trabalhar pois é baixa a remuneração , hoje essa alternativa é a mais viável , para quem quer chegar nas suas 500 h/voo , em outros termos : Tem que ralar cara, correr atras se você deseja mesmo ser piloto , se ele fosse como o irmão , que voa ate de graça ,seria uma boa para acumular horas , logico que visando acumular horas para poder concorrer a nível de outros e não só por prazer de voar .
    Abraço ‘

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