Comentários sobre o programa de formação de pilotos Azul-EJ-Santander

By: Author Raul MarinhoPosted on
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Conforme noticiado aqui, ontem ocorreu o lançamento do programa de formação de pilotos da Azul Linhas Aéreas (por meio da criação da ASA-Academia de Serviços da Azul), em parceria com a EJ Escola de Aeronáutica e o Banco Santander – na minha opinião, uma das iniciativas mais importantes da formação aeronáutica brasileira dos últimos anos. Ela torna-se ainda mais importante porque acontece num momento peculiar da aviação no Brasil, em que:

  • As companhias tradicionais (TAM e Gol) apresentam resultados financeiros péssimos, sendo que a Gol acabou de demitir centenas de funcionários (pilotos inclusive), mas as companhias menores (TRIP, Avianca e, principalmente, a Azul) só crescem, tanto em frota quanto em participação de mercado (e, por consequência, contratam pilotos);
  • O governo interrompeu toda ajuda ou subsídio para a formação de pilotos: não há mais aeronaves sendo doadas para os aeroclubes (nem gasolina barata), o tímido programa de bolsas da ANAC que havia está suspenso há dois anos, e nunca foi tão caro tornar-se piloto como atualmente;
  • Existe a perspectiva iminente de mudança na regulamentação relativa à concessão de licenças e habilitações, com a edição do RBAC-61, que está para ser publicada há mais de um ano – e esta mudança incluiria uma nova habilitação, o MPL; e
  • Há uma certa bipolaridade no mercado quanto à falta de pilotos: enquanto alguns segmentos reclamam da falta de profissionais qualificados, pilotos novatos se amontoam nos aeroportos, à espera de uma oportunidade que nunca aparece.

E aí, no meio dessa cacofonia, aparece um programa de treinamento que promete emprego quase-garantido de piloto (pelo que se lê nas entrelinhas, só não vai ser contratado quem “pisar muito na bola” no decorrer do treinamento), direto na linha aérea, e financiado a longo prazo. É ou não é digno de nota?

“Ah, mas o juro do financiamento do programa é caro!”. Bem… 1,89% ao mês equivalem a mais de 25% ao ano, o que de fato não é barato; e se o aluno financiar todos os módulos, conforme o fluxo de caixa apresentado aqui, o valor total dos três módulos vai saltar de R$76.760,00 para R$128.854,20 – ou seja: o aluno vai pagar R$52.094,20 só de juros! Só que, além do aluno não ser obrigado a tomar esse financiamento (que pode ser parcial, ou em prazo menor – logo, com menor incidência de juros), há que se levar em conta que, como o aluno do programa começa a trabalhar mais cedo do que da maneira tradicional, o certo seria colocar na balança o que essa vantagem significa, financeiramente (vamos tratar disso mais adiante). Mas o mais importante é o seguinte: não há alternativa de financiamento no mercado. Fora essa linha do Santander, não há opção para quem precisa tomar dinheiro emprestado para a formação aeronáutica, a não ser que o sujeito refinancie o carro, a casa, faça um crédito pessoal, todas opções muito piores que esta linha específica. E há um detalhe muito importante: no site da ASA há uma menção a uma fiança da Azul, ou seja: esta linha, em princípio, também estará disponível para quem não teria condições de obter crédito neste montante no mercado.

“Ah, mas o custo da EJ é muito superior ao do aeroclube da minha cidade!”. Não é novidade para ninguém que a EJ é uma das alternativas mais caras de formação aeronáutica do Brasil, e embora o valor médio da hora de voo cobrado no programa ASA seja um pouco inferior ao valor de tabela da EJ (uns 10% mais barato, num cálculo aproximado), ainda assim deverá ser mais caro se formar pela ASA do que pela maioria dos aeroclubes. OK, mas… Quanto vale o fato de você se formar mais rapidamente, e ter um emprego te esperando tão logo você receba sua CHT? Na formação tradicional (em aeroclube), sortudo daquele que consegue fazer PP+PC em 2 anos; e depois de formado, o caminho tradicional passa por, no mínimo, mais dois anos “fazendo hora” (com remuneração praticamente nula) para poder concorrer a uma vaga de copiloto em companhia aérea. No total, o programa ASA economiza pelo menos 3 anos para o participante poder começar a ser remunerado. Então, façamos as contas: 3 anos são 36 meses; e se um copiloto da Azul ganhar R$5mil/mês, estamos falando de uma renda de R$180mil que não existiria se a pessoa trilhasse o caminho tradicional.

“Ah, Raul, mas aí não vale! Porque, se for assim, temos que subtrair o valor do salário a mais que o cara teria, se trabalhasse na TAM/Gol, já que a Azul é a que paga os menores salários do mercado”. É verdade que as companhias tradicionais pagam R$8-9mil para copilotos, cerca de R$4mil a mais que a Azul. O problema é que, se o sujeito for pelo caminho tradicional, o ponto de equilíbrio – quando a renda total obtida da Azul seria igual à renda total obtida na TAM/Gol – dar-se-ia no 45º mês após a contratação por uma companhia tradicional (R$180mil dividido por R$4mil), ou seja: quase quatro anos. Contando desde o início, quando o copiloto da Azul começou a trabalhar, seriam sete anos! O problema é que, como esse prazo é muito longo, começam a surgir outras variáveis, como: a)A perspectiva de promoção a comando na Azul é que ela aconteça muito mais rapidamente que na TAM/Gol; b)A Azul é uma companhia que pode começar a voar para o exterior e/ou utilizar aeronaves maiores (A320?), o que resultaria em salários mais elevados no futuro; etc. Aí é um problema de futurologia que não gostaria de me aprofundar.

Eu ACHO – e aqui vai minha opinião pessoal, baseada somente nas informações públicas – que essa iniciativa da Azul está na fase de testes ainda. São somente 20 vagas para pilotos, o que mal supre as necessidades de 3 novas aeronaves (cada uma requer uma média de 7 copilotos), e as encomendas da Azul são bem superiores a isso. Ainda há muitos pontos nebulosos no programa, como por exemplo: a)Como vai funcionar essa fiança que a Azul concederá para o banco? A companhia fará uma análise de crédito do candidato, e o executará em caso de inadimplência?; b)E as tais “bolsas” que poderiam ser concedidas a candidatos carentes? Quais os critérios?; c)E os concursos admissionais, o que seria avaliado? E as avaliações finais?; d)E se o piloto, após formado, quiser ingressar em um concorrente, o que o impediria?; e muitas outras.

Eu também ACHO (novamente, é só minha opinião) que a Azul percebeu que não seria interessante investir no MPL (e, para mim, a ASA era para ser, originalmente, uma escola voltada para o MPL), e reformatou o projeto para o formato atual. A ANAC demorou tanto para publicar o RBAC-61, regulamentando o MPL, que deu tempo para a Azul perceber que há no mercado muita gente disposta a pagar por sua formação completa de PC-IFR/MLTE, ICAO, Jet, PLA, uma mão-de-obra muito mais capacitada que os MPLs, e pelo mesmo preço.

Tudo é muito novo, e vamos descobrir aos poucos os detalhes sobre este programa. Sabemos que não é um programa definitivo, e que deverão vir muitas alterações no futuro. Sabemos também que não será um programa viável para todo mundo, principalmente para quem já trabalha em outra profissão, e usa esta renda para pagar sua formação aeronáutica. E, mesmo para quem conseguir a tal bolsa aventada na reportagem do Terra (isso não consta no site da Azul, é bom deixar claro), só para pagar a estadia/alimentação/transporte em Itápolis por um ano, mais as aulas de inglês (o programa inclui o custo da prova ICAO, somente), e os vários outros custos que sempre surgem, vão-se aí mais uns R$30mil, por baixo, a ser gasto em um ano – o que não é para qualquer um, convenhamos. Mas tudo isso não muda o fato de que esta é uma das novidades mais espetaculares da formação aeronáutica brasileira da atualidade.

Voltaremos a falar dela sempre que surgirem novidades.

14 comments

  1. LUIZ CARLOS TOSIN
    4 anos ago

    PORQUE SERÁ QUE AS EMPRESAS NÃO OFERECEM OPORTUNIDADE PARA QUEM JÁ TEM FACULDADE DE CIÊNCIAS AERONAUTICAS,PP, PC, MULTI,IFR, INVA, ICAL 4, PLA TEORICO MAIS 300 HORAS DE VOO,COM 28 ANOS DE IDADE E QUE NASCEU PARA SER PILOTO, TUDO ISSO CONSEGUIDO COM MUUUUUITA DIFICULDADE????????MESMO QUE FOSSE COMO APRENDIZ!!!

  2. Rodolfo
    5 anos ago

    Amigos, penso o seguinte.

    Tudo aquilo que vem para ajudar, por menor que seja, é bom.

    O Projeto Piloto da ANAC, foi EXTREMAMENTE paliativo para “Inglês ver”, eles pagavam 75% das horas de vôo, pelo que disseram, eles pagariam, porém tu ia voar lá nos cafundós do judas… porém, deve ter ajudado alguém, então é bom.

    Eu, sinceramente, tento ver as coisas pelo lado bom, quando tem! um dos grandes problemas da aviação Brasileira é exatamente esse, tem muita gente para criticar e poucas para ajudar, quando alguém lança alguma idéia, vem uma tropa para “jogar pedra”.

    A aviação ainda é uma classe elitizada, infelizmente, quem tem dinheiro se forma rapido, quem não tem… demora ou não se forma.

    Um abraço a todos.

  3. Humberto
    5 anos ago

    Há muitas dúvidas a serem esclarecidas a respeito desse programa de formação de pilotos.

  4. Samuel
    5 anos ago

    E quem quiser entrar nesse programa, ja sendo PP, teria que recomeçar?

    • Raul Marinho
      5 anos ago

      Embora isto não esteja no site, parece que é possível ingressar direto no modulo 2. Mas esse é um dos pontos que precisam ficar mais bem explicados.

  5. Humberto Rodrigues
    5 anos ago

    Raul e demais, boa tarde.
    Primeiramente, parabéns pelo seu talento. Você consegue ter uma visão ampla e uma análise detalhista e crítica dos assuntos abordados.
    “Segundamente” (parafraseando nosso saudoso Vicente Mateus), conversando com um amigo que voa Linha Aérea, mas não na Azul, o mesmo comentou que essa bolsa é apenas para quem já é empregado (Público Interno) da empresa e não possui Carteira. Quem não se enquadra nessas condições, passa pelo processo seletivo que a empresa tem feito para o “Público Externo”. Você encontrou esses detalhes nas notícias referente ao assunto em algum meio de imprensa?
    “Terceiramente” (seguindo a linha de pensamento do saudoso Vicente), como funcionará esse “financiamento”? Seria um “empréstimo consignado”? Não sendo um pessimista, mas um realista (principalmente a longo prazo) como ficaria a situação de um piloto em atividade na empresa formado dessa maneira e o mesmo for demitido com ou sem justa causa? Como ficaria a situação dele com essa dívida ainda a saldar?
    Creio ser uma situação delicada a ser muito, mas muito bem analisada. Principalmente a longo prazo, pois uma das atividades da economia de um país mais sensíveis à variações, é a aviação. Quando um país começa a sentir uma “cólica” ela é uma das primeiras a sentir a “diarréia” vindo. E devido a vários fatores internos e externos ao país, a “Presidenta” e o Ministro “Manteiga” têm aplicado algumas medidas “Imosecs” na economia nacional para que a mesma não “desande”. Não interessa se é o mercado de linha aérea dos grandes centros ou a de vôos regionais. O que intressa é que eles estão sob a mesma economia. Particularmente sugestiono àqueles que pretendem realizar o “sonho” de voar desse modo, terem um pouco de cautela com a parceiria “Azul-Santander-EJ” e saber como realmente funciona, do começo ao fim e o custo-benefício. Se os pontos positivos forem maiores que os pontos negativos, tenham ótimos vôos!

    Abraxxx

    Humberto

    • Sander Ruscigno
      5 anos ago

      Caro Raul, permita-me responder o Humberto em seu nome…

      Segundamente: Esta claro no site da Azul que o programa é para NÃO funcionários. Com relação ao processo seletivo, não há muitos detalhes….

      Terceiramente: Não há como fazer empréstimo consignado se não há vínculo empregatício. Sendo assim, trata-se de um empréstimo como qualquer outro, onde a Azul será a fiadora, este empréstimo é semelhando ao praticado no exterior, como é o caso da Britsh Airways. Você saindo, entrando, ficando, não importa, a sua dívida permanece e você terá que pagá-la, sendo ou não funcionário da Azul no futuro. Lembro que o financiamento é do CURSO de piloto, não há garantia de emprego, apenas de uma oportunidade de seleção.

      Espero ter sanado as suas dúvidas…

      Abraço

      • Raul Marinho
        5 anos ago

        Legal, tks!

        Enviado via iPad

      • Humberto
        5 anos ago

        Obrigado Sr. Ruscigno.

        Desejo uma boa sorte a todos e ótimos vôos!

        Humberto

    • Raul Marinho
      5 anos ago

      “Betojet”, primeiramente: obrigado! Em relação ao seu comentário e mais algumas coisas que a gente conversou via Twitter, é o seguinte: -Esse teu amigo da linha aérea está equivocado. No site da Azul, um dos pré-requisitos apresentados para inscrição no programa é justamente NÂO ser funcionário da Azul! Talvez até haja um outro programa, específico para funcionários da empresa, mas esse não é, com certeza. -O empréstimo, pelas informações apresentadas, é um crédito pessoal comum, só que afiançado pela Azul. Ou seja: independente de vc estar trabalhando (na Azul ou fora dela), vc tem que pagar, e ponto. Se não pagar, o banco executa, e se mesmo assim não der acordo, a Azul paga o banco e cobra de vc. Aí entra no rito comum de uma execução: penhora de bens, hasta pública, etc. Acredito que, no caso de funcionários inadimplentes, haja a possibilidade de algum acordo com parcelamento e desconto em folha, mas isso não significa que seja uma operação de crédito consignado na sua origem. -Sobre cólicas, diarréias e Imosecs, concordo plenamente. -Sobre a comparação deste programa com a EVAER (comentado no Twitter, assim como os próximos tópicos), na minha opinião não tem nada a ver. A EVAER era uma escola própria da VARIG, uma espécie de AFA privada, muito diferente da proposta da ASA. E, sinceramente, eu não acho aquele modelo o ideal também… Nós, por exemplo, jamais seríamos aceitos na EVAER, que era bairrista (privilegiava gaúchos abertamente), voltada a atender, principalmente, os filhos de comandantes variguianos, criando uma dinastia na empresa, e não aceitava “velhos” (o limite era 27 anos, se não me engano).  -O programa da Gol era mais garantido? Bem… Era, até porque não se tratava exatamente de um “programa de treinamento”, né? (Não posso falar mais que isso, senão sou processado). -Se vai dar certo? Para a EJ e para o Santander, vai com certeza. Para a Azul… Na pior hipótese, ela empata. Quem correrá o risco, como sempre, serão os alunos. Mas eu sou otimista, e acho que a maioria vai ter o que espera. Com a atual dificuldade para ingressar no mercado de trabalho da aviação (eu que o diga), essa é uma das únicas portas mais abertas que existem atualmente. -Sobre eventuais rusgas com outros comentaristas, eu não vi nada demais. Fique tranquilo. Abração, Raul 

      • Humberto
        5 anos ago

        Obrigado Raul.

        Boa sorte aos candidatos e ótimos vôos.

        Um bom fim de semana.

        Humberto

  6. betoarcaro
    5 anos ago

    Olá Raul,
    Muito bem comentado e explicado!
    Muito Bom!

    Primeiro:
    Todo mundo sabe, que MPL não funciona. A própria Azul sabe muito bem disso!
    Nos EUA, o MPL foi abominado.
    Outra coisa: A EJ tem tradição em fazer dessas.
    Antes, só se entrava na Gol, se fizesse EJ!
    Mas, tinha que pagar “do bolso”!
    A única diferença é que agora tem “Crédito”!
    Quem é que não perde nada com isso?? A própria EJ!!
    Com crédito ou sem crédito, qual vai ser a influência disso tudo na formação efetiva de “Aviadores”??
    Aviões sucateados, instrutores de baixíssimo nivel, “Normatização” da Educação Aeronáutica completamente “maluca”….E aí?
    Na minha opinião, o “Pretenso Aviador”, vai financiar algo caro,na verdade,um “Ouro de Tolo”.
    Vai pagar a vida inteira, por um “Denorex”! Vão formar Aviadores?
    Não! Vão formar “(Co)Pilotos da Azul”. E é Só!
    O Aviador, vai continuar “Pretenso”!

    Abraços
    Beto

    • Raul Marinho
      5 anos ago

      Vc disse o que não pude… Tks!!!

    • André Araújo
      5 anos ago

      Gostei muito do comentário do Beto Arcaro; bate, em linhas gerais, com algumas linhas (ou entrelinhas) já escritas pelo Raul em outros tópicos de seu blog.
      Algumas lições devemos tirar de tudo o que já vimos de antigamente até o hoje: todas as vezes que a imprensa comenta alguma coisa sobre aviação deixa nos ouvidos uma sensação de “matéria paga” por alguém. Para todos do meio aeronáutico, a tal falta de pilotos só existe no Jnoticiário da TV.
      A realidade é simples; quem quiser ser piloto tem primeiro que fazer sua parte: estudar, pagar curso após curso, fazê-los bem e tratar de não perder as oportunidades que hão de aparecer ao longo da vida. Lembro-me do funcionário da Coca-Cola que chegou a gerência da empresa e contava com saudade do dia em que, subalterno, passou pelo setor de engarrafamento e viu um pilha de cacos de garrafa no chão. Buscou vassoura, varreu, abaixou-se, juntou, recolheu. Foi visto por um chefe de setor que reconheceu no gesto simples e expontâneo um funcionário comprometido com a empresa. Foi o começo da carreira.
      Mas só fazer a sua parte não basta, porque tem muita gente boa que fez e faz isto e continua parada vendo avião subir e descer. Então, a outra parte da realidade é que hão de surgir empregadores e empregadores – eis aí o outro lado do negócio. É a oferta do sub-emprego, do salário baixo para a redução das passagens ou do custo de operação da executiva. É a oferta de vagas em companhias que economizam em manutenção, sobrecarregam escalas e tantas coisas que se ouve, que nem se acredita.
      Tudo, na verdade para fazer o que temos aí: uma demanda cada vez maior de gente desesperada querendo vaga para voar (até porque se não fizer uma horinha a cada 120 dias tem que revalidar a licença). Precisava mesmo era acabar com as horas-BIC e fiscalizar com rigor as operações dos exploradores das aeronaves. Abraço,

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