Programa ASA: o antídoto para o QI

By: Author Raul MarinhoPosted on
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Ontem, eu propus uma pesquisa aqui no blog para saber qual seria o maior atrativo do “Programa ASA” (o programa de formação de pilotos da Azul, em parceria com a EJ e o Santander): o “’emprego garantido’ da Azul”, a “formação de qualidade da EJ”, ou o “financiamento do Santander”. Neste exato momento, 91 pessoas responderam à enquete, e os resultados são os seguintes:

  • O “emprego garantido” da Azul: 49,45%
  • O Financiamento do Santander: 30,77%
  • A qualidade da instrução da EJ: 16,48%
  • Outros: 3,3%

A pesquisa continua rodando, mas acho muito difícil que o item “’emprego garantido’ da Azul” perca a primazia. Na verdade, eu tinha certeza de que este seria o item mais votado, o que não era uma percepção que requereria muita sagacidade: no contexto do mercado de trabalho para pilotos no Brasil, a empregabilidade desponta como o item mais sensível, disparado. E isto não é uma distorção de entendimento do público que se inscreveu no programa: de fato, há grandes chances de que um piloto recém-formado não encontre colocação no mercado, a despeito dele ter uma boa formação, ou de haver um “apagão de pilotos”.

O grande drama do mercado de trabalho de pilotos de hoje em dia é que, para um recém formado, ou ele entra na Azul (por meio de um processo seletivo), ou ele vai precisar de ter QI. Mesmo para ser instrutor de voo – o emprego mais democrático (e mal remunerado) da aviação –, não é fácil ter sucesso se o sujeito for uma ostra (no sentido de “fechado para o mundo exterior”). Na aviação executiva e nos táxis aéreos, então, nem se fala: um bom QI é condição sine qua non. E na aviação comercial não baseada no QI (sim, parte das vagas da aviação comercial também são preenchidas com base em QI), para participar dos outros processos seletivos (fora a Azul) é preciso ter, no mínimo, um QI suficiente para atingir os mínimos exigidos por essas companhias (de 500h para cima). Resumindo: na prática, hoje em dia, a única opção para quem não tem nenhum QI (nem o mínimo para conseguir emprego de INVA) é ingressar na Azul.

Ocorre que ser admitido pela Azul, mesmo que não seja necessário ter QI ou 500h+ de voo, também não é fácil. Para começo de conversa, a qualificação mínima exigida inclui, além do tradicional PC-IFR/MLTE, também o Jet Training, o PLA teórico, e proficiência em inglês no nível ICAO-4+. Mas isto até que é fácil de obter, o grande drama são os critérios internos do RH da empresa (que ninguém sabe exatamente quais são), que é o que vai pesar mesmo na sua contratação ou não na empresa. E é aí que está o grande charme do “programa ASA”: uma vez admitido no treinamento, o aluno já foi avaliado pelo RH da companhia como estando no perfil que eles querem para integrar o quadro de pilotos no futuro. Logo, se o sujeito não se revelar um completo energúmeno na instrução aeronáutica propriamente dita, suas chances de ser contratado após formado são quase de 100%. Touché!

É por isso que o “programa ASA” foi esse estrondoso sucesso: ele é, na realidade, o único antídoto realmente eficiente contra o QI. E obter um bom QI, convenhamos, é a parte mais difícil da formação aeronáutica! Em termos teóricos (da Teoria dos Jogos e da Economia Comportamental), o “programa ASA” funciona como uma ferramenta para diminuir a Assimetria de Informações que existe entre o contratante e os candidatos a emprego. Isso até já ganhou um Prêmio Nobel de Economia alguns anos atrás, mas fica para outro post explicar como isso funciona.

9 comments

  1. Rodolpho
    6 anos ago

    Raul, embora o sucesso das 660 inscrições para 20 vagas no processo, apenas 32 atendem todos os pré requisitos. Você acha que esses 32 serão os chamados?

    • Raul Marinho
      6 anos ago

      Não sei o que se passa na cabeça do RH da Azul, mas eu acredito que eles vão selecionar bem mais que 32 para as entrevistas. Aí, numa análise levando em conta o resultado da entrevista, e a aderência aos requisitos, é que deverão sair os 20 contemplados. Portanto, se sua dúvida é “se eu não estou entre os 32, então eu estou fora?”, eu diria para você manter as esperanças.

    • Sander Ruscigno
      6 anos ago

      Eu também tenho essa dúvida. Quando penso na resposta dessa questão, vem-me à cabeça duas coisas:
      1-O Elancers não desclassifica quem esta na bolinha amarela, neste caso seriam mais 148 candidatos. Embora os verdes estejam na vantagem.
      2-Baseando-me no que esta escrito no site da ASA o candidato só precisa ter como pré-requisito: 18 anos, inglês intermediário e ensino médio. Ou seja, tenho certeza que muito mais candidatos atendem esses requisitos, ou seja, esse número também seria maior.

      Gostaria muito que o Raul pudesses afirmar o que acontecerá, mas acho que essa resposta será respondida pelo tempo!

      Abraço

  2. Ricardo
    6 anos ago

    Raul, dentro do programa da ASA, existe o teste ICAO incluso, eu pergunto, e se o aluno não alcança um nível 4, estaria este eliminado do processo seletivo?

    • Raul Marinho
      6 anos ago

      Eu acho que um dos aspectos a serem avaliados no ingresso ao programa deverá ser a proficiência em inglês do candidato, o que diminuirá as chances de o sujeito ter um nível inferior ao ICAO-4 quando ele terminar sua formação, e for avaliado para ser contratado pela empresa. Mas pode ser que o cara não passe no teste, assim como ele poderá tomar pau no simulador IFR, etc. Aí, eu acredito que ou a Azul deverá dar um prazo para o cara se preparar e refazer o exame e, se reprovado novamente, aí é tchau mesmo. Mas isso é uma suposição minha, baseado no que a Azul tem feito na sua seleção “normal” até agora.  

  3. roquini
    6 anos ago

    “Antídoto para o QI” foi muito bom !!!!!

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