Para Ser Piloto

Formação Aeronáutica e Segurança de Voo

Curso de CRM

7 Comentários

Nestes posts (“A falta da ‘cultura de segurança’ na aviação brasileira” e “Falta de CRM mata!”), eu falei bastante de CRM, e do respectivo curso que eu fiz sobre o assunto, na LABACE-2010, quando ainda estava voando as “horas visuais em comando” do meu curso de PC. Bem, ocorre que muitos leitores mostraram interesse sobre o assunto nos comentários e em mensagens via e-mail e nas redes sociais, então achei conveniente escrever um texto específico sobre o curso de CRM – onde e quando fazer, quais as vantagens de fazê-lo, quando ele é obrigatório, a regulamentação pertinente, etc – para concentrar as informações sobre o tema. Então, vamos lá:

Em termos de legislação, o treinamento em CRM é disciplinado pela Instrução de Aviação Civil-IAC Nº 060-1002A – “TREINAMENTO EM GERENCIAMENTO DE RECURSOS DE EQUIPES (CORPORATE RESOURCE MANAGEMENT – CRM) do finado DAC (hoje ANAC), de 14/04/2005, que determinava sua obrigatoriedade com a seguinte redação:

Cada organização deverá pôr em vigência, a partir da data da efetivação desta IAC, após análise e aceitação pelo Órgão Fiscalizador, o seu Manual, para todo o pessoal envolvido na atividade aérea (tripulantes técnicos e de cabine, despachantes operacionais de voo e de terra, pessoal de rampa, pessoal de manutenção, pessoal de check-in/check-out, pessoal administrativo, alta direção e outros segmentos), de acordo com seus próprios critérios e possibilidades, dentro dos seguintes prazos:  2 (dois) anos para os operadores aéreos regidos pelo RBHA 121 e RBHA 135 (grupo III), e 3 (três) anos para as organizações regidas pelo RBHA 91 e RBHA 135 (grupos I e II), RBHA 141, RBHA 142 e RBHA 145.

Ou seja: pela redação original da IAC, hoje em dia (2012), todas as empresas relacionadas à aviação (inclusive os proprietários de aeronaves particulares, os aeroclubes/escolas e as empresas de manutenção aeronáutica) deveriam oferecer treinamento de CRM para todos os seus colaboradores, indistintamente. Porém, não é isto o que acontece na prática, e depois de algumas alterações na regulamentação, somente as empresas de aviação comercial e os táxis aéreos é que implementam, na íntegra, a regulamentação sobre o treinamento, de acordo com a IAC acima.

Especificamente quanto aos aeroclubes/escolas, eu nunca vi haver treinamento de CRM oferecido por estas instituições para seus instrutores ou alunos, nem como um treinamento optativo – inclusive, na tão incensada EJ Escola de Aeronáutica (onde voei a maior parte do meu curso de PC), com todos os ISO-9001’s e certificados tão amplamente divulgados, tampouco é oferecido o treinamento. (Um leitor mencionou sobre aeroclubes oferecendo esse curso, mas neste momento ainda não tenho informações mais precisas sobre isto – complemento aqui quando tiver). Bem, o fato é que, embora eu considere o treinamento em CRM essencial desde o primeiro momento em que o aluno de PP põe os pés no aeroclube/escola, somente quando a pessoa já estiver com o PC checado e for contratada para o seu primeiro emprego em uma companhia aérea ou num táxi aéreo, é que ela vai ter que fazer, obrigatoriamente, o curso de CRM. Ou então, no caso de a pessoa ser muito curiosa sobre o assunto, e quiser fazer o curso de maneira espontânea, e pagando do próprio bolso, sem nenhum incentivo do aeroclube/escola em que estiver voando. Era este o meu caso em meados de 2010.

Na época, eu era um aluno do curso de PC prático do ACC-Aeroclube de Campinas, e estava me transferindo para a EJ justamente porque não estava satisfeito com… O CRM praticado no ACC, embora ainda não soubesse que era este o problema. Neste post aqui, eu relato em detalhes a pane parcial de motor que sofri num voo de treinamento no ACC (que foi uma ocorrência de menor importância, mas com um enorme potencial para se tornar um acidente grave). Foi durante o curso de CRM que eu entendi como poderia ter evitado o problema, simplesmente aplicando os conhecimentos adquiridos no treinamento, e foi então que eu me tornei um fã ardoroso do CRM, e passei a recomendar o treinamento para todo mundo, o mais cedo possível. (Obs.: Não quero deixar a impressão de que o ACC é um aeroclube particularmente negligente quanto à segurança. Infelizmente, a maioria dos aeroclubes/escolas do Brasil são iguais ou piores que o ACC. Mas prosseguindo…)

O CRM começou como uma técnica de coordenação de atividades entre comandante e copiloto – e, eventualmente, engenheiro e mecânico de voo, navegador, e quem mais estivesse na cabine. Depois, resolveram incluir os outros tripulantes do avião (comissários, principalmente) e o pessoal de manutenção; e hoje se incluem todas as pessoas que atuam numa empresa relacionada à atividade aeronáutica, até o pessoal administrativo. Há diversos conceitos interessantes no CRM, mas o principal é o de que todo mundo, por mais “insignificante” que seja (ou pareça ser), tem o dever e o poder de interferir na operação, quando a segurança estiver sendo ameaçada. Outro conceito importantíssimo é o de “consciência situacional”: você saber o que está fazendo o tempo todo, não realizar as tarefas “no piloto automático” (mental, no caso); questionar o que está sendo feito, mesmo estando em situação de desvantagem ou inferioridade – por exemplo: o copiloto questionar o comandante, o aluno o instrutor, etc. Se eu tivesse esses conceitos incorporados na época da ocorrência do quase-acidente de Campinas, ele certamente não ocorreria (eu explico isso no post linkado acima), e é por isso que eu sou tão veemente em recomendar esse treinamento: eu já senti na pele a falta que ele faz.

Eu fiz esse curso, como já disse, na edição de 2010 da LABACE (um evento da aviação executiva, que ocorre todo ano em São Paulo), e não sei se existem outros cursos abertos sendo oferecidos no Brasil (estou entrando em contato com a empresa que realizou o curso que eu fiz para saber, e complemento o post assim que possível). Sei que na LABACE deste ano (2012), o treinamento será novamente ofertado, de acordo com o site do evento, mas não sei em que condições. Quando eu fiz o curso, a implementação esteve a cargo da First Flight, uma empresa de consultoria aeronáutica especializada em “customizar” treinamentos de CRM para as empresas obrigadas a fazê-lo de acordo com a IAC acima citada. E a Universidade Anhembi Morumbi, por meio do seu departamento de Aviação Civil, também esteve apoiando o evento (a maior parte dos participantes era aluna de Aviação Civil da Anhembi). Na época, o curso custou R$200,00 por participante, e durou três dias, num pequeno auditório anexo à feira.

O curso foi ministrado por dois instrutores: um piloto de avião da aviação comercial (PLA), e um piloto comercial de helicóptero (da aviação geral, obviamente), o que foi bem interessante porque deu uma visão mais abrangente do assunto, para as várias áreas da aviação. O PLA em questão foi o Marcos Vale (não o cantor!), um dos dirigentes da First Flight, e o PCH também era professor da Anhembi Morumbi, mas lamentavelmente eu não me recordo o nome. Houve vários estudos de casos, dinâmicas de grupo, audiovisuais, e exposições formais, e em geral o curso foi dinâmico e agradável. Normalmente, os treinamentos de CRM são específicos para a realidade de cada empresa, e este, pelas suas características, foi mais genérico – mas, segundo os instrutores, a essência do treinamento dados nas empresas foi mantida. Se o curso oferecido na LABACE-2012 for semelhante a este que eu fiz, eu o recomendo para todo mundo, desde o aluno de PP iniciando os voos, até o PC checado e voando na executiva, ou dando instrução (principalmente este!). Tem gente que acha que o Jet Training seria equivalente a um curso de CRM, o que não é verdade. Embora, no Jet Training, haja a prática de alguns conceitos de CRM em determinados momentos, uma coisa não substitui a outra.

Bem, acho que disse tudo que pretendia sobre o assunto, faltou falar somente dos benefícios que o curso pode trazer em termos de empregabilidade. É óbvio que ter um curso de CRM no currículo “pega bem” (mal não faz, certamente), mas ninguém deve se animar muito com isso, pelo seguinte. Para quem dá importância ao treinamento (companhias aéreas e táxis aéreos), o curso será oferecido internamente tão logo o piloto seja contratado; e para quem nem sabe do que se trata – ou, se sabe, acha uma bobagem –, ter o curso de CRM não significará praticamente nada. Então, ter ou não ter o curso de CRM vai dar na mesma na procura por um emprego. Infelizmente.

Assim que este post for publicado, eu vou entrar em contato com a First Flight e com a organização da LABACE informando o link para o artigo, e solicitando mais informações sobre o assunto. Assim que as empresas responderem, eu complemento o post.

7 thoughts on “Curso de CRM

  1. Raul, parabéns pelo seu post.
    Realmente o curso de CRM faz uma diferença muito grande no aspecto comportamental.
    Os cursos de CRM deveriam ser oferecidos na base da formação, ou seja , no próprio aeroclube…mas infelizmente nem sempre eles tem essa preocupação, querem apenas ensinar a parte prática da pilotagem.
    Sou Psicóloga da aviação e Facilitadora de CRM e sabemos o quanto o uso correto dos conceitos de CRM na prática poderão prevenir e evitar incidentes e acidentes.

  2. Pingback: A história do CRM « Para Ser Piloto

  3. Pingback: Sobre os acidentes com “piloto de King”: A culpa é do mordomo? « Para ser piloto

  4. Tinha algumas dúvidas, mas esse post explicou muito bem.
    Obrigado Raul!

  5. Olá Raul. Atualmente estou cursando nível superior em Aviação Civil e na minha faculdade temos na grade a disciplina de CRM. Então como você já havia falado e espero que tenha entendido isso, é melhor então eu esperar ser contratado por uma empresa para fazer o curso? Grato.

    • Se vc já tem o CRM na faculdade, sim. Fazer o curso nas LABACEs da vida seria mais interessante para quem nao tem a oportunidade de fazer um curso de CRM ate ser contratado.

      Enviado via iPad

  6. Raul, muito obrigado por compartilhar suas experiências conosco. Está fazendo diferença na minha formação e com certeza na formação de todos os pilotos e futuros pilotos que acompanham seu blog.
    Um grande abraço

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