Acidente com avião do Aeroclube de São Paulo

By: Author Raul MarinhoPosted on
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Na manhã de ontem (02/06/12), ocorreu um terrível acidente fatal com a aeronave prefixo PT-KRF, do Aeroclube de São Paulo, que caiu em um sítio na periferia da Zona Norte de São Paulo, matando o piloto, André Nestor Escobar Bertin (PP com cerca de 500h de experiência, sócio do ASP, que estava solo no avião). A informação sobre o acidente está abundante na imprensa (vide esta nota, do G1), e sempre com a mesma incorreção (de pouca importância, é verdade, mas que tenho que corrigir aqui, já que este é um blog especializado): não se trata de uma aeronave Corisco, da Embraer, e sim um Piper Arrow. Sim, trata-se do mesmo modelo de avião (P28R, na codificação do DECEA), mas o Arrow é o nome original do equipamento, fabricado nos EUA; enquanto que Corisco é a denominação comercial das aeronaves construídas no Brasil, pela Embraer, sob licença da Piper, nos anos 1970/80.

Eu pilotei este avião no final do ano passado, e as condições de segurança dele estavam (ou pareciam estar) satisfatórias, muito embora o estado geral de conservação do equipamento não fosse dos melhores: interior judiado (bancos rasgados, revestimento encardido, painel empenado), porta que não fechava adequadamente, instrumentos com leitura imprecisa (o ADF e o giro direcional nem funcionavam), etc. – vale lembrar que a aeronave fora construída em 1975. Não acredito, porém, que o acidente tenha sido causado por falha na manutenção – a oficina do ASP tem reputação de seriedade, pelo menos quanto aos equipamentos vitais das aeronaves. Mas tenho minhas preocupações com equipamentos tão antigos sendo utilizados nos aeroclubes/escolas Brasil a fora, especialmente devido aos esforços que os aviões de instrução têm que suportar. É realmente necessário manter uma frota tão antiga na instrução (e devo lembrar que os Cherokee do ASP são de 1973)? Bem, mas isso é assunto para um futuro post.

O que me deixa particularmente tocado quanto a este acidente é a sensação de “poderia ser eu”, já que além de ter pilotado o avião que caiu, também já voei dezenas de vezes sobre o local da queda. Não sei o que causou o acidente – e as possibilidades comentadas nas rodinhas de pilotos passam até por “bird strike” (colisão com pássaros) e “pilot incapacitation” (mal súbito do piloto) -, mas a tal da “falta de uma cultura de segurança”, que comentei recentemente aqui, parece estar presente também neste caso. Assim que tivermos mais informações sobre o acidente, voltaremos a comentá-lo. Por ora, gostaria de prestar minha solidariedade à família da vítima e à diretoria e funcionários do ASP. Kilo Romeo Foxtrot, R.I.P..

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Atualização de 05/03: Acabei de receber a mensagem que segue abaixo.

Caro Raul Marinho,

Gostaria de informar que a missa de sétimo dia do piloto e aeromodelista André Nestor Escobar Bertin será realizada:
Dia 08/06/2012
Hora 19h30
Paroquia Serimbura
Endereço : Praça Bom Jesus do Serimbura, Vila Ema
São José dos Campos – SP

Agradecemos se puder divulgar entre os amigos comuns.

Atenciosamente,

Ana Carolina Bertin
acarolinabdn@hotmail.com

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Atualização de 11/06: Recebi o comentário abaixo copiado no dia 08/06, mas só pude moderá-lo hoje. Como ele foi publicado num post errado (Aero+), e devido à sua importância, resolvi trazê-lo para cá:

http://g1.globo.com/videos/sao-paulo/sptv-2edicao/t/edicoes/v/pequeno-aviao-cai-perto-da-serra-da-cantareira-na-zona-norte-da-capital/1975748/

Olá Raul, sou sobrinha do tio André.. esta é a reportagem mais específica que encontrei… espero que sejam apuradas as causas o mais rápido possível, pois a famlia perdeu uma pessoa iluminada, um ser humano magnifico, dono de um caráter exemplar!!!!

Comento:

Adriana, não tive o privilégio de conhecer o seu tio, embora frequentasse o Aeroclube de São Paulo na mesma época que ele. Entretanto, muita gente que o conhecia me disse coisas semelhantes ao que você escreveu, e ele devia ser, sim, uma pessoa muito especial. Lamento muito a morte dele, e pretendo, com este blog, fazer alguma coisa pela segurança de voo no Brasil, de modo a que outras Adrianas não sofram o que você está hoje sofrendo.

Quanto à investigação do acidente, gostaria de lhe informar que os profissionais do SERIPA-4, que a estão realizando, são pessoas extremamente sérias e competentes, então fique sossegada que o caso do seu tio está em boas mãos. Entretanto, pela complexidade do acidente – muitas possibilidades, inexistência de “caixa preta”, etc – pode ser que demore um pouco mais do que você gostaria para sair os Relatório Final deste acidente. Então, tenha paciência.

Um grande abraço,

Raul Marinho

9 comments

  1. paulo penteado
    2 anos ago

    gostaria de saber se alguém sabe se foi encontrado o avião Arrow PA 28, prefixo PT-KRG de propriedade do Aeroclube de São Paulo, que sumiu , na data de 04/05/1983, seu destino era São Paulo, (saiu do Rio de Janeiro) ,o nome do piloto era Alberto Policarpo Junior , 19 anos, estavam os passageiros, sua mãe: Esmeralda e uma tia.
    aviões e helicopteros fizeram buscas durante 20 dias e nada encontraram.

  2. Régis
    5 anos ago

    Sem dúvida nenhuma, as escolas precisam iniciar uma renovação de frota, principalmente aquelas como o ASP que voam na Terminal SP, congestionada e com grandes variações atmosféricas. O ASP já iniciou essa renovação com os Diamond’s, espero que continue. Aviônica confiável é necessária em qualquer instrução, não é mais tolerável voar em aviões que o básico do básico oscila e não funciona.

    • Raul Marinho
      5 anos ago

      Iniciou, mas muito timidamente, né? O ASP está muito longe do que foi nos anos 1970/80, quando chegou a ter mais de 40 aeronaves voando.

  3. Ricardo
    5 anos ago

    Quanto aos AB-115, são aeronaves confiáveis para instrução?

    • Raul Marinho
      5 anos ago

      O Boero é produto da afamada industria argentina, como não seria confiável? Se fosse um produto alemão ou americano, eu até entenderia a sua dúvida…

      Enviado via iPad

      • betoarcaro
        5 anos ago

        O Boero é um avião “Robusto”.
        Aguenta bem os desaforos!
        O problema é que ele é pesado demais pro motor que tem, o Cockpit peca um pouco em “Ergonomia”, e a manutenção fica um pouco difícil pois o fabricante não dá mais suporte à ao modelo.
        O AB115 foi fabricado e vendido só para o Brasil.

        Abraços

        • Raul Marinho
          5 anos ago

          …Sem contar o trem de pouso, de bitola muito estreita, que facilita o tombamento lateral no pouso. Mas, respondendo adequadamente à pergunta inicial, é uma aeronave “confiável”, sim. Estando bem conservada, e com o piloto bem treinado, não é uma assassina em potencial. Apesar disso, EU não voo de Boero – uma decisão pessoal minha. Posso voar até de Paulistinha, mas de Boero eu prefiro evitar. 

  4. betoarcaro
    5 anos ago

    Ola Raul,
    Pra que trocar de avião, se você tem um equipamento que continua voando, dando lucro, e já se pagou a muito tempo? Pra que parar, e fazer uma “Geral” numa Aeronave que esta cumprindo a missão de forma tão eficiente? Resposta: Grana, Lucro…
    Tenho observado a “Febre” dos C150/2 nos Aeroclubes e Escolas. Aviões muito utilizados na instrução primaria nos EUA. Qual a media de idade desses aviões ? Qual a media de horas de Célula ?
    Estamos formando pilotos no “Refugo Norte Americano”? Sim, por que, “coisa boa” usada, eles nao vendem! Usam por lá mesmo!
    Confio muito mais num Paulistinha dos anos 50, com manutenção e operação “Simples”, onde as panes são muito mais “aparentes”, do que num recém pintado e “bonitinho” Cessna 150/152, com 15000 Hrs de célula. Ao invés de “Reeditarmos” o glorioso P56, preferimos comprar o refugo barato das escolas Norte Americanas! Quanto mais voa, mais cai, isso eh uma verdade “inegável”, mas se nao renovarmos a frota essa proporção vai ficar meio “esquisita”! Problema muito serio na Formação Aeronautica!
    Queremos formar bons Pilotos, mas queremos eles todos “Vivos” ao final do treinamento.
    Sim, “Poderia ter sido você”! Nao foi por que? Por que alguma coisa “fez a diferença”!!
    Todo acidente aeronáutico poderia ter acontecido “com a gente”! Temos que manter isso em mente!

    Abraços
    Beto

    • Cleber
      5 anos ago

      Srs, Tive um unico contato com o Andre no aeroclube de Sao Paulo , conversamos sobre ter um aviao ou voar em um aviao alugado de aeroclube regularmente por diversão, minha idéia foi que sendo proprietário do aviao podemos saber exatamento como ele está e o que está sendo feito na manutenção, a questão é que a regularidade nos voos teria que ser mantida para valer a pena ter uma aeronave, … importei um aviao e o Andre que tinha mais experiencia ia voar comigo, infelizmente o destino não deu esta chance, o André era um daqueles seres humanos que não poderiamos perder..e perdemos, tomara que seja possível chegar a alguma conclusao sobre o acidente, até para quem voa entenda o que aconteceu,quanto a avioes velhos minha opinião é que se o programa de manutenção for levado a sério e não forem feitas economias o mesmo permanecerá seguro, o cessna tem duração de célula ilimitado e a sério cherokee 50.000 horas, dúvido que o arrow tinha isso tudo de hora.
      Quanto a importacao de aeronaves usadas antigas , acho que hoje é a unica alternativa que temos (sem grana), pois se o governo tivesso algum interesse definitivo podia financiar a compra de avioes zero para os inúmeros aeroclubes do Brasil e teríamos uma frota com custo de operação baixo e bem mais seguros(simplesmente por serem novos), enquanto isso os jovens pilotos vão contando com a perícia do mecânico ou honestidade do operador para sobreviver

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