Ainda a falta de “cultura de segurança” na aviação agrícola

By: Author Raul MarinhoPosted on
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Complementando este último post, sobre a falta de “cultura de segurança” na aviação agrícola, segue abaixo um excelente artigo sobre o tema, de autoria da Dra. Rosana da Conceição de Lima Bauer (TCel. QFO Psicóloga do SERIPA-V), mais uma contribuição do SERIPA-IV a este blog:

Influência da cultura de trabalho do grupo sobre a atividade aeroagrícola

Em conversa de piloto agrícola, no início da safra, não falta uma afirmação do tipo:

– Quem será que vai derrubar o primeiro avião?

De tão elevado o risco operacional da atividade, profissionais da aviação agrícola passaram a considerar normal, aceitável e familiar a ocorrência de acidentes aéreos, condição que tem sido recorrente e que nos mantém pesquisando as suas causas.

Dentre os fatores mais prevalentes destacam-se as influências geradas pela cultura do grupo de trabalho, chegando a aparecer como fator contribuinte em 98% dos acidentes agrícolas. Portanto, para compreender melhor este assunto é necessário explorar mais amiúde o contexto em que a operação se desenvolve.

Poderíamos dizer que a formação é o primeiro e mais relevante ambiente para o desenvolvimento de uma cultura. Embora as escolas de aviação aeroagrícola sejam homologadas e sigam os critérios técnicos, ainda estão longe de oferecer uma formação guiada por princípios de segurança operacional. Em meio a um clima de estímulo à ousadia e à perseguição de limites cada vez mais estreitos, os novos pilotos terão que escolher entre os parâmetros operacionais conhecidos e as regras que ditam a aviação agrícola, as quais exigem muita habilidade motora, uma boa dose de coragem e uma grande disposição para administrar adversidades.

Os voos de pulverização ocorrem em baixa altitude chegando a atingir limites entre um e dois metros de altura em relação ao solo. Esta condição por si só inviabilizaria a atividade aérea, não fosse a extrema insistência dos pilotos em superar os riscos.

Nestas condições vai se estruturando uma maneira muito peculiar de pensar, reforçadora de sentimentos de invulnerabilidade que eleva o piloto à condição de herói. Para ser aceito no meio profissional ele terá que se adaptar àquela realidade, muitas vezes tendo que desconsiderar procedimentos aprendidos.

Na fase de preparação de voo, por exemplo, enquanto o piloto estuda a área a ser trabalhada, insere as informações no GPS e consulta o tempo, seu ajudante, que normalmente é um profissional do mundo agrícola, abastece a aeronave com combustível e insumos. Em tal situação não ocorre checagem ou supervisão e o piloto decola, muitas vezes, sem ter certeza sobre a sua autonomia, confiando no cálculo das razões entre combustível e insumos, feitas pelo seu ajudante.

As pistas de pouso e decolagem são, na grande maioria, mal construídas, com péssima manutenção e propensas a condições que danificam as aeronaves e dificultam a decolagem. As áreas a serem pulverizadas são quase sempre irregulares, acidentadas e cheias de obstáculos. Além do grande esforço de adaptação, o piloto terá que ser tolerante, daí desenvolvendo sentimentos de complacência e atitudes de improvisação que vão sedimentar, na cultura de trabalho, um conformismo operacional.

Embora uma decolagem normal deva seguir parâmetros do manual do avião, na atividade aeroagrícola isso nem sempre acontece. É possível que o piloto tenha que reduzir a corrida, dar mais potência e sair do chão antes mesmo de atingir os níveis previstos, isso tudo com o avião bastante carregado. Entretanto, estas marcas só serão atingidas sob o efeito da excessiva confiança, seja no equipamento, seja em si próprio.

Esse tipo de atividade aérea requer muita precisão: em rápidas e baixas passagens sobre as extensas plantações, o melhor piloto será aquele que completar toda a extensão da área, não deixando nenhum espaço sem pulverizar, mesmo que isto requeira muita tensão. Mas é justamente no exato momento em que vai fazer “aquela área do arremate” que coisas inesperadas acontecem, como a colisão com obstáculos e a perda do controle do avião.

Piloto e ajudante trabalham entre 5h e 21h, principalmente se o tempo ajudar e houver claridade. Chegam a realizar entre 40 e 60 decolagens por dia. Nestas condições de pressão física e emocional, vão fazendo safra, na maioria das vezes longe da família. Formam como que uma legião de obstinados e corajosos homens que não descansam e não recuam.

Estes aspectos atentam para a fadiga, como o trabalhar sob a pressão do tempo e dos proprietários de terra, e são tão presentes na cultura do grupo que vão aparecer como fatores contribuintes nos acidentes que protagonizam.

À medida que a safra vai finalizando, aumenta o desejo de retornar para casa, condição que eleva a ansiedade, dispara a pressa e movimenta a atenção e o cuidado com o trabalho. Por esta razão, muitos dos grandes acidentes ocorrem no final de uma safra, às vésperas de uma temporada de descanso junto à família.

Da roupagem emoldurada por este profissional extraímos a compreensão do acidente que, na maioria das vezes, lhe custou a própria vida. A cultura germinada e alimentada naquele contexto é como um tecido fino que atravessa a subjetividade de cada piloto, demarcando seus limites, conferindo suas vitórias e determinando sua trajetória de vida ou morte.

Agregadas à cultura de trabalho, atuam também as representações mentais de cada piloto. São como matrizes de pensamento construídas ao longo de uma vida e que influenciam sua maneira de pensar e agir e, muitas vezes, quando olhamos bem de perto, chegamos à triste conclusão de que aquela tragédia era uma possibilidade em curso.

Ao reconhecermos a influência da cultura do grupo na trajetória de um piloto, nosso compromisso primeiro é interferir radicalmente na sua formação profissional, entendendo que um piloto começa a nascer desde o seu primeiro dia de instrução e que qualquer tentativa de tangenciar a regra deve ser imediatamente reprimida,

Se eu pudesse escolher um valor para acrescentar à cultura de aviação agrícola, escolheria a disciplina, sabendo que é ela que ensina a voar, conservar a vida e atingir a perfeição do saber voar de verdade!

19 comments

  1. Gabriel
    4 anos ago

    Sou filho de aeronauta agrícola há 28 anos. A coisa melhorou consideravelmente na última década, mas, em uma perspectiva temporal mais alargada, certamente eu citaria “redução à condição análoga de escravo” e “descompromisso do empregador em relação às normas de segurança no trabalho” como elementos influenciadores dos acidentes. Além disso, quem não conhece história de piloto que foi obrigado a atender negócios ilícitos dos empregadores, em determinadas partes do território nacional, viveu pouco o mundo da profissão ou, então, não está interessado em diviulgar a verdade. Parabéns à Autora do artigo, pela iniciativa.

  2. JOAO SERGIO PERCY
    5 anos ago

    Muito bom a discussão e ler sobre isto pensar nas possibilidades antes de qualquer voo parabéns se cconseguir evitar acidente valeu a pena

  3. Rosana bauer
    5 anos ago

    Estou gostando muito desta discussão, agradeço as críticas e comentários…é isto mesmo que queria despertar, o interesse desta comunidade ainda não inserida nos padrões de aviação que queremos atingir.
    Minha expertise esta totalmente fundamentada na convivência com pilotos agrícolas,nas entrevistas pós acidente e nas conclusões que obtivemos em mais de sessenta acidentes investigados em algumas regiões de operação aeroagrícola do nosso país.
    Estou muito à disposição deste grupo e de outros para mantermos esta discussão inteligente. Gostaria muito de descobrir causas novas, mas infelizmente nossas conclusões apontam para a despadronização, como um desvio à regra, onde os profissionais desta atividade utilizam formas de resolução de problemas na operação aeroagrícola, que contrariam os princípios da aerodinãmica das aeronaves. Vemos que há pilotos que coseguem controlar parãmetros operacionais e manter-se o mais próximo do prescrito, estão vivos…
    Infelizmente, pressionados por múltiplos fatores, econômicos, culturais, operacionais, entre outros, pilotos tomam direções que contrariam a própria vida, destes eu já conheci alguns, mais de 30, e chorei por suas mortes!
    beijão
    Rosana Bauer

  4. altair zanferari
    5 anos ago

    eu sempre gostei de voar com mais combustivel, mais pista e menos carga. Por incrível que pareça 30kg a menos faz muita diferença.

  5. vladimir zanin
    5 anos ago

    Discordo do comentario da doutura onde ela afirma que não monitoramos a quantidade de combustivel e de insumos, discordo que não so,mos disciplinados, se nãqo fossemos já teriamos partido deste mundo terreno a muito tempo.
    Acho que a pesquisa dela é muito superficial e sem embasamento real!

    • Raul Marinho
      5 anos ago

      Ok, é um direito seu discordar. Mas sem apresentar evidencias que justifiquem o seu ponto de vista, seu comentário fica apenas no “não gostei porque é feio”…

      • Mauro Moura
        5 anos ago

        Ele deve estar discordando porque certamente e profissional da area e tem conhecimento!!!!
        Esse artigo nao tem nada da realidade!!!

        • Raul Marinho
          5 anos ago

          Sei… E a quantidade absurda de acidentes com a aviação agrícola certamente acontecem porque os PAGRs são muito azarados, né?

          • Diego Preuss
            5 anos ago

            Não Sr. Raul, o indice elevado de acidentes na aviacao agricola, no Brasil e em qualquer outro pais do mundo onde exista esta atividade, ocorre principalmente pelo elevado grau de risco que envolve a operação, muitissimo superior a qualquer outra atividade aérea. ” Azarados” foram sim os seus comentarios…. Digidos de um completo ignorante no assunto.

            • Raul Marinho
              5 anos ago

              Pois é, sr. Diego, na minha ignorância, eu achava que seria possível mitigar os riscos a que a aviacao agrícola está exposta. Mas, pelo jeito, está muito bom assim, não? Ok, então. A gente se encontra nos enterros “inevitáveis” dos PAGRs.

          • Riccardo Gentil Celia
            5 anos ago

            Azarados não! Má Formação,Ego grandão e falta de humildade,estes são os maiores problemas da pilotada que vai mais cedo para perto de Deus.

      • Riccardo Gentil Celia
        5 anos ago

        Em muitos argumentos a doutora esta correta,porém nos ítens que o Zanin discordou ele esta correto,senão difícilmente estaria vivo para discordar.

    • rogerio lengler
      5 anos ago

      vladimir, acredito que voce controle o seu combustivel, que voce seja diciplinado, mas se a maioria de nós
      tivessemos esta disciplina, acredito que a maioria dos acidentes aeroagricolas não teriam acontecido.

  6. Vinicius Piassa
    5 anos ago

    Não me lembro de ter lido algo tão admiravel quanto esse texto!

    A Dra. Rosana da Conceição de Lima Bauer esta de parabéns.

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