Cultura científica para aviadores

By: Author Raul MarinhoPosted on
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Na ilustração acima, um slide utilizado no ensino de Teoria de Voo atualmente nos aeroclubes

Num post recente sobre a mudança de paradigma na formação aeronáutica brasileira publicado aqui no blog, acho que ficou faltando explicar melhor (e incluir bons exemplos sobre) o quanto é importante para nós, aviadores, possuirmos mais cultura científica para desempenharmos nossa função adequadamente. Afinal de contas, para que gastar tempo e neurônios com mais cultura científica, se pilotar aeronaves seria uma questão de “pé e mão”, como pregam os defensores da “pedagogia da manicure-pedicure” tão influente nos aeroclubes? Ao invés de mandar o cara para a universidade estudar aerodinâmica, não seria melhor enfiar o sujeito num Paulistinha para ele ficar mais proficiente no toque de três pontos?

Pois é, mas contrariando a sabedoria ancestral dos aeroclubes, há indícios de que o conhecimento científico pode, sim, salvar vidas. E não se trata de opinião minha: esta é a conclusão de um estudo científico sério que os amigos do SERIPA-IV me apresentaram, mostrando que, numa amostra de acidentes ocorridos na FAB entre 1995 e 1999 com aeronaves multimotoras de transporte, cerca de 50% das ocorrências tiveram como fator contribuinte a falta de conhecimento científico dos pilotos. E isso levando-se em conta que os oficiais aviadores da Aeronáutica são educados dentro dos rígidos padrões da AFA, num curso de nível superior com quatro anos de duração. Imaginem o que resultaria de pesquisa semelhante realizada junto aos pilotos civis, educados nos tradicionais cursos de PP (opcional) e PC (de 3 ou 4 meses) nos aeroclubes…

Para entender como a falta de cultura científica influencia a ocorrência de acidentes, leia o estudo acima referido, acessível neste link: Conhecimento Cognitivo de Pilotos: fator de aumento na segurança de voo. Este paper, além mostrar vários exemplos de investigações de acidentes cujo fator contribuinte foi a falta de conhecimento, também mostra as metodologias mais utilizadas nessas investigações: a “Teoria do Dominó” de Heinrich e Granniss, e a “Why-Because Analysis (WBA)”, de Ladkin e Loer – o que, por si só, já vale a pena a leitura. Mas você pode deixar para ler esse material depois, pois agora ainda preciso complementar este post com duas considerações: uma sobre o ensino atual de Teoria de Voo, e outra sobre a proposta de mudança de paradigma na formação aeronáutica, proposta no post acima referido.

O ensino de Teoria de Voo nos aeroclubes/escolas de aviação

Eu posso me considerar um privilegiado: quando aprendi Teoria de Voo nos cursos de PP e PC, realizados no Aeroclube de São Paulo, tive como professor o Marcelino – que, além de ser palmeirense (o que já é qualidade suficiente para um ser humano), possui um domínio profundo da Física e da Matemática da disciplina que leciona. Mas esta não é a regra: o que mais se vê por aí é gente ensinando Teoria de Voo naquele velho esquema de “bizus para passar na banca da ANAC” – ou seja: o sujeito é adestrado a responder as provas para obtenção das CCTs, ele não aprende a matéria no verdadeiro sentido do verbo aprender.

Mas o que é absurdo mesmo é o fato de simplesmente não haver necessidade de curso teórico para a obtenção do CCT de PLA. Você estuda os livrinhos do Saintive sozinho, faz umas bancas simuladas no computador, e pronto: isso é tudo o que existe de Teoria de Voo para a obtenção do grau mais elevado possível em termos de licença de piloto. Eu ainda tive a sorte de ter uma aula dos tópicos de PLA no meu curso de PC, graças à boa vontade do Marcelino (coisa rara na maioria dos cursos de PC que existem por aí), mas mesmo assim foi bem superficial, longe do que seria adequado.

Esta não é, claramente, a forma correta de levar cultura científica aeronáutica para os aviadores. Mas qual seria?

Voltando à proposta do Maj.Koeller

No post sobre a proposta de mudança de paradigma da formação aeronáutica, baseada no paper do Maj.Koeller, eu critiquei a substituição pura e simples da instrução realizada nos aeroclubes pelo ensino superior, mas disse que TAMBÉM poderíamos utilizar a estrutura das universidades na reforma do sistema de ensino aeronáutico brasileiro. Pois bem: é justamente aqui, no ensino de Teoria de Voo, que eu acredito que o ensino universitário poderia entrar.

Eu não acho necessário levar o aluno de aviação para a faculdade para aprender Regulamentos de Tráfego Aéreo – isso pode perfeitamente ser ensinado nos aeroclubes, igual ao que se faz hoje. Navegação Aérea também poderia ficar no aeroclube, mas reformulada e integrada com o treinamento em simuladores. Já o ensino de Conhecimentos Técnicos poderia ser de responsabilidade das escolas de nível técnico (vejam que até o nome coincide), como o SENAI e as ETECs, inclusive com a utilização de seus laboratórios e oficinas. Mas Meteorologia e Teoria de Voo deveriam, sim, ser ensinadas no ambiente universitário – nisso eu concordo totalmente com o Maj.Koeller.

O ensino de Meteorologia até poderia ser realizado no ambiente das escolas de nível superior tecnológico (no caso de São Paulo, as FATECs). Mas seria indispensável que os futuros pilotos – ao menos no curso de PLA – tivessem um treinamento mais rigoroso em Teoria de Voo, incluindo Metodologia Cientifica, um pouco de Matemática Aplicada, e as disciplinas de Física relacionadas com a aviação: Aerodinâmica, Resistência de Materiais, Termodinâmica, etc. Se este conhecimento tem o potencial para salvar vidas, como atesta o paper acima referido, esta mudança de paradigma no ensino científico de Teoria de Voo não é mais uma opção, e torna-se uma obrigação. Ou então arrumem alguém para explicar para as famílias das vitimas do próximo acidente cujo fator contribuinte fora a falta de conhecimento na Física do voo por que não se reformulou um sistema que se sabia falho.

11 comments

    • José Roberto Arcaro Filho
      5 anos ago

      Cara!!
      Acho que tem muita gente boa na FAB!!
      Mas, a realidade é muito diferente aqui fora.
      Seria ótimo, se as realidades fossem as mesmas!!

  1. José Roberto Arcaro Filho
    5 anos ago

    Oi Raul,

    Acho que demorei um pouquinho pra comentar, mas lá vai:

    Não sei se já disse, mas minha Mãe é (Psico)Pedagoga aqui em Americana.
    Tem 73 anos, mais de 40 anos de experiência no “Ramo”! (Pós graduações, Mestrados, etc.) Inclusive, ela conhece a “Teoria dos Jogos”!
    De vez em quando, mostro seu Blog e os “dilemas” nele comentados, à ela. Aprecia muito!
    Seu último “emprego” foi, até cerca de um ano atrás, numa dessas grandes “redes de faculdades”.
    Saíu, quando começou a ser cobrada, por “Produção” de alunos nos vestibulares. (Qualquer semelhança com Aviação, NÃO, é mera coincidência!)
    Adoro o Marcelino!! Tive aulas com ele, na EACON, de 89 à 91(PC/IFR, preparatório para a EVAER).
    Marcelino nasceu para ensinar! Um cara muito inteligente, didático, Amigão… Faz tempo que não o vejo!

    Falando agora de Aviação, acredito que a “Pedagogia Pedicure/Manicure” seja essencial, desde que bem aplicada.
    A habilidade de pousar, decolar, navegar e operar uma Aeronave são requisitos básicos.
    São “os mínimos” inerentes à qualquer Piloto!
    Obviamente, que “nem só de pé e mão vive o Homem”, mas nem isso é proporcionado,pelas instituições de ensino de forma correta, hoje em dia.

    Acredito, que o conhecimento “Científico” e a Cultura Aeronáutica ajudam até a melhorar o “pé e mão”!
    Técnicas de pilotagem e operação, são essenciais, desde que você saiba de onde as coisas se originam, sem “Mitos”, nem “Mistérios”.
    Formação acadêmica é importantíssima desde que bem aplicada, mas vejo que isto também não está acontecendo.

    Enfim, a coisa toda, não deve ser “nem tanto ao Mar, nem tanto a Terra!!
    Em todas as áreas da Aviação, inclusive em “Linhas Aéreas, conheço Pilotos extremamente habilidosos, mas que não tem “um pingo” de cultura, nem “Juízo”!!

    Será que não seria a hora de “Simplificar” a Formação Aeronáutica, no Brasil?
    De ir “mais direto ao ponto”?

    Agora, eu vou tocar no “Hornet´s Nest”, como diria o Dick Collins:

    Quase generalizando, os Engenheiros Aeronáuticos e Militares, com os quais já voei, ou já vi voando, são Pilotos “Quadrados”, tanto de “Pé e Mão”, quanto no quesito “Comandante”! (Atípicos: Fernando de Almeida e Ten Cel Erasmo, Checador)
    São demasiadamente teóricos, como se fossem “Sacerdotes Celibatários” tentando explicar como você deve levar a sua “Vida Sexual”!! Adeptos da filosofia, faça o que eu mando, não faça o que eu faço, mesmo por quê “EU NÃO SEI O QUE ESTOU FAZENDO”!! A própria ANAC, é assim!!
    Um dia, eu ainda vou escrever, sobre os tipos de “Recheques” pelos quais já passei…

    Em compensação, temos verdadeiros “Ases”, super habilidosos, pessoas completamente “obtusas” em lugares de destaque, pilotando “Super Máquinas”, sem saber nem o “Porquê” de estarem voando!! Esses são os sortudos “Masters of Disasters”, que pousam seus Citations X em Angra dos Reis, e contam como se fosse alguma vantagem. Existem até pilotos recém formados se comportando dessa forma!! (Maioria?)
    Agora tem até “Piloto Nerd”! Apelidei esse tipo de “Harry Potter”!! — Ah Cmte!, o Sr. sabe que tipo de “Nuvem” é aquela, como ela se classifica?? Não!! Só sei que ela é “bem feia”, e vou ter que desviar, se não vou estar com um problemão !!

    Por isso, é que eu acho que devemos “descomplicar” a formação aeronáutica.
    Vamos torna-la mais justa, mais objetiva!
    Rever tudo que já foi escrito, aproveitar só o que tem de bom, o que realmente “interessa”!
    Pra quê discutir os MPL´s?? “O Buraco é mais embaixo”!!
    Ao meu ver, estamos teorizando “a possível cura de um resfriado”, num paciente com “Cancer Terminal”.

    Abraços
    Beto

    • Raul Marinho
      5 anos ago

      Pois é, Beto… Como diria a Pitonisa do Oráculo de Delphos, o segredo é o caminho do meio.

  2. Pagani
    5 anos ago

    Como diria o Marcelino “Vamos aprender um pouquinho mais!!! O Srs. serão comandantes agora!!!”.
    O cara foi controlador de voo por muitos anos e via os absurdos que acontecem por ai, por falta de um conhecimento mais profundo da fisica e da matematica envolvida em um voo. Por isso ele tentava passar esse “um pouquinho a mais” e na maioria das vezes era criticado por muitos por estar pegando muito pesado.
    Como já vi em varios comentarios, a mudança não está apenas nas pontas e sim dentro de cada um que encara uma profissão seja ela de aviador ou qualquer outra de forma seria e correta e não apenas para “passar na prova”.

    • Rogerio
      5 anos ago

      Cara, não estudei no ACSP, fiz meu teórico de PP na EACON e algumas pessoas também diziam pro profº pegar leve quando ele tentava dar uma aprofundada na matéria. Ora, o cara foi piloto, militar, ele tem muito conhecimento, nem tanto pela formação, mas pelo que viu e viveu, e o pessoal mais novo ficava achando ruim porque a matéria básica já era pesada, porque não teriam tempo de fazer as atividades da escola…
      É como o Raul já disse, ser piloto não é simplesmente sentar na cabine, fazer o avião voar e receber depois. Tem que estudar mesmo, e não só os conceitos pra passa na ANAC, tem que ter na “veia” como dizia um dos prof, tem que estudar muito mesmo pra aprender.
      Por isso eu digo aos alunos que estão na sala de aula ainda, pra que vocês perguntem mesmo, suguem o conhecimento dos professores, pois tenho certeza que não teremos mais uma oportunidade dessas, de sabermos muito de pessoas que querem nos ensinar e de errarmos enquanto estamos no solo. Desfrutem de sua formação teórica.

  3. Fred Mesquita
    5 anos ago

    Tentar realizar uma pesquisa de cultura científica junto aos pilotos civis, educados nos aeroclubes seria uma tremendo desastre intelectual. De um modo geral, muitos hoje em dia não estão no limite educacional mínimo condizente com esta profissão, bastando apensa para isso, bater um papo de 10 minutos para se perceber o desconhecimento global da situação. E se for pedido que todos façam uma análise de texto e/ou uma simples redação, o desastre será por completo.

    • Raul Marinho
      5 anos ago

      Basta ver os erros de português que a moçada comete nos comentários daqui ou do teu blog…

  4. Eu não sei como é o processo de seleção nas CIAs. Mas a partir de quando começarem a realizar um questionário eliminatório, oral (poderia ser um bate papo informal) sobre teoria de voo e P&B, ai veremos pessoas dando seu jeito para APRENDER teoria de voo de verdade.

    Na minha opinião, a melhor maneira de se saber se alguém tem domínio ou não de um assunto, é através de uma conversa. Em 5 minutos você consegue sacar se o cara é dedicado ou não com determinado assunto.

    O fato de ser exigido, ou não, o curso presencial, não muda nada ao meu ver, já que muitas (não todas) escolas por ai têm baixa qualidade de ensino, com professores pouco didáticos e as vezes despreparados por estarem ali de improvisso (vulgo quebra galho). Vejo que a orbrigatoriedade do curso pra PLA só seria bom pras escolas num primeiro momento.

    Resumindo: pra mim, de bate pronto, pra resolver essa história AGORA, seria as CIAs exigirem um conhecimento mínimo de TV do candidato, avaliada de forma oral. Quem sabe, sabe, quem não sabe gagueja, fica fazendo gestos pra demonstrar e acaba se enrolando… ali você já mata se o cara ficou morcegando e deixou pra estudar pra banca uma semana antes do dia da prova e só faz o mínimo exigido pra tudo. Nunca vai além.

    A longo prazo: criar a obrigatoriedade do curso presencial, mas primeiro, avaliar de forma EFiCIENTE a capacidade dos instrutories da instituição de ensino antes de homologar o curso.

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