Entrevista no G1 com o ex-chefe do CENIPA

By: Author Raul MarinhoPosted on
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O G1 publicou hoje uma matéria muito interessante sobre segurança aérea e investigação de acidentes aeronáuticos, que inclui uma extensa entrevista com o Brig. Jorge Kersul Filho, que chefiava o CENIPA até 2010:

Ex-chefe do Cenipa defende que FAB pare de investigar acidentes civis

Jorge Kersul chefiou órgão que apurou casos de Gol, TAM e Air France.

Investigar acidente aéreo ‘não dá ibope e é encargo que ninguém quer’, diz.

Não vou reproduzir toda a matéria, que é muito extensa, mas gostaria de comentar este trecho (os grifos são meus), que comentarei em seguida:

Em sua primeira entrevista  desde que deixou o comando do Centro de Investigação e Prevenção de Acidentes Aeronáuticos (Cenipa), em abril de 2010, Kersul defendeu, em entrevista exclusiva ao G1, que seja criada uma nova agência para apurar as tragédias aéreas. Desta vez, fora das mãos dos militares.

“A investigação de acidentes da aviação civil deve sair da Força Aérea Brasileira. Esse é um encargo que ninguém quer, não traz benefício algum, não traz nenhum ibope, não há por que ficar com a FAB. Vamos continuar fazendo bem e de forma independente enquanto estiver conosco a obrigação, doa a quem doer. A FAB deveria cuidar da própria FAB, para que sejamos realmente um país que imponha respeito”, afirmou Kersul, na entrevista concedida em sua casa, em Brasília.

Pela proposta, seria criada uma agência destinada à prevenção e à investigação de acidentes da aviação comercial civil empregando ex-militares que já atuaram no Cenipa e que poderiam, no início, treinar pessoal qualificado para continuar o trabalho. “Eu não acho que os militares devam continuar com essa responsabilidade. Quando eu estava no Cenipa, fizemos uma proposta para criar esse órgão e a tarefa sair do comando da FAB. A ideia foi para o Ministério da Defesa e deve estar lá”, diz o oficial.

Para ele, a diferença hierárquica atrapalha o relacionamento entre os órgãos que atuam hoje no sistema aéreo e é o principal motivo que explicaria a investigação de tragédias da aviação civil deixar de ser atribuição do Cenipa.

“Até a década passada, tudo relacionado à aviação no país estava com o Ministério da Aeronáutica. O Estado brasileiro tirou da gaveta uma agência para a aviação civil, a Anac. A Infraero (empresa que administra os aeroportos) também saiu debaixo da Aeronáutica. Foi criada a Secretaria de Aviação, com status de ministério, enquanto que o Cenipa é um órgão dentro do Comando da FAB que está subordinado ao Ministério da Defesa. Há uma diferença de estrutura que gera um conflito”, aponta.

Comento

A primeira frase em destaque da matéria (“a FAB deveria cuidar da própria FAB”) é a única da qual discordo na entrevista. Eu confesso que já pensei assim, inclusive – até conhecer mais a fundo a qualidade da produção acadêmica dos militares. Agora, eu acho justamente o oposto: a aviação civil brasileira não pode prescindir da FAB, que possui um acervo material e humano indispensável ao desenvolvimento técnico da aviação civil brasileira. Defendi esse ponto de vista nestes post, a propósito: “Mudança de paradigma na formação aeronáutica brasileira” e “Cultura científica para aviadores“.

Já quanto à necessidade da criação de um “CENIPA civil”, concordo totalmente com o Brigadeiro (o que não significa que este novo órgão não possa ser comandado e/ou operado pelos militares). Eu não acho conveniente que haja duas estruturas distintas e não comunicantes trabalhando em paralelo, como é o caso brasileiro: a SAC-PR -> ANAC // Min.Defesa/COMAER -> CENIPA. Na minha opinião de administrador de empresas, é indispensável que o chefe da ANAC seja o mesmo que do CENIPA, senão não há como haver unidade de comando. Como isso pode acontecer em termos políticos é algo que eu não saberia opinar, mas tecnicamente não há dúvida de que uma estrutura única seria mais eficiente.

De qualquer modo, esta é a opinião de um mero “leigo esforçado”, não sei o que pensam os experts no assunto. Fica o convite para estes participarem do debate, se julgarem conveniente.

3 comments

  1. wagner
    5 anos ago

    Raul, concordo plenamente com o comentário do Fred, a gente não precisa de mais uma “ANAC” agora para investigação de acidentes, além disso está é uma área extremamente técnica e só a FAB através de suas instituições como CTA,ITA e etc pode fornecer este tipo de treinamento.Agora você acredita que eles vão abrir as portas dessas instituições e dividir estes conhecimentos com civis ?
    De fato eles tem competência, e isso acontece principalmente por eles estarem sobre o regime militar, por força do oficio o militar respeita a hierarquia e cumpre as ordens, agora imagina se isso seria possivel com um funcionário publico de uma agência do governo.
    Não estou defendendo os militares, mas certas mudanças pioram as coisas; escuto muita gente dizendo que tem saudades do DAC.

  2. Fred Mesquita
    5 anos ago

    Essa é mais uma forma de cabide de empregos aos militares da FAB que vão para a reserva. Afora os coronéis que disputam conosco as poucas vagas de empregos com salários muitos baixos, agora essa foi outra novidade. Qual será a próxima ?

    • Raul Marinho
      5 anos ago

      Permita-me discordar, Fredão. Eu acho os caras muito competentes.

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