Opinião da ABAG sobre a formação aeronáutica brasileira

By: Author Raul MarinhoPosted on
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Encontrei no site da ABAG-Associação Brasileira de Aviação Geral um interessante artigo sobre a formação aeronáutica brasileira, assinado pelo sr. Ricardo Nogueira, Vice-Presidente Executivo. Como a ABAG representa uma importante força na aviação brasileira, acho importante que vocês conheçam esta opinião, que segue reproduzida abaixo:

 Recursos Humanos – Uma visão realista 

O gradativo aumento da aviação civil brasileira, ao longo dos últimos cinqüenta anos,
não encontrou restrições ao seu incremento em face de carências de infra-estrutura ou
de falta de material humano, sendo ditado simplesmente pelas variações econômicas.
Entretanto, nos últimos dez anos, com crescimento superior a média internacional, a
aviação brasileira começou a vivenciar uma nova realidade;
A malha aeroportuária brasileira, em sua quase totalidade, foi criada nos anos seguintes
a segunda guerra mundial, tendo recebido insuficiente aumento na capacidade instalada
em poucos aeroportos. O aumento gradativo das operações aéreas, ou por aumento da
frota nacional ou pelo maior uso de uma mesma aeronave, passou a mostrar para a
sociedade que o Estado brasileiro não se preparou para acompanhar a evolução da
aviação civil.
Nesse contexto, a aviação geral, parte da aviação civil, é a ferramenta fundamental de
união e inclusão no Brasil de proporções continentais. È setor, não envolvido,
diretamente, com o transporte aéreo regular de passageiros e cargas, que abastece toda a
cadeia produtiva da aviação civil. É a que mais tem se ressentido com a carência da
infra-estrutura. Diante do desbalanceamento entre demanda e capacidade instalada, a
solução encontrada tem sido a de aplicar restrições ao vôo, impostas desigualmente para
a aviação geral. As autoridades aeronáuticas têm dado expressiva preferência para o
transporte de massa, minimizando a importância econômica e social da aviação geral.
Mesmo essa predisposição para o transporte comercial regular não garante a autosustentabilidade da cadeia produtiva do setor aeronáutico, pois, além da falta de infraestrutura, uma carência ainda maior ocorre nos pilares da aviação civil brasileira. É na
aviação geral que se formam os recursos humanos que irão, no futuro, compor as
equipes técnicas da aviação civil internacional brasileira. No inicio da cadeia produtiva,
a formação dos recursos humanos, se não for devidamente fortalecida, implicará em
descompasso entre necessidade e disponibilidade de profissionais.
A realidade brasileira aponta para um cenário não muito promissor. A permanecer a
curva de crescimento da aviação, mesmo que a índices menores do que os verificados
em passado recente, recobre de ansiedade, ate com certo temor, aqueles que pretendem
continuar fazendo parte da indústria brasileira. Os sinais já se mostram visíveis na falta
de pilotos e de técnicos de manutenção. Os aeroclubes, berços da instrução primária de
pilotos e mecânicos, já não conseguem formar esses profissionais em quantidade
suficiente para suprir as necessidades do mercado.
Os jovens interessados nas carreiras da aviação, apesar de atraídos pelo ambiente
aeronáutico, estão cada vez mais preferindo profissões que possam dar um retorno à
curto prazo. É difícil para os mais humildes, grande parte dos jovens que entram no
mercado de trabalho, pagarem seus cursos básicos e continuarem a custear outros de
elevação de nível, Os que conseguem a capacitação exigida, abandonam a aviação geral
seduzidos pelos encantos de trabalharem numa grande empresa aérea. As vagas abertas
são logo preenchidas, mas com evidente decréscimo na quantidade e qualidade.
Assim, as empresas de táxi aéreo, as de serviços aéreos especializados e as de
manutenção de aeronaves começam a sentir a falta de mão-de-obra de qualidade.
Financiam com recursos próprios o aprimoramento técnico de jovens de todo o
território brasileiro e, de repente, são surpreendidos com o êxodo desses profissionais
em direção da aviação regular nacional ou ate mesmo para mercados estrangeiros. Isso
sempre aconteceu, mas nunca com a velocidade dos dias atuais.
O tratamento isolado dessa realidade pode levar a conclusões equivocadas. Não se trata
de um problema que aflige a um grupo de empresários, nem mesmo está contido nas
divisas de um estado ou região brasileira, mas sim de um problema em escala nacional,
que se agiganta num importante setor da economia brasileira. O descompasso é tão
nítido que deixa de ser um problema de cunho privado para ser um problema de Estado,
merecedor da atenta observação dos governantes.
Quais seriam as soluções para se modificar esse cenário? O que deve ser feito para
reverter as projeções de um desbalanceamento entre necessidades do mercado
aeronáutico e disponibilidade de técnicos?
O tempo de formação para um piloto e de um mecânico, ate que ele possa ser
considerado um profissional qualificado, supera 3 anos, podendo chegar ao dobro,
dependendo da região que o jovem estiver. Demasiado tempo para a realidade brasileira.
Somente uma política publica especifica pode gerar as condições, oportunamente, de
enfrentamento do problema crescente.
Não basta a profusão de cursos particulares para garantir a quantidade e qualidade
exigida para o mercado aeronáutico. É necessário que o jovem tenha razoáveis garantias
de incentivo e colocação no mercado para poder, no futuro, ressarcir o financiamento da
sua especialização. A iniciativa governamental deve ser rápida, coordenada, ouvindo e
aceitando as sugestões do próprio mercado. Só assim a resposta será mais breve e
precisa.
Com as parcerias publico e privado, os recursos financeiros empregados poderão formar
uma nova geração de técnicos, suficientes para a continuidade da vocação aeronáutica
brasileira. Nessas condições, o vôo da aviação geral brasileira alcançará níveis mais
altos e com menos turbulência. Diante do crescimento da economia brasileira e das
projeções de aumento da frota de aviões e helicópteros, não existe outro plano de vôo a
ser preenchido.

Ricardo Nogueira
VPE ABAG

10 comments

  1. Bárbara
    5 anos ago

    Todos dizem que a formação é ruim para a grande maioria e eu concordo. Mas e eu que me qualifiquei da melhor maneira possível, me mantenho atualizada e faço tudo o que é necessário para ser contratada para qualquer emprego e não tenho oportunidade, pois sou mulher? pois sou recém formada, com as minhas 350 horas? Porque será?
    O incrível é que todos falam que faltam pilotos mas todos os currículos que enviei a resposta foi “Obrigada pelo seu interesse mas já estamos com o nosso quadro completo”. Estranho não é mesmo?
    Nem se quer se deram ao trabalho de verem se realmente minha formação foi boa ou ruim, se sou boa piloto ou não.
    Bom enfim, eu acho mesmo que há muita falta de união entre os pilotos em geral e muito preconceito da parte dos donos de taxi aéreo e aviões particulares.
    Fica o meu dasabafo.

    • Raul Marinho
      5 anos ago

      Eu só não teria tanta certeza que o problema é vc ser mulher. Eu não sou e estou desempregado do mesmo jeito…

      • betoarcaro
        5 anos ago

        …e ninguém eh bom piloto, sem experiência !! Assim como ninguém eh bom Medico, Engenheiro, etc.

  2. Fred Mesquita
    5 anos ago

    Falar é fácil, todo mundo sabe fazer isso com elegância e palavras bonitas. O difícil é “arregaçar as mangas”, todos acham que essa é a função dos outros, não lhe pertence.

  3. André Lukin
    5 anos ago

    Recentemente teve em BRS uma reunião entre ANAC e representantes da aviação geral para discutirem sobre esses e outros problemas da aviação brasileira. Voces saberiam dizer quem foi? Qual o resumo destas reuniões e os prováveis rumos a serem tomados? Eu procurei na nos sites de aviação e não encontrei nada. Só sei que nenhum representante de escolas ou aeroclubes estava presente. E aí/ Fazer o que? Me repondam se tem conhecimento.

  4. JPacc
    5 anos ago

    Sou parceiro pra ajudar a desenrolar idéias… Talvez possamos, juntos, montar algo bem elaborado e convincente. Temos que tentar. Só reclamar e reclamar não vai dar em nada.

    Se parar pra pensar e comparar, a formação aqui no Brasil (especialmente no interior) é assustadora. Literalmente.

    • RodFigueiroa
      5 anos ago

      Eu faço de parte de suas palavras as minhas, o problema é que falta união da classe para termos força e vez, um ou outro tem disposição para reunir e fazer alguma coisa, infelizmente temos poucos interessados em mudar algo, reclamar é mais fácil para eles…

  5. Lucas Neves
    5 anos ago

    Da pra imprimir isso em fonte 150 e mandar deixar na casa da Dilma????

    Estou em formação nesse momento e sei que vou precisar batalhar muito pra ter uma boa qualificação no mercado, o que não deveria ser, pois na minha opinião deveriam ter empregos sobrando no ramo da aviação mas como foi dito no texto da ABAG, a malha brasileira nos impede de crescer! Triste mas e verdade!

  6. José Roberto Arcaro Filho
    5 anos ago

    Perfeito!!
    Fala tudo que a gente já discutiu aqui no “Blog”!!
    Acho que criaram um “Gap” de formação Aeronáutica!!
    A “antiga”, não era perfeita, mas agora, nem à ela eles conseguem “Imitar”!!
    Tinham que ter pensado nisso, quando a “Formação Antiga”(Digo de novo: Que já não era perfeita!)
    começou a “Degringolar”. Agora, não tem mais jeito!!
    O negócio e “arregaçar as mangas” e começar a trabalhar pra daquí à 20 anos, ter algum resultado.

    • Raul Marinho
      5 anos ago

      Pois é justamente isso que eu gostaria de propor para a ABAG…

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