Aí sim, “O Globo”! Finalmente uma matéria bem feita sobre aviação!

By: Author Raul MarinhoPosted on
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Embora este seja um blog especializado em “coaching de formação aeronáutica”, eu costumo tratar das barbaridades que a imprensa publica sobre aviação sempre que as vejo. Não tem uma relação direta com o que o blog se propõe, mas indiretamente interfere, sim, uma vez que uma reportagem mal feita pode induzir a erro pessoas interessadas em iniciar sua formação para piloto. Acho que o exemplo mais contundente neste sentido está neste post aqui.

Bem, mas o fato é que o jornal “O Globo” me surpreendeu com uma matéria absolutamente correta sobre aviação, numa matéria publicada hoje. Paradoxalmente, ela está no Segundo Caderno (voltado a artes e entretenimento), e seu autor é pródigo em falar bobagens várias (ouço seus comentários na rádio CBN quase todo dia, e sei do que estou falando) – só que, desta vez, foi felicíssimo no seu texto. Como não perco a chance de criticar quando vejo as tais barbaridades, acho que tenho o dever de elogiar quando aparece uma matéria bem escrita, então fiquem com ela (a fonte foi o Aeroclipping do SNA):

Mais duas ou três coisas sobre a neblina
A falta que faz um ILS nas aeronaves e nos aeroportos brasileiros
ARTUR XEXÉO
SEGUNDO CADERNO

Há algo estranho nos aeroportos do Brasil além dos aviões de carreira. Nesta época do ano, uma época propícia a neblina, os atrasos são constantes, e as desculpas são sempre as condições meteorológicas que impedem as aeronaves de pousar e, consequentemente, de decolar. Voos matutinos se transformaram em ilusão, e o tráfego no céu brasileiro só começa mesmo depois de 10h da manhã. Esta humilde coluna tratou do assunto no último domingo e recebeu alguns comentários que esclarecem a questão.

Comecemos com o e-mail de René Milazzo, que se apresenta como um “fã das ciências aeronáuticas”:

“Esclareço que o impeditivo de as aeronaves decolarem sob nevoeiro (definição mais técnica do que neblina) é porque, em caso de eventual pane nesta fase do voo, nem sempre é possível elas retornarem à origem no modo visual.

“Saliento que já existe há muito o ILS, Instrument Landing System, um sistema de aproximação por instrumentos (sinais de rádio VHF/ UHF solo-avião), que dá uma orientação precisa ao avião que esteja pousando. Quase todos os aeroportos de porte possuem este sistema.

“Para se ter uma ideia, Heathrow, em Londres, que apresenta frequentemente teto e visibilidade zero, usa a versão 3-C do ILS, capaz de ‘capturar’ a aeronave a 54 milhas do aeroporto e trazê-la em segurança ao solo sem qualquer ação do piloto!

“Curiosamente, já tivemos este equipamento por aqui… Já tivemos. Prefiro não comentar por que não o temos mais, porém não é difícil deduzir os motivos, típicos do jeito tupiniquim de administrar as coisas.

“Se os ILS estivessem operando, as aeronaves voariam em qualquer condição meteorológica, em qualquer horário, em qualquer parte do nosso continental país de Dilma. Sem ele, haja caminhadas pelos Congonhas da vida, o que é bom para melhorar o condicionamento físico e o conhecimento de novos títulos nas livrarias.”

Então é isso? Os aeroportos e as companhias aéreas põem a culpa nas condições meteorológicas, mas, na verdade, a culpa é deles, que não estão atualizados.

A mensagem de Jorge Nunes de Oliveira, controlador de tráfego aéreo, amplia a nossa discussão:

“Li o seu artigo na Revista O GLOBO, reportando o seu atraso, causado por nevoeiro, em um voo. Esse incidente, que acontece quase que diariamente, varias vezes por dia, principalmente nos meses mais frios do ano, em diversos aeroportos brasileiros, causando transtornos a milhares e milhares de pessoas, até hoje não recebeu o devido tratamento por aqueles que se dizem responsáveis pela segurança da aviação brasileira. Fica muito mais fácil colocar a responsabilidade sobre os ombros de São Pedro do que tomar medidas concretas para solucionar o problema de uma vez por todas instalando equipamentos que permitam às aeronaves pousarem com praticamente zero de visibilidade e teto, como acontece na maioria dos aeroportos da América do Norte, da Europa e da Ásia.

“O povo, que não entende nada do assunto, como sempre aceita tudo passivamente, pois, contra a natureza, ninguém pode. Neste caso, pode, sim. Basta instalar os equipamentos necessários. Gostaria que o senhor soubesse que nos Estados Unidos, onde o número de aeronaves é dez vezes maior que no Brasil (cerca de 230 mil), a Federal Aviation Administration está instalando um sistema chamado Next Gen, que permitirá reduzir os atrasos nos voos para algo em torno de cinco minutos, já considerados prováveis problemas de meteorologia. Na Europa, o Eurocontrol, constituído por cerca de 26 ou 28 países, está unificando os procedimentos para diminuir os atrasos para algo em torno de três a cinco minutos, implantando o chamado Sesar. Lá eles possuem equipamentos chamados de ILS, GNSS, RNPs, rede de satélites que conduzem a aeronave até o ponto de toque também com visibilidade zero. Nesses países, existem investimentos pesados em infraestrutura aeronáutica (controle de tráfego aéreo e instalações aeroportuárias).

“Nesses países, existe uma indústria aeronáutica eficiente e com qualidade dos serviços, há respeito e compromisso com o usuário e busca incessante para atingir a excelência. Existe competitividade, o que não acontece por aqui. A Aeronáutica, como responsável pelo sistema de controle de tráfego aéreo, mantém um controle rígido sobre a atividade e sobre as empresas que desejam, de alguma forma, ingressar na atividade. Não existe uma política de incentivo às empresas destinadas a pesquisa e desenvolvimento. Toda a minha vida, dediquei-me de corpo, alma e espírito ao controle de tráfego aéreo, sonhando que algum dia seríamos parecidos com os países desenvolvidos. Puro engano. Hoje, prestes a me aposentar, vejo que, infelizmente, ao que parece, juntamente com alguns colegas que também acreditavam nessa possibilidade, perdemos a batalha.”

6 comments

  1. Gustavo Franco
    5 anos ago

    Deu até um sentimento de revolta: Deus, por que me fez nascer brasileiro?

    Piada à parte, é impressionante como aqui tudo é mais complicado, mais difícil.
    Só mesmo acreditando na desculpa de que “com a natureza ninguém pode” para ficar menos nervoso.

  2. Rogério
    5 anos ago

    Eu quero saber como podemos, de quem podemos cobrar por uma maior infra-estrutura no sistema aéreo.

    • Raul Marinho
      5 anos ago

      Em quem vc votou para Dep.Federal e Senador? Acho que começa por aí…

  3. Mario Ettiopi
    5 anos ago

    Atualmente sou Instrutor de voo mas ja trabalhei em uma CIA aerea como Comissario e posso dizer com todo o conhecimento de causa que um aviao alternar por causa de mal tempo é uma mao de obra que vcs nao tem ideia, ou melhor, TEM mas nao pela otica de um tripulante/Cia aerea. É um transtorno GERAL e ninguem ganha com isso. Nem mesmo as empresas. Acho uma sacanagem culparem sempre as empresas aereas por qualquer q seja o motivo. NAo quero defende-las mas sim ser Justo. Uma vez vi em uma entrevista nao me lembro onde (me perdoem) que os Direitos do Consumidor Brasileiro são Mto severos com as Cias areas.Uma vez que, se CWB fechar durante o finalzinho da noite de uma sexta feira a empresa é obrigada a fornecer Taxi, Hotel, telefone e os cambau e outra no outro Dia o cara entra no aviao maltratando todo mundo ! Despachante, Comissario, Piloto e quem for !!! Que culpa as cias tem se o pais nao olha pra esse setor com outros olhos !? Quem vive nesse mundo sabe bem o que deve ser feito e onde estao os pontos fracos e fortes. Parabenizo seu trabalho como Coaching e pelos artigos muito pertinentes postados aqui !
    Abraços e Otimos voos a todos !

  4. Enderson Rafael
    5 anos ago

    Xexéu fez um bom serviço à comunidade, embora, claro, nem tudo seja tão simples assim: a Infraero deixa muito a desejar, mas nem todos os aeroportos brasileiros podem ter ILS (SDU, por exemplo), ou mesmo os que têm e não podem ter ILS CAT3 (CGH, por exemplo). E as empresas se preparam sim, temos uma frota moderna e bem equipada. Mas com pistas esburacadas, poucos auxílios à navegação e esparsos ILS disponíveis, o que as empresas podem fazer? Vão gastar milhões homologando aeronaves e tripulações pra operar ILS Cat 3 num país que não o têm?! As empresas brasileiras têm seus defeitos, mas dizer que não se estruturam é maldade. Afinal, temos BMWs fazendo safaris na África, lembram? Se nossa frota fosse equivalente à infraestrutura aeroportuária do Brasil, a estrela da frota seria o breguinha.

  5. ilo rego
    5 anos ago

    Parabéns pela matéria, muito apropriado, já passamos da hora de cobrar melhores condições.

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