A falta de “cultura de segurança” no acidente com o paraquedista em Boituva

By: Author Raul MarinhoPosted on
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A imagem acima* está estampada na edição de hoje do jornal de maior circulação do Brasil. São os dados de um piloto que estão expostos, não os de um empresário ou de um funcionário da ANAC.

(*Por uma questão de decoro profissional, encobri a fotografia e os dados mais sigilosos do piloto. Sei que a imagem original pode ser obtida facilmente, mas me sinto constrangido em expor a intimidade de um colega aqui.)

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Não demorou três dias, e apareceu uma evidência da falta de “cultura de segurança” relacionada ao recente acidente com três paraquedistas (um morreu, dois ficaram feridos) em Boituva-SP. Segundo informações da Folha de S.Paulo, reproduzidas abaixo, o piloto estava com suas habilitação de LPQD-Lançamento de Paraquedistas vencida desde 2006, e seu CMA vencido desde maio último. Foi isso o que causou o acidente diretamente? Claro que não! Aliás, a investigação do CENIPA mal começou, e não tenho ideia do que causou o acidente. Mas é um claro indício de que a operação não estava sendo executada de acordo com o recomendado pelas autoridades de segurança aeronáutica. Nos comentários logo após a nota da Folha, eu vou contar uma coisa que aprendi na minha época de bancário, sobre esse negócio de “formalidade burocrática”. Mas, antes, gostaria de adiantar uma recomendação aos atuais e futuros pilotos.

Como vocês estão vendo, a fotografia que vai para os jornais como o vilão da história é a do piloto. Não foi só ele que errou neste caso: a empresa dona do avião foi quem agiu em desacordo com as regras, em primeiro lugar – ela teria que checar a habilitação de seu funcionário, é óbvio. E a ANAC, que não exerceu seu papel de fiscalização como deveria, também tem sua cota de culpa. Só que vocês não verão nos jornais a fotografia do dono da empresa proprietária do avião, nem do presidente da ANAC… Por isso pessoal, não vacilem, pois se acontece uma tragédia como essas, serão vocês, os pilotos, os maiores prejudicados (que inclusive arriscarão a própria pele num acidente). Vamos à reportagem agora, e depois tem os meus comentários.

Piloto sem habilitação lançou paraquedistas em Boituva (SP)

RICARDO GALLO
REYNALDO TUROLLO JR.
DE SÃO PAULO
DANIEL CARVALHO
ENVIADO ESPECIAL A BOITUVA

O piloto do avião que atingiu um paraquedista no ar em Boituva (a 121 km de São Paulo) está com a habilitação para lançar paraquedistas vencida desde outubro de 2006, de acordo com os registros da Anac (Agência Nacional de Aviação Civil).

A habilitação específica para lançamento de paraquedistas é obrigatória. Douglas Leonardo de Oliveira, 35, também está com o exame médico vencido desde 15 de maio de 2012, ainda segundo os dados da Anac, que podem ser consultados no site da agência. Ele tem autorização em dia para voar alguns tipos de aviões, entre os quais o Cessna no qual estava –o que não é suficiente.

A Folha tentou falar com ele ontem (10) à noite, mas não conseguiu. Em depoimento à polícia à tarde, ele disse que tinha mais de 7.000 horas de voo e que já trabalhou em companhias aéreas de transporte regular. Mais cedo, disse ter sido uma fatalidade o que aconteceu.

O paraquedista Alex Adelman, 33, morreu. Ele filmava um salto duplo de outros dois paraquedistas quando foi atingido pela asa do avião. Alex foi jogado contra outros dois paraquedistas, que fraturaram as pernas.

Ontem, o piloto disse à polícia que fez uma manobra conhecida como “mergulho”, em que o avião desce na vertical, após o salto dos paraquedistas.

De acordo com Roberto Peterka, ex-técnico do Cenipa (Centro de Investigação e Prevenção a Acidentes Aéreos), essa manobra é irregular. O presidente da Federação Paulista de Paraquedismo, Francisco Leite de Carvalho, disse o mesmo.

“Ao piloto é solicitado [pelo paraquedista] que faça esse mergulho para a filmagem. Quando o avião lançou [o paraquedista com a câmera], em seguida ele embicou na vertical. O paraquedista foi para baixo do avião e o avião, vindo na vertical, bateu no cameraman”, disse Carvalho.

O delegado que investiga o caso, Carlos Antônio Antunes, não soube informar se a manobra é proibida.

Segundo ele, técnicos do Cenipa que periciaram o avião ontem pela manhã informaram que não há irregularidades na aeronave e na documentação dela.

Ontem (10), a polícia procurou o vídeo feito por Adelman no canavial próximo ao local de pouso, onde Alex caiu, mas, até o início da noite, não havia encontrado nada.

Outros quatro paraquedistas saltaram antes das vítimas e não se feriram, segundo a polícia.

* Colaborou LÉO ARCOVERDE, do “AGORA”

Comento

Quando trabalhava no Citibank, como gerente de contas do “Corporate” (a área do banco que faz negócios com empresas de grande porte), havia um bicho papão que nos visitava todo ano: a auditoria de crédito. De repente, apareciam uns gringos vindos diretamente de N.York, que se trancavam na sala de reuniões, e pediam todos os arquivos relacionados a alguns clientes selecionados. Lógico que aqueles com maior volume de recursos tomados, e principalmente os que estavam apresentando deterioração de sua saúde financeira, eram os mais populares. A auditoria começava pela parte formal das operações: Todos os documentos estavam em ordem? Todas as aprovações foram feitas corretamente? Todas as recomendações foram executadas? Depois, eles passavam para a qualidade da decisão em si, verificando se você foi tecnicamente hábil quando achou que era uma boa ideia emprestar dinheiro para uma empresa que, passado algum tempo, apresentava grandes chances de não devolver a grana. Se, quanto à sua decisão, você tivesse sido uma “anta”, certamente isso não ajudaria a obter uma promoção na próxima avaliação de desempenho. Mas se seu erro fora formal – por exemplo: você se esqueceu de pegar uma assinatura do seu diretor num relatório -, aí o bicho pegava mesmo, e provavelmente você seria demitido. Foi então que eu aprendi a me preocupar com as “formalidades”, e uso isso até hoje na minha vida em geral.

Na aviação, as “formalidades” são inúmeras e muito chatas de serem cumpridas, e a chance de você ser pego infringindo uma regra formal, mínima. Na verdade, é muito tentador dar uma banana para a ANAC e fazer tudo do seu jeito, já que um INSPAC não aparecerá para te fiscalizar (estando você certo ou errado) com 99,9% de certeza. Só que, se você for pego, as consequências não serão nada boas – e se o flagrante estiver relacionado a um acidente, então, aí é o inferno. Por isso, pessoal, é preciso ser muito “Caxias” se vocês quiserem ser bons pilotos. Na aviação, o mundo não é dos “ishpérrrtosh”, podem acreditar!

14 comments

  1. Freddy
    5 anos ago

    “Na aviação, o mundo não é dos “ishpérrrtosh”, podem acreditar!”
    Raul, o trecho reproduzido acima é exatamente o que penso.
    O mundo da aviação é muito pequeno e as histórias voam na velocidade do concorde.

  2. Não entendi uma coisa, no print da tela consta que (talvez a carteira) foi expedida para entrega em 15/05/2012.
    O que será isso?
    Porque até onde sei, quando renovamos alguma carteira altera-se a validade online e a mesma segue pelo correio. Estou achando estranho isso.
    No mais pessoal, também acho que o cara fez “caca”, apesar de ainda, estarem apurando as responsabilidades, mas na boa, quem somos nós para julga-lo.
    Antes de condena-lo devemos ver todo o contexto e somente assim, tecer comentários mais contundentes.
    Com a rapidez das informações, nas quais estamos sujeitos, tenho medo da forma que as opiniões e atitudes se propagam.
    Sem pestanejar, já tomamos partido de alguma coisa, e com isso os acusados muitas das vezes são severamente condenados pela mídia e pela opinião pública.
    Não vamos cometer injustiças.
    Nessas situações, sempre me lembro do caso da “Escola Base”.
    Lembrem-se que todos nós estamos sujeitos a isso, nas pequenas coisas e nos pequenos deslizes.
    Abrs

  3. Outra coisa que vejo que acontece (e muito) e não há fiscalização, é PP-A e PP-H trabalhando remunerado porém não registrado em carteira (principalmente longe dos grandes centros).

    Essa prática é antiética mas não sei se a ANAC abordasse um camarada desse, se daria em algo, afinal ele pode alegar que está voando pra um amigo na camaradagem. E se for assim, temos uma enorme brecha nas regras pra se voar profissionalmente.

    • Raul Marinho
      5 anos ago

      Esse tipo de procedimento irregular – PPs voando de forma remunerada – só não é mais comum porque tem PCs sobrando no mercado, que topam voar por qualquer coisa, até de graça… Mas se chegarmos numa situação de “apagão de pilotos”, pode apostar que isso vai ser a regra nos céus brasileiros.

    • Fred Mesquita
      5 anos ago

      Precisa ir longe não, nos principais aeroportos brasileiros, muitos ignoram a falta de fiscalização e burlam a lei sem o menor pudor. No Campo de Marte a coisa rola solta….

  4. jositinin
    5 anos ago

    Olá Raul,

    Lendo seu comentário sobre o “Bicho Papão” lembrei de algo parecido. Trabalho em uma empresa especializada em Aerolevantamentos e posso dizer que, o que não nos falta é fiscalização. Anualmente são feitas duas auditorias, sendo uma interna para a detecção de possíveis irregularidades e outra feita por auditores externos que fiscalizam a qualidade dos serviços e da empresa em geral. Nessas auditorias tudo é checado, uma verdadeira malha fina. Nenhum piloto, O.E.E. ou aeronave segue viajem se não estiver com tudo em dia. Me lembrou até aquela música: “Tem que ser selado, Registrado, Carimbado, Avaliado, Rotulado, Se quiser voar…” Mas isso, é claro, são procedimentos que ocorrem devido a própria cultura de segurança e qualidade da empresa. Nos cinco anos que trabalho com SAE, não me recordo de nenhum outro fiscal nos visitando, nem para tomar um cafezinho quanto mais para fazer uma vistoria. Quanto ao episódio do piloto, ele deve ser daqueles que acreditam além da conta na sorte e vivem a cultura do “Isso nunca vai acontecer comigo”. Alguns pilotos cometem erros justamente por estarem seguros demais, autoconfiantes demais e por terem mais horas de voo do que juízo.

  5. Renato Guardiola
    5 anos ago

    Esse piloto tá ferrado. No fundo sinto pena.

    • Fred Mesquita
      5 anos ago

      Pô kara, sentir pena de quem faz merda ? Estou com minhas CHTs vencidas e mesmo assim recebo convites pra voar, e ninguém tem pena de mim…. kkkk

      Devemos ter pena de quem está todo certo e a empresa ferra com os karas… por exemplo a GOL, demitindo o pessoal. Desses é que devemos ter pena…

      • Renato Guardiola
        5 anos ago

        Concordo contigo. Sinto pena, na verdade, do que a mídia vai fazer com ele. É capaz de ele ser julgado por um erro que ele talvez não tenha cometido (atropelar o PQD por imperícia ou algo do tipo), por um outro erro que ele certamente cometeu e deve ser punido (voar sem habilitação/com habilitação vencida). Mas daí nesse último caso quem julga é a ANAC, e não Polícia Civil ou congeneres.

        • Raul Marinho
          5 anos ago

          A ANAC julga administrativamente, mas o caso também será julgado pela Justiça comum, criminalmente. E o fato de ele não estar devidamente habilitado irá complicar bastante a situação. Só por esse “detalhe”, o crime pode ser visto como doloso ao invés de culposo, o que implicaria em júri popular, e muito mais anos de cadeia em caso de condenação. É por isso que eu escrevi esse post, alertando para o problema da “correção burocrática”, que muitos acham uma bobagem, mas que é muito mais importante do que parece.

          • Fabio Carvalho
            5 anos ago

            Meu professor de Regulamento de Tráfego Aéreo chamava a disciplina de “Segurança de Vôo”, e isso era por ele justificado indicando que a regulamentação que traz ordenamento do tráfego aéreo, é uma resposta aos riscos conhecidos na história da aviação. Ou seja, deixar de seguir o Código Brasileiro de Aeronáutica em algum nível é aumentar a exposição a riscos em algum nível.

  6. Fred Mesquita
    5 anos ago

    Essa prática de voar com exames vencidos é coisa muito corriqueira hoje em dia. Com a total falta de fiscalização por parte da ANAC, muitos entram nessa roubada.

    A nosso ver, a pura falta de fiscalização é o grande mentor dos vários acidentes aeronáuticos que acontecem hoje no Brasil, mas ninguém aponta de quem ér a culpa, onde a corda arrebenta sempre pro lado do mais fraco – o piloto.

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