Erro grotesco do Estadão sobre a instrução aeronáutica

By: Author Raul MarinhoPosted on
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Eu costumo apontar aqui, sempre que encontro (vide este exemplo – curiosamente, sobre uma ocorrência com um helicóptero de instrução da Go Air, a mesma escola que esteve envolvida em um acidente fatal nesta semana), os erros da imprensa quanto às notícias relacionadas à aviação. Geralmente, são equívocos sem gravidade, com pouco potencial para prejudicar o leitor. Não é o caso do jornal “O Estado de São Paulo” (o popular “Estadão”), que tem cometido erros com maior gravidade (vide esta reportagem, equivocada quanto a questões básicas da formação aeronáutica).

Ocorre que, hoje, o Estadão cruzou a barreira da irresponsabilidade jornalística, e publicou uma matéria com erros grotescos quanto a informações acerca da  nova  regulamentação sobre licenças e habilitações de pilotos da ANAC, o RBAC-61. Estes erros podem induzir um leitor do jornal a tomar decisões erradas quanto à sua formação aeronáutica, então achei importante não só escrever um post sobre isto (este aqui), como também enviar uma correspondência ao jornal solicitando sua retificação – que farei a seguir. Tenho fé que o jornal corrigirá a informação na edição de amanhã com o devido destaque. Veremos…

Bem, mas voltando à reportagem incorreta, veja abaixo como ela saiu na edição de hoje (a fonte foi o Aeroclipping do SNA). Comento em seguida.

Anac cobra mais horas de voo de instrutores

Quem quiser ser professor terá de acumular 200 horas de experiência [1]; medida, porém, só entrará em vigor daqui a dois anos

A Agência Nacional de Aviação Civil (Anac) apertou as regras para pilotos que querem ser instrutor de voo nas escolas de aviação. Além das horas regulamentares para conseguir habilitação de piloto, quem quiser ser professor terá de acumular 200 horas de voo – antes, o requisito era de 150 horas [2].

A medida faz parte do novo Regulamento Brasileiro de Aviação Civil (RBAC) 61, publicado há um mês pela Anac no Diário Oficial da União, mas só entra em vigor em julho de 2014 [3]. A agência não explicou porque essa parte do regulamento só valerá daqui a dois anos.

Das 200 horas de voo, a Anac exige que pelo menos 15 tenham sido realizadas seis meses antes da solicitação do brevê de instrutor de voo.

Um piloto comercial de helicóptero – como era o caso de Mailson Rocha, instrutor da aeronave que caiu ontem – precisa ter 100 horas de voo para exercer a profissão. Com mais 50, completaria o antigo requisito para ser instrutor. Com o novo regulamento, precisaria de mais 100 [4].

Piloto privado. Para quem é piloto privado de helicóptero, a exigência aumenta ainda mais: apenas 35 horas são necessárias para a habilitação comum. Será preciso voar mais 165 horas para conseguir se tornar um instrutor [5].

De 2010 para 2011, a quantidade de habilitações emitidas para pilotos privados de helicóptero dobrou no País. / N.C.

Comento

A repórter (acredito que as iniciais “N.C.” refiram-se a Nataly Costa, que assina outra matéria na mesma edição) misturou os requisitos de horas de voo para obtenção de licenças de piloto de avião e de helicóptero, e ficou claro que ela não sabe a diferença entre “horas de voo totais” e “horas de voo em comando”, dentre outros equívocos. Vamos, então, explorar esses erros e corrigi-los (a numeração abaixo coincide com as marcação adotada no texto da reportagem):

1) Na realidade, o correto seria afirmar que “quem quiser ser professor terá de acumular 200 horas de voo em comando, que equivalem a aproximadamente 300h de experiência total, no mínimo”. Para entender isto em detalhes, veja a explicação neste post, mas em resumo é o seguinte:

– Um piloto pode voar “em comando” (quando é ele o primeiro responsável pela missão), como “copiloto” (quando atua sob ordens do piloto em comando), e em “duplo-comando de instrução” (o nome já diz tudo), dentre outras possibilidades menos frequentes.

– Um instrutor de voo precisa obter a licença de piloto comercial previamente, e neste processo ele acumulará, se realizar sua instrução em escola homologada cumprindo os requisitos mínimos exigidos pelo regulamento, somente 70h em comando no caso de avião, ou 35h em comando, no caso de helicóptero.

– Desta forma, para que ele obtenha a marca de 200h em comando, ele vai precisar de mais 130h de voo comandando aviões, ou 165h comandando helicópteros. Somando estas horas adicionais às horas dos cursos de piloto provado, comercial e instrutor de voo, chegamos às marcas aproximadas de 300h de voo totais.

2) Quem quiser ser “professor” (instrutor) do quê? O INVA-Instrutor de Voo de Avião possui determinados requisitos, enquanto que o INVH-Instrutor de Voo de Helicóptero possui outros. Mas em nenhum dos casos, as marcas citadas fazem sentido. Pelas regras antigas, um INVA teria que ter cerca de 180h de voo totais, e um INVH, 115h totais (em ambos os casos, incluindo as horas de voo requeridas no curso de instrutor). Hoje, ambos precisarão de aproximadamente 300h de voo totais, conforme explicado no item anterior.

3) Na verdade, estes requisitos entrarão em vigor em 22/06/2014.

4) O piloto comercial de helicóptero precisa, de acordo com as regras antigas (válidas até 2014), somente de fazer o curso de INVH, com 10h de voo, para se tornar instrutor. Contando com os voos de cheque, etc, ele estaria habilitado para a função com cerca de 115h de voo totais. Quando as novas regras entrarem em vigor, este mesmo INVH vai precisar de possuir quase 300h de voo totais (vide explicação do item 1). Como se vê, a diferença é muito grande em relação ao informado na reportagem.

5) Este parágrafo é completamente sem sentido, uma vez que é obrigatório (já era no regulamento antigo, e continuará sendo) que um instrutor de voo tenha a licença de piloto comercial previamente.

8 comments

  1. Vinícius
    5 anos ago

    Hoje saiu outro absurdo no jornal Metro.
    Quem quiser pode conferir aqui http://www.publimetro.band.com.br/

  2. Renato Guardiola
    5 anos ago

    Nossa Raul, voce já se adiantou. Eu estava escrevendo um e-mail para eles sobre essa reportagem que li através do Clipping to SNA.

    Obrigado pela agilidade e interesse em sempre levar informação aos leigos e profissionais!

    • Raul Marinho
      5 anos ago

      Não deixe de escrever o seu e-mail por causa deste post! Quanto mais gente reclamar da mesma coisa, maiores as chances do jornal levar a coisa a sério. E, se quer saber, acho mais provável eles publicarem a sua carta do que a minha.

      • Renato Guardiola
        5 anos ago

        Maravilha. Vou mandar sim!

        • Fred Mesquita
          5 anos ago

          Responda sim Guardiola, pois conheço muito bem sua pessoa e você sabe quem sou ?…. kkk pois bem, ha tempos vejo sua ótima participação nos posts relacionados com a aviação civil, todas muito bem elaboradas. Estão de parabéns você, o Raul Marinho e demais companheiro que acompanham assiduamente este Blog.

  3. Roquini
    5 anos ago

    Raul, só faltou enviar seu post para a redação do Estadão (ou você já o fez?) rs

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