O Truvada e a lógica do aumento do risco dos “pilotos de Cirrus”

By: Author Raul MarinhoPosted on
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Medicamento Truvada<br />

Há muito mais semelhanças do que você possa imaginar entre este medicamento e um avião dotado de paraquedas balístico.

Acabou de ser regulamentado pela FDA (a ANVISA dos EUA) um novo medicamento de prevenção contra a AIDS, o Truvada. Ocorre que o remédio não é 100% eficaz (fala-se em redução de risco entre 44% e 73%), o que levou alguns especialistas em saúde pública a concluir que a novidade poderá aumentar os riscos de casos da doença, ao invés de diminuir. A lógica é a seguinte: pelo fato de estarem tomando o medicamento, as pessoas poderiam passar a adotar comportamentos sexuais muito mais arriscados, e como sua eficácia é parcial, no fim das contas poderíamos nos deparar com um aumento do número de infectados. OK, mas… O que isso tem a ver com aviação?

Em termos de lógica, tudo! É por comportamento semelhante quando aplicado à aviação que o Richard Collins afirmou, em seu excelente artigo “O que há de errado com os pilotos de Cirrus?”, que as características (positivas, em termos de segurança) do Cirrus, como a aviônica ultra-avançada e o paraquedas balístico, podem piorar a segurança do voo. Uma vez que os “pilotos de Cirrus” (como descritos pelo R.Collins – equivalentes aos “PPs de luxo” que eu me referi aqui) estejam excessivamente confiantes na “proteção” que sua aeronave oferece para voar em situações adversas, o risco de acidente tende a ser maior que com aeronaves mais simples, cujos pilotos não se arriscariam em tais missões. É exatamente o mesmo mecanismo alegado para dizer que o Truvada pode aumentar os casos de AIDS, se vocês pararem para pensar.

[Nota à margem: Se houver interesse em conhecer mais sobre esta polêmica, vejam este post do blog do Reinaldo Azevedo. Nele, o blogueiro da Veja rebate os argumentos de uma leitora que, curiosamente, compara o Truvada ao TCAS (alerta anti-colisão utilizado em aeronaves), e aos airbags automotivos (acessório de segurança que eu explorei neste post) para fazer um paralelo quanto aos avanços em termos de segurança do Cirrus).

Concluindo

Pessoas são pessoas, estejam elas voando ou fazendo sexo; nos EUA, no Brasil, ou na Nigéria. Todo ser humano possui uma “gramática comportamental” pré-programada no cérebro, e é por isso que quem não retribui um favor não é mal visto nem aqui, nem no Japão ou na Índia – por mais que a forma com que o descontentamento quanto a essa não retribuição possa variar dependendo da cultura (este é o centro da argumentação do meu livro sobre Teoria dos Jogos Evolucionários, aliás).

Daí a falácia do discurso do diretor da Airtraining (vide comentários deste post) ao dizer que os argumentos do R.Collins não se aplicariam ao Brasil por nossa cultura se diversa da dos EUA. Pilotos americanos e brasileiros são, antes de qualquer coisa, seres humanos dotados de uma mesma “gramática comportamental”, e não há razões para pensar que ambos devessem agir diferente só porque um gosta de beisebol e outro de futebol. Se há algo de diferente na cultura dos EUA e do Brasil é o fato de que o órgão que fiscaliza a aviação de lá é a FAA, e aqui a ANAC. Portanto, é muito mais fácil que um brasileiro voe irregular que um americano, dado as deficiências crônicas verificadas na atuação da agência brasileira.

3 comments

  1. Freddy
    5 anos ago

    Raul, gostaria de te encaminhar um e-mail que recebi hj de um absurdo que está acontecendo em Fernando de Noronha. Meu e-mail é freddyair@gmail.com.

  2. Toporkiewicz
    5 anos ago

    Muito boa colocação! E tem outra… quantas vezes já vi algo do tipo:
    – Vai deixar seu carro nessa rua? É perigosa!
    – Pega nada, tem seguro!

    No fim das contas todos são prejudicados com pensamentos desse tipo.

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