Mentoring na aviação

By: Author Raul MarinhoPosted on
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Este manual da FAA é um documento de leitura obrigatória para quem atua na aviação geral brasileira e se preocupa com a formação aeronáutica que se desenvolve em nosso país.

Mentoring” é como se chama um processo de educação prática em que um profissional mais experiente (o “mentor”) atua como uma espécie de tutor de um novato (o “tutelado”), trabalhando em contato com este durante um determinado período de tempo. Não é exatamente uma novidade na aviação, uma vez que é muito comum, já há bastante tempo, que pilotos recém-formados e comandantes experientes atuem em conjunto como uma forma daqueles adquirirem proficiência especialmente no voo IFR e na instrução aeronáutica. Só que, na aviação geral especialmente, o processo de mentoring acontece de maneira informal na grande maioria dos casos (na realidade, eu não conheço nenhum exemplo de mentoring formalizado na aviação geral do Brasil), e o objetivo deste post é abordar um processo formal de mentoring para aplicação na aviação geral – que seria muito mais eficiente pelos motivos que comentarei no decorrer deste post -, isto sim, uma novidade.

A base teórica do que vai ser abordado aqui será o manual da FAA denominado “Best Practices for Mentoring in Flight Instruction” (“Melhores práticas para o mentoring na instrução aeronáutica”) – um texto brilhante, escrito por profissionais da FAA em conjunto com pilotos atuantes da aviação geral americana e instrutores de voo da vida real, e deveria ser leitura obrigatória para os profissionais da aviação do Brasil. Se algum aeroclube/escola ou outro operador da aviação geral tiver interesse em traduzir e adaptar este manual para aplicação prática no Brasil, eu me disponho a traduzi-lo integralmente e ajudar na sua implementação – basta entrar em contato comigo pelo e-mail raulmarinho@yahoo.com. A versão original em inglês pode ser baixada aqui: FAA-Mentoring.

O contexto da aviação geral e os objetivos de um processo formal de mentoring

Ao contrário da aviação comercial – altamente profissionalizada, com processos formais para praticamente qualquer coisa –, a aviação geral é pouco profissionalizada e extremamente carente de processos formais mais bem estruturados. Isso ocorre pelo fato de as empresas deste segmento serem de pequeno porte (caso da maioria dos aeroclubes/escolas e de alguns táxis aéreos que, às vezes, contam com somente uma ou duas aeronaves), ou então tratam-se de empresas não específicas da aviação (ex.: uma indústria que possui um avião para transportar seus executivos), e por isso com pouco know-how da atividade aeronáutica. Isso leva a um certo amadorismo na gestão da aviação geral e, na prática, um processo de mentoring deste segmento da aviação acontece simplesmente deixando que profissionais juniores e seniores trabalhem por algum tempo juntos livremente, na esperança de que ocorra uma “osmose natural” dos conhecimentos do mais experiente para o novato.

Por quanto tempo? “Ah, vão voando aí e a gente vê como a coisa acontece”. Que aspectos devem ser mais observados no treinamento? “Bem… A gente vê isso no decorrer dos dias, não dá para saber de antemão.” Quais os objetivos do treinamento? “Essa ei sei! Fazer do novato um piloto tão bom quanto seu mentor!” Ok, mas como eu saberei que o novato ficou bom? Quais os parâmetros objetivos? “…Hã?”. Na prática, é assim que acontece o mentoring na aviação geral brasileira, e o manual da FAA é brilhante porque consegue colocar no papel tudo o que se espera que seja feito no decorrer do processo, quando ele começa e quando termina, e como se saberá que o novato adquiriu a proficiência desejada – daí a sua importância.

O manual da FAA

No “Best Practices…” da FAA, eu acho que um dos aspectos mais interessantes está no uso de modelos de “contratos” (na verdade, são “termos de compromisso” de caráter moral, não contratos para serem executados judicialmente) para documentar o mentoring, na parte que está no apêndice do manual. Neles, ficam especificados quem são o mentor e seu tutelado, quando o processo começa e termina, os objetivos a serem alcançados e as atividades que devem ser desenvolvidas, etc. Isso não só compromete mutuamente as partes, como facilita a consulta, sempre que necessário, do progresso do treinamento – tanto pelos que estão nele envolvidos, quanto por terceiros (o piloto-chefe ou o operador, por exemplo). Interessante notar que, nesses modelos de contratos sugeridos no manual, sempre constam o seguinte texto:

É entendido mutuamente e fica acordado que:

•O piloto-tutelado sempre será o piloto em comando.

•As observações e sugestões do piloto-mentor são estritamente aconselhatórias (não mandantórias).

•O piloto-tutelado sempre será a autoridade final na condução do voo.

•O piloto-mentor não estará agindo como instrutor de voo ou supervisor.

Estas observações são de vital importância no processo de mentoring, uma vez que elas formalizam o fato de que a responsabilidade final sempre é do tutelado, e evita que este aja como um aluno ou mero copiloto. Mentoring é um processo de educação prática para formar comandantes da aviação geral, não PTMs-Pilotos de Tripulação Múltipla!

Mas voltando aos apêndices do manual da FAA, é muito interessante observar os formulários que existem após o primeiro modelo de contrato para ajudar no mentoring de voo IFR, extremamente bem elaborados e aplicáveis. Passando para o corpo do manual, os dois primeiro capítulos são sobre a importância do mentoring e o que ele significa, e estão escritos de uma forma sucinta e prática. Depois, vêm as descrições detalhadas sobre os processos de mentoring para IFR e para INVA, com especial destaque para os aspectos meteorológicos dos voos (em especial na parte IFR). Atente para os quadros-resumo, que facilitam o uso do manual no dia-a-dia. Basicamente, é isso o que o “Best Practices…” trata.

Conclusão

Adotar as práticas recomendadas neste manual da FAA para o mentoring seria excelente para a aviação geral brasileira porque evitaria o improviso, o amadorismo, e o “jeitinho” tão presentes em nossa cultura; melhoraria a qualidade dos pilotos brasileiros da aviação geral como um todo, e aumentaria o nível de segurança deste segmento da aviação. E tudo isso a um custo próximo de zero: fazer um mentoring “nas coxas” custa praticamente a mesma coisa que realizar o procedimento pelo manual da FAA. Por isso, eu acho que as informações contidas neste post têm potencial para causar um grande impacto na qualidade da formação aeronáutica brasileira – muito embora, sendo realista, não tenha grandes esperanças que algum aeroclube/escola ou operador da aviação geral o adote na prática – mas pelo menos a minha parte (divulgar o conhecimento) eu fiz. É o que diz o ditado: “você pode levar o cavalo até o riacho, mas não pode obrigá-lo a beber”…

One comment

  1. rbiten
    5 anos ago

    Raul, realmente muito bom este material da FAA. Apresenta recomendações interessantes para mentoring de novos pilotos IFR e INVA. E acrescento que mesmo novos pilotos VFR deveriam receber algum tipo de mentoring, em especial aqueles que nao pretendem seguir com cursos de PC ou IFR. Na minha opinião, 40 horas de instrução de vôo nao representam quase nada em termos de experiência e nao qualificam ninguém para assumir o comando pleno de uma aeronave.
    Forte abraço e parabéns pelo blog que esta cada vez mais interessante!

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