Como um piloto-aluno americano paga suas horas de voo

By: Author Raul MarinhoPosted on
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Nesta foto, vemos o governador do Estado de Nevada (Brian Sandoval) cumprimentando um jovem aluno-piloto americano agraciado com uma bolsa de estudos para sua formação aeronáutica. Qual a chance de vermos uma imagem semelhante a esta no Brasil?

Muitos brasileiros vão aprender a voar nos EUA (também) pelo preço, já que a hora de voo cobrada nas aviation schools americanas costuma ser bem mais barata que as similares dos aeroclubes/escolas brasileiros (mesmo com o câmbio não tão favorável quanto já foi). Se voar nos EUA é um bom negócio para os brasileiros, pelo ponto de vista de um piloto-aluno americano, então, essa hora de voo custa menos ainda, seja porque ele não incorre nos custos acessórios de passagem/visto, estadia, alimentação, etc. que nós, estrangeiros em terra americana, temos que pagar (sem contar que eles não precisarão gastar com o processo de convalidação da licença na ANAC depois de checarem suas carteiras); seja porque a renda média do americano é muito superior à nossa. Assim, se nós pagamos por volta de R$80mil pela formação total de PP+PC no Brasil, um americano gastaria o equivalente a cerca de R$25-30mil (em poder de compra de um brasileiro médio) pela formação completa dele nos EUA, se tanto.

Ocorre que, mesmo pagando muito menos do que nós, o pretendente a piloto dos EUA ainda tem muitas opções de bolsas de estudo privadas e governamentais, além de várias alternativas de financiamento muito mais convenientes que no Brasil, e é isto o que iremos apresentar neste post. No texto abaixo, você vai ver como estamos em desvantagem em nosso país, tanto em relação a um sistema de formação privado, como nos EUA; quanto em relação a um sistema estatizado, como na França – vide este post[http://paraserpiloto.wordpress.com/2012/07/10/o-modelo-frances-de-formacao-aeronautica/]. Não estou publicando este post para você entrar em depressão (embora considere essa possibilidade), mas para que você tenha consciência do quanto ainda temos que fazer pela formação aeronáutica no Brasil.

Alternativas à disposição do piloto-aluno americano para custear a formação aeronáutica

I) As “scholarships” – bolsas de estudo concedidas por ONGs ligadas à aviação

Nos EUA, há um número incrível de instituições, associações, clubes, etc. ligados à aviação que concedem bolsas de estudo para pretendentes a piloto. Na maioria dos casos, a bolsa é uma soma em dinheiro que não cobre todo o custo do treinamento – mas nada impede que o contemplado obtenha outras bolsas e/ou financiamentos. Existem bolsas “genéricas” para a obtenção de licenças de PP e de PC (para avião, helicóptero, e LSA/ultraleve); bolsas especializadas para a obtenção de habilitação de IFR, INVA, TIPOs de jatos, etc.; e até bolsas para “minorias”, como mulheres, negros, hispânicos e gays. Também há bolsas para a formação de mecânicos, técnicos em aviônica, DOVs, bacharéis em Ciências Aeronáuticas, controladores de voo, etc. A seguir, alguns exemplos:

  • O Aero Club of New England (quem disse que não existem aeroclubes nos EUA?): Em 2011, esta instituição ofereceu treze bolsas, sendo nove para pilotos, uma para engenharia na Bridgewater State University, uma para aeronáutica & astronáutica no MIT-Massachusetts Institute of Technology, e duas para manutenção aeronáutica – além de diversos prêmios para quem se destacou em formação aeronáutica naquele ano.
  • A EAA-Experimental Aviation Association, de quem já falamos aqui, é uma associação que concede diversas bolsas para pilotos anualmente, inclusive a “Bolsa Harrison Ford” (sim, ele mesmo, o Indiana Jones!), que custeia o ensino teórico, a primeira hora de voo, e o treinamento para a obtenção de licenças de LSA/ultraleves, dentre outras atividades. Outros programas de bolsas da associação patrocinam outras atividades de formação aeronáutica.
  • A Women in Aviation International: esta ONG feminista não oferece bolsas somente para mulheres, como seria de se esperar (embora alguns programas sejam exclusivos para o público feminino). Observando a página que resume as bolsas concedidas em 2012, nota-se, porém, que os homens são raríssimos entre os 87 contemplados com US$559.681,00 em bolsas neste ano.
  • O HSF-Hispanic Scholarship Fund, não oferece bolsas exclusivamente para a aviação, mas atende a descendentes de latino-americanos em geral, inclusive de brasileiros (mas o beneficiário tem que ser cidadão americano), em suas necessidades educacionais. As bolsas variam entre US$1mil e US$15mil, e cobrem todas as despesas relacionadas à educação profissionalizante de pilotos, DOVs, mecânicos, etc.
  • A NGPA-National Gay Pilot Association, que oferece bolsas INCLUSIVE PARA CIDADÃOS NÃO-AMERICANOS, não é exclusiva para gays, muito embora o candidato tenha que comprovar que tenha “realizado alguma contribuição para a comunidade LGBT-Lésbicas, Gays, Bissexuais e Transgêneros” (e o que isso significa exatamente é uma incógnita). As bolsas-padrão, cujo número não é revelado no site da associação, são de US$3mil, mas também existe a “Bolsa David M. Charlebois”, de US$6mil. Interessante, não?

II) O Federal StudentAid – Empréstimos a fundo perdido do Ministério da Educação dos EUA

Se você for de uma família de baixa renda, então poderá se candidatar a uma “Federal Grant Pell”, que é uma espécie de empréstimo a fundo perdido para a educação pós-Ensino Médio – o que inclui a formação aeronáutica. O valor máximo concedido por estudante é de US$5,5mil, e se ele comprovar sua aplicação integral em educação profissionalizante, não é necessário devolver o empréstimo. Para filhos de militare, há ainda um outro empréstimo a fundo perdido de US$2mil.

III) As alternativas de financiamento privado para a formação aeronáutica

Para complementar os valores obtidos com as bolsas e o StudentAid, o estudante de aviação também pode contrair empréstimos – que, nos EUA, são muito mais baratos (mesmo com a recente redução das taxas de juros brasileiras), abundantes, e convenientes (de longo prazo e adequados às necessidades da instrução aeronáutica). Os mais populares são os seguintes:

  1. Cartão de crédito e empréstimos bancários: Embora não sejam essencialmente diferentes dos produtos brasileiros, nos EUA há muito mais competição entre os bancos e administradoras de cartão de crédito, os impostos que incidem sobre as operações financeiras são muito menores, e a sobretaxa relacionada às provisões para perdas com calotes também são reduzidas (devido a questões legais), o que faz com que os produtos de crédito bancário e de cartão americanos sejam muito mais baratos e de prazo mais estendido que no Brasil.
  2. Empréstimos peer-to-peer: Funciona como uma espécie de “Mercado Livre/eBay de Crédito”, com tomadores e emprestadores negociando livremente empréstimos – vide a empresa mais popular deste tipo de operação nos EUA, a Prosper Marketplace. Nesta comunidade financeira, dependendo do cadastro do tomador, as taxas praticadas atualmente nos EUA vão de 6,59%a.a. a 35,84%a.a., o valor pode variar entre US$2mil e US$25mil, e o prazo passa de cinco anos. Aqui no Brasil, tentou-se algo semelhante com a Fairplace , mas o Banco Central entendeu que a empresa estaria agindo ilegalmente, e hoje este tipo de operação está suspensa.
  3. Empréstimos educacionais: também há a opção de tomar emprestado junto a instituições financeiras privadas especializadas na concessão de financiamento educacional, como a Sallie Mae. As taxas e prazos dependerão da qualidade do crédito do tomador, mas pode-se financiar até 100% do custo da formação aeronáutica desta forma.

Fora isso, há ainda as Forças Armadas e a Guarda Nacional dos EUA, que forma uma quantidade incrível de pilotos – muitos, em programas similares ao CPOR brasileiro, que prevê uma permanência de poucos anos do oficial-aviador -, onde uma parte acaba migrando para a aviação comercial e geral em algum momento. E aí? Ficou com inveja?

5 comments

  1. elielsenaviator
    5 anos ago

    Que vontade de ir para os EUA . Sairia muito mais barato estudar lá. Pais desenvolvido é outra coisa, né?
    Mesmo com o custo de vida mais alto, viagem para ir para lá, e tudo mais… Com U$ 100 mil daria pra viver la por uns 18 meses, fazer todo o treinamento e voltar para o Brasil tranquilo. Sinto muito pelo Brasil ser assim, tão SUBdesenvolvido.

  2. Freddy
    5 anos ago

    É caro Raul. Enquanto isso em terras tupiniquins, gastaremos uma fortuna com copa do mundo e olimpíada.

  3. roquini
    5 anos ago

    … não estou publicando este post para você entrar em depressão (embora considere essa possibilidade)…. muito bom rs

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