Matéria da Aeromagazine sobre formação aeronáutica

By: Author Raul MarinhoPosted on
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Olha lá a chamada de capa, bem em cima do motor do jatinho: “Ser piloto: profissão ou vocação?”

São reduzidíssimas as chances de encontrar alguma matéria na imprensa sobre formação aeronáutica. Os veículos generalistas raramente abordam esse tema porque é muito restrito, e mesmo a imprensa especializada não dá muita importância para a formação, pois eles entendem (ao que parece, ao menos) que o que importa é falar de avião, de companhia aérea e de aeroporto. A revista Aeromagazine é uma das únicas que trata do assunto com maior regularidade, e nesta última edição publicou uma chamada de capa sobre formação aeronáutica (vide reprodução acima) e dedicou quatro valiosas páginas para uma matéria assinada pelo Décio Correa, colunista fixo da publicação. Boa notícia, né?

Bem… Não exatamente. Leiam a reprodução da matéria abaixo, e tirem suas próprias conclusões. Que novidades exatamente esse texto trouxe? Alguma referência sobre a recente mudança na regulamentação sobre a concessão de licenças (o RBAC-61)? E a nova Licença de Piloto de Tripulação Múltipla (a LPTM/MPL)? E o mercado de trabalho e a lenda do “apagão de pilotos”? E o estado de obsolescência dos nossos aeroclubes? E o crescente êxodo de brasileiros para os EUA, em busca de uma formação de melhor qualidade e menor preço? E as faculdades de Ciências Aeronáuticas: faz sentido cursar uma delas ou não? Poxa, tem tanta coisa para falar sobre formação aeronáutica, quatro páginas disponíveis para isso, e quase nenhuma informação ou orientação relevante na matéria! Que desperdício! Basicamente, a única informação realmente importante é a de que “o governo federal vem trabalhando num projeto de fomento do transporte aéreo regional e, com isso, espera fazer crescer as linhas-tronco das grandes transportadoras” – mas não há detalhes sobre isso. E o único conselho presente no texto é o velho chavão do “follow your dreams” (em inglês, para que o leitor se sinta dentro de um filme americano…). Lamentável.

Mas isso não é o pior. O fato é que a matéria está equivocada em vários pontos. Essa história de “vocação e talento”, além de ser subjetiva, está simplesmente errada da maneira como foi apresentada. E essa falsa dicotomia entre aviador e piloto, então… Outro subjetivismo muito divertido para discutir em mesa de bar, mas que não leva a lugar nenhum num texto supostamente sério. Mas mal feito mesmo foi o quadro sobre “onde aprender a pilotar”. O estagiário que o redigiu tem que ser demitido com urgência! Entre as “faculdades de ciências aeronáuticas”, ele simplesmente esqueceu-se de incluir a melhor: a FACA/PUC-RS, que figurou como uma escola de aviação; e entre as “escolas de pilotagem”, faltou citar a maior do Brasil, a EJ. Isso só para começar, mas há muitos outros erros lá, que desinformam o leitor. Sem contar que, por só citar nomes, mesmo que estivessem corretos, o texto teria serventia nula de qualquer forma.

É uma pena que se tenha desperdiçado uma oportunidade deste quilate para produzir uma matéria interessante sobre formação aeronáutica. Mas chato mesmo é saber que, na próxima edição, vamos encontrar cartas dos leitores elogiando a genialidade desta matéria, “que muito contribuiu para elucidar as dúvidas de futuros aviadores do Brasil, e blá blá blá” (querem apostar quanto?). O auto-elogio é um traço típico da mediocridade.

E depois disso tudo, se vocês ainda tiverem ânimo para tal, leiam a matéria que segue abaixo:

Aviador: profissão ou vocação?

Uns querem aprender a voar pelo total e absoluto prazer de cruzar os céus. Outros se matriculam em uma escola simplesmente pela perspectiva de salários generosos. Uma reflexão sobre a decisão de se tornar piloto

Trabalhar no que se gosta não é trabalho, é diversão. E ninguém pode ser inteiramente feliz trabalhando no que não gosta ou não tem vocação. Não é preciso ser psicólogo para saber que o profissional, seja ele de que área for, consegue desenvolver o seu máximo potencial criativo e produtivo quando trabalha naquilo em que tem vocação. Muitas pessoas costumam confundir talento com vocação e não é incomum ouvir que “fulano tem talento para a medicina, ou para música, mecânica, química, física…”. Talento é um dom natural ou adquirido; uma inteligência excepcional para determinada área de uma profissão. Já a vocação é uma escolha natural e intuitiva, uma predestinação, pendor ou aptidão para uma determinada profissão.

Num exemplo bem simples, alguém tem vocação para a medicina e o seu talento natural ou adquirido irá levá-lo para a cardiologia ou a pediatria. Quando esses fatores se juntam numa pessoa de inteligência excepcional ou pendor natural, vamos encontrar aí os grandes médicos cardiologistas, neurocirurgiões, grandes músicos, escultores ou profissionais consagrados em qualquer área. É possível, mas não comum, encontrar pessoas talentosas em mais de uma área. Como exemplo, um médico talentoso em sua especialidade médica e também um músico habilidoso ou um pintor com pendores para a escultura. Isso é muito comum nas artes plásticas e em outras áreas das ciências humanas, porém, menos comum nas exatas.

Essa é uma discussão que me persegue ao longo da minha vida como aviador. Note que usei a palavra “aviador”, e não piloto ou aeronauta. Os “antigões” com quem convivi e ainda convivo não gostam de serem chamados de pilotos, preferem aviadores. No dicionário, vamos encontrar que piloto é aquele que dirige uma embarcação mercante, subordinado ao comandante ou o que dirige uma aeronave, carro de corrida ou qualquer tipo de embarcação. Já aviador é absolutamente determinante, curto e grosso: piloto de avião. Nos velhos tempos, nos primórdios da aviação, não poderia haver qualquer dúvida quanto à necessidade total e absoluta da vocação para a profissão de aviador. Os riscos e sacrifícios para o piloto se manter vivo e conduzir a sua aeronave, a carga e os passageiros com segurança eram desafiadores. Ninguém escolhia a profissão de aviador civil ou militar sem uma vocação absolutamente definida. Nos últimos 19 anos, recebi algumas centenas de cartas e continuo recebendo outros tantos e-mails me questionando sobre esse tema. Vivenciei e, em alguns casos, pude ajudar histórias impressionantes de homens e mulheres que chegaram ao limite do sacrifício e tiveram de mudar radicalmente as suas vidas, ultrapassar barreiras dificílimas para atingir os seus sonhos e saciar suas vocações. Para todos aqueles que me pedem orientação, costumo afirmar: “Follow your dreams. Sigam os seus corações e persigam os seus sonhos”.

ALÉM DA CAREIRA EM LINHA AÉREA, UM AVIADOR PODE ENCONTRAR A REALIZAÇÃO DE SUA VOCAÇÃO COMO PILOTO DE JATOS EXECUTIVOS, HELICÓPTEROS , AVIÕES AGRÍCOLAS E ATÉ VOANDO PEQUENAS AERONAVES NUM TÁXI-AÉREO

Ser aviador ou piloto de aviões? Satisfazer e atender a uma vocação imperiosa ou simplesmente tornar-se um profissional de aviação? Voar pelo total e absoluto prazer de cruzar os céus ou simplesmente pelo salário generoso? Claro que o dinheiro é importante e deve remunerar o trabalho de um profissional talentoso e dedicado, porém, ele não entra como primeira prioridade. Como um dos cinco países continentais do mundo, o Brasil depende fortemente de um transporte aéreo moderno e eficiente. Isso coloca a busca por aviadores profissionais em uma disputa acirrada entre os principais empregadores. Apesar das recentes demissões e aparentes dificuldades de algumas empresas, isso é sazonal e não reflete o futuro do mercado. Não há como estancar o crescimento do transporte aéreo. Segundo os principais especialistas do mercado, estamos transportando um terço do que deveríamos. O governo federal vem trabalhando num projeto de fomento do transporte aéreo regional e, com isso, espera fazer crescer as linhas-tronco das grandes transportadoras. O exemplo da Azul em Campinas pode ser expandido para mais de uma centena de cidades brasileiras, criando novos hubs que estarão conectados com novos destinos, contornando os grandes centros, como é o caso da Azul e sua fusão com a Trip. Isso impulsiona a necessidade de novos profissionais aviadores.

Essas novas possibilidades colocam a profissão de aviador ou piloto de aviões, como querem alguns, em grande evidência. As perspectivas de bons salários e status indiscutível do uniforme de aviador têm levado muitos homens e mulheres a passarem a pensar na possibilidade de disputar esse mercado. A pergunta que se deve fazer a esses jovens é se estão buscando uma profissão ou atendendo a uma vocação. Voltando ao início: “Talento pode ser um dom natural ou adquirido; vocação jamais”. A profissão de aviador para quem não tem vocação e buscou apenas uma profissão é horrível. Depois de todos os sacrifícios e custos despendidos na formação, ter de encarar uma carreira em que não se tem dia ou hora para o trabalho, depender de uma escala mensal para ser cumprida e enfrentar avaliações médicas e técnicas periodicamente, até o fim de sua carreira, demanda sacrifícios incomuns a qualquer outra profissão.

Apenas na carreira de médico encontra-se devoção semelhante. Ainda assim, os médicos não têm de se submeter às avaliações que se submete um piloto. Cada voo com seus pousos e decolagens é uma operação cirúrgica, como na medicina. Apesar da rotina, o acidente está sempre à espreita. Nunca se está completamente relaxado ou desatento. O cansaço físico e mental são companheiros permanentes de um médico ou aviador. O estudo diuturno é fundamental no bom desempenho da função. Como fazer isso sem vocação? O cockpit de uma aeronave é um dos ambientes mais hostis em que um ser humano pode viver. Tudo o que ali está posto é para advertir a tripulação de que algo pode estar errado. Alguém já definiu a profissão de aviador como “horas de intensa monotonia com segundos de violento terror”. Não precisamos ser tão dramáticos, porém, nenhuma “velha águia” deixou de ter as suas aventuras, por assim dizer.

A exemplo do músico, que enfrenta uma agenda desgastante, as horas de palco e o aplauso do público fazem os sacrifícios valerem a pena. Assim é com o aviador e a sua carreira. A profissão de aviador não se resume apenas ao piloto de linha aérea. Um profissional pode encontrar a realização de sua vocação como piloto de jatos executivos, de helicópteros, aviões agrícolas e até voando uma pequena aeronave num táxi-aéreo. Outra questão que merece ser avaliada é a realização, muitas vezes tardia, de uma vocação com uma licença de piloto privado. Em muitos casos, não é preciso ser um profissional de aviação para atender a uma vocação, basta matricular-se em um aeroclube ou comprar ou construir o seu próprio avião. Essa também é uma forma de perseguir sonhos.

ONDE APRENDER A PILOTAR?

Algumas referências de instituições de ensino para quem quer se tornar um aviador

FACULDADES DE CIÊNCIAS AERONÁUTICAS

  • Universidade FUMEC
  • Universidade Católica de Goiás
  • Uninassau – Centro univ. Maurício de Nassau
  • Universidade Estácio de Sá Anhembi Morumbi

ESCOLAS DE PILOTAGEM

Alagoas

  • Aeroclube de Alagoas

Amazonas

  • Aeroclube do Amazonas

Bahia

  • Aeroclube Bahia
  • Aeroclube de Ilhéus

Ceará

  • Aeroclube do Ceará

Brasília

  • Aeroclube de Brasília
  • GF Escola de Aviação

Espírito Santo

  • Aeroclube do Espírito Santo

Goiás

  • Aeroclube de Goiás
  • Asas de Socorro
  • Espaci

Maranhão

  • Aeroclube do Maranhão

Minas Gerais

  • Aeroclube de Minas Gerais
  • Aeroclube de Juiz de Fora
  • Aeroclube Pará de Minas
  • Aeroclube de Uberlândia
  • VOAR

Mato Grosso do Sul

  • Aeroclube Mato Grosso do Sul

Mato Grosso

  • universidade de Cuiabá

Pará

  • Aeroclube do Pará

Paraíba

  • Aeroclube da Paraíba

Pernambuco

  • Aeroclube de Pernambuco

Paraná

  • Aeroclube de Londrina
  • Aeroclube do Paraná

Rio de Janeiro

  • Aeroclube do Brasil
  • QNE
  • universidade Estácio de Sá

Rio Grande do Norte

  • Aeroclube do Rio Grande do Norte
  • JFly Escola de Aviação

Roraima

  • Aeroclube de Rondônia

Rio Grande do Sul

  • Aeroclube Rio Grande do Sul
  • Born to Fly Escola de Aviação
  • PuC – RS
  • Aeroclube de Montenegro
  • Realizar Escola de Aviação Civil

Santa Catarina

  • Escola Flight
  • Aeroclube de Santa Catarina

Sergipe

  • Escola de Aviação Air Flight

São Paulo

  • Aeroclube de Bauru
  • Aeroclube de Bragança Paulista
  • Aeroclube de Campinas
  • Aeroclube de Itápolis
  • Aeroclube de Jundiaí
  • Aeroclube de São Paulo
  • Aeroclube de Sorocaba
  • ABC Fly São Paulo
  • Edapa
  • Escola Nacional de Aviação Civil
  • EWM Aviation Ground School

Tocantins

  • Aeroclube do Porto Nacional

– x –

Atualização de 10/08: Não é a primeira vez que critico um texto do Décio Correa aqui. Neste post, eu trato do plágio que esse colunista cometeu numa edição anterior da Aeromagazine (leiam os comentários).

8 comments

  1. Matheus de Sá
    4 anos ago

    Para quem ainda não conhece, este ano lançou a ACAP (academia de ciências aeronáuticas positivo) em Curitiba-PR, prometendo ser equivalente com a graduada PUC-RS

  2. Sander Ruscigno
    5 anos ago

    Raul,

    tenho certeza que você pensou nisso, apenas não quis ser direto. Penso que algumas boas escolas, como é o caso da Floripa Flight Training aqui em Santa Catarina, não foram publicadas por questões de marketing, vou mais longe, não quiseram pagar.

    Posso falar do lugar que eu conheço, no caso o meu estado. Veja bem, a Flight, nem ao menos é de fato uma escola para pilotos, uma vez que só oferece cursos teóricos, para as horas de voo ou você vai para o Aeroclube ou vai para a Floripa Flight Training, não há outras opções em Floripa. Além disso, existem muitos outros bons aeroclubes aqui no estado, como é o caso do Aeroclube de Blumenau.

    Abraço!

  3. Fred Mesquita
    5 anos ago

    Em Pernambuco faltou a NAV Treinamentos, a Wing Escola de aviação e a BrasFlight (no interior).

  4. Alexandre
    5 anos ago

    Estou matriculado no curso de PP de uma escola de Recife, que foi omitida na materia e que hoje é praticamente a única opção por aqui, visto que o aeroclube local esta em vias de ser desativado (fato lamentavel….). Enfim, o ponto é que graças à matérias como essa, superficiais e fantasiosas, minha turma está cheia de candidatos a piloto que crêem no apagão aéreo, acham que rapidamente conquistarão salarios acima de R$ 10M e acreditam que pilotar um aeroplano é algo como dirigir um carro com asas. O sonho é salutar e todas as grandes conquistas da vida nascem de um sonho, mas até lá existe um longo caminho que publicações como essa deveriam deixar um pouco mais claro.

  5. Lucas Neves
    5 anos ago

    Rapaz aqui no Ceará chamamos esse tipo de materia de “enchimento de linguiça”!

    Sou assinante da Aero Magazine a um tempo e acho que so pode ter faltado conteudo pra preencherma revista pra terem colocado algo assim! Triste!!!

  6. Boa tarde.

    Eu tinha visto essa chamada e realmente imaginei uma bela reportagem sobre o assunto, mas como o próprio Raul disse não falou nada demais e pior, falou algumas coisas que não fazem muito sentido.

    Primeiramente, após a leitura eu fiquei com a impressão que a reportagem quer influenciar a formação aeronáutica somente para suprir esse “apagão” (sem entrar em detalhes pois já houveram muitas discussões sobre ele) além do fato da profissão ser bem remunerada. Esses não são os únicos motivos, qualquer pessoa escolhe sua profissão de acordo com sua afinidade, a escola mostra exatamente isso, o básico de cada área para o estudante pegar as que mais gosta e assim abrir um leque de profissões. São vários motivos que nos levam a escolher uma profissão, não é tão simples. Os motivos mostrados pela reportagem, se forem seguidos por algum leitor com certeza formará pilotos que não prezarão pela segurança e pelos procedimentos da empresa quanto à operações, pois essa não é a área que ele gosta.
    A relação Piloto – Aviador não faz sentido pois como foi dito na matéria: “No dicionário… Já aviador é absolutamente determinante, curto e grosso: piloto de avião.” as duas palavras (Aviador e Piloto) estão completamente ligadas, não tem porque discriminar uma ou outra.
    Sobre as comparações feitas, eu tenho parentes muito próximos que são médicos e posso afirmar que eles, assim como qualquer profissional de qualquer área também passam por sucessivas avaliações durante todo o dia. Toda profissão tem seus pontos máximo e mínimo de tensão. A diferença é que algumas vivem mais próximos do ponto máximo, mas não só a aviação, muitas carreiras seguem esse “padrão”.
    Para tirar sua carteira de Piloto Privado, ou qualquer outra, não é só se matricular em um aerolcube, faculdade ou escola de aviação. Depois da matrícula você tem que estudar muito para poder entender como tudo funciona no ramo, depois vem a prova da ANAC e muitos outros procedimentos. Não é tão fácil como o autor diz parecer.
    Por fim, a lista de instituições realmente está muito mal feita e muitos estabelecimentos foram excluídos da lista. UMA VERGONHA!

    Um abraço à todos.

  7. Chico
    5 anos ago

    Raul, concordo com as críticas à reportagem. Apenas gostaria de fazer um comentário de cunho pessoal: acho que a AeroMagazine é a única revista de aviação séria que temos, infelizmente.

    Mas algo que você abordou, e que realmente é um saco: é essa falsa dicotomia entre “Aviador” e “Piloto”. Além de improdutivo, é babaca e cansativo. Já vejo “meninos”, recém formados, que mal sabem interceptar uma radial, dando continuidade a essa babaquice. Queria que todos pudessem ler o seu blog e fazer uma reflexão sobre mais uma bobagem que é herdada dos “antigões”.

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