Como foi o Safety Standdown Latin America 2012

By: Author Raul MarinhoPosted on
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À esquerda, o único astronauta brasileiro; à direita, o último ser humano a pisar na Lua: estes foram alguns dos participantes do Safety Standdown Latin America deste ano.

Conforme anunciado aqui, ocorreu nos últimos dias 13 e 14 de agosto em São Paulo o “Safety Standdown Latin America”, um evento sobre segurança na aviação promovido pela fabricante de aeronaves canadense Bombardier. Esta foi a 3ª vez que este evento acontece no Brasil, e como das outras vezes, ele fez parte da programação da LABACE-Latin America Business Aviation Conference & Exhibition , um evento da aviação executiva promovido pela ABAG-Associação Brasileira de Aviação Geral, no aeroporto de Congonhas, em São Paulo (embora o Safety Standdown tenha acontecido em local diferente da feira – no caso de 2012, no Grand Hyatt Hotel).

Para quem teve a oportunidade de participar do Safety Standdown deste ano e não a aproveitou, tenho uma má notícia: você perdeu o melhor evento de aviação aberto ao público do Brasil em 2012 – que, ainda por cima, foi de graça! E para você que não mora em São Paulo e/ou não tenha conseguido se desvencilhar de outros compromissos para participar, minha dica é: em 2013, dê um jeito de estar em São Paulo nessa época, negocie uma licença com o seu chefe, tire férias, postergue compromissos, sei lá… Mas não perca o Safety Standdown de 2013! (Eu estou com remorsos de ter perdido os eventos de 2010 e 2011). Além de ser um evento muito bem organizado e administrado, o conteúdo apresentado foi extremamente interessante, tanto nos seminários do primeiro dia, quanto no congresso do segundo. Fora isso, foi uma oportunidade ímpar para networking, já que o público era 100% composto por profissionais da aviação (uns 70%, pilotos).

A seguir, vou detalhar um pouco mais sobre o evento de que participei nesta semana, e em posts futuros eu vou compartilhar o conhecimento que lá obtive – afinal de contas, o lema do Safety Standdown é “Learn – Apply – Share” (“Aprenda – Aplique – Compartilhe”).

A logística do evento

O espaço onde ocorreu o Safety Standdown deste ano é fantástico (o Grand Hyatt Hotel, no Brooklin). Não bastasse o hotel ser extremamente luxuoso e as salas de conferências muitíssimo bem equipadas, o acesso ficou muito facilitado, agora que existe a linha amarela do metrô, que é interligada ao sistema de trens da CPTM (existe uma estação muito próxima ao hotel). Na 2ª feira, eu peguei um trânsito absurdo (cerca de 2h:30min!) para ir de carro das imediações do Campo de Marte até o Brooklin; e na 3ª feira, resolvi experimentar o metrô: 1h10min, 100% do percurso em vagões com ar condicionado e TV (fui sentado em 70% do tempo), ao custo de R$3,00 – vale muito a pena. Então, fica a dica para o ano que vem: se o evento ocorrer no mesmo hotel ou perto dele, vá de metrô+trem que é muito melhor do que ir de carro.

O atendimento (trilíngue: português, inglês e espanhol) na recepção do evento foi rápido e eficiente, principalmente para quem estava pré-inscrito (meu caso). O material, muito bem feito e completo: uma pasta com cópia das apresentações e material de apoio, apostilas específicas dos seminários que você está inscrito no primeiro dia, um livro de um dos palestrantes (“Going pro”, do Tony Kern), crachá e plaqueta para colocar na mesa da sala de conferências, tudo dentro de uma bolsa de boa qualidade. Os coffee breaks e o almoço (que só foi oferecido no 2º dia) estavam ótimos, assim como todo o resto no que se refere à organização e conforto. Para os “non compliant annex 1”, havia empréstimo de fones de ouvido para tradução simultânea. Também houve distribuição de brindes (eu ganhei o livro “Retratos D’Dumont”, muito bom, mas havia outras opções – inclusive um iPad 3, que foi sorteado), e certificados de participação para todos os participantes.

O conteúdo

No primeiro dia, houve três seminários simultâneos para o participante escolher (não dava para assistir a mais de um, infelizmente), todos eles com quatro horas de duração (das 10:00h às 14:00h). Os temas e os palestrantes destes seminários foram os seguintes:

  • Stress management” (“Gerenciamento de stress”), com o Prof. Glenn Harmon (fisiologista aeroespacial e professor da Embry-Riddle Aeronautical University – a melhor universidade de Ciências Aeronáuticas dos EUA) – um seminário com informações sobre a influência da fadiga da tripulação na segurança de voo, e técnicas sobre como administrá-la.
  • Creating and sustaining lasting value through SMS-Safety Management Systems” (“Criando e mantendo valor duradouro através do ‘SMS’-Sistemas de Gerenciamento de Segurança”), com o Dr. Tony Kern (ex-piloto e ex-checador do bombardeiro B1-B, ex-professor da USAF, autor de diversos livros sobre aviação, possui doutorado em segurança de voo e é diretor-executivo de uma empresa de consultoria em segurança aeronáutica) – neste seminário (que foi o que eu participei), foi apresentado o conceito de SMS, que será detalhadamente explorado em post futuro.
  • Aircraft performance: Is it legal, is it safe, is it smart?” (“Desempenho de aeronaves: o que é regulamentar, o que é seguro, e o que é sensato?”), com o Cmte. Paul Ransbury (ex-piloto e ex-instrutor de F-18 na USAF e de A-320 na aviação comercial, piloto executivo e acrobático, e presidente de uma empresa de consultoria em segurança aeronáutica ) – seminário onde foram abordadas questões de performance requeridas pelos regulamentos versus o que seria o mais indicado em termos de segurança e a melhor opção em cada caso. Vou solicitar a um leitor do blog que participou deste seminário que faça um resumo da apresentação.

No segundo dia, todos os palestrantes falaram sobre temas relacionados aos seminários efetuados no dia anterior, mas não foi um repeteco ou resumo dos seminários do primeiro dia (à exceção da palestra sobre stress, que me pareceu ter repetido o conteúdo do seminário). Também houve uma palestra 100% inédita (a primeira), e a apresentação do comandante da missão Apollo-17 da NASA, o último homem a caminhar sobre a superfície da Lua, Cmte. Eugene Ceman – também com uma palhinha do Cmte. Marcos Pontes, o único astronauta brasileiro. As palestras deste segundo dia foram as seguintes:

  • Human error – Common denominator in aviation accidents” (“Erro humano – O denominador comum dos acidentes da aviação”), com o Cmte. Rick Rowe (o “chefe” do programa Safety Standdown, piloto de jatos da aviação executiva, ex-executivo da Cessna e atualmente na Bombardier, é o piloto-chefe da divisão Learjet) – foi uma palestra riquíssima em conceitos de segurança de voo, em que o acidente ocorrido no voo Colgan-3407 foi analisado à exaustão.
  • Professionalism – Culture Connection: a matter os mutual trust” (“Profissionalismo – Conexão cultural: uma questão de confiança recíproca”), com o Dr. Tony Kern (já apresentado) – em minha opinião, a melhor palestra (sem demérito às demais), que será amplamente comentada aqui, mesmo porque ela tratou de um dos meus temas prediletos: a “cultura de segurança” na aviação.
  • “Fighting fatigue” (“Combatendo a fadiga”), com o Prof. Glenn Harmon (já apresentado) – uma palestra com as principais informações sobre a fadiga aérea e dicas de como combatê-la.
  • Upset recovery training – Concepts and Strategies” (“Treinamento para recuperação de voos descontrolados* – Conceitos e estratégias” –x– *Obs.: lamento, mas não conheço um termo exato em português que seja equivalente a “upset recovery” em inglês), com o Cmte. Paul Ransbury (já apresentado) – uma palestra com técnicas de pilotagem para lidar com a perda de controle em voo, especialmente com estóis em condições não usuais (ex. AF-447).

Basicamente, foi isso o que aconteceu no evento da Bombardier, pessoal. Como disse, em posts futuros vou dar mais detalhes sobre o conteúdo das palestras e seminários. E espero ver muito mais leitores daqui no Safety Standdown de 2013!!

12 comments

  1. Rodolfo
    5 anos ago

    Não sabia do evento, uma pena, deve ter sido sensacional mesmo. Só feras.

  2. Eduardo
    5 anos ago

    Simplesmente fantástico. Um evento brilhante onde ainda tive a oportunidade de trocar meia duzia de palavras com o Marcos Pontes e conhecer o Raul.
    Raul, reforço aqui o que te disse! O seu projeto é maior do que você! Acho que é difícil para qualquer um imaginar a importância e quantidade de pessoas que você está participando do processo de formação!
    Parabéns mais uma vez e continue sempre nos munindo de informações!

    Um grande abraço,

  3. vinicius
    5 anos ago

    O Upset recovery, eu creio que seja a “recuperação de atitudes anormais”.
    Como dito aqui: http://anacsgso.blogspot.com.br/2011/06/upset-recovery-training-recuperacao-de.html

    • Raul Marinho
      5 anos ago

      É, eu acho que essa é a tradução mais usual. Entretanto, ela não traz a idéia de “perda de controle”, que eu acho essencial.

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