Um comentário mais oportuno ainda

By: Author Raul MarinhoPosted on
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Na foto acima, o leitor Lucas acionando seu avião para mais um voo de instrução: “Prá quê motor de arranque, se eu tenho amigos tão bacanas que dão a partida na maior boa vontade para mim, tchê?”

Ontem, eu publiquei um comentário (equivocado, em minha opinião) de um leitor, para mostrar o perfil de uma  parcela dos possíveis futuros pilotos, excessivamente confiantes na tecnologia, e com um certo “nojinho” dos aviões analógicos. Foi um comentário que causou forte indignação entre os leitores, pelo que pude perceber. Por uma feliz coincidência, quase ao mesmo tempo eu recebi um e-mail de um leitor, o Lucas, que pensa de maneira praticamente oposta, que gostaria de reproduzir abaixo. Na sequência, minhas considerações.

O comentário do leitor:

(…)

Eu estou no segundo semestre de CA da PUCRS e voo no Aeroclube do Rio Grande do Sul (ARGS), é um lugar que eu gosto muito, tem vantagens e defeitos como qualquer outro aeroclube, mas em PALEGRE tem mais dois aeroclubes grandes além do ARGS: Eldorado e Born to Fly. Ir para Eldorado está fora de questão, seria trocar 6 por meia duzia, pq a distancia é a mesma e os aviões são iguais, mas a Born é sediada no Aeroporto Salgado Filho e está com todos os aviões glass cockpit e novinhos (DA 20 e DA 42). Os preços seriam os mesmos, a fonia ficaria melhor pq nos iriamos falar diretamente com o controle do aeroporto, a distancia é bem menor e os aviões são muito melhores, mas ai que vem o problema: são tão bons que eu n gostei auHeAUHeUAheAHeAe….

Vou explicar: o check de motores de qualquer um dos aviões por exemplo é simplesmente apertar um botão, então até minha mãe faz o check de motores naqueles aviões, e eu estou começando a perceber que talvez aprender em um avião tão automático é ruim, e a minha dúvida é esta: vale a pena fazer a prática em um avião tão moderno, sabendo que eu vou voar um avião assim na linha aérea quase a vida toda?

(…)

Minhas considerações:

Pois é… Você entendeu o espírito da coisa, Lucas.  Na instrução, não faz sentido facilitar muito a vida, mas sim o contrário: treinar no pior cenário que seria possível encontrar na vida real (preservando a segurança da instrução, é lógico). De que adianta aprender a voar no DA-20, e depois ter que encarar um Tupi no primeiro emprego? Você vai se borrar todo quando tiver que lidar com um equipamento mais antigo. Vou te contar uma experiência pessoal que eu tive, para explicar melhor esse assunto.

Quando eu estava no momento de treinar em simulador IFR na minha formação de PC, a ANAC fez o favor de “desomologar” (cassar a homologação de) todos os simuladores de São Paulo, inclusive o do Aeroclube de São Paulo, onde eu já havia feito 3h, e tinha mais 7h já pagas. Nas redondezas, só sobrou o simulador da EJ, homologado AATD: um moderno equipamento equipado com um painel G1000 do Cessna-172, que foi onde eu aprendi a voar IFR. Como eu chequei meu PC na modalidade VFR, e havia feito 40h de simulador, só precisei de 5h de voo duplo-comando IFR; e como o C-172 G-1000 estava o mesmo preço do Tupi analógico na EJ, eu também voei minhas horas IFR em glass cockpit.

Pois muito bem. Na sequência, já com o PC-VFR checado, iniciei meu treinamento MLTE+IFR num Seneca-II particular totalmente analógico. …E, adivinhe, tive uma dificuldade espetacular! Resultado: tive que refazer o meu simulador, utilizando o equipamento não homologado do Aeroclube de São Paulo para reaprender a voar IFR – na verdade, aprender pela primeira vez a raciocinar pelas indicações do painel “de relojinho”. Foi quase como se eu não tivesse feito o simulador do G1000, na verdade. Se fosse o contrário – eu tivesse aprendido no analógico, e depois tivesse feito uma adaptação ao G1000 -, tenho certeza que teria sio muito mais fácil, rápido, e barato.

Portanto, você está certo em procurar os equipamentos menos automatizados neste momento. Fuja do glass cockpit, esqueça o GPS, nem lembre que existe piloto automático na sua instrução. Você realmente vai ter muito tempo para lidar com tudo isso no seu dia-a-dia como piloto profissional na sua vida! Vai nessa, você está na proa certa!

 

 

2 comments

  1. Maury Machado
    5 anos ago

    Sou piloto há 36 anos e tenho minha opinião formada sobre esse assunto. Depois que criaram a tal de ANAC as coisas só complicaram em relação a automação ou modernização das aeronaves. Experiencia em aviação não se adquire dentro de laboratório de cristal líquido. Sou a favor sim, de formar pilotos com aeronaves que exijam mais do aluno quando na fase de aeroclube. É sentado na cabine de um avião que realmente se aprende a voar e decidir o que fazer em situação adversa. Isso depois de passar uma longa fase de duplo-comando com quem sabe realmente voar. Não se trata de perda de tempo e sim, ganho de conhecimento que pode lhe ser útil e fazer o diferencial na sua carreira futura. Estão formando pilotos de computadores que voam. Isso é muito perigoso, pois quando uma situação exigir habilidade com a aeronave pode pegar muitos profissionais de surpresa. É uma profissão muito bonita e que dá uma sensação de liberdade que nenhuma outra pode lhe proporcionar, porém exige dedicação profunda. Não se edifica uma casa do telhado para o alicerce. Isso tem ocorrido também na aviação de helicóptero, onde alguns ficam esperando a aeronave resolver a situação por Eles. Espero ter ajudado, um abraço!

  2. roquini
    5 anos ago

    … na instrução, não faz sentido facilitar muito a vida, mas sim o contrário: treinar no pior cenário que seria possível encontrar na vida real …

    Estou fazendo minha instrução de PP voando Aeroboero e no campo de marte. Que combinação mais “crítica” essa. 1o) Por se tratar da TMA de SP, congestionada, fonia dificil (pelo menos no inicio) e 2o) Por voar uma aeronave também difícil, dura, sem penduricalhos tecnológicos e bem “arredia” nas manobras de solo (taxi, decolagem, pouso). Mas sabe? recomendo essa combinação. Este cenário, quando aliado à instrutores competentes, só tem a agregar na formação de qualquer piloto. Foi difícil (ainda está sendo) mas creio que contribuirá muito para minha carreira…….

    Sou suspeito pois sou apaixonado pelos “taildraggers” … mas se me perguntassem se vale a “combinação”, até agora, diria sem sombra de dúvidas que SIM.

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