Novos Relatórios Finais do CENIPA

By: Author Raul MarinhoPosted on
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Como um amontoado caótico de destroços se torna um documento com uma história coerente sobre um acidente aeronáutico? É essa a “mágica” que o CENIPA realiza em cada um dos Relatórios Finais que são publicados.

Recebi dos meus amigos do SERIPA-IV uma mensagem com três novos RFs-Relatórios Finais do CENIPA, que comentarei brevemente em seguida. Ler RFs (o link para encontrá-los é este aqui) é uma atividade indispensável para pilotos, e há vários deles comentados no blog. Neste novo lote, recém disponibilizado no site do CENIPA, estão três acidentes cujos RFs trazem bastante informação, e acho muito importante que vocês os leiam atentamente. Uma atividade complementar que considero interessante também é fazer uma busca pelas matrículas das aeronaves acidentadas na internet, e comparar o que a imprensa noticiou na época da ocorrência do acidente com o apontado no relatório. Isso é bom não só para ver as inconsistências comuns às notícias preliminares veiculadas na imprensa, como também como uma forma de deixar a história do acidente mais realista (você vê imagens da aeronave e do local do acidente, lê depoimentos de testemunhas e vítimas, etc). Bem, mas passemos aos RFs de uma vez:

1) PP-FOX: “Cessninha” (C-150) de instrução da Dumont Escola de Aviação que realizou pouso forçado após falha do motor, em um terreno descampado próximo a Campo Grande-MS. Não houve feridos.

Este acidente teve várias características em comum a um quase-acidente que eu sofri na minha instrução de PC, quando voava no Aeroclube de Campinas. A grande diferença é que eu consegui retornar para a pista após a decolagem, e no caso do FOX, eles estavam longe da pista no momento da pane de motor. A causa do acidente – problemas mecânicos decorrentes de falha na manutenção do motor – foi a mesma do que aconteceu comigo, e trata-se de um problema muito comum em aeroclubes/escolas Brasil a fora. Portanto, você que está em instrução (ou é instrutor), fique muito atento aos sinais que a aeronave dá antes de ocorrer uma pane. Uma coisa interessante que eu vi no RF foi a reduzida experiência da tripulação – o INVA tinha 340h, e o aluno somente 8h de voo – e, apesar disso, o gerenciamento da pane foi perfeita, e o acidente não teve feridos. Parabéns aos dois!

2) N313PC: Piper Cheyenne-1000 (PA-42) da aviação executiva (ainda não nacionalizado quando o acidente ocorreu) que saiu da pista durante o pouso no aeródromo de Jundiaí-SP (SBJD). Não houve feridos.

Durante o voo, os pilotos perceberam que a manete de potência do motor esquerdo havia travado, e declararam emergência. Na aproximação, a tripulação haveria brifado que não iriam aplicar o reverso, para não gerar assimetria de potência e ocorrer o desvio da aeronave (não há certeza de que o briefing realmente ocorreu). Entretanto, no momento do toque, o copiloto comendou “reverso”, e o comandante aplicou os comandos, sendo que o resultado foi justamente a guinada da aeronave, que saiu da pista e se acidentou. Um típico erro por falta de CRM, um erro bobo que jamais poderia ocorrer com uma tripulação experiente (o comandante tinha 4.850h, e o copiloto 2.350h de voo), o que mostra a importância de uma boa coordenação de cabine para a segurança de voo.

3) PP-MUM: Eurocopter Super Puma (AS332) de táxi aéreo prestando serviços à Petrobras na Bacia de Campos (litoral norte do Rio de Janeiro), que caiu no mar instantes após a decolagem da plataforma P-18. O comandante e quatro passageiros morreram; dois passageiros tiveram ferimentos graves; dez ocupantes tiveram ferimentos leves; e três saíram ilesos.

Formalmente, a causa do acidente foi “desorientação espacial”, mas na realidade foi uma soma de fatores – contexto comum aos grandes acidentes aeronáuticos. A meteorologia estava muito ruim, com ventos muitos fortes; o helicóptero estava com um pequeno defeito mecânico no botão de trim; e finalmente, com a contribuição destes dois problemas, o piloto que estava em comando no momento do acidente (que, no caso, era o copiloto), acabou sofrendo desorientação espacial, e caindo no mar. Aspectos relacionados a falhas no treinamento e na preparação da tripulação da plataforma para lidar com acidentes acabou agravando a fatalidade da ocorrência. Problemas de treinamento de CRM também foram apontados. O relatório deste acidente é bastante complexo e detalhado, com muita informação importante sobre segurança de voo. Eu sugiro que todo mundo o leia com bastante atenção, que vale muito a pena.

 

 

 

 

7 comments

  1. Ermi Ferrari
    5 anos ago

    Raul, não sei se você já viu essa notícia: 22/09/12 – SINA Anac diz que procedimentos de pouso da Trip são de alto risco, link http://www.sina.org.br/turbulencia/

    • Raul Marinho
      5 anos ago

      Putz, é um assunto polêmico… Por um lado, a empresa não poderia usar “procedimentos de guardanapo” de maneira alguma, é obvio. Mas o DECEA tbem é muito negligente na publicação de procedimentos mais modernos, o que acaba fazendo com que as empresas resolvam a questão elas mesmas. Não é uma porralouquice total da TRIP, não. Eu entendo o ponto de vista da companhia.

      • Não entendi se estavão executando procedimentos RNAV com aeronaves/tripulação não certificadas GNSS ou se “inventaram” procedimentos RNAV e os estavão executando.

        A segunda hipótese seria a pior de todas. A primeira, nem tanto. E já vi gente cumprindo star rnav com cirrus, corisco, etc…isso em treinamento. Não sei se por ser treinamento isso seria permitido. Creio que não.

        • Ops… *se estavAM

        • Raul Marinho
          5 anos ago

          Eu entendi que ambos os casos estavam presentes: eqpto+trip não homologados para executar os procs homologados e, além disso, houve o uso de procs. de guardanapo também. Mas posso estar equivocado.

          • Não conhecia o termo “procedimento de guardanapo”. hehe … Aqui em minas provavelmente eles se chamariam “procedimentos de papel de pão”.

            • Raul Marinho
              5 anos ago

              Cara, eu vi esse termo numa apresentação que assisti, não me lembro qual. Mas acho que dá bem a idéia de um procedimento improvisado, passado de mão em mão na lanchonete do aeroporto.

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