“Companhias aéreas enfrentam escassez aguda de pilotos”

By: Author Raul MarinhoPosted on
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O título deste post é a chamada para uma matéria publicada ontem no The Wall Street Journal (uma espécie de “Valor Econômico” para os EUA, só que muito melhorado): “Airlines Face Acute Shortage of Pilots“. Pois é, ao que tudo indica, deverá haver um “apagão de pilotos” nos EUA dentro de muito pouco tempo. Essa bola já havia sido cantada pelos palestrantes do Bombardier Safety Standdown deste ano, citando estudos da Boeing sobre o fenômeno, e colocando a futura falta de pilotos na conta dos eventos de 11/set: após os atentados (início dos anos 2000), os americanos deixaram de ter interesse em ingressar na aviação, o que irá gerar uma falta de profissionais qualificados nos próximos anos (os pilotos com 10-15 anos de profissão, que estariam entrando no “topo da cadeia alimentar” da aviação). Mas a matéria do WSJ traz outras informações interessantes sobre o “apagão” americano:

  • No próximo verão (deles, no meio do ano que vem), entrará em vigor novas determinações da FAA para que os copilas da aviação comercial tenham um mínimo de 1500h de voo (fato que já havíamos antecipado aqui).
  • Em 2014, também haverá alterações na regulamentação sobre regras de descanso – que, de acordo com o WSJ, terá um impacto de cerca de 5% na necessidade adicional de contratação de novos pilotos.
  • Devido à crise econômica dos EUA, há um movimento de expatriação de pilotos americanos para mercados que oferecem melhores condições econômicas aos tripulantes (Oriente Médio e Ásia, especialmente).
  • As companhias aéreas, por sua vez, estão trabalhando com margens muito apertadas, que as impede de adotar políticas de RH mais agressivas para atrair e reter seus tripulantes.
  • Apesar disso, as escolas de aviação estão cheias. Só que, em grande parte, de estrangeiros, que retornarão a seus países assim que formados.

Comento

Pois é, em princípio, esse problema de escassez de pilotos citado na matéria do WSJ não significa que a situação no Brasil siga o mesmo caminho – muito embora aqui também tenha havido um gap de formação de pilotos nos anos 2000 (não devido a atentados terroristas, mas por causa da quebra do trio Varig-Vasp-Transbrasil). Apesar disso, uma escassez mundial de pilotos sempre traz algum efeito positivo sobre o mercado local. No mínimo, haverá uma oferta maior de trabalho para pilotos brasileiros saírem do país, o que acaba gerando um desequilíbrio na relação de oferta vs demanda de pilotos dentro do Brasil.

Bem, mas o fato é que os EUA precisarão resolver o problema deles de falta de pilotos de alguma forma, e uma delas é flexibilizando a entrada de estrangeiros para trabalhar nas companhias aéreas americanas em algum momento. Por isso, acho recomendável que os interessados em pilotar nos EUA no médio prazo já vão se qualificando desde já, tirando suas licenças na FAA, treinando o inglês, etc. Em algum momento no futuro, acho provável que os EUA abram cotas para a concessão de green card a pilotos estrangeiros, mais ou menos como o Canadá faz hoje na província de Quebec (se você fala francês e tem uma boa qualificação de piloto, você tem grandes chances de obter um visto de trabalho canadense).

11 comments

  1. amgarten
    5 anos ago

    Raul,
    A reportagem esqueceu de mencionar um ponto muito importante: a redução dos salários. A profissão de piloto outrora muito bem remunerada enfrenta uma dificil situacao. Tambem depois dos atentados e das dificuldades econômicas por que passam as chamadas “legacy” , como a UA, AA, DL, e a respectiva concorrência acirrada pelas entao chamadas “low cost low fare” , a coisa complicou para o lado dos trabalhadores. As pessoas acabam fazendo as contas investimentoXretorno em termos de salário. Por isso muitos acabam arremetendo. Há até reportagens informando que há pilotos na área de Los Angeles que estão morando em trailers devido a queda do poder aquisitivo. Morar em trailer nos EUA é baixa renda. Em 2007 estava num voo da AA e conversando com o comissário ele disse que estava também tentando trabalhar como piloto e que havia até a oferta de co piloto da American Eagle, mas ele recusou porque o salário oferecido era bem mais baixo do que o que ganhava como CM/S internacional, por isso ele iria tentar executiva, etc.
    Igual a um dos seus posts, Raul, nao eh para desanimar ninguém, mas apenas alertar que a questão salarial vai pesar cada vez mais. E todos pilotos de asa fixa aqui no BR sabem que uma certa cia aérea, muito boa para o pax por sinal, está “jogando” o salário dos pilotos para baixo, e a concorrência já começa a ir atrás.
    Abs,
    Cássio

    • Raul Marinho
      5 anos ago

      De certa maneira, a matéria do WSJ deixa implícito os baixos salários dos pilotos qdo fala em margens apertadas das cias, que impedem oferecer salários competitivos…

  2. Sander Ruscigno
    5 anos ago

    Raul, por acaso você sabe como é o esquema para trabalhar nos EUA como comissário?
    Penso que para ajudar nos custos de vida por lá, ao passo que realizo meu curso de piloto, vou trabalhando como “Flight Attendant” mesmo…

    Além disso, você acha uma ideia de m#$¨#¨$, ou pode ser uma boa ideia?

    Abraço

  3. Pica fumo
    5 anos ago

    Olá Raul,

    Eu acho muito improvável que o mercado norte americano (USA) abra seus céus para tripulantes estrangeiros. Antes de me formar piloto trabalhei durante alguns anos com esse povo e posso afirmar que no mínimo eles são extremamente protecionistas (para não ser deselegante). E não acho que eles estejam errado nesse aspecto! Trabalhei com navegação marítima e vi a dureza (quase impossível) que é para um estrangeiro tirar sua habilitação para navegar e trabalhar em águas norte americanas. Além disso, os que conseguem, trabalham para a empresa, mas comandam navios fora do país. Isso por causa da bandeira. (navio de bandeira americana, deve ter cmte americano) então vi muitos com a licença americana trabalhando em Trinidad, Qatar….resumindo…mais ou menos como com um aviçao de matrícula BRA que dever ser cmdado por brasileiro.
    Acredito que se algo do tipo acontecesse para a aviação seria muito prejudicial para aquele país e se o mesmo acontecesse aqui seria desastroso. Falo isso por que não acho que eles iriam fazer isso sem ao menos ter uma política de igualdade.

  4. Leandro
    5 anos ago

    Raul, bom dia. Teria mais informações sobre o sistema de visto de trabalho em Quebec? Eu sempre vejo informações sobre a imigração para o Canadá, mas nunca achei algo sobre pilotos. Obrigado.

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