Sobre a estratégia de atrasar a formação aeronáutica nesse momento de crise

By: Author Raul MarinhoPosted on
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“É isso aí, pessoal! Vamos terminar o PC sem pressa… Prá que correr?” R.B.

No post “O ‘apagão de empregos na aviação’ finalmente entra na pauta da imprensa“, eu reproduzi uma reportagem do Estadão (“Crise na aviação faz piloto atrasar conclusão do curso”) em que o ex-comissário da Webjet, Douglas Antunes dizia: “Estou em dúvida se uso o dinheiro da rescisão para concluir o curso de piloto ou se vou fazer outra coisa.” (…) “Meu medo é investir tudo em uma carreira e não ter emprego depois.” Embora tenha minhas reservas para com quem compreende a formação aeronáutica como um “investimento” (e não é: você não “investe” numa faculdade de Medicina ou num curso de mecânico do SENAI; você persegue um objetivo referente ao que você quer fazer da vida – mas não vamos nos alongar nesta questão), postergar da formação aeronáutica é um tipo de decisão postura compartilhada por outros leitores daqui, como o Eduardo Ruscalleda, que nos comentários deste post disse que “(…) O sonho de ser piloto continua e continuará, mas voltei a trabalhar na minha área e terminarei o curso de piloto de maneira mais moderada, com previsão de me formar até o final do próximo ano (2013) e até lá… Espero que as coisas se normalizem e possamos estar vivendo uma nova fase na aviação!” (Viram como o enfoque do comentário Eduardo foi bem mais interessante que o do Douglas? É esta a minha crítica ao enfoque de “investidor”, mas voltemos ao trilho).

Por outro lado, outros leitores pensam diferente, como é o caso do Wesley de Paula, que afirmou nos comentários do post sobre a matéria do Estadão que “(…) não tenho intenção de atrasar minha formação,prefiro terminar logo pra procurar algo por aqui onde moro,caso eu não encontre nada na aviação eu arrumo trabalho sem ser como piloto até que as coisas melhorem.Na minha mente prefiro estar formado caso apareça algo(mesmo que raro)do que perder alguma oportunidade por estar atrasando a formação.” Afinal de contas, o que é melhor: atrasar a formação, como o Douglas e o Eduardo; ou prosseguir normalmente com ela, como o Wesley? É sobre isso que iremos conversar neste post.

Como em quase tudo sobre estratégias profissionais, não há uma única resposta certa sobre uma questão como essa: tudo dependerá de duas variáveis: as características pessoais do indivíduo, e suas percepções sobre o futuro. Hoje, quem está se formando tem pouquíssimas opções de emprego no mercado, e até para INVA/INVH a coisa está complicada. Vejam, por exemplo, o caso recém discutido do Aeroclube de Araraquara, que está fazendo um processo seletivo para contratar instrutores autônomos ganhando R$15/h – e, a julgar pelos comentários, tem gente que vai tentar uma vaga lá porque não há outra alternativa de carreira nesse momento.  Então, para que apressar a formação? Para entrar no processo seletivo de um Aeroclube de Araraquara e, se conseguir ser aprovado, voar a R$15/h? Acho que não faz muito sentido isso…

“Ah, mas se eu começar a dar instrução agora, daqui a 6 meses eu já tenho 500 horas!” Siiiiiim!!! E daí? O que vc vai fazer com seu currículo de INVA+500h num momento em que centenas de pilotos de B737 e A320, recém demitidos da Gol e da TAM, estarão procurando emprego no mercado? Você vai ter que ficar mais seis meses ganhando R$15/h em Araraquara, no mínimo, para estar competitivo – quando, talvez, o mercado comece a reagir, no final de 2013, começo de 2014. Por outro lado, quando o mercado melhorar, os recém-formados vão se qualificar muito mais rapidamente para empregos melhores, como aconteceu em 2010, num processo bem menos penoso do que o que você viveu. Pelo menos, é isso o que se espera que aconteça em face das informações hoje disponíveis.

Ocorre que, para determinadas pessoas, formar-se agora pode ser a melhor alternativa. Para quem possui um QI bastante robusto por trás, pouco importa a crise no mercado: sua vaga estará garantida de qualquer forma – só que, quando eu falo em “QI robusto”, estou me referindo a um QI de verdade, uma indicação que tenha poder absoluto para a contratação, não o “amigo que disse que vai me dar uma força”. E, para aqueles que não têm nada a perder (um emprego fora da aviação, por exemplo), e recursos próprios para bancar a formação, também não faz sentido atrasar o dia em que eles irão se transformar, de alunos de aviação, em em pilotos desempregados. Pelo menos, como piloto desempregado há uma chance remota de conseguir um emprego, coisa que um aluno de aviação nem isso tem…

Mas para quem tem um emprego fora da aviação e/ou está pensando em tomar dinheiro emprestado para concluir sua formação, o melhor mesmo é tirar o pé do acelerador (ou reduzir a manete), e diminuir o ritmo dos voos, como sugeriu o Eduardo. Honestamente, no caso do Douglas, que quer aplicar o dinheiro de sua rescisão numa pousada em Floripa, acho que, apesar de tudo, ele faria mais negócio “investindo” no término de seu curso de PC do que montando a pousada – mas este não é o foco deste artigo.

33 comments

  1. castro
    5 anos ago

    Raul, eu trabalho c aviação na aerea de infraestrutura. amo aviação..sempre quiser piloto.. mas pensei em começar por baixo pra entender melhor..fiz mecanica.. gmp, avionicos.. e agora em janeiro to pensando em partir pra piloto… mas pelo q venho acompanhando.. agente fica c um pé atraz neh, pois o mercado ta complicado. pelas minhas pesquisas.. se começar pp em jan 2013 e seguir com pc .. talvez em 2014 ja esteja c PP e PC. e acumulando hr. maaas sou novato entao posso estar errado tb. mas to pesquisando ainda !

    • Raul Marinho
      5 anos ago

      O mercado está complicado hoje, mas como ele estará em 2014? Eu acho que estará melhor.
      De qualquer modo, a estratégia de atrasar a formação é um ajuste fino para quem está no meio do caminho do PC para frente, já entrando na reta final para se formar. No seu caso, que nem começou o curso de piloto ainda, eu acho que o negócio é meter o pau no PP, ir voando e observando o mercado, como ele se comporta, para à partir de um determinado momento, ir dosando a velocidade da sua formação para mais ou para menos.

      • castro
        5 anos ago

        obrigado! vou fazer isso entao!

  2. Eu vejo e entendo os momentos de crises como oportunidades para aprendizado, crescimento e para explorar alternativas.

    Penso e acredito que com tantos pilotos disponíveis no mercado, todos os que estejam buscando formar-se como piloto privado poderiam ter oportunidades interessantes. Se a oferta de pilotos e instrutores aumenta, fatalmente poderiamos esperar uma baixa nos custos da formação básica. Obviamente aplicando a mesma lógica o custo de oportunidade para quem estiver buscando trabalhar profissionalmente como piloto comercial, vai ficar mais alto (ou seja, caro)

    Para pensar!

  3. Arthur
    5 anos ago

    Sobre as 200horas de piloto em comando para a licença de INVA, caso eu conclua meu PC + INVA antes de 2014, eu ainda precisarei ter as 200 horas, ou essa regra só será aplicada após 2014?

    • Raul Marinho
      5 anos ago

      De acordo com o RBAC-61, a necessidade de 200h PIC para INVAs será obrigatória somente para quem checar a habilitação após 22/06/2014.

      • Dedeco
        5 anos ago

        Atualmente quantas são necessárias para INVA e INVH? Obrigado

        • Raul Marinho
          5 anos ago

          Nenhuma além das requeridas para o cheque de PCA (70h) e PCH (35h).

          • E horas de treinamento de INVA? Como ficou? Pra cada um que pergunto, tenho uma resposta diferente.

            • Raul Marinho
              5 anos ago

              Não mudou nada no RBAC-61 sobre as horas dos cursos de INVA/INVH – que, a propósito, não especifica as respectivas horas de treinamento. Para INVA, a instrução recomendada pelo “Manual do Curso de Instrutor de Voo – Avião” (MCA 58-16) prevê um mínimo de 27h de voo em seu plano de instrução de voo; e para INVH, o plano de instrução usualmente utilizado pelos aeroclubes/escolas de aviação de asa rotativa (não existe um “Manual do Curso de Instrutor de Voo – Helicóptero” publicado pela ANAC) prevê um mínimo de 10h de voo. Esta é a resposta certa, conferida com a ANAC e com profissionais de escolas de aviação (lógico que esses valores são MÌNIMOS, e pode haver casos de pilotos que requerem mais do que isso para atingir a proficiência necessária para o cheque). Se alguém te responder algo diferente disso, falou bobagem.

              • André Araújo
                5 anos ago

                Mas Raul eu estou fazendo atualmente PPH (Piloto Privado Helicoptero), então basta eu fazer mais 35 horas e checar PCH (Piloto Comercial) e já poderei fazer o INVH, é isto?

                • Raul Marinho
                  5 anos ago

                  Não, eu estou falando em HORAS EM COMANDO para checar o PCH. Vc precisa de 100h para isso, e destas, 35h deverão ser obrigatoriamente em comando. Aí vc faz o curso de INVH, que inclui mais 10h, e se torna instrutor com 110h no total (umas 115h, na verdade, contando com os cheques de PPH, PCH e INVH). Depois de 22/06/2014, vc vai precisar de 200h em comando, o que significa mais 165h em comando, já que vc voa 35h em comando no seu treinamento de PCH. Na prática, o INVH vai precisar ter pelo menos 280h totais para ser INVH: 115h do PCH+INVH e 165h em comando adicionais para chegar às 200h requeridas. Sacou?

                  • Dedeco
                    5 anos ago

                    Agora sim, entendi. Muitíssimo Obrigado!

  4. Anderson
    5 anos ago

    a melhor coisa a se fazer é, estudar para os concursos públicos que estão saindo, com ótimos salários e estabilidade financeira, depois disso, faça alguma faculdade, se forme, ganhe mais dinheiro. Aí sim poderá investir na tão sonhada carreira de piloto, até lá as coisas vão ter melhorado no ramo civil e executivo, e você poderá investir sem medo de não ter grana pra comprar coisas pra dentro de casa ou pagar as contas no fim do mês. O negócio é não ter pressa! abçs

  5. Carlos Barros
    5 anos ago

    Vocês que estão reclamando de desemprego já tentaram a LAN. Ela estava contratando pilotos com mínimo de 200 horas de voo, ICAO 4, etc. Agora, os pilotos terão que residir no Chile.

  6. Gustavo
    5 anos ago

    Pessoal, depois de muitas idas e vindas na aviãção, decidí largar tudo em Abril/2012 para apostar minhas fichas. Eu já tinha o PP checado, e nestes 7 meses que se passaram eu conseguí checar o PC Multi IFR, fazer o PLA e agora o INVA. Torrei toda a grana que tinha. Digo à vocês, se pudesse voltar atrás eu realmente teria “reduzido as manetes”, pois o que estou enfrentando agora é um desemprego geral na aviação. Quem tem, não larga o osso e dificilmente ajuda, pois o pensamento é que vc formado e conhecendo o patrão, se torne um inimigo em potencial, assim é mais fácil não te ajudar….Mandei currículos para mais de 100 táxi aéreos (AC, AM, BA, MG, MT, PA, PI etc etc) e nada de empregos ou ao menos um esperança…nada! Espero que este depoimento ajude a algumas pessoas a refletir melhor….pq não está fácil não!!!!

    Obs: Até em Manaus não me querem!!!! rs

    Abs

  7. Pedro Hartz
    5 anos ago

    Raul, o Douglas é meu velho conhecido. Iniciamos o curso de comissário em Floripa, em 2009 e entramos quase juntos na Webjet. Legal encontrar ele por aqui! :-)
    Quanto ao curso, partilho da opinião de tocar sempre o máximo que dá. Principalmente em momento de crise!
    Se etiverem chamando hoje, para qq companhia, desesperadamente, exigindo só os mínimos (PC/Multi/IFR) seria bom? Seria ótimo para a aviação, porém pra quem tem só o PP checado naõ faria a menor diferença. Sendo que, estando o momento bom agora, a chance de piorar quando eu estivesse formado seria grande.
    Acredito que, antes desse investimento, é necessário uma reflexão. Quero ser piloto mesmo?
    Em 3 anos voando como comissário e tirando o meu PP, cheguei a uma conclusão.
    É sim, isso o que eu quero. Voar me dá prazer, e a rotina da aviação comercial encaixa-se perfeitamente comigo.
    Botei na cabeça que, estando fácil ou estando difícil, um hora eu emburaco.
    E o momento de crise, ao meu ver, é o ideal de correr atrás. Para quando vier o momento da colheita, eu já estiver pronto, com o campo bem semeado.

    • jordialisson
      5 anos ago

      Concordo com está afirmação, se realmente é o que a pessoa quer, tem que ir fazendo, porque um dia vai mudar, não importa quando.

  8. roquini
    5 anos ago

    É um impasse cruel, principalmente para que está fazendo o PC….

    …”Termino logo o PC? …. Nãooooo…. mas se não terminar daqui a pouco tem que fazer curso obrigatório para PLA…. para checar o INVA vai precisar de 200 horas em comando…. mas pra que checar agora se o mercado está ruim….???? Esperar?.. não esperar?”…

    tem que parar para pensar, direitinho . . . . .

    • Raul Marinho
      5 anos ago

      Pois é, né Roquini… Vc pode fazer como sugeriu o Felipão, e ir trabalhar no Banco do Brasil. Mas passar o resto da vida atrás de uma mesa carimbando papéis vc não quer também, né?

      • roquini
        5 anos ago

        NÃO! rs …. vou continuar na minha função até que consiga um trabalho na aviação!

        Na minha humilde opinião eu prefiro estar preparado para quando o mercado começar a melhorar. Mesmo que eu gaste muito dinheiro, precise de empréstimo, me “aperte” financeiramente, prefiro ficar “pronto” o quanto antes……..

        Uma vez ouvi falar que sorte é o que acontece quando a preparação encontra a oportunidade……
        estou dando uma “ajudinha” para minha sorte… rs

  9. Jordi Reis
    5 anos ago

    Já observei que és formador de opinião e muito culto, me ajude, tenho 18 anos casado, sem filhos, desempregado e apaixonado pela aviação, quero começar meu teórico de PP em janeiro tenho o dinheiro para pagar a vista, e ate lá conseguir um emprego para pagar a banca e coisas do tipo, eu estaria errado em querer começar minha formação mesmo que devagar?

    • Raul Marinho
      5 anos ago

      Seria uma irresponsabilidade da minha parte aconselhá-lo sobre um assunto tão importante sem conhecê-lo, meu caro Jordi. Na verdade, esta é uma decisão que você terá que tomar sozinho, o máximo que alguém pode fazer é lhe municiar com elementos para que você erre o mínimo possível. Explore o blog, leia sobre a profissão de piloto, conheça pessoalmente o métier, esse é o caminho.

    • roquini
      5 anos ago

      Jordi,
      O ritmo em que você faz suas aulas depende unicamente da sua dedicação, aliada à necessidade e possibilidade($$).
      Conheço pessoas que terminaram toda a formação em 1 ano…. e outras que demoraram mais de 4 anos para se formar….. depende da sua dedicação e esforço!

      Existe problemas? a meu ver, não. Depende muito de você…..

      É claro que, se você ficar muito tempo sem voar, você acaba “desaprendendo” um pouco a voar… mas novamente, depende da sua dedicação!

      • Jordi Reis
        5 anos ago

        Bacana, estou pesquisando a meses, o problema é que a vontade de aprender e de voar é enorme, você me entende, só tenho o azar de estar iniciando em meio a uma crise, na verdade nem me preocupo com “emprego na aviação” por agora, só quero aprender a voar, e assim poder ir para a cama contente.

        • Raul Marinho
          5 anos ago

          A crise é passageira, nem leve isso em conta… O que importa é vc ter uma boa formação. Vc já pensou em fazer uma faculdade de aviação? Acho que isso seria uma alternativa interessante no seu caso.

          • Jordi Reis
            5 anos ago

            Sim já pensei, e sou abençoado por ter uma faculdade perto que oferece este curso, afinal, a oferta dos aeroclubes assusta, me ofereceram um curso teórico de menos de 2 meses, já ouviram falar disso?

            • roquini
              5 anos ago

              sim… rs
              de fato é apenas um mês…. para se fazer toda a teoria do PP ou PC….. (período integral)

              • Jordi Reis
                5 anos ago

                Logo se vê que não sei muito, mas prefiro perguntar a quem sabe, é que o curso normal era de 4 meses, depois me ofereceram esse, ai fiquei pensativo, estou mais tranquilo agora.

              • Righetti
                5 anos ago

                Esse eu nunca ouvi falar… Só conheço de 3 ou mais meses…
                Acho MUITO corrido a pessoa aprender do zero em 3 meses, imagina em 1 mês…

                • João
                  5 anos ago

                  Tem uma escola do interior de SP, em que seus cursos teóricos são dados em 7 semanas. E na minha opinião, é bem melhor do que fazer em 4 meses. Com 4 meses de curso, perde-se um pouco do que se viu nos meses iniciais, fazendo em 1 mes e meio, está tudo “fresco” ainda, o que é bom pra quem se dedica de verdade e está preparado pra fazer a banca logo após o fim do curso.

                  • Enderson Rafael
                    5 anos ago

                    Na verdade, acho que se perde mto tempo no teórico, lamento de verdade que no Brasil se trabalhe dessa maneira, pois alternando teórico e prático, vc aplica o que aprende e fixa muito mais rápido. Como eu só tinha um ano pra fazer tudo, vim pros EUA. Chequei meu PP (part 61)(teórico+prático) em 2 meses e 20 dias. Tive que voltar ao Brasil, depois vim de novo. Comecei meu IFR (part 141) dia 1o de outubro, meu cheque é amanhã, 26 de dezembro, ou seja, se eu passa, terei feito em 2 meses e 26 dias. Estou fazendo time building enquanto isso, pois preciso ter 200h pra começar o PC aqui (part 61). Tenho que terminar tudo até março. Vamos ver, torçam pra fazer tempo bom:-)

                    • amgarten
                      5 anos ago

                      Boa sorte Cmte! Vai com calma e faça seu voo porque tudo irá bem para você! Abs.

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