“Anac: Quantos sofrimentos serão necessários para que as autoridades civis enfrentem o problema da tendência do aumento nos acidentes aéreos?”

By: Author Raul MarinhoPosted on
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Por indicação do Carlos Montino, presidente da ASA-Associação dos Servidores da ANAC, reproduzo abaixo o artigo do Cmte. Tito Walker, piloto e servidor daquela agência, publicado ontem no site da entidade:

Anac: Quantos sofrimentos serão necessários para que as autoridades civis enfrentem o problema da tendência do aumento nos acidentes aéreos?

Dia 20 do mês de novembro de 2012, tivemos mais um acidente catastrófico, com a queda de um helicóptero na Grota Funda, no Rio, com duas fatalidades: o Instrutor-de-voo Silvester, 39, e seu aluno Berredo, 19. Este fazia seu primeiro voo de instrução para tirar seu brevet. Faria 20 anos no dia 26 deste mês de novembro.

Triste fim de um começo de carreira e de vida. Como se costuma dizer em Aviação, “cortado na mistura”. Não sei o que seus pais e sua namorada pensavam em dar de presente a ele neste dia. Mas sei por intuição que estão sofrendo muito esta perda irreparável. Sei, também, objetivamente, porque convivo com um tio do Silvester, que é nosso colega na Anac, o Inspetor de Operações Alquéres.

Não posso deixar de sentir empatia e pensar que poderia ter sido eu, aos meus vinte. E não me escuso de me perguntar o porquê desta tão grande disparidade nos destinos diversos, o meu e do Berredo. E de tantos outros que, ultimamente, estão indo a toda hora neste caminho inexorável, que é inelutável nas mortes, mas – se nem sempre evitáveis – ao menos podem ser bem diminuídas através de uma regulação e uma fiscalização comprometidas com seu fim-em-si.

Pergunto-me, como servidor efetivo e parte de um dos elos da cadeia que deveria prover a segurança operacional na Aviação Civil brasileira, o que há de fato de errado? Quantos cônjuges mais há que ficarem viúvos para que alguém de fato disso se importe? Quantas mães precisam ainda chorar seus filhos até que alguma autoridade com poder para modificar tome a si a responsabilidade de intervir para transformar as falsas aparências de correções dos desvios reais? Quando vão se mobilizar, ordenadas e em conjunto, as forças sociais representativas perante esta mortandade previsível ? São 140 acidentes já este ano, com 60 fatalidades (referência site Cenipa, 21.11.2012).

Não pode tanta autoridade corresponsável continuar irresponsável, insensível a estas fatalidades. Tão bem representada esta sensibilidade na “Carta do Filho Morto”, do pai do Cmte Rodrigo, Roberto da Matta.[1] Será que ficam  midiaticamente cuidando somente de suas próprias carreiras, algumas vertiginosas, que novo curso fazer, como manter seu cargo e nova (mais uma) aposentadoria, qual cargo melhor ou acima ocupar, qual localidade boa escolher para tocar sua vidinha pública? Ou pior, como fazer para disfarçar as falhas que há? Qual colega, amigo ou parente “trazer”, sem concurso e de preferência sem nenhuma experiência em Aviação Civil, mas que lhe obedeça cegamente e tenha grande expertise em “maquiagem”, ou que lhe seja cúmplice em falsificar dados e indicadores? Quais falhas neste tipo de gestão autorizam ativa e passivamente a continuidade destes acidentes?

E, principalmente, quem com autoridade não mais se omitirá e exercerá de fato seu poder para impedir e parar esta falta de liderança que permite permanecer a mesmice do dia-a-dia de futilidades e interesses próprios de muitos e dedicação de poucos ao bem comum? Não só perguntar sobre o quê, ou com este “o quê” ficar chocado, mas exigir respostas à crucial pergunta: qual é o problema? Porque é óbvio que há um problema.

O primeiro passo para solucionar problemas é saber quais eles são. Posso adiantar e já me arrisco a sugerir, sem muito receio de errar: o problema na Anac está na gestão. Isto se tem detectado no curso (único até então) para candidatos a gestores e nos de reciclagem de regulação em segurança operacional no Centro de Treinamento da Agência. Isto também foi parcialmente apontado por um grupo de servidores da Agência. Isto é o que, de um modo geral, falam entre si, receosos de agir como deveriam. Até porque, quando o fazem, tem sido inócuo para o coletivo e os que ponderam ainda se vêm sob ameaça.

Por exemplo, alertou-se à Comissão de infraestrutura, no Congresso, por um abaixo-assinado de vários servidores, antes da arguição de um Coronel envolvido em um inquérito civil público, então candidato para ser reconduzido à diretoria. Assinamos o ‘manifesto”, a maioria da área onde ele é o responsável, expondo-nos por dever, e particularmente fiz uma comunicação direta à Senadora Presidente desta Comissão.  “Forças ocultas” (mas nem tanto) vieram em socorro do investigado e o reconduziram ao cargo. Este Coronel nos encaminhou à Corregedoria, para tentar nos intimidar, Felizmente há Justiça renascente neste país. Esta tentativa de intimidação foi um “tiro no pé”. A Corregedoria o encaminhou à Comissão de Ética da Presidência e resta citado em mais uma investigação preliminar.

Incansável em perseguir seus objetivos pessoais a qualquer preço, recentemente, este Coronel, incomodado pela possibilidade de seus amigos da Oscip investigada perderem a prestação de “serviços de capacitação à Agência”, teve a ideia de “reformular” esta Superintendência de Capacitação, que vinha apresentando bons resultados e satisfazendo o grupo, bem gerida tecnicamente por servidores efetivos.

Persistente em sua vingança contra os servidores, fez com que fosse desmantelada a Superintendência de Capacitação da Agência. Isto tudo, apesar de uma Nota Técnica elaborada pela Associação dos Servidores da Anac para mostrar e sensibilizar a diretoria para o grave engano que seria esta mudança. Insensíveis, salvo as exceções por serem minoria, os demais da diretoria que permitiram este novo (não foi a primeira vez) desmanche desta importante Superintendência. Quem virá substituí-la em seu objetivo de desenvolver os servidores civis da Agência para ocuparem os postos de trabalho na Aviação Civil? Por certo e por coincidência, os militares da Oscip do interesse do Coronel. Empregados contratados.

E não pára aí a vingança. Há ano e meio, assina, com seus pares do Comando da Aeronáutica, um espúrio acordo para colocar mais 100 militares da ativa no quadro de pilotos da Agência Civil. E permite que haja apenas de zero a dez vagas apenas para um possível novo Concurso… somente no próximo ano de 2013 (se sair, mesmo!). E, há pouco, coloca quatro novos Pilotos de Ensaio nos quadros da Gerência Geral de Certificação de Produtos (GGCP), em São José dos Campos, reduto do Coronel Diretor. Mas não são Servidores, são militares da Aeronáutica. Todos fizeram o curso de um ano, cursos pagos pela União.

A Agência tem sete anos e não “abre vagas” em São José dos Campos para comandantes concursados, mas ainda contrata militares que vêm para complementar seus vencimentos da reserva remunerada, ou para se desmilitarizarem por um “pourboire” (se da ativa), em detrimento do salário para civis, por exemplo, demitidos de forma tresloucada em “falências ou recuperações judiciais” já vergonhosamente estabelecidas na Aviação Civil brasileira[2].

O que há na Anac, então, que possa justificar este abandono de sua responsabilidade de regular e fiscalizar a Aviação Civil? A permanência do modo de gestão militar, que não se coaduna ao gerir civil.  É hora do toque de recolher às casernas para melhor gerir e fomentar a nossa Arma de defesa aérea.

Hoje, a Aviação Civil, a exemplo de praticamente todos os países, deve ser controlada por quem dela entende, os que têm maturidade profissional, a saber, conhecimento e experiência na atividade específica.  Como já bem o dizia o Brig Ferolla, quando Presidente do STM, nos idos de 2003.

É possível mudar e enfrentar o problema. Friso: é preciso conhecê-lo. Mas, antes disso é preciso ter atitude responsável para reconhecer sua ação irresponsável frente ao caos. Assumir que sua gestão pública em prol de si e de seus pares não é adequada aos interesses do Estado na gestão da Aviação Civil. Não só admitir, mas corrigir os erros. A gestão de uma instituição que lida com Leis, normas e regulamentos que têm caráter público, não deve ficar mercê de ganâncias pessoais e fraquezas de caráter de indivíduos. A pergunta que não quer calar: quantos Servidores estatutários estão suspeitos dentre os indiciados nos possíveis crimes indicados pela Polícia Federal? É hora de aproveitar a “devassa nas AR” [3], que está determinada pela Presidenta e responder aos cidadãos de Bem. Para o bem das vidas nossas e as de nossos semelhantes.

Foi irreparável a perda de Berredo para seus pais e amigos. Foi ao limite, por certo, a última luta de Silvester, um mestre no Jiu-jitsu, para salvar seu aluno e a si próprio. Mas, por parte daqueles que não são insensíveis às perdas dos outros e aos demais, não será a última luta. Não se deve colocar quaisquer interesses, mesmo que lídimos, acima da finalidade da Instituição. A finalidade aqui na Anac é Segurança Operacional. Lutaremos para respeitarem esta razão-de-ser. Uma finalidade pública da Instituição, sendo enxovalhada por escolhas equivocadas, em detrimento do que poderia e deveria fazer a Agência de Aviação Civil Brasileira em prol de seus usuários. Isto não pode ficar desdenhado pela sociedade por esta estar sendo ludibriada por “notas à mídia” eivadas de inverdades e incorreções.

A Anac não comemorou o Dia da Aviação Civil, 07 de dezembro. Minha primeira reação foi de indignação, já que noticiam tanto as ‘lavagens dos carpetes” da Unidade Regional de Brasília. Mas, refletindo melhor, está coerente com a gestão pró-labore. Ou, pior, com a política de voltarem ao modelo anterior, onde os militares voltam oficialmente ao poder (que nunca abandonaram) na Aviação Civil, mas não pelo bem dela.

A Presidenta está de parabéns nesta sua atitude de privilegiar o mérito, a letra de Lei e a lógica. Que seja esta uma primeira de várias ações neste sentido. Que novas aerovias mais puras levem mais aeronaves aos ares sem tantas perdas catastróficas.

Que esta boa atitude da Presidenta no primeiro escalão se transforme em ações continuadas e mude esta terrível tendência nos escalões pouco mais abaixo,nos tais novos 10.000 cargos a serem criados[4] interrompendo e, se for possível, extinguindo a política do protecionismo e da dança de cadeiras nos “cruzeiros da alegria”, para que não se leve ao limite a desmoralização das Agências Reguladoras[5].

[1]http://www.estadao.com.br/noticias/impresso,uma-carta-do-filho-morto,31112,0.htm

 

4 comments

  1. Rafael Matera
    4 anos ago

    É uma honra trabalhar com o Cmte Tito.
    Grande abraço do amigo,

    RAFAEL MATERA

  2. fredfvm
    4 anos ago

    Do comandante (mais idoso na linha, quando foi criminosamente extinta pelo Governo) com 33 anos de comando na empresa, 23.583 horas voadas, nenhum acidente,

    Tito Walker

  3. Chumbrega
    5 anos ago

    Belo texto do COMANDANTE L Tito Walker. Este sim COMANDANTE (com todas as letras, e maiúsculas). Tive a honra de conhecê-lo pessoalmente há uns 7 anos quando ele trabalhou, altruísticamente, para fazer reviver o aeroclube de BQ. Fui muito bem recebido na sala de instrução que ele havia reformado, com seu próprio acervo.

    E ninguém pra falar com mais propriedade da ANAC que o Walker. Décadas de experiência na aviação, Ex-piloto da FAB (ou seja, com muita propriedade para falar das ingerências deles na ANAC), e master-fudêncio de internacional na pioneira. Fico feliz que ele ainda esteja contribuindo, no pouco que a Agência Nacional de Aposentadoria de Coronéis permita, com a aviação brasileira. Servidor concursado da agência desde o primeiro concurso e INSPAC-Checador. Esse sim sabe o que diz….

    … e dá as caras a tapa. Pelo pouco que conheci da história dele, o Walker nunca foi de se acovardar, e é quase uma unanimidade entre o pessoal da VARIG como homem de caráter (segundo o que dizem, ele teve muito desgaste com a diretoria da VARIG por brigar pelos diretos dos colegas). Ou seja, é tudo que esses diretores e demais comissionados que Pereginam (não deu pra não fazer o trocadilho) na ANAC não são. A eles falta hombridade e correção com a Coisa Pública, coisa que nunca faltou ao Walker.

    Em relação ao conteúdo do texto: nessa hora, me pergunto onde estão os saudosistas do DAC? Quando os absurdos da milicada se revelam, a galera some, né? Muitos dos saudosistas não sabem, mas esse diretor (ex coronel da FAB) que PEREGRINA pela ANAC ao qual o Walker se refere, foi também diretor de uma certa empresa de “transportes especiais aéreos e malotes” (Fonte: site dessa empresa, já desativado, e conhecimento público e notório), que operava vôos regionais no litoral do estado do Rio, e que teve um acidente em março de 2006.

    Que estranho, não? Um ex diretor de companhia aérea (ou seja, com óbvios interesses econômicos no setor), empresa aérea que teve um acidente por pura indisciplina, ser diretor da ANAC pouco tempo depois? E colocar, como superintendente (esse já era) de SEGURANÇA OPERACIONAL, um tb ex milico, ex diretor da mesma empresa? Que coisa feia né? Ah, e vamos lembrar que os diretores são sabatinados pelo senado (senado são todos os partidos, não vamos nos esquecer).

    Talvez ou saudosistas possam nos elucidar em relação a esses temas, ou desdizer as palavras do Walker.

  4. amgarten
    5 anos ago

    O texto do Cmte Tito Walker, que possui mais de 15mil horas de voo na aviacao comercial e foi caçador na FAB, traduz o sentimento geral dos servidores da Anac, que buscam uma Agência realmente orientada para uma aviacao brasileira mais segura para todos.
    Abs,
    Cássio

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