“O futuro da carreira de piloto”

By: Author Raul MarinhoPosted on
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Para quem acha que este blog é pessimista demais para com a carreira de piloto, sugiro ler a matéria abaixo, publicada na revista Aeromagazine deste mês (cortesia do amigo e leitor André Araújo):

COCKPIT TALK

O FUTURO DA CARREIRA DE PILOTO

Demissões em massa, fusões, remanejamentos de linhas, mudanças na regulamentação… Diante da nova realidade, quais as opções de quem busca recolocação ou almeja um dia comandar uma aeronave?

por Ruy Flemming

Ninguém sabe exatamente de onde surgem, mas os boatos, assim como as lendas urbanas, criam expectativa ou desconforto sempre que aparecem. Será que vão faltar pilotos no Brasil? Dizem que esse questionamento teve origem dentro de algum grupo interessado em trazer pilotos estrangeiros, mas o fato é que a imprensa noticiou largamente essa tendência e escolas e aeroclubes ficaram lotados de aspirantes a aviadores atraídos pela possibilidade de receberem um bom salário depois de formados. Os sindicatos, e o mercado em geral, também contribuíram para esse quadro ao pressionarem os empregadores por remunerações mais altas diante da alardeada escassez de pilotos. A verdadeira situação não é bem essa e o recente fechamento de uma empresa aérea traz à luz uma realidade que muitos preferiam que não fosse essa.

Embora alguns funcionários garantissem que já havia sinais de que algo ruim aconteceria em breve, a notícia de que a Webjet teve suas atividades encerradas repentinamente pegou muita gente de surpresa. A extinção de uma companhia aérea nunca é um bom sinal, seja para avaliar a economia do país e a forma responsável ou não como são geridas a saúde e a própria sobrevivência de suas empresas, seja para avaliar o mercado da aviação em si.

RUMO AO ORIENTE
Conversei com o comandante Mauro Hart. Ele é um dos que estava percebendo que o clima na empresa não parecia muito saudável e, menos de uma semana depois do encerramento das operações da Webjet, embarcou para o Oriente Médio e Ásia para tentar a sorte em alguma empresa de lá. As companhias aéreas asiáticas, em plena expansão, estão atraindo profissionais de mercados como o europeu e o brasileiro. Sim, brasileiro. Com as recentes demissões, estima-se que haja pelo menos 500 comandantes e copilotos que estiveram empregados numa empresa aérea e agora estão atrás de uma recolocação. Dificilmente você irá ouvir que alguém perdeu seu posto de trabalho na hora certa, mas parece que o momento de encerramento das operações da Webjet não poderia ser pior.

Hart, que passa pela segunda vez pela mesma experiência, já que também voou na Varig, estima que, dificilmente, aparecerá alguma oportunidade, no curto ou no médio prazo, para se recolocar no Brasil. Por esse motivo, desde o meio do ano, está fazendo seus contatos para buscar alguma oportunidade no exterior. Ele avalia que um piloto vai levar alguns meses até conseguir passar por uma seleção e finalmente voltar a voar, mas ainda há alguns obstáculos. Um candidato a uma vaga no cockpit de uma empresa asiática deverá ter boa fluência na língua inglesa, habilitação da aeronave válida e idade normalmente inferior aos 50 anos. Dificilmente será contratado um piloto cuja experiência de voo seja inferior a 3.000 horas na aeronave que pretenda voar. No final, vai ter de concorrer com pilotos do mundo todo pela vaga. Não é uma situação de fácil gerenciamento, especialmente se levarmos em conta que esse piloto vai passar longos períodos longe de casa. O salário? Claro, compensa! Especialmente se o piloto estiver sem emprego e uma boa quantidade de contas para pagar. Os salários na Ásia – mesmo aceitando pilotos estrangeiros, é preciso registrar – costumam girar em torno de 50% acima do que as empresas pagam por aqui.

BOA FORMAÇÃO
Há cerca de um ano, AERO Magazine publicou uma matéria em que explicávamos que o problema do Brasil não era a falta de pilotos, mas, sim, a falta de pilotos bem formados. Sempre tivemos um bom número de pilotos sendo formados. A situação se deteriorou um pouco. Atualmente, não basta ser piloto bem formado com larga experiência. Simplesmente não há vagas para tantos candidatos. Com as fusões, remanejamentos e novos planejamentos de linhas, as empresas que estão operando no Brasil dificilmente terão capacidade de absorver todos os profissionais que estão disponíveis no mercado. Mas dentre as regras que ditam a vida dos pessimistas ainda tem uma que diz que nada é tão ruim que não possa ser piorado.

Dois fatores ainda poderão atrapalhar bastante as pretensões dos candidatos a voltar a voar. O primeiro deles é o novo RBAC61, que entrou em vigor em junho de 2012. Esse Regulamento Brasileiro de Aviação Civil determina que o piloto que não revalidar suas habilitações num período de seis meses após o vencimento deverá cumprir os requisitos teóricos, de instrução de voo e proficiência para concessão de habilitação, ou seja, vai começar do zero, como se nunca tivesse voado um avião menor antes. Isso é especialmente desanimador para o caso de um piloto que tenha pretensões, por exemplo, de voltar a voar uma aeronave pequena que tenha operado no início da carreira. Esse piloto, além de desembolsar recursos que podem estar seriamente comprometidos, terá que concorrer com algumas centenas de recém-formados que também estão procurando uma cabine para iniciar a vida profissional como aviador. O segundo fator que pode minar as pretensões a voltar a uma cabine de comando é exatamente o número de novos pilotos habilitados. Conseguir uma vaga no cada vez mais concorrido mercado da aviação está difícil.

NOVAS LICENÇAS
Se houve algum movimento para tentar convencer a sociedade de que havia falta de pilotos no Brasil, certamente a imprensa em geral contribuiu muito e o resultado foi tanto cruel quanto positivo. A tabela acima mostra com bastante clareza a reação do mercado à informação de que faltariam pilotos. Os dados que apresentam um crescimento fora do comum coincidem com o início da divulgação de que a falta de pilotos poderia travar o crescimento do país e da aviação. As informações dizem respeito aos números de licenças de Piloto Comercial expedidas, que é a que permite a entrada do piloto no mercado.

Se não houver algum novo e surpreendente fator que mude o cenário atual, a realidade é que a maioria absoluta dos pilotos que investiu algo que certamente ultrapassa a marca dos 100 mil reais para chegar à tão sonhada licença de Piloto Comercial vai ter que competir com um mercado já saturado de pilotos com bastante experiência. Independente do fim das operações da Webjet, o crescimento do número de novos Pilotos Comerciais já estaria incompatível com o mercado.

O prejuízo de quem apostou na carreira de piloto certamente vai ser bastante considerável e não há retorno previsto num curto espaço de tempo. Quem paga essa conta? O lado positivo é que os melhores sempre terão espaço e, com dedicação e uma formação cada vez mais qualificada, elevarão o nível da aviação no Brasil. Por isso, não se engane, quem quiser seguir a carreira de piloto terá de buscar obstinadamente o nível ótimo de proficiência para disputar um mercado cada vez mais competitivo, aqui e lá fora.

21 comments

  1. Hanna Luiza Lerbach
    4 anos ago

    Olá, tenho interesse em inciar um curso de PC de helicóitero, mas a longo prazo pois pretendo terminar a universidade primeiro. Existe preconceito no regime de contratação em relação a mulheres ?

  2. josemar varela
    5 anos ago

    Bom dia a todos.
    amigos, diante de tantos artigos na Internet eu acabei ficando confuso, gostaria muito da opniao de vocês. Vocês acham que Vale a pena eu iniciar o PP agora com 32 anos? Estava pensando em iniciar o PP e prosseguir no PC, Vale a pena? Terei alguma chance?
    abraços

  3. Ricardo
    5 anos ago

    Pessoal,

    Pretendo iniciar o PP agora em janeiro, gostaria de indicações sobre alguma instituição e também se a minha idade é um limitador, tenhos 30 anos, sou bacharel em contabeis, quero chegar até a aviação comercial e abandonar a minha carreira como contador.

    Gostaria de sugestões.

    • Raul Marinho
      5 anos ago

      Sua idade não é problema. Quanto às indicações, diga em que cidade vc quer efetuar sua formação.

      • Ricardo
        5 anos ago

        Raul
        Estou em São Paulo embora não tenho problema com mobilidade. Aliás para a prática do PC posso me mudar temporariamente.

        • Raul Marinho
          5 anos ago

          Então as melhores opões são os aeroclubes de SPaulo, Bragança e Jundiai, mais a EJ de Jundiai.

  4. Mano
    5 anos ago

    Urgentemente os canais de comunicação deveriam tentar reparar o erro cometido, divulgando a realidade de FALTA de EMPREGOS na aviação. Somente assim, creio que novos aspiras OPORTUNISTAS pensariam e desistiriam no começo.

    • Mano
      5 anos ago

      E assim, talvez não resolvesse de imediato a situação, porém iria dar uma desafogada e não permitiria que ficasse pior que já está.

    • Bruno Ataídes
      5 anos ago

      esse efeito é de longo prazo, resultado de anos atras. Eu acredito que a realidade está sendo divulgada de forma natural com a falta de emprego. não há o que fazer a curto prazo. A realidade é que o Brasil vai mal e é necessária uma reação política de impacto para que se criem oportunidades de crescimento no setor.

    • Flemming
      5 anos ago

      Concordo, mas dificilmente vc vai ver um telejornal dizendo que agora a situação se inverteu e tem piloto no mercado sem emprego. Essa notícia não vende.

  5. Alexandre
    5 anos ago

    Ao ler algumas das matérias apresentadas recentemente neste blog, como o aumento do número de acidentes, aumento desproporcional de emissão de licença de piloto comercial, etc, etc, etc, nos leva a pensar que o caminho é um só: MELHORAR A FORMAÇAO E TREINAMENTO DOS PILOTOS BRASILEIROS.
    O OPORTUNISMO de tantos tem mostrado os seus números…e ainda oque temos visto são pilotos de helicopteros checados, sem saber fazer autorotação, pilotos de aviões checados sem saber fazer fonia, e tantas outras deficiencias técnicas e operacionais básicas daqueles que dizem estar prontos para exercer suas funções profissionais
    O grande problema é que as licenças no Brasil são comprovantes de horas de vôo (na maioria das vezes os mínimos requerido para aquela licença) e não um comprovante de proeficiencia técnica do piloto.
    Se a qualidade da instrução tanto técnica quanto prática fosse elevada, isto automáticamente faria com que os alunos se dedicassem mais e por consequencia a obtenção da licença seria mais difíciul.Isso eliminaria boa parte dos OPORTUNISTAS das salas de aula, mas também diminuiria a renda de alguns OPORTUNISTAS responsáveis por prover a instrução,ou seja, não fica muito difíciul entender por que as coisas são como elas são.
    Esta facilidade de se tornar piloto no Brasil, ou melhor, obter as licenças de piloto, impulsionada pelas irresponsaveis materias da imprensa, divulgando a FALSA falta de pilotos no mercado tem nos levado a uma situação catastrófica.
    O mais triste é que pessoas estam MORRENDO em acidentes por causa deste quadro…

    • Otaviano
      5 anos ago

      Alexandre concordo com você, nos aspectos a respeito de oportunistas..
      Não sei se a situação no Brasil todo é igual, mas conheço pessoas que são alguma espécie de sangue-suga, pois alguns que eu sei, voam 5 e até 6 aviões, se dizem “amigos”, e sequer te perguntam se pode voar… e as vezes este “amigo”, não tem a proficiência para comandar, ou mesmo estar de co-piloto na cabine de uma aeronave.
      Então, com isso, quem está começando e é competente, não tem chance de continuar o caminho para obtenção das licenças e habilitações, e já percebi também que eles querem “elitizar” a aviação, dando chance apenas para outros oportunista$$$… que voam de graça, e até pagam pra voar, porque tem condições financeiras abastadas….
      Ouvi dizer também que a ANAC tá de olho nos Freelancers… pode ser que isso melhoraria um pouco o quadro… Se alguém souber de algo, poderia se manifestar …
      Abs..

      • Chumbrega
        5 anos ago

        Otaviano, já estou voando na comercial há 2,5 anos, e CONCORDO PLENAMENTE com o que você disse no primeiro parágrafo. Os fominhas realmente existem e atrapalham muito nosso progresso. E olha que nem sempre eles são bons viu? e uma parcela consideravel só abocanha tudo porque cobra abaixo do mercado.

        Em relação aos freelancers, não acredito que seja verdade. É apenas minha opinião, obviamente posso estar errado. Mas acho isto pelo simples fato que não há nada na legislação que impeça alguém de ser freelancer. Contanto que a jornada de trabalho não seja excedida, e etc, acho que não há nenhum impedimento neste sentido.

        • Otaviano
          5 anos ago

          Chumbrega.. Obrigado pelo esclarecimento… e pelo comentário!..
          Parabéns pela sua força de vontade e determinação!… pois esses fominhas cansam…
          Ainda bem que eu tenho formação em Engenharia, pois tô pensando seriamente em mudar de ramo…
          Graças a Deus e ao meu esforço, tudo que eu consegui na aviação foi sem passar por cima de ninguém e nem precisar cobrar nada menos do que é o certo!
          Tomara que falte bastante piloto! pois assim os que merecem, terão a oportunidade de mostrar sua competência..
          Abraços.

          • Chumbrega
            5 anos ago

            Boa sorte pra todos nós!

            Parabéns pra vc tb pela formação em engenharia. Bem high – level e é um real back-up. Mas sugiro a todos que vão fazendo as coisas devegarzinho q as oportunidades aparecem. Tirem todas as carteiras possíveis (MLTE+IFR+INVA+ICAO+PLA teórico) que as coisas acontecem!

        • Só se a ANAC estiver na cola dos PP que estão fazendo freelance, que não são poucos, e já não é de hoje.

          • Chumbrega
            5 anos ago

            Também apenas uma percepção pessoal, Alisson. corrija-me se estiver errado:

            Acho q hj em dia tá bem difícil prum PP conseguir fazer freelance, dado o alto número de pilotos com mais experiência que o PP (como vc sabe, inclusive gente com experiência em Boeing, vide demitidos da GOL e WEB, além de INVAs e PCs com experiência de 500+ horas). Só q a gente sabe que ainda assim acontece. Mesmo assim, acho q a ANAC não tem contingente, capacidade intelectual, e informações precisas o suficiente para poder enquadrar um PP e tomar as providências administrativas e criminais que caberiam nesses casos.

            • Na verdade esses PP costumam voar contratados mesmo. Nem é freelance (exceto em panorâmicos). Realmente são raros, mas tem. Recebem mixaria e são peixes de pilotos antigões que indicam pra proprietário desavisado. Ou não. Tem proprietário que pra ele o que importa é pagar pouco.

              Com relação a ANAC. Penso exatamente assim. Ela não tem dado conta do recado nem do trivial, quem dirá promover ações dessa natureza.

    • Flemming
      5 anos ago

      Prezado Alexandre,

      Em minha opinião, vc tocou num ponto chave, a qualidade da formação.

      Vamos aos fatos.

      A licença de PC é a “Carteira de Trabalho” do piloto. Na teoria, ele pode começar a trabalhar com ela. Só que chega numa empresa procurando emprego e o empregador que saber, além do PC, quantas horas o candidato à vaga tem. Aí vem o contra censo. Uma empresa aérea fala pro piloto:

      – Junte uma experiência maior e volte aqui com 500, 1.000, 10.000 horas. Esses números sempre serão ditados pela relação entre número de pilotos sem emprego versus quantidade de vagas nas cabines de comando.

      O candidato vai então para o aeroclube dar instrução, vai voar para algum fazendeiro em troca de comida e cama, ou vai puxar faixa no litoral. Esse é o caminho natural que muitos seguem, nada de pejorativo, é como as coisas acontecem no Brasil.

      A pergunta é, o que essa experiência vai trazer de benefícios para o piloto que vai enfrentar uma cabine de última geração e um ambiente completamente controlado e complexo?

      Sejamos sinceros na resposta. Pouco.

      O que falta é emitir uma licença de PC que o mercado reconheça como fruto de uma formação que atenda às expectativas do que o mercado precisa.

      Quanto aos oportunistas ou os abastados, ou os colecionadores de freelas, é a lei do mercado sem uma interferência da autoridade que possa nivelar as possibilidades.

      Em minha opinião, a criação da figura do piloto-estagiário, ou qualquer outro nome que desse a um polito que está buscando acumular experiência, vai ajudar muito todo mundo.

      Bons voos a todos!

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