As horas de voo na visão do Ruy Flemming

By: Author Raul MarinhoPosted on
427Views11

Depois de ter publicado o post sobre o Projeto de Lei que prevê a obrigatoriedade da divulgação das horas de voo dos pilotos, eu li um comentário muito interessante do Ruy Flemming sobre este mesmo assunto no Facebook, o qual solicitei permissão para reproduzir aqui no blog. Minha intenção era tão somente editar o post sobre o tal Projeto de Lei, e incluir o texto do Ruy nele – nada mais que isso. Ocorre que o Ruy me enviou uma nova versão de seu texto sobre este assunto que não me deixou outra alternativa senão publicá-lo em um post exclusivo (este aqui), cujo teor segue abaixo. Está excelente, não deixem de ler!

Ao Ruy, meu muito obrigado pela colaboração, e sinta-se à vontade para voltar a colaborar com textos deste tipo aqui no blog. Mi casa és su casa.

A mente humana é algo realmente inacreditável.
Quando a gente acha que nada mais pode ser inventado vem uma coisa dessas.

O fulano foi muito bem. Inventou a roda e botou o ovo de Colombo de pé.

Ficou fácil! Pra vc voar com segurança, basta ter um comandante com o bolso cheio de horas a bordo. Agora finalmente a gente sabe que só se envolve em acidentes comandantes novos, com poucas horas de voo. Não importa de onde essas horas vieram. Aliás, horas de voo é o mais importante na aviação. Tem outras formas de distinguir um bom profissional, mas o importante mesmo é acumular horas de voo. Simulador pra que? Conhecimentos de CRM pra que? De que adianta saber os meandros da Segurança Operacional? Pra que saber os limites da medicina aeroespacial? Hora de voo é tudo! Não importa como a aeronave tenha sido certificada, nem que vai ser o controlador de tráfego aéreo do seu voo. Vamos focar da experiência do comandante, traduzida em horas de voo.

O que é uma experiência suficiente para a etapa? 1.000? 10.000? 100.000 horas de voo?

Se o passageiro já estiver embarcado e perceber que o comandante tiver uma experiência que ele julgue inadequada para prosseguir no voo ele faz o que? Desembarca? Pede ressarcimento?
Já estou prevendo uma emenda para essa nova Lei. Para evitar maiores transtornos, no check in, o passageiro vai assinar um termo dizendo que concorda com a cor dos olhos da comissária, com a pintura externa do avião, a decoração e disposição dos assentos e que sabe que a maioria das horas que o comandante voou foi puxando faixa entre Itanhaém em Ubatuba.
Os desdobramentos da Lei é que serão interessantes.
O jornal deve informar quantos toques já foram publicados pelo autor da matéria que você quer ler.
A construtora que lhe vendeu o apartamento vai ter que manter no quadro de avisos no térreo do prédio, o número de reformas de consultórios e casas de cada engenheiro envolvido na obra e se estão ainda em pé ou não.
Na ante-sala do cirurgião deve constar um pequeno quadro estatístico atualizado até o quinto dia útil de cada mês, dizendo o número de procedimentos cirúrgicos bem sucedidos e a quantidade de pacientes que perdeu.
Alguém ainda vai um pouco mais além e vai perceber que o comandante é bem importante, mas os acidentes, na maioria das vezes envolvem outros personagens. Vão começar pelo óbvio, o copila. Os comissários e o pessoal da DO serão também arguidos quanto à experiência. O mecânico que fez a última inspeção antes do voo vai ter que provar que sua experiência inclui mil semi-giros pela direita em chave Allen. Quem é o diretor de operações da empresa? Será que ele tem experiência para o cargo? E o cônjuge do comandante? Será que dá suficiente atenção e carinho? Como está o relacionamento?
Parece brincadeira, mas quem conhece de aviação sabe que tudo isso e muito mais é investigado criteriosamente pelas autoridades em caso de acidente.
Muito provavelmente a Câmara pode chegar à conclusão de que existe uma autoridade que regula a aviação e se submete a critérios aceitos e testados mundo afora e que chegaram à conclusão de que o passageiro não tem competência para avaliar a competência do aviador.
Melhor deixar com a ANAC. Bem ou mal está aí pra isso e deve saber o que faz.

11 comments

  1. Carlos Rizzo
    5 anos ago

    Eu creio no seguinte (vou generalizar mesmo): o deputado Ademir Camilo deve ser do tipo de gente que tem medo de voar…provavelmente embarcou em uma aeronave em que o comandante aparentava ser um tanto quanto “novo demais para ocupar o posto” (pois a grande maioria tem aquela imagem de que o responsável pela aeronave, se tiver cabelos, devem ser brancos). Concluo que o Sr deputado generalizou e julgou pelas aparências.
    Agora chego no ponto em que quero tocar: a maioria massiva da população, tem medo de voar…um politico, ganha atenção ao ser sensacionalista, ao aparecer. Aviação para leigos, é extremamente sensacionalista e insegura, acidentes na aviação, são sempre vistos como desastre..e isso choca. O que eu acredito que ele fez, foi aproveitar a oportunidade, unir o útil ao agradável. Assim ele chamou a atenção pra si, “mostrou serviço” pra algo “útil” à população que voa, ou precisará voar, pois o povo não sabe da existência de toda a burocracia (lenta) que existe para se tornar um Comandante.
    Mas é assim, um país em que a casa mais vigiada do Brasil, não é o congresso….

  2. Eduardo
    5 anos ago

    Só não entendi porque no final ele fala para deixar para a ANAC resolver. Os reguladores da ANAC já demonstraram serem tão inexperientes quanto esse deputado

  3. tropesko
    5 anos ago

    Digam se estou pirando muito na maionese ou não mas: será que uma empresa aérea que está perdendo mercado para outras mais novas (com pilotos menos experientes) seria capaz de patrocinar um deputado desses a propor tal lei?

    • Penso que não faz sentido. Co-pilotos tem sido contratado com menos experiência. Comandantes não. E o “projeto” prevê que as horas do comandante é que sejam divulgadas.

  4. Gustavo Franco
    5 anos ago

    Esse artigo é uma obra-prima! Tão bem elucidado com os exemplos que nem vou perder meu tempo aqui criticando esse PL e o inteligentíssimo deputado. Parabéns Ruy!

    • Flemming
      5 anos ago

      Gustavo, vc entendeu bem minha postura. A ideia não é criticar por criticar.

      Procurei discutir de forma leve os desdobramentos de uma legislação que o profissional da aviação não entende bem o benefício que pode trazer.

      A impressão que eu tenho é que parece que tudo o que foi estudado, construído, testado, avaliado, certificado e especialmente vivido cai por terra troco de nada. Parece que os pareceres de órgãos sérios que atuam em todo o mundo não valem de nada. O importante é saber quantas horas tem o comandante.

      Tenho a impressão que esse tipo de coisa acontece porque tem muita gente achando que a aviação está a deriva, sem comando.

      Será?

  5. Otaviano
    5 anos ago

    Excelente texto….

  6. Esse parlamentar provavelmente é do tipo “Falem mal de mim, mas falem”. Só pode ter se metido nisso para aparecer, por bem ou por mal, pq mais patético impossível. Ora, vão trabalhar…

Deixe uma resposta