Uma história de arrepiar!

By: Author Raul MarinhoPosted on
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Eu recebi o texto reproduzido abaixo do amigo/leitor Freddy Silva, que só me disse ser um “e-mail antigo”. Lendo, eu percebi que é um relato escrito provavelmente num fórum de discussão, numa comunidade no Orkut, ou alguma coisa assim – e também não sei o nome do autor. Mas isso não interessa, o importante mesmo é a história em si, realmente de arrepiar. O autor não só a descreve muito bem, como faz uma autocrítica muito interessante, vale a pena ler! Agradeço ao Freddy por compartilhar texto tão interessante!

Olá pessoal… No inicio deste mês vivi uma aventura, junto com minha namorada, que sei que dá para tirar várias lições. Vou relatar os fatos, interrompendo a narrativa para fazer minha auto-crítica, analisando os erros que cometi. Sei que vão me matar mas, paciência… Creio que esta experiência pode ser válida para algum de vocês.

Bom, sou piloto de ultraleve (ou era, sei não…) e moro em Belo Horizonte. Piloto há dois anos um Bravo 700, ultraleve avançado, tenho cerca de 160 horas de vôo. Eu estava a fim de fazer minha ultima viagem pra praia, antes da estação das chuvas. E o fim de semana que dava era este, de 8/9 de novembro. Vi a previsão e esta mostrava pancadas à tarde. Beleza, programei o vôo para de manhã cedo e partimos para Búzios, no Rio de Janeiro.

1° Erro: Assim como ursos hibernam, pilotos de ultraleve devem se esquecer de voar longas distancias na época da chuva. É uma época complicada, melhor deixar o avião no hangar.

O vôo foi legal, só houve a tensão de furar a camada de nuvens que cobriam a região de Cabo Frio, após a Serra do Mar. Olho no horizonte artificial e no altímetro, em poucos minutos já estávamos visuais de novo, abaixo da camada de nevoa úmida, e deu para pousar tranqüilo. Abastecemos em Cabo Frio e seguimos para o aeroporto de Búzios. O fim de semana foi excelente. Antes da viagem de retorno para BH, liguei para a meteorologia do Galeão, que me deu uma previsão de sol com muitas nuvens no trajeto, com formação de núcleos de CB no período da tarde. Resolvi decolar então, 7:30h da manhã.

2° Erro: Consultar só uma fonte é fria. Deveria ter ido para uma lan house e fazer o circuito completo de consultas: REDEMET, climatempo, INPE, etc. Ligado pro aeroporto de destino, etc. Na realidade as CBs estavam se formando desde manhã cedo, e o aeroporto em BH estava debaixo de tempestade quando decolei.

Realmente, havia muita nuvem no caminho, mas esparsas, dava pra voar visual a 7500 pés. Mas sempre tinha alguma que passava acima desta altitude. Como eram isoladas, eu não perdia muito tempo desviando não, ainda mais que o vento de proa estava atrasando muito a viagem. Já tinha furado duas sem grandes problemas, em minutos já as tinha atravessado. Até que apareceu uma que a primeira vista pareceu igual às outras, só uma bruma sem forma definida, só mais larga. Decidi então furar esta também.

3° Erro: E o mais grave… Na realidade, esta era só a parte externa de uma CB, uma espécie de halo que envolve o núcleo do sistema. Nem sabia que existia isto, para mim CB’s eram aquelas bigornas negras que identificamos de longe, permitindo o desvio seguro. Esta tinha o aspecto inocente, branquinha, mas sem as formas arredondadas de uma cúmulus. De toda forma, não deveria ter entrado em nuvem nenhuma, como insistia meu instrutor.

Em poucos minutos depois que comecei a ficar guardado, começou a chover fino, o que me levou a decidir a dar meia volta. Quando terminei o 180° é que começou a confusão. Uma turbulência forte me mudou a direção, e em seguida outra, e outra. Eu suando frio, mas mantendo ainda o rumo e a atitude do avião, de olho nos GPS, horizonte artificial e os demais instrumentos. Até que vi um raio caindo à frente, e o GPS se apagou. Será que por um choque eletromagnético? Sei não, e perdi um tempo ligando-o novamente. E a turbulência se tornou tão forte que já nem dava pra ver onde ir, estava era lutando pra manter o avião nivelado. Para mim, a CB me sugou para dentro dela.

4° Erro: Não me condicionei suficiente pra me virar só com a bússola, fiquei dependente do GPS. Devia ter fixado a direção usando ela e tentado sair logo que possível. Me deu calafrio também o pensamento de que eu só tinha um horizonte elétrico, se o raio foi responsável pela pane no GPS, será que também não poderia inutilizar este?

 

Este sofrimento durou uns 5 a 10 min. Até que se abriu à frente um buraco entre as nuvens e vi, uns 200 m à frente, uma parede negra e compacta, uma linda CB. Neste momento que me apavorei mesmo. Mas nem tive tempo de nada, recebi um golpe de baixo pra cima que me elevou a altitude a uns 1000 pés por minuto, e logo em seguida um mais forte ainda, de baixo pra cima, que me lançou em mergulho pro solo. O climber foi além de seu máximo de 2000 pés por minuto de descenso, por um tempo que me pareceu enorme. Estranho é que a velocidade relativa tava abaixo de meu VNE, 120 milhas/h, a impressão é de que entrei num tubo de ar que descia da nuvem para o solo, era um mergulho forte, mas sem aumento da velocidade relativa. Pessoal, vocês não imaginam o pavor que dá, creio que desci mais de 3000 pés em cerca de um minuto. Forcei no manche pra sair deste mergulho, sentindo nele uma força que desconhecia, e com alivio vi o climber se estabilizando no zero. Mas neste momento eu saí abaixo da nuvem e pra minha surpresa, vi que estava num parafuso. Até que fui rápido na reação, aplicando o que o manual fala: manche no neutro, pedal no sentido contrário do parafuso. Mas o solo já estava perto, uma montanha com muita mata. Em segundos escutei o baque e um galho entrou por minha janela.

5° Erro: Treinamento insuficiente para recuperação de atitude anormal. No meu ver eu saí do mergulho com velocidade insuficiente e estolei, e meu tempo de reação foi longo demais para evitar a queda. Treinamentos como os descritos neste site que alguém apresentou aqui na comu, http://www.acrobrasil.com.br/cursorecup.html podem salvar vidas. [O link está obsoleto. Talvez seja este curso aqui: http://www.acrobrasil.com.br/?page_id=25].

 

Alivio foi olhar pra minha namorada e ver que estava tudo ok, e comigo também. Mas o alívio passou logo, ao sentir a cachoeira de gasolina caindo sobre meu ombro. Falei com ela pra sair rápido, pois poderíamos explodir, mas ela se assustou quando abriu a porta: estávamos no alto de uma árvore de mais de dez metros de altura. Por felicidade, havia cipós ao alcance da mão, que ela usou pra descer. Eu perdi um tempinho soltando a perna que estava presa. Deixando o tênis, ela se soltou. Mas não quis deixar pra trás o tênis, pois sabia que iria caminhar muito… E aproveitei e peguei minha flauta também no bagageiro, já que ela custou caro pacas.

6° Erro: Tinha de ter saído era correndo mesmo, largando tudo pra trás. Depois que vi o tanto de faísca que a bateria soltava, por sorte não se incendiou o avião. Recuperei tudo que estava no avião depois, não precisava ter corrido este perigo.

Cheguei no solo, descendo pelo cipó como Tarzan, e ficamos um tempo nos recuperando, debaixo da chuva. Uma mata fechada, sem saber para onde iria. Mas logo apareceram uns lavradores, eles viram a queda e foram nos socorrer. Interessante, descreveram o parafuso como uma queda lenta, foi o que nos salvou. Bom, estávamos ilesos, só assustados. De forma que combinamos com eles para olharem o avião pra gente, enquanto íamos pra casa. E assim foi, de carona, taxi, etc, fui direto pra casa. Demorei dois dias pra me preparar pra volta, por sufoco no serviço e outras coisas. Liguei na noite anterior pros lavradores para me ajudarem a tirar o avião de lá, mas me contaram que a cidade estava em polvorosa e polícia estava atrás de mim.

7°erro: Um avião acidentado não é como um carro, que a gente deixa na primeira fazenda na beira da estrada pra voltar depois pra buscar. Cria-se uma comoção tão grande que o melhor é ir logo à polícia avisar, apesar da legislação não requerer isto.

 

Dos cerca de cinco mil habitantes da pequena cidade perto de onde caí, cerca de mil subiram a serra pra ver o avião, o sargento da PM me contou depois. Tanto os policiais militares quanto os civis estavam super excitados, achando-se na frente de um caso de tráfico de drogas ou armas, já que não fizemos o BO, só saímos da cidade de imediato. Após uma tarde de esclarecimentos variados, me liberaram pra buscar o avião, o que fizemos debaixo de chuva (que foi outra aventura, talvez para outro tópico). O pior foi que abateram a árvore para fazer a perícia nele, e acabaram de arruinar com o avião. Até que antes dava para aproveitar motor, instrumentos e várias outras coisas, mas com o corte da árvore, muita coisa se danificou, aí desanimei de reconstruir o avião. Troquei tudo por um gol 1000 que não sai um palmo do chão, e agora estou reavaliando o que faço com meu amor à aviação…

 

8 comments

  1. Wanilson Silva
    2 anos ago

    Cara, foi um tremendo susto e o importante foi que você e sua namorada saíram inteiros dessa. De tudo isso, ficam as lições, que, certamente, você as assimilou e tomará todas as precauções possíveis para que um evento desse tipo não ocorra mais. Parar de voar, por favor, nem pensar!
    Boa sorte. Felicidades sempre.

  2. Julio Petruchio@bol.com.br
    5 anos ago

    Outra História de arrepiar: “A Criação da Anac”.

    • Raul Marinho
      5 anos ago

      Essa é, na verdade, uma história de chorar, de se descabelar, de bater a cabeça na parede…

  3. Balila Anunciação
    5 anos ago

    Ele deveria dar “GRAÇAS A DEUS” pelo avião ter entrado em parafuso, e ele não ter conseguido tirar… E ao meu ver, passar em meio a chuvas em voos VFR, não é lá uma grande ideia. O bom, é que ele não precisou de flores pra terminar essa historia.

  4. rbiten
    5 anos ago

    História impressionante! Eu lembro de ter lido sobre esse acidente há cerca de uns 2 anos atras, se não me engano. Muito corajoso o relato do colega aviador, pois teve a capacidade de assumir seus erros perante todos e, dessa forma, contribuiu efetivamente pra aumento da cultura de segurança de voo. Como dizem na minha terra “teve mais sorte que juízo”… :-)
    Mas que bom que tudo terminou bem e não passou de um grande susto. Fica a lição…

    abs e obrigado por compartilhar conosco!

  5. Davysson Souza
    5 anos ago

    Pavor mesmo é ver um raio cair e logo depois o GPS se apagar ! imagino …
    graças a Deus ninguém morreu.

  6. O bom disso eh que ele tem consciencia dos erros. Quando voltar a voar, a postura tende a ser outra. Sofri dois acidentes (em avioes agricolas) e um acidente ensina mais do que uma decada de tempo de janela…

  7. Roquini
    5 anos ago

    me arrepiou a história!!! parece que consegui ver acontecendo….

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