Sobre a tragédia de Santa Maria

By: Author Raul MarinhoPosted on
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Magaiver

Não está na placa, mas o Magaiver também instala forro acústico em boate, dá treinamento para brigadas anti-incêndio, etc. A falta de profissionalismo em assuntos relacionados à segurança atinge tanto a aviação quanto as demais atividades potencialmente catastróficas no Brasil.

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Duas considerações sobre a tragédia de Santa Maria (o incêndio na boate Kiss, que matou mais de 230 pessoas), relacionadas a questões que têm a ver com o que tratamos neste blog:

1)      A origem da tragédia é a mesma que está na maioria dos acidentes aeronáuticos: falta de “cultura de segurança” – um tema que já abordamos aqui incontáveis vezes.

Lendo sobre o ocorrido nos jornais, eu me impressiono como há semelhanças entre a tragédia de Santa Maria e os acidentes aeronáuticos (da aviação geral, em especial) – em ambos os casos, há uma total falta de “cultura de segurança”, que fica evidente em fatos como esses:

  • O proprietário de avião que força a barra com o piloto para decolar com meteorologia ruim, que tem seu equivalente no dono de boate que não se importa com superlotação, extintores descarregados, falta de saída de emergência, etc.;
  • A percepção de que a documentação referente às questões de segurança – alvarás, no caso da boate, e a AIM, a CHT, etc., no caso da aviação – são meras formalidades burocráticas, como o cartão CNPJ, por exemplo;
  • O descompromisso com a segurança de todos os envolvidos indiretamente com a operação, como os engenheiros que projetaram e executaram a obra civil sem saídas de emergência adequadas, os vendedores e instaladores do forro acústico sem proteção anti-chama, etc. – mesmo caso de fornecedores de equipamentos não-certificados e/ou prestadores de serviços desqualificados na aviação (vide foto acima);
  • O despreparo dos profissionais diretamente envolvidos na operação – como os seguranças da boate, não treinados para lidar com emergências, e mal orientados sobre como agir no momento da tragédia -, igualzinho aos pilotos que não se reciclam, não treinam emergências, não leem os manuais, etc.

Enfim, a lista de semelhanças é enorme, mas acho que já deu para perceber como a falta de “cultura de segurança” permeia os dois ambientes da mesma maneira.

 

2)      A importância da não punição para as investigações.

Nesta semana pós-tragédia, instalou-se um jogo de empurra descomunal entre as partes envolvidas: os donos da boate dizem que a culpa é da banda, que acendeu os fogos sem permissão; a banda diz que foi um curto-circuito que iniciou as chamas; a prefeitura diz que seriam os bombeiros responsáveis pelo alvará; e assim sucessivamente: todo mundo joga a culpa no vizinho. E, nessa balbúrdia, o trabalho de investigação fica muito prejudicado, ficando muito mais difícil aprender com os erros, para que eles não se repitam (que é o que mais interessa, na verdade).

É exatamente por isso que as investigações relacionadas aos acidentes aeronáuticos – no caso brasileiro, realizadas pelo CENIPA – têm como princípios básicos que “o único objetivo da investigação de acidente será o da prevenção de futuros acidentes” e que “o propósito dessa atividade não é determinar culpa ou responsabilidade” (vide item “3.1”, Capítulo 3, do Anexo 13 da Convenção de Chicago). Não que eu defenda a impunidade dos responsáveis pela tragédia de Santa Maria, pelo contrário! Eu somente quero apontar como os princípios adotados em uma investigação aeronáutica fazem realmente sentido, com o exemplo do que hoje está ocorrendo na investigação tumultuada do incêndio da boate Kiss.

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Este blog e seu autor, falando também em nome de seus leitores, lamentam profundamente o ocorrido, e se solidarizam com os familiares das vítimas da tragédia de Santa Maria. Tomara que, pelo menos, a gente possa aprender alguma coisa com o que aconteceu, para que algo deste tipo nunca mais volte a acontecer no Brasil.

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