Jornal “Estado de Minas” ressuscita o “apagão de pilotos” de maneira bisonha

By: Author Raul MarinhoPosted on
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É inacreditável o que fez o jornal “Estado de Minas” na sua edição de hoje, com a matéria “Céu de brigadeiro para formar piloto – Crescimento da frota offshore e salário valorizado atraem profissionais para operar helicóptero, triplicando licenças” (só pelo título e sub-título, já dá para se ter uma ideia da barbaridade que vem pela frente, né?). Nunca, nem no auge da histeria do “apagão de pilotos” de 2011 – época em que a imprensa noticiava, dia sim, outro também, que “a aviação brasileira estava na iminência de entrar em colapso por falta de pilotos”, e que “quem quisesse entrar para a profissão tinha emprego garantido, com salário inicial de R$15mil/mês” – uma matéria tão bisonha quanto essa havia sido publicada.

A reportagem, como sempre acontece em matérias otimistas sobre a aviação, começa com uma tirada engraçadinha – “O céu está azul e o tempo firme para os pilotos de helicóptero” (Uau! Que sacada essa de comparar a meteorologia boa com um mercado de trabalho supostamente favorável, hein sr. repórter!? Como é que ninguém pensou nisso antes???) -, mas logo envereda para a pura publicidade (mal) disfarçada da Líder Aviação. Vejam essa pérola (os negritos são meus):

Na corrida para atender a demanda, empresas de aviação também passaram a promover a qualificação de pilotos para atender às empresas petrolíferas[1], mas se haverá pilotos disponíveis essa é ainda uma incógnita[2]. Enquanto um piloto comercial precisa investir cerca de R$ 100 mil para atingir 100 horas de voo, o chamado piloto offshore se habilita a partir de 500 horas e investimentos que superam os R$ 200 mil[3]. “A formação deveria ter o incentivo do governo, como já ocorre em outras áreas, onde o país precisa da qualificação”, defende Guilherme Medina, diretor de Recursos Humanos da Líder Aviação, maior empresa no segmento executivo da América Latina.

A Líder, que tem 67 helicópteros em sua frota, opera voos off- shore, isto é, da costa para plataformas de petróleo, de empresas como Petrobras, Shell, Chevron e Statoil. Para atender à demanda, a empresa desenvolveu em parceria com a americana Bristow Academy[4] curso para formação de pilotos, que acontece nos Estados Unidos com duração de 12 meses. Os candidatos devem investir com recursos próprios US$ 100 mil (cerca de R$ 200 mil). Concluído o curso, passam por um processo seletivo e podem ser contratados pela empresa[5]. “Para operar as plataformas é preciso atingir requisitos de qualidade”, reforça Medina.

A seguir, vamos desconstruir os trechos negritados, que claramente tentam promover o que eu chamo de “‘Programa ASA Rotativa’ da Líder” (uma boa ideia da empresa de táxi aéreo mineira que foi, infelizmente, desvirtuada pela ganância da empresa, e pela percepção equivocada sobre o perfil de quem quer se tornar piloto de plataforma – não são os filhos dos milionários de BH, dona Líder!):

  • [1]: “Passaram a promover qualificação de pilotos”??? Poxa, as empresas de táxi aéreo (a Líder inclusive) SEMPRE qualificaram seus pilotos, normalmente PCHs atuantes da aviação executiva, em programas custeados pelas próprias empresas. A diferença é que, agora, a Líder quer “dar a oportunidade” para que o próprio piloto pague pela maior parte de sua qualificação! Essa é que é a grande “novidade”, que a reportagem camufla.
  • [2]: Se haverá pilotos disponíveis é uma incógnita… Por que as empresas do setor não estão investindo maciçamente em treinamento para os PCHs já formados? Poxa, é só ir no Campo de Marte e colocar uma placa: “Estamos contratando PCHs recém-formados – tratar aqui” que choverá candidatos. Nem todos com boa formação, nem todos com o perfil desejado, mas o excedente de pilotos é tão grande, que é praticamente impossível não encontrar as pessoas certas para um programa de formação desses.  Se há temor de que faltem pilotos qualificados no futuro, invistam em qualificação, ora! Mas a empresa está esperando que o governo pague essa conta, e como isto não aconteceu até agora, eles querem passar a fatura para os próprios pilotos, isso é o que está por trás do programa da Líder, que o jornal não revela (nem questiona).
  • [3]:Essa história de que um piloto de plataforma gasta R$200mil do próprio bolso para se formar é o cúmulo do absurdo, uma lorota para que os eventuais interessados no tal “Programa Asa Rotativa da Líder” não achem a proposta do programa, que custa US$100mil para o participante, tão absurda assim. E estão usando o jornal “Estado de Minas” para dar credibilidade a uma informação que é falsa, mas que dita por um veículo que deveria ser isento, dá a entender que é verdadeira. Atenção: não caiam nessa! No Brasil, um PCH gasta somente o necessário para checar o PCH, no máximo o INVH; depois disso, quem paga o restante da sua formação é a empresa em que ele trabalha. 
  • [4]: Hmmm… Quer dizer que a Líder desenvolveu o treinamento de pilotos de plataforma em PARCERIA com a Bristow Academy. Que legal! Então, o sujeito pagará U$100mil à Bristow para ser treinado? Que interessante… Mas, espere aí: o que está fazendo o símbolo da Bristow no site da Líder? O fato é que, em 2009, o “Bristow Group passa a ser sócia da Líder Aviação com participação de 42,5% das ações“. Então, ficamos assim: para trabalhar na Líder, você tem que pagar o seu treinamento para a dona da Líder. E essa informação, facilmente obtida na internet, não estava na “reportagem” do Estado de Minas.
  • [5]: E, por incrível que pareça, depois de pagar US$100mil para a dona da Líder, sua contratação é uma mera possíbilidade. A Líder contrata se você for bom e se ela estiver precisando – e as duas coisas têm que acontecer simultaneamente. Ou seja: se tudo der certo, a Líder ganha um funcionário treinado sem custo; e se tudo der errado, ela embolsa U$100mil em treinamento. Já você… Se tudo der certo, ganha o direito de ser um funcionário da Líder. Negocião, hein!?

Há uma antiga piada que circulava no mercado financeiro sobre os irmãos Safra (José e Moisés Safra, donos do banco Safra), na época em que o ‘seu’ José era vivo. De acordo com a anedota, eles diziam que “‘negócia’ só é bom quando é bom ‘prás dois’: prá José Safra e prá Moisés Safra”. Pelo jeito, este é o novo lema da Líder/Bristow, que lançou um “programa de formação de pilotos bom ‘prás dois’: prá Líder e prá Bristow”.

Eu até acho que a Líder/Bristow está no direito dela: entra no programa quem quer, ninguém é obrigado a nada. Se o sujeito acha que faz sentido “investir” US$100mil num programa de formação de pilotos desses, problema dele. Mas o jornal Estado de Minas… Que papelão! Como é que um jornal publica uma matéria dessas, sem mostrar ao leitor o que está por trás do programa? Poxa, não é tão difícil assim, um repórter com um mínimo de profissionalismo deveria investigar o que sua fonte diz, ver se é aquilo mesmo, se não existem riscos associados ao que a empresa propõe, etc. O repórter não achou meio estranho o sujeito gastar US$100mil numa empresa que é sócia do possível futuro empregador? Que, depois, decide se quer ou não contratar o cara que ele mesmo treinou? E isso não seria algo a ser colocado na reportagem? Poxa, ou o repórter é muito ruim, ou aquilo é uma matéria paga disfarçada. Em qualquer um dos casos, é muito ruim para o jornal. Lamento profundamente que essa notícia tenha sido publicada.

11 comments

  1. Não, a imprensa está cada vez mais “graciosinha”, concordo com você em gênero e número, Raul. Bom, depois que disseram – com ref. a esse King C90 que lenhou no final de semana – que “a quantidade de combustível ao redor do avião indicaria que o piloto estava querendo jogar fora o combustível para pousar de maneira mais segura”, eu jogo a toalha, meu irmão. Essa foi “de cabo de esquadra”, como teria dito o meu falecido avô. Tenho escutado muito disparate e asneira a respeito de Aviação por parte da imprensa, tanto da “genérica” quanto da dita “especializada”, mas essa foi demais, meu estômago deu até volta de raiva. Depois tive até que rir. Fazer o que??? É o fim…

    • Raul Marinho
      5 anos ago

      Olha, Fábio… Essas opiniões absurdas sobre aviação, como a que vc citou, são até engraçadas, e revelam o despreparo e a ignorância do repórter. Mas o caso do Estado de Minas é muito mais grave: ao que tudo indica, houve uma tentativa deliberada do jornal para enganar o leitor. Aí a coisa complica, né?

      • Simone
        5 anos ago

        Raul achei ótimo esse seu artigo, tenho a absoluta certeza que foi encomenda da Líder, do mesmo jeito que foi encomenda ao deputado que fazia a modificação do CBAer a inclusão da liberação de contratação de piloto estrangeiro.
        Eles só não dizem nesse programa que os pilotos terão que covalidar as carteiras aqui no Brasil e. esse processo não tem sido fácil, se eu me lembro e não sei se ainda é assim, o candidato terá que fazer prova teórica de regulamentos e algumas horas de vôo no equipamento aqui no Brasil e rechecar com um checador da ANAC, repito, não sei se ainda é assim.
        Tenho colegas na empresa em que trabalho que fizeram sua carteira lá fora e foi difícil ter a covalidação e vale lembrar que hoje o RBAC 61 não aceita mais o exame médico feito lá fora, vai ter que passar por exame médico inicial aqui no Brasil e sabemos que nossos médicos são zilhões de vezes mais exigentes do que os gringos, já pensou, o cara ou a cara, faz o curso todo lá, gasta esses módicos U$100 mil, chega no CEMAL e toma pau definitivo?…..esta possibilidade já era real antes, agora muito mais pois estão muito mais rígidos nas avaliações médicas.
        A nossa falha no treinamento brasileiro é o IFRH, mas que já está por fim, já tem R22 homologado para o treinamento, só não pode checar e a hora de vôo é absurdamente cara, coisa em torno de mil e quinhentos reais….as autoridades aeronâuticas dizem que não checam no R22 ou outro mono para evitar que o pessoal saia voando IFR real com esses equipamentos que não são apropriados para o vôo em real condição instrumento….a ver por alguns acidentes nesse começo de ano chego a concordar.
        Já tem excelentes simuladores de helicóptero como o da Bravia em SP e agora tem um nível D de S76C++ em SP, só não sei dizer quanto custará o curso neste simulador, mas com certeza bem menos do que esses 200 mil reais que a Líder afirmou que um piloto vai gastar pra chegar no offshore e muitos dos instrutores são pilotos que estão na ativa no offshore, eu fui convidada a dar instrução lá, mas por motivos pessoais, tipo, adoro minha folga, kkkk, recusei o convite, mas muitos colegas aceitaram e estão lá na CAE.
        Se eu estivesse começando hoje, faria o PPH e o PCH aqui no Brasil e migraria aos EUA para fazer o IFRH e melhorar o inglês, hoje um diferencial na contratação…..a maior vantagem de fazer o curso aqui no Brasil é que o/a cara já vai conhecendo o mercado, fazendo amizade com outros pilotos e isso é uma grande ajuda para conseguir seus primeiros empregos para poder acumular as tais 500h exigidas pela Petrobras, ah! E assim não vai gastar 200 mil reais e sim poderá ganhar esses 200 mil reais recebendo para adquirir experiência, sendo dando instrução, voando particular, voando malote ou voando rádio.
        Bom isso é minha opinião, abraços Raul e turma.
        FLY SAFE!

        • Raul Marinho
          5 anos ago

          Tem razão, Simone, faltou falar da convalidação e do CMA. Hoje em dia, a convalidação está demorando menos (o processo é esse mesmo que vc falou: provinha de REG, umas 3h de voo de adaptação, e o cheque, que pode ser feito com checador de aeroclube/escola). Mas isso tem um custo, de qualquer forma, e mesmo demorando menos, ainda come um mês ou mais para o processo completo. Já o CMA é um baita problema. Tem um leitor que obteve a CPL nos EUA e está brigando há uns 6 meses para obter o CMA no Brasil.

          Mas vc que é de plataforma, me diga: quantos colegas seus gastaram US$100mil para estarem prontos para ingressar na carreira?

          • Aché
            5 anos ago

            100mil dolares? essa resposta é fácil, nenhum!! respondi no seu lugar Si!!!

            • Simone s vaz
              5 anos ago

              Obrigada Aché, Raul como disse meu amigo, nenhum!!!

        • Rodrigo
          5 anos ago

          Simone, você poderia dizer, por favor, qual foi a empresa offshore que trouxe o simulador de S76C++ nível D para CAE em SP e quais são as empresas offshore que poderão usufruir desse simulador na CAE em SP.

          • Simone s vaz
            5 anos ago

            Rodrigo foi a Líder em parceria com a CAE, que eu saiba todas as empresas offshore poderão usar e quem mais quiser.
            A Senior a alguns anos atrás iria fazer essa parceria, mas não deu certo, depois com uma faculdade brasileira iria custear o desenvolvimento de um simulador brasileiro a nível D, mas por motivos de novos objetivos da empresa, desistiram dessa parceria, uma grande pena!!!

            • Rodrigo
              5 anos ago

              Obrigado Simone. Raul Marinho, eu penso que esse assunto (“foi a Líder em parceria com a CAE” que trouxe o simulador de S76C++ nível D para CAE em SP) merece comentário.

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