Sobre culpa e dolo nos “erros” dos jornalistas

By: Author Raul MarinhoPosted on
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Ontem, eu publiquei o post “Jornal ‘Estado de Minas’ ressuscita o ‘apagão de pilotos’ de maneira bisonha“, sobre os erro da referida reportagem – e, no mesmo dia, o G1 noticiou a bobagem de que, no acidente do King Air em Cândido Mota, “os bombeiros acreditam que o piloto tentou esvaziar o tanque antes da queda para evitar uma explosão, já que havia combustível espalhado na área” (King Air não tem sistema de alijamento de combustível). Por isso, muita gente comparou as duas reportagens como igualmente erradas (inclusive nos comentários do post acima), e então eu resolvi escrever este artigo para mostrar que há uma diferença grande entre os erros de cada uma das reportagens citadas.

Se você está dirigindo de maneira lícita (isto é, sem estar embriagado, sem estar acima da velocidade permitida, etc. o que não significa que não possa estar cometendo um erro por distração, por exemplo), mas mesmo assim acaba se envolvendo num acidente que resulte na morte de uma pessoa, você poderá ser condenado por homicídio culposo, cuja pena é de um a três anos de prisão. Já se você pegar o seu 38, e atirar contra seu vizinho, a pena para este crime – que, no caso, seria homicídio doloso – poderá chegar a 30 anos de cadeia. Ou seja: em ambos os casos, o resultado foi o mesmo: a morte de uma pessoa – mas, somente pelo fato de que, no segundo exemplo, ter ocorrido a intenção deliberada e proposital de matar, a pena é dez vezes maior. É a mesma diferença que houve entre as reportagens citadas.

No caso do G1, foi só um “foca” (repórter inexperiente) que acreditou cegamente na sua fonte, e incluiu uma informação errada que, na verdade, não prejudica ninguém. É como falar sobre a “hélice do helicóptero”: sim, está errado, mas o pior que pode acontecer é alguém repetir o erro num ambiente mais técnico da aviação e passar vergonha por isso. Já o erro do Estado de Minas não só me parece intencional, como pode levar o leitor a decisões desastrosas. Se o sujeito lê uma propaganda assinada pela Líder falando do curso de US$100mil, ele terá muito mais condições de questionar o programa de formação do que se lesse a mesma informação apresentada numa reportagem de jornal. Que, para piorar, inclui a opinião de profissionais de mercado na matéria, como o diretor da ABRAPHE, mas não pergunta para esses especialistas se o programa da Líder é interessante. O resultado é que o leitor tem a impressão de que os profissionais de mercado endossam a parte que fala sobre o programa de formação de pilotos de plataforma da Líder – o que não é verdade.

Desde que eu comecei com este blog, eu venho criticando o que sai errado na imprensa sobre aviação – tanto é que eu criei uma categoria de posts só sobre isso: “Imprensa (barbaridades da)“. Mas esse caso do Estado de Minas superou tudo o que vi até hoje sobre erros da imprensa. Novamente, lamento profundamente essa reportagem ter sido publicada ontem pelo jornal mineiro. Tomara que não vire moda daqui para frente.

2 comments

  1. Amorim
    5 anos ago

    Excelente Post Raul. Clara a diferença entre o equívoco por falta de conhecimento técnico do assunto ou mesmo de um suporte por parte de quem detém este conhecimento, equívoco talvez não compreendido ou aceito pelo fato deste portal ter forte influência e poder econômico, podendo sim zelar pela qualidade e conteúdo de suas informações e a pior das reportagens que traz a mídia tendenciosa, um “merchan” disfarçado de matéria.

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