Reportagem sobre os incidentes aeronáuticos na aviação comercial brasileira

By: Author Raul MarinhoPosted on
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O programa “TV Folha”, veiculado pela TV Cultura, mostrou ontem o que o jornal Folha de São Paulo publicou hoje (e eu reproduzo abaixo – fonte: Aeroclipping do SNA): uma excelente reportagem sobre os incidentes aeronáuticos dos últimos três anos ocorridos na aviação comercial brasileira. Basicamente, a história é a seguinte: com uma aviação que é um décimo da americana, o Brasil apresentou o dobro dos incidentes  aeronáuticos no período 2010-2012 – ou seja: nossa taxa de incidentes corrigida é cerca de 20 vezes maior que a americana.

Isso leva a crer que o clima de segurança da aviação comercial brasileira, que desde o acidente de 2007 com o Airbus da TAM em Congonhas não apresentou mais nenhuma grande ocorrência (considerando que o acidente com o Let-410 da NOAR, em 2011, não foi de grandes proporções), é devido, em grande parte, à sorte. E, de fato, uma vez que os índices de acidentes da aviação geral tem crescido, e ambos os segmentos aeronáuticos compartilham o mesmo espaço aéreo, é mesmo surpreendente que não tenham ocorrido novos acidentes na aviação comercial brasileira no período recente.

Mas chega de tergiversar sobre o assunto, leiam a reportagem abaixo, dividida em três partes, que está muito bem feita – o que, por si só, já é um fato raro, dado a péssima qualidade do jornalismo brasileiro quando trata de assuntos relacionados á aviação.

Brasil tem 801 incidentes aéreos em três anos, o dobro dos EUA
Dados, inéditos, correspondem aos aviões de empresas de transporte regular de passageiros
Há cerca de 2.700 voos comerciais de passageiros no país por dia; para dirigentes do setor, aviação é segura
MÁRCIO NEVES
DE BRASÍLIA

Em 21 de janeiro de 2012, um voo da Avianca que acabara de decolar de Brasília rumo a João Pessoa voltou ao aeroporto sem explicação além do “por problemas técnicos” aos passageiros.

Na pista, um certo cheiro de fumaça na cabine e carros de bombeiros em torno do Fokker-100 -que a empresa chama pela designação alternativa MK-28 a fim de driblar a memória do protagonista de grave acidente em 1996 ao decolar de Congonhas.

Havia fogo a bordo, controlado pela tripulação. Ninguém soube, mas esse foi um dos incidentes aéreos que a Aeronáutica considerou graves nos últimos três anos no Brasil. Não houve feridos; a Avianca não comenta o caso.

De janeiro de 2010 a novembro de 2012, foram 801 incidentes aéreos no Brasil, dos quais 23 graves (como o da Avianca) e outros 778 de menor gravidade, segundo dados da Aeronáutica obtidos pela Folha com base na Lei de Acesso à Informação.

As informações são de ocorrências com aviões de empresas brasileiras de transporte de passageiros, como TAM, Gol, Azul e Avianca.

Isso significa três incidentes aéreo a cada quatro dias. Como comparação, há cerca de 2.700 voos diários na aviação comercial brasileira.

O número de incidentes no Brasil está em queda: eram 462 em 2010, contra 76 em 2012 (que não inclui dezembro). Trata-se de uma tendência verificada em todo o mundo -o ano de 2012 foi o mais seguro da aviação desde 1945.

Os números brasileiros são 54% maiores que as estatísticas de incidentes registradas nos EUA no mesmo período.

Só que os EUA têm mais voos comerciais por dia (cerca de 28 mil) e frota dez vezes maior que a brasileira.

Pela definição da Aeronáutica, incidente é toda ocorrência que possa afetar a segurança das operações de um avião, e “incidente grave” é quando quase ocorre um acidente potencialmente fatal.

Entre os registros prevalecem colisões com aves, quase colisões com outras aeronaves, fogo ou fumaça no avião, panes mecânicas, eletrônicas ou hidráulicas e imperícias dos pilotos. Para os passageiros, estas situações normalmente não são percebidas até o pouso, como no caso do Fokker da Avianca.

FALHA HUMANA

Segundo o tenente-coronel aviador Valter Barreto, do Cenipa, falhas humanas estão entre as maiores causas dos incidentes. Ele diz que as estatísticas não devem ser usadas como parâmetro para avaliar a segurança aérea.

Cabe ao Cenipa, que é da Aeronáutica, apurar os incidentes aéreos e fazer relatório com recomendações para evitar um episódio similar.

Segundo Ronaldo Jenkins, diretor da Abear (associação das empresas aéreas), as companhias investem em treinamento e certificação em nome da segurança. “Mas toda atividade humana é cercada de riscos, a atividade aérea também tem riscos”, diz.

Na mesma linha vai Carlos Camacho, diretor de segurança de voo do Sindicato dos Aeronautas. Ele afirma que é seguro voar no Brasil, mas que as estatísticas são vitais para planejamento.

A Anac (Agência Nacional de Aviação Civil) diz que todas as falhas registradas são analisadas e corrigidas com acompanhamento do órgão, que dá sanções se preciso.


Em 2011, jato da Azul pousou em aeroporto errado
DE BRASÍLIA

A TAM foi a companhia aérea com o maior número de incidentes, 366. Depois vêm a Azul, com 199, e a Gol, com 144.
A seguir, alguns casos dos considerados graves. As empresas não falaram.

AVIÃO EM APUROS
Em 25 de outubro de 2012, um Boeing 737-300 da Webjet chegava a Brasília quando os dois motores entraram em pane. Em seguida, a cabine se despressurizou, as máscaras de oxigênio caíram e houve perda brusca de altitude -manobra para que os passageiros respirassem sem máscara. O avião pousou normalmente.

Os motores foram consertados, mas, quatro dias depois, a caminho de Recife, o problema (com a pressão do óleo do motor) se repetiu e a queda foi abrupta: de 11,3 km para 3 km de altitude; um comissário foi jogado no teto.
Parte das máscaras de oxigênio não caiu. Havia cerca de 50 passageiros no avião, e não houve feridos.

POUSO SEM MOTORES
Em 28 de outubro de 2012, um ATR-42 da Trip voltou para o aeroporto de Ipatinga (MG) após perder os dois motores. Para piorar, um pneu furou no pouso. Havia só tripulantes a bordo; ninguém se feriu.

BALÃO PERIGOSO
Em 17 de junho de 2011 um Airbus-319 da TAM colidiu com um balão após decolar do aeroporto do Galeão, no Rio. O balão provocou o entupimento das sondas “pitots”, que medem a velocidade do ar. Sem o registro, os computadores sofreram panes e perderam leitura de velocidade e altitude, semelhantes às sofridas pelo A330 da Air France que caiu no Atlântico em 2009. O piloto teve que fazer pouso visual no aeroporto da Pampulha (MG).

AEROPORTO ERRADO
Um jato ERJ-190 da Azul em direção a Teresina aterrissou em um aeroporto particular no Maranhão, a 6 km do destino correto. O piloto fazia voo visual, sem auxílio de instrumentos.
O episódio foi em 30 de outubro de 2011. As causas do incidente ainda não foram esclarecidas.

ANÁLISE
Andar de avião no Brasil é seguro, mas convém não descuidar
RICARDO GALLO
DE SÃO PAULO

A despeito do número de incidentes aéreos, ainda é seguro voar no Brasil -assim como no mundo, de modo geral, quando se trata de transporte regular de passageiros.

Dados compilados pela Boeing apontam que, entre 2002 e 2011, a taxa no mundo foi de 0,34 acidentes fatais para um total de 174,2 milhões de decolagens.

Muitíssimo mais provável morrer em acidente de trânsito (1 em 85) do que em um desastre aéreo (1 em 5.862), atesta o NTSB, o conselho nacional de segurança dos transportes dos EUA.

Por trás da segurança está a evolução da indústria: aviões com sistemas mais redundantes (se um falhar, há outro de reserva), pilotos mais bem treinados e dispositivos de navegação mais precisos.

INVESTIGAÇÃO

Outra característica ajuda. Pela natureza das investigações de acidentes aéreos, um desastre evita que outro aconteça nas mesmas circunstâncias. É como se, a cada tragédia, voar ficasse mais seguro.

No Brasil, o risco está na aviação não regular -pequenos aviões particulares, táxis aéreos e helicópteros que cruzam o país. Os acidentes nessa categoria subiram 15% em 2012, segundo dados da Anac.

Pilotos com habilitação vencida, manutenção inadequada e fiscalização insuficiente contribuem para tal.

Apesar da situação atual, os incidentes são indícios de que convém não descuidar. Isso inclui monitoramento contínuo da Anac sobre questões que incluem saber até se os pilotos voam cansados.

Tudo porque, grosso modo, um acidente aéreo é a soma de vários incidentes.

Eis o desastre do Airbus A330 da Air France, em 2009: o piloto foi em direção a uma área de turbulência severa (fator 1), os sensores externos de altura e velocidade congelaram (2), o computador de bordo passou a dar ordens inconsistentes para o avião (3), os pilotos não souberam reagir (4) porque não haviam sido treinados para tal (5) -só para citar alguns dos fatores.

Isoladas, essas falhas dificilmente derrubariam o avião. Em sequência, causaram a morte de 228 pessoas.

NO MUNDO

2012 foi o ano mais seguro para aviação
O ano de 2012 foi o mais seguro para voar no mundo desde 1945, anunciou na semana passada a Rede de Segurança Aérea, baseada na Holanda. Foram 23 acidentes fatais, 11 dos quais com aviões de passageiros, com 475 mortos. No início da década passada, em comparação, houve 1.147 mortos em 45 acidentes.

11 comments

  1. Felipp Frassetto
    5 anos ago

    Desviando só um pouquinho do assunto do post, mas nem tanto:
    Em se tratando de aviação, diria que o fato de ela ter sido boa justa deve-se a ter sido feita pela TV Cultura. Em minha opinião, ela é exemplar na sua imparcialidade e faz jus ao seu nome.

  2. Márcio Lira
    5 anos ago

    Raul, por falar em notícias relacionadas ao ar, olha o que a Globo.com produziu hoje:
    http://g1.globo.com/rio-de-janeiro/vc-no-g1-rj/noticia/2013/02/mancha-se-desloca-no-ceu-do-rj-astronomo-descarta-meteoro.html
    Acho que já já teremos nosso meteoro, não? Rsrsrsrs
    Abraço

  3. Romário-11
    5 anos ago

    Concordo Raul! Algumas ocorrências recentes so não vitimaram vidas por SORTE! Fogo a bordo,perda de 2 motores,parafuso,pouso em aeroporto errado (com um ejet!!!)… Sinceramente não sei aonde vamos parar.
    Outra coisa:admiro o trabalho do CENIPA,mas a divulgação da investigação destas ocorrências não deveria ser mais ostensiva? Ando desconfiado q ate o trabalho do CENIPA esta sendo influenciado por interesses financeiros!

    • Raul Marinho
      5 anos ago

      Olha, R-11… As pessoas que eu conheço do CENIPA – a saber: o pessoal do SERIPA-IV – são pessoas honradas e sérias, e acho muito difícil que estejam envolvidas em qualquer esquema. Não conheço o pessoal de Brasília, mas não tenho motivos para achar que aqueles são diferentes. Até prova em contrário – isto é: aparecerem indícios ou evidencias de que tal companhia pagou tanto para esconder tal informação -, acho que não se pode afirmar uma coisa dessas.

      • Romário-11
        5 anos ago

        Tudo bem comando.não duvido do trabalho serio.mas então onde estão os relatórios da comercial?!?
        Eles tb não devem ter divulgação ostensiva?

        • Raul Marinho
          5 anos ago

          Ora, mas os relatórios de acidentes da comercial estão no mesmo lugar onde ficam os RFs da geral: no site do CENIPA… Mas este não é o ponto. Eu acho que não se pode acusar uma entidade como o CENIPA somente porque você acha que os relatórios são mal divulgados – especialmente quando se escreve com pseudônimo, como é o seu caso. Se você tem algo a dizer de concreto, identifique-se, e arque com as consequências.
          “É livre a manifestação do pensamento, sendo vedado o anonimato” – Art. 5º, inc. IV, C.F.

          • Romário-11
            5 anos ago

            So mais uma coisa: já tentou fazer curso no cenipa sem ser indicado por companhia aérea ou por,no mínimo,um coronel? Não? Ah, ta…

      • Romário-11
        5 anos ago

        Estranho comando… O povo ta q fala merda do PT aqui,já vi isso diversas vezes aqui no blog. Quando eu resolvo falar,sou tolhido dessa forma. Injusto. Mas imagino q vc tenha seus motivos. Passar bem.

        • Raul Marinho
          5 anos ago

          Falou mal de maneira anônima? Se sim, me indique onde, que eu corto o comentário, como já cortei vários.

          Coragem, R-11! Identifique-se, e fale o que vc quiser. Mas comentar anônimo, e me deixar sozinho exposto, aí não dá, né?

  4. Concordo. Na verdade, eles têm mais sorte do que juízo. A ANAC – salvo em raras e honrosas ocasiões – tem mais atrapalhado do que ajudado. O tal DECEA é uma tristeza. Meu Deus, que saudade dos antigões da DIREPV, DPV etc; um dia desses, uma anta da TWR de um aeroporto central resolveu que iria me instruir como pilotar o meu avião e eu – como não sou de levar desaforo para casa – sugeri que ele se recolhesse ao seu singelo quadradinho, em plena freqüência; se quiserem, me multem, mas falta de respeito eu não tolero, apesar de estar no país da falta de respeito. Ora, se o “torreiro” ou controlador quiser virar piloto, que se inscreva num aeroclube e apreenda a voar (não será fácil, com o salariozinho que eles percebem), mas – quando no exercício da função – é de se esperar que a anta controle o recalque. A Infraero (ou “Inferno Aéreo”, ou “infraZero”, como preferirem) eu até me abstenho de comentar, pq é difícil até achar por onde começar. A gente entra em terminais que – supostamente – recém foram “reformados”, e é mais do que evidente que aqueles banheiros, aqueles corredores, aqueles saguões não sofreram reforma alguma. Quando muito remendos, gambiarras etc., e dê-lhe sangrar dinheiro público e conta para a gente pagar, na forma de impostos noruegueses. Mas é aquilo: uma mentira repetida incansavelmente, ao longo de semanas / meses / anos, acaba parecendo ser uma verdade, então vamos que vamos…

    • Rodrigo Edson
      5 anos ago

      Prezado Fábio

      Concordo com voce em muitos dos comentários dispostos acima. Mas ainda acredito que, e quero continuar acreditando, que a maioria dessas pessoas responsaveis pela aviação (ANAC, DECEA, INFRAERO…) são comprometidas com o trabalho, que buscam melhorar etc…

      Sobre os aerodromos, faça como nós da Global/Reali. Emitimos RELPREV com avaliação de risco e sempre colocamos alguem (administrador aeroportuário etc) como responsavel pela mitigação do risco. Deixamos claro que em caso de sinistro ELE será responsavel, tanto administrativa como criminalmente. E posso garantir, rapidamente vêm as respostas.

      Enfim, não desanime, estamos juntos nessa.

      abs

      Rodrigo
      safety@voeglobal.com

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