Associativismo na aviação

By: Author Raul MarinhoPosted on
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Em referência aos comentários do Chumbrega e do Cássio neste post, gostaria de fazer minhas considerações sobre o associativismo na aviação (especialmente, as associações de pilotos), que é o objeto dos comentários dos citados leitores. Como considero que este assunto seja de grande importância para nós, achei melhor escrever sobre isso em um artigo específico do que deixá-lo na seção de comentários de um post que não trata somente deste assunto – ele é um texto sobre a criação da OAMIG-Ordem dos Aviadores de Minas Gerais, que é uma associação de pilotos em particular, mas que não trata das associações de pilotos lato sensu. Então, vamos lá.

Eu acho que o modelo de associativismo mais adequado para a aviação é o de múltiplas entidades regionais e/ou setoriais (como a própria OAMIG, uma “Associação de INVAs”, um “Clube dos Pilotos do Campo de Marte”, ou coisa assim), associadas em entidades mais amplas, como a ABRAPAC, por exemplo. Em minha opinião, a participação direta de indivíduos numa única associação de interesse geral acaba por criar o mesmo tipo de problema que transformou o SNA-Sindicato Nacional dos Aeronautas numa entidade com baixa eficiência no atendimento às demandas da classe. No final, somente aqueles indivíduos interessados em controlar politicamente a entidade é que acabarão dela participando ativamente, e o interesse coletivo acaba em segundo plano, ante o interesse individual destas pessoas. Infelizmente, é assim que a coisa funciona dentro ou fora da aviação – e é por isso que o modelo getulista de sindicatos deu no que deu: na maior parte dos casos, uma imensidão de entidades cartoriais, peleguistas, ou dominadas pelos que usam os sindicatos como meros trampolins para atingir objetivos políticos individuais mais amplos.

Mas existe um modelo de associativismo que funciona razoavelmente bem no Brasil, e eu acredito que ele possa servir de inspiração para nós, pilotos. Praticamente toda cidade que tenha fórum, agência bancária, e uma loja Pernambucanas, Riachuelo, ou similar, possui também uma Associação Comercial e Industrial. E, na maior parte dos casos, essas associações funcionam mais ou menos bem, prestando serviços para os comerciantes locais, viabilizando a decoração das ruas no Natal, e coisas do tipo. Quando a demanda extrapola as questões locais – por exemplo: a luta contra os juros ou os impostos –, são as entidades de caráter mais amplo que atuam, mas estas são compostas principalmente pelos representantes das associações comerciais. E, no fim das contas, há uma elevada participação dos comerciantes, por mais modestos que sejam, nestas associações – indivíduos que, na maioria dos casos, jamais iriam participar de entidades mais amplas, de caráter nacional.

Trazendo isto para a realidade da aviação

Um piloto que está todo dia no Campo de Marte (porque atua como instrutor no Aeroclube de São Paulo) poderia participar de um Clube de Pilotos do Campo de Marte, como uma associação de caráter local; e também de uma Associação de INVAs, como uma entidade setorial. E mesmo sem nunca ter ido a uma reunião da ABRAPAC, essa pessoa influenciaria indiretamente os rumos desta entidade de caráter nacional porque representantes do seu Clube de Pilotos e de sua Associação de INVAs estariam lá, representando seus interesses. Deu para entender onde quero chegar?

É por isso que, por meio deste blog, eu apoiei a criação da OAMIG, estimulei a criação da ABIV, e sou favorável à criação de associações de pilotos que estejam próximas das demandas específicas de pequenos grupos (de pilotos, no caso). A maioria das pessoas se sente motivada para lutar por demandas que estejam no seu entorno, mas se desestimulam quando o assunto são demandas mais amplas. Por exemplo: um Clube de Pilotos do Campo de Marte pode se sentir forte para lutar por uma torre de controle que enxergue o ponto de espera da cabeceira 12, lutando contra a associação de moradores que não quer deixar cortar as árvores que serviriam de moradia para a tal da corujinha que lá habita (essa história é verdadeira, por increça que parível!); mas este mesmo Clube não iria a Brasília lutar contra a mudança no CBA que permitiria o ingresso de pilotos estrangeiros no país. Porém, se representantes deste Clube, junto com representantes da OAMIG, da ABIV, e das demais associações de pilotos Brasil afora apoiarem a ABRAPAC, esta entidade ficaria muito mais forte para defender as demandas da categoria do que se dependesse da participação de cada piloto, individualmente. Pelo menos é assim que eu entendo a questão.

Fico no aguardo da opinião de vocês para prosseguirmos (ou não) com essa discussão…

PS: A quem se interessar pelo assunto do associativismo, eu gostaria de indicar a leitura de um artigo de minha autoria, que foi escrito em 2008 sobre um trabalho que eu desenvolvi para o finado Banco Real, que na época estimulava o associativismo empresarial: A união faz a força; ou é a força que faz a união?

8 comments

  1. Chumbrega
    5 anos ago

    Raul, ainda não havia pensado desta maneira… ser “favorável à criação de associações de pilotos que estejam próximas das demandas específicas de pequenos grupos (de pilotos, no caso). A maioria das pessoas se sente motivada para lutar por demandas que estejam no seu entorno, mas se desestimulam quando o assunto são demandas mais amplas”.

    É um ponto de vista interessante e que vale a pena ser considerado.

    Mas ainda assim não sei, viu? Não sei se a cultura de nossa profissão e de nosso povo aceitaria como legítimas as demandas de grupos tão numerosos. . . Entretanto, é claro que é válida a continuidade desta discussão!!!

  2. Para começar, a definição “aeronautas” sempre nos fez voto vencido, pq “aeronautas” abrange também os comissários. É só ver o tamanho das cabines deles e da nossa, nos aviões comerciais, que não fica difícil deduzir que eles são muito mais numerosos. Nada contra eles/elas, mas os interesses são – via de regra – diversos (quando não conflitantes). Qualquer organização que agregue pilotos para defesa dos interesses dos mesmos teria que ser – necessariamente – composta por pilotos e/ou – quando muito – os engenheiros de vôo (F/E’s), embora sejam – como todo o respeito aos colegas F/E’s – uma espécie em extinção, por razões óbvias. Dito isto, acho que está valendo qualquer forma de associação, como bem assinalou o Raul. Poder-se-iam formar associações de cunho local, municipal, regional etc. e – dentro do possível – fazer-se o “link” entre todas através de uma Federação das associações, p.ex., como existe em outros países. Assim, cada pequena “célula” luta pelos interesses locais, enquanto a Federação constitui voz ativa para representá-las todas em âmbito nacional e até internacional, como é o caso da IFALPA. Só que a IFALPA se foca em linha aérea. É preciso que se desenvolvam associações de classe congregando os (sempre desgarrados) pilotos da Aviação Geral (i.e. aviação executiva, táxi aéreo, agrícola, helicóptero offshore / executivo etc etc). Fora disso, não há esperança. Continuaremos a ser espezinhados, desrespeitados, pisoteados. Estamos indo lomba abaixo há muito tempo, e não vejo perspectivas de isso mudar, a não ser que se tomem atitudes.

    • Humberto Rodrigues
      5 anos ago

      Concordo com o Sr. Numa conversa com um amigo piloto semana passada o mesmo disse que na Europa as pessoas se reunem em torno de um interesse e depois formam uma associacao e a partir daí uma especie de “federação” que as representa como um todo. Penso que o caminho é esse, mas tem que ser atuante, não adianta fundar uma para discutir “que avião comprar”, “qual o perfil da asa”, “fazer feira” e “churasco”.

  3. André
    5 anos ago

    Concordo também com os colegas Rodolfo e Betoarcaro só que aqui em Lisarb a cultura é mais individualista e dificilmente teríamos um resultado positivo a curto prazo só que, tem de começar e aí eu pergunto: Quem levará adiante?

  4. betoarcaro
    5 anos ago

    Nos EUA, a situação das associações já é mais ou menos assim:
    As associações ligadas a Aviação, tem quase que uma herança “Maçônica”, quanto à sua organização.
    Vejamos, por exemplo, a EAA (Experimental Aviation Association) e a AOPA(Aircraft Owners and Pilots Association) que são divididas em “Chapters”(Capítulos), muitas vezes Municipais.
    Pra se ter uma idéia, a AOPA à uns anos atrás, tinha cerca de 50.000 membros, e dois ou três “Congressistas” lá em Washington.
    A EAA é a organizadora da Feira de Oshkosh, tem o programa “Young Eagles” como carro chefe para incentivar nos jovens a “Cultura Aeronautica”, e assim atraí-los para o mercado de trabalho.
    Acredito que este modelo funcionaria por aqui! Uma ou duas organizações, com focos diferentes e representantes locais regionais.

  5. Rodolfo
    5 anos ago

    Faz sentido Raul, também enxergo desta maneira.

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