“Luta de classes” na formação aeronáutica

By: Author Raul MarinhoPosted on
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O Canal Piloto publicou no último dia 16/02, sábado passado, um artigo/desabafo do leitor Rene Fonck – “Uns mais iguais que os outros” – que gostaria de comentar aqui, uma vez que ele reproduz um discurso muito popular nos aeroclubes/escolas de aviação Brasil afora. Então vamos lá.

O Rene diz, logo de saída, que tem alguns “preconceitos quanto a formação de pilotos”, e explica como ele enxerga os alunos de aviação – divididos em dois grupos:

  • De um lado (o dele), “os que têm que batalhar, trabalhar em outras áreas para conseguir angariar fundos e financiar cada suada hora de voo”;
  • E no campo oposto, “os ‘Paitrocinados’: Nunca precisaram tirar um centavo do bolso pra pagar uma horinha de voo, alias talvez nunca tiveram que trabalhar pra ganhar dinheiro”.

E com base nessa divisão, ele escreve um texto em que expõe sua indignação contra os “mauricinhos”, exalta o orgulho dos “batalhadores”, e termina com conselhos para ambos. OK. Deixe eu fazer os meus comentários agora.

Sendo conciso, o negócio é o seguinte: preconceito nunca leva a nada de bom, seja de que tipo for. Não existe “preconceito do bem”: nem do negro contra o branco, nem do pobre contra o rico, nem de qualquer outro tipo. E, como o Rene assume logo de saída que tem “alguns preconceitos”, o artigo já está errado a partir daí. Também não dá para rotular as pessoas como “mauricinhas” ou “batalhadoras”, o mundo não é assim, binário.

As pessoas não são iguais umas às outras – nem mais, nem menos (elas devem ser iguais perante a Lei, mas isso é completamente diferente) . Não só a fortuna não é distribuída de maneira equânime, como também não o é a inteligência, a beleza, a saúde, a força de vontade… E o legal da vida é justamente você conseguir vencer os jogos em que está em desvantagem! Conquistar a garota mais bonita da festa sendo bonitão e chegando de Mercedes, qualquer um faz; quero ver fazer isso sendo feio e chegando de ônibus!

Mas o que importa mesmo é não se deixar contaminar por pensamentos rancorosos, e focar no que realmente importa para a formação aeronáutica: planejamento e disciplina. Isso é o que realmente importa, o resto – as vantagens que os outros têm, a injustiça do mundo, etc – é melhor nem pensar. Isso só vai contribuir para você arrumar inimizades que, em algum momento, irão lhe prejudicar na carreira. Esqueça dessas bobagens, e vá cuidar da sua vida, que é a única coisa que realmente interessa para você.

E se me permitem um conselho final, leiam o livro “O sonho brasileiro“, do Thales Guaracy (Ed. Girafa) – que está esgotado na maior parte das livrarias, mas dá para encontrar o texto na net. Ele é o relato de um jovem pobre, que conseguiu tirar o seu brevê dirigindo um táxi na zona de Catanduva-SP, e acabou se tornando o dono da maior companhia aérea do Brasil. Vejam na biografia do Rolim se ele ficou, em algum momento, reclamando dos ricos… Muito pelo contrário! Ele ficou amigo dos ricos, e assim ele acabou construindo a TAM. Isso, sim, é história para conversar no aeroclube, não ficar reclamando e criticando a vida dos outros. Discutir a “luta de classes”, meus amigos, é algo que ficou para trás, nos escombros do muro de Berlim!

10 comments

  1. ricardo..
    2 anos ago

    desculpe discordar dos demais,mas aviação no Brasil é ,sempre foi e sempre será elitizada..Nos últimos anos mais que multiplicou o preço da hora de vôo,Sempre ouvia falar do pioneirismo da aviação sendo cético em pensar que faria parte do final do pioneirismo, quando o que mais contava era a aptidão,que tenho, vontade que sempre tive e gostar de voar por estar dentro destas maravilhas com asas elegantes e até aquela data mais atingíveis a meu bolso..pois se aprendia em paulistinhas um dos melhores e mais baratos treinadores que já fora construído em solo nacional..Com o custo da hora e a vontade de extrapolar minhas atividades de esportista a profissional fui a São Paulo buscar meu curso de mecânica..um ano e sete meses depois estava na VARIG dPorto Alegre trabalhando como mec de aeronaves ,divisão de acessórios .pressurização..fiz válvulas desde 747 jumbo.os kc de reabastecimento da FAB até o velho Electra da ponte aérea Rio-São Paulo…Mas descobri o temporal de vaidades que existe no meio até entre mecânicos..para mim que almejava a pilotagem me passava em mente as puxadas de tapete entre colegas ,como cães brigando por roer um osso..era coisa menor para mim que já voara em um blanick em osório e compreendera que somos nada perante deus e iguais perante ele em solo..mas com algo a mais entre meus irmãos mais enraizados em solo.buenas,terminou que voltei de férias e o meu tapete também havia sido puxado..o vendaval de vaidades havia me pego, e acabaei por ver que entre ler Richard Bach<Antoine de Saint-Exupéry e demais autores como Georges blonde "príncipes do céu" deveria ter lido "Maquiavel" que pesou mais do que o companheirismo que pensei que havia na aviação. .Ricardo de Moraes..

  2. Felipp Frassetto
    4 anos ago

    De início, se o o José Roberto Arcaro Filho me permite, gostaria de comentar o seu comentário: sei que ele pôs entre aspas, mas mesmo assim gostaria de dizer que racismo é racismo. Não importa de quem vem nem para quem vai.

    Sobre o texto do René, é uma coisa comum que vem se multiplicando país afora: cultura da pobreza e coitadismo.
    Vestir um pseudo-manto de virtudes como que para esconder problemas, defeitos e até mesmo recalques e mediocridade é a regra. E é em qualquer atividade, hora e lugar. Vide cotas e suas consequências.
    Atualmente moro no exterior e antes de vir, tinha começado PPA no Brasil. Infelizmente, não cheguei nem na metade da parte teórica.
    Um dos “professores”, bem intencionado, e esforçado, era do “primeiro grupo” mencionado no texto. Se alguém tinha aquele computador de vôo em metal, então era “rico”. Os outros, eram “trabalhadores”.
    E em toda bendita aula de navegação, lá vinha com as indiretinhas aos primeiros. “tá com dinheiro hein”, “tá podeeeendo hein”, “é, pois é, qdo. eu fiz (PP), também queria ter tido um desses”. E era deboche mesmo, não uma “brincadeirinha”.
    Não sou de família rica mas com meu trabalho teria tido condições de pagar meu curso sem, digamos, muitos atrasos. O que não significava que não passei nem passaria apertos. E não era o único na minha turma. Havia muitos outros na minha situação. Mas, se; segundo o critério dos “trabalhadores”, você não aparenta ser um deles, então você é um arrogante afortunado.
    E engraçado é que essas mesmas pessoas adoram ficar apontando e reclamando da falta de humildade no mundo da aviação. Todos se acham, eles não. Todos se enxergam o Top Gun, eles não. Todos são arrogantes e eles são humildes e todos querem te puxar o tapete exceto eles. Tá bom então…

    Infelizmente está assim:
    Você é pobre, trabalha um monte, não tem lazer, tem parentes na cadeia, é analfabeto funcional? Que bom! Sinta-se feliz, orgulhoso e honrado! Você tem valores, moral, retidão!!
    Você é da classe média (tão intencional e maldosamente confundida como magnata)? Tem um carro? Tem moradia própria? Celular? Fala o português corretamente (e falar corretamente não é sinônimo de ser erudito, elitista e nem de nunca cometer um erro)? Tem curso superior (numa universidade pública ainda por cima)? Então sinta-se culpado, pois você é um privilegiado que nunca se esforçou, não dá valor a nada e nunca precisou nem precisará se preocupar com nada. E óbvio que você é um mauricinho arrogante!

    Com toda a certeza, o texto não está de todo errado. Mas enfatizou muito justamente o lado mais fácil: vitimizar-se. Com tanta coisa que um candidato a piloto tem para se preocupar e principalmente estudar, é preciso realmente muito tempo e recalque pra dar a importância maior que a devida a essas coisas.

    Ah faça-me o favor!

  3. Gabriel De Marco
    4 anos ago

    Eu li esse texto no canal piloto e me segurei muito pra não responder lá. Afinal, dar papo pra um assunto assim não vale a pena.
    Concordo em numero e grau. O Rocky 5 tb poderia responder a ele (hollywoodianamente, mas serve)

    rsrs

  4. Muito boa a posição. Não há o que acrescentar. Cumprimento o Raul e todos os que comentaram.

  5. Matou à pau mesmo, Raul!
    Quem tem “Paitrocinio”: Que bom! Que o “honre”!
    Quem não tem: Que Batalhe! E que a Batalha seja também honrada!
    Só uma coisa importa, nos dois casos: Linha de Conduta.
    Em tempos de Cotas Raciais esse “Preconceito Reverso”, tem sido muito comum.
    Hoje em dia, é legal ser excluído!
    Ruím é ser uma pessoa “Próspera”!
    Puro pensamento anti-evolutivo.

  6. Gustavo Franco
    4 anos ago

    Engraçado você comentar esse artigo/desabafo, porque interrompi a leitura do mesmo exatamente após a divisão “reneniana”, na qual estaria classificado no próprio grupo dele.

    E por que parei de ler? Porque se a grama do vizinho é mais verde por ele ter dinheiro para pagar a água, para que eu tenha um jardim tão bonito quanto,só me resta trabalhar/inventar um meio que armazene toda a água da chuva.

    Felizmente o “Mauricinho” tem o dinheiro do papai.
    Felizmente eu tenho trabalho que pode me ajudar a pagar todas as horas que preciso.

    Não existe nada fácil para ninguém, o importante é ter o objetivo claro e definido. Em cima disso planeje-se, veja o caminho e o tempo necessário para você chegar aonde quer.

    • Rodrigo Edson
      4 anos ago

      ótimo ponto de vista

  7. Augusto Gentile
    4 anos ago

    Entendo o desabafo dele, pois deve ter colegas que não dão a minima pra aviação, enquanto a “turma do rala” tá cortando grama, pintando hangar e o diabo pra juntar grana… Mas sinceramente, acho que não tem nada a ver uma coisa com a outra. Se o cara é rico, ganhou as horas de voo, e acha que é tudo uma brincadeira, o problema é dele, não temos nada com isso (como eu já ví um aluno falar).
    As nossas metas são diferentes, prazos diferentes, e reclamar é uma perda de tempo enorme, pois não vai mudar nada. O negócio é focar, fazer os cursos/horas/bancas e construir uma base sólida pra entrar no mercado. Os outros, são os outros, e o que eles fazem com sua grana/tempo/objetivo é problemas deles…

  8. Matou a pau, Raul. Seu comentário é irretocável. Ninguém tem culpa nem de nascer pobre e nem de nascer rico. Cada um encarna (ou reencarna, para quem é Espírita) como tem que encarnar. E não é fácil para ninguém, ao contrário do que podem pensar alguns dos “menos favorecidos”, para usar um termo politicamente correto…tenho agora 33 anos de carreira e uma coisa eu apreendi: o Mercado te julga muito mais pela tua retrospectiva de ações (não só as ações técnicas, mas principalmente as que dizem respeito a coleguismo, moral, ética etc., já que a ausência desses atributos no caráter do profissional não são corrigíveis no simulador) do que de bravatas em rodas da “AFA”. Lá no singelo aeroclube do interior do RS (onde num dia do verão de 1979 cheguei para perguntar sobre o preço da hora do Neiva P56C, P56B1, requisitos de aquisição de licença do PP etc) lê-se ainda, nas vigas de madeira das tesouras do hangar: “O PAPAGAIO É A AVE QUE MAIS FALA, MAS NÃO É A QUE MELHOR VOA”. Bons Vôos a todos!!!

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