Das roubadas que os pilotos entram

By: Author Raul MarinhoPosted on
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Quem está acompanhando o julgamento do caso Gil Rugai – o ex-seminarista que teria matado o próprio pai (além da madrasta) depois que este descobrira que o filho o estaria roubando – deve ter notado que a defesa implicou o instrutor de voo da vítima no caso, acusando-o de estar ligado ao narcotráfico e de ter responsabilidade sobre o crime. Não conheço o tal INVA, Alberto Bazaia Neto, que atuava no Aeroclube de Itu à época (não sei se ainda atua), mas uma rápida googlada no nome mostra que não se trata de um piloto que surgiu do nada na aviação: de acordo com o site do Aeroclube de Itu (cujo vice-presidente é Alberto Bazaia Jr.), o aeródromo da cidade foi batizado com o nome de seu avô, e ele mesmo possui uma empresa de show aéreo. Isso não prova sua inocência, é evidente, mas tampouco indica um perfil de um piloto traficante/assassino, normalmente uma pessoa sem tantas raízes na aviação, e avessa à publicidade – o oposto do Bazaia Neto. Além disso, não há nenhum outro indício de que ele esteja envolvido com o narcotráfico – e mesmo que estivesse, parece-me absurda a hipótese de que um traficante se exporia a ponto de envolver-se num duplo homicídio somente porque uma pessoa fotografou o aeroporto em que ocorreriam ações do tráfico: os homicídios seriam muito mais arriscados do que as fotografias, parece-me evidente. Tudo está muito mais para enredo de filme B do que para uma explicação plausível para o crime.

Bem, mas o fato é que está em todos os jornais que o nome Alberto Bazaia Neto está relacionado com o narcotráfico, e mesmo que não haja maiores consequências para esse INVA na esfera penal, o dano já está feito. Neste caso, não havia como evitar que isso acontecesse: o Bazaia Neto não poderia adivinhar que seu aluno seria assassinado pelo seu filho, e que um advogado forjasse uma história que o comprometesse; mas isso mostra como nós, pilotos, podemos entrar em roubadas no exercício da nossa profissão. O que me lembrou de um outro caso, que trouxe consequências ainda mais sérias do que as que sofreu o (ex?)INVA de Itu.

Há um piloto no Campo de Marte, muito conhecido de todos no Aeroclube de São Paulo (cujo nome ficará em sigilo para não prejudicá-lo, muito embora a história que eu vou contar seja contada pelo próprio aos quatro ventos), que entrou numa mega-roubada alguns anos atrás. Esse piloto fez um voo para uma fazenda no interior de Pernambuco, contratado por um fazendeiro que apareceu no Campo de Marte procurando por um piloto free-lancer. Algum tempo depois, agentes da Polícia Federal apareceram na casa dele de madrugada e o levaram preso, acusado de pertencer a uma quadrilha de traficantes – e ele ficou na cadeia por semanas, até que o seu advogado conseguisse provar que ele não tinha nada a ver com a história. A diferença é que, neste caso, havia algo de estranho no ar: interior de Pernambuco, polígono da maconha, fazendeiro desconhecido… Daria para ter sido mais malicioso e recusar o voo.

E é justamente isso o que quero evidenciar neste post. Mesmo que não seja possível evitar todos os riscos, é preciso sempre estar atento no exercício da profissão de piloto para não entrar em roubadas como a citada acima. Mas, mesmo tomando todos os cuidados, às vezes ocorrem situações como a que o Bazaia Neto agora está passando, que são inevitáveis. Então, é sempre bom conhecer um bom advogado para qualquer eventualidade, pois como dizia o comercial de seguros: vai que

6 comments

  1. Willen Cmte
    5 anos ago

    Muito ser o Beto envolvido nisso na minha opinião, o Beto é um nome renomado na aviação de acrobacia, visto sua árvore genealógica, o pai e o avô excelentes pilotos. Mas se o lado humano do piloto falou mais alto, ele está correto em tentar fazer um país mais justo.

  2. Verdade. A propósito disso, um quesito que tem rendido dor de cabeça a muita gente boa é bagagem / carga, principalmente quando não acompanhada da documentação correlata. Mesmo na executiva, principalmente em vôos internacionais, é sempre importante manter a própria bagagem (do tripulante) identificada (de preferência com aquelas etiquetas grandes plastificadas que dizem “Crew”; a Flight Safety, CAE, Bombardier até personalizam e dão de cortesia para a gente, quando se vai lá fora fazer simulador), lacrada (a cadeado com segredo e/ou chave) e apartada o máximo possível da bagagem dos passageiros, mesmo que esses (ou alguns desses) sejam os proprietários. Nunca se sabe o que pode acontecer. Agora que não existe mais o formulário de bagagem da RFB, ninguém declara mais nada, a grande maioria vai pelo canal verde etc…também tem gente se fiando no fato de que – no mais das vezes – a Alfândega nem vai até o avião, quando é jato executivo, mas nem sempre tem sido assim, mais recentemente. Cabe aqui lembrar o Art. 166, § 1o. do CBA (Lei 7565/86): “O Comandante será também responsável pela guarda de valores, mercadorias, bagagens despachadas e mala postal, desde que lhe sejam asseguradas pelo proprietário ou explorador condições de verificar a quantidade e estado das mesmas.” Ora, ninguém – nem na Aviação Comercial e muito menos na executiva – seria doido de querer revistar bagagem, a menos que sob circunstância atípica e na presença de autoridade policial, guarda patrimonial etc.; então para mim é simples: bagagem é contabilizada como bagagem, em número de volumes, sejam despachados e/ou de mão. Carga tem que ter nota fiscal, manifesto, NOTOC (se for o caso) etc…e o comandante assina que recebeu aquela informação como sendo de boa fé….só nunca se eximir de fazer isso, porque aí vai na conta do aviador. Já vi gente arrumar rolo grossíssimo por chegar em certos aeroportos internacionais sem o manifesto de carga, p.ex…dependendo da “otoridade”, passa a ser visto como contrabando, e aí a confusão é grande.

  3. betoarcaro
    5 anos ago

    O caso do “Nosso Amigo” do Campo de Marte, foi bem diferente. Ele voou para “o Cara”, à serviço de negócios “Legais”!
    Exportação de Frutas, etc.
    Nunca voou com “la Merca”!
    Na época, seria difícil de recusar, por que “o Cara” era bem quisto no Aeroclube, dono de Hangar, enfim: “Same old story”!!

  4. Alexandre Sales
    5 anos ago

    Eu tenho um amigo em Marte que disse que volta e meia aparecia um senhorzinho lá procurando por pilotos só com PP para fazerem voos entre o Paraguay e Brasil transportando mercadorias não especificadas. “Suspeitei desde o princípio”

    • betoarcaro
      5 anos ago

      Esse “Senhor” deve ser “Omnipresente”!
      Está em todos os Aeroportos, botecos de Aeroclube! Sempre, ao mesmo tempo!!
      Pra mim, quem cai nessa, sabe muito bem o que está fazendo!

  5. betoarcaro
    5 anos ago

    Hmmm….”Tike Bazaia”…Nada á ver com a defesa do “Caso Rugai”, mas tocou num ponto sensível, e real! Melhor nem comentar!!

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