Sobre o press release da ACAP-Academia de Ciências Aeronáuticas Positivo

By: Author Raul MarinhoPosted on
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Meu amigo Aaron Móes pediu, via FaceBook, que eu comentasse o press release de lançamento da ACAP- Academia de Ciências Aeronáuticas Positivo, e como eu não sou de recusar favor a amigo, principalmente quando é para criticar um texto na linha do “apagão de pilotos”, é o que farei neste post. Não vou reproduzir todo o texto do press release aqui (que, a propósito, pode ser acessado pelo link acima), mas somente os trechos que entendo ser mais importantes comentar, para não deixar o post excessivamente longo. Então, vamos lá:

De acordo com a International Civil Aviation Organization (ICAO), instituição internacional legisladora dos assuntos relacionados à aviação civil, a América do Sul será palco de um crescimento anual de cerca de 8,4% do setor. O Brasil tende a seguir ou até mesmo ultrapassar essa marca, levando em consideração a ascensão da classe média e a realização de grandes eventos esportivos, como a Copa do Mundo de 2014.

Com a economia crescendo a menos de 1%a.a., como é que a aviação brasileira vai crescer a mais de 8,4%a.a.? Gostaria de entender isso… Sem contar que as empresas de aviação estão acumulando expressivos prejuízos, e o movimento agora é em sentido contrário: diminuição de oferta e aumento de lucratividade. Mas isso nem é o mais importante… Eu gostaria mesmo é de falar sobre o efeito dos eventos Copa do Mundo e Olimpíadas para a aviação brasileira.

É claro que o movimento aéreo vai aumentar no Brasil no período da Copa e das Olimpíadas. Mas qual o impacto disto para a categoria dos pilotos? Quantos profissionais serão contratados por causa desses eventos? Vamos parar para pensar: Quanto tempo dura uma Copa do Mundo? Quanto tempo dura as Olimpíadas? Pouco mais de um mês, em ambos os casos. Então, devido a um aumento na demanda que durará menos de dois meses, as empresas de táxi aéreo aumentarão a frota, as companhias aéreas contratarão vários pilotos, etc? É isso mesmo? Não parece meio sem sentido isso?

Sim, deve haver algum aumento nas contratações de pilotos devido aos eventos de 2014 e 2016, mas eu não acho que será, assim, tão significativo. É muito diferente de, por exemplo, a descoberta dos campos petrolíferos do Pré-Sal, que um dia irão repercutir, de maneira permanente, na oferta de empregos para pilotos de helicópteros. Mas Copa e Olimpíadas… E, além disso, como o curso de pilotos oferecido tem duração de 3 anos, os alunos vão se formar depois desses eventos, então não vejo muito sentido em falar neles como “argumento de venda” para alguém se matricular nos cursos que a faculdade oferece. A não ser que seja para criar um oba-oba sobre a aviação, que é o que parece ser a tônica do press release.

Esses fatores, aliados ao fato de serem necessárias, por lei, até seis tripulações para cada aeronave, demonstram a necessidade constante de profissionais da área no Brasil. “O mercado está carente de profissionais que desempenhem, com eficácia, as funções de piloto-comandante, gestão de recursos humanos, materiais e financeiros, e manutenção especializada. Essas profissões ‘estão em alta’”, afirma o coordenador dos cursos da Academia do CTP, o professor e comandante Luiz Nogueira Galetto.

Qual é a lei que exige que se contrate seis tripulações para cada aeronave? Resposta: nenhuma! O que existe é que, por conveniência das companhias aéreas, de modo a maximizar o aproveitamento das aeronaves, costuma-se alocar entre 5 e 7 tripulações por aeronave. Ou seja: cada novo eJet que a Azul adquire, que não seja para substituir alguma aeronave antiga, implica em contratar mais 7 copilotos e 7 comandantes (a Azul, especificamente, trabalha com a política de 7 tripulações por avião). Mas, novamente, essa informação não quer dizer nada, só faz oba-oba.

De qualquer modo, o que importa é que, não, o mercado NÃO “está carente de profissionais que desempenhem, com eficácia, as funções de piloto-comandante, gestão de recursos humanos, materiais e financeiros, e manutenção especializada.” Pelo contrário! Depois que a Gol demitiu centenas de profissionais, e as demais empresas pararam de contratar, estão sobrando pilotos no mercado. Tem de tudo, e em grande quantidade: recém-formados, comandantes experientes, pilotos da aviação geral e de linha aérea. Quem quiser, contrata quantos forem necessários sem a menor dificuldade hoje em dia.

Além do crescimento das grandes e consagradas empresas, o país presencia a evolução de companhias menores, compostas pela Aviação Regional e pelos táxis aéreos, além dos serviços especializados como aerofotogrametria, aviação agrícola, transporte aeromédico, entre outros.

Bem… As “grandes e consagradas empresas” – entendo que o texto está se referindo à TAM e à Gol – estão deliberadamente encolhendo atualmente, como parte de uma estratégia de diminuição de oferta para aumentar a lucratividade. E o plano de fomento à aviação regional ainda não é uma realidade – trata-se de uma promessa do governo Dilma, que ainda não se materializou (como, aliás, não se materializaram diversas outras promessas deste governo). Os táxis aéreos também encolheram, devido à crise econômica e à extinção do negócio de malotes bancários; e os serviços especializados de aerofotogrametria e transporte aeromédico são de dimensões muito reduzidas. Sobra a aviação agrícola, que realmente vem crescendo, mas… Ser piloto agrícola não é para qualquer um, e mais do que isso: este é o segmento da aviação em que uma formação superior em aviação menos tem importância.

De acordo com dados da Agência Nacional de Aviação Civil (ANAC), em abril deste ano a participação de empresas de menor porte no mercado doméstico de aviação cresceu 33%, passando dos 19% registrados em abril de 2011 para 25,3% no mesmo mês de 2012. Em maio, a demanda doméstica do transporte aéreo de passageiros cresceu 5,7% em relação a maio de 2011

Só faltou lembrar que os dados são todos sobre 2012. Em 2013, as estatísticas são bem diferentes. A aviação brasileira realmente encolheu em janeiro de 2013, comparado com 2012 – a primeira redução desde 2004 – e as perspectivas para este ano não são nada animadoras.

Concluindo

Eu acho que não há mais espaço para esse tipo de argumentação do tipo “apagão de pilotos”, como do press release da ACAP, hoje em dia. Lamento pela faculdade curitibana ter enveredado por essa linha, pois isso só vai depor contra ela. Acho louvável que um grupo empresarial de educação se interesse pela aviação, e tomara que a ACAP forme profissionais de ponta na área. Mas não será com ilusões sobre o mercado de trabalho que ela conseguirá isso: este tipo de estratégia só atrai aventureiros, e não leva a nada. Mas tenho esperança que isso só tenha sido uma atitude equivocada da assessoria de imprensa da faculdade, e que na realidade a filosofia da ACAP seja completamente diferente. Sou um otimista, por mais que pareça o contrário!

6 comments

  1. roberto de almeida scowert
    4 anos ago

    Faltou falar uma coisa: A faculdade Positivo incrivelmente oferece um curso com horas de voo inclusas em uma escola de guaratuba onde o aluno sai com PC VISUAL!!!! PC VISUAL naum serve para NADA! Ninguem arruma emprego com crise na aviacaum ou sem crise! Eh deprimente.

    • Raul Marinho
      4 anos ago

      Olha, Roberto… Lamento, mas eu discordo. A licença de PC visual pode ser interessante para o sujeito obter as habilitações IFR e MLTE depois, fora de curso homologado, de maneira muito mais conveniente; ou então para o cara partir para o INVA logo de uma vez. E, hoje em dia, tanto faz vc ter PC visual ou IFR+MLTE: vc vai ficar desempregado do mesmo jeito! Então que seja gastando o mínimo, né?

  2. Chumbrega
    5 anos ago

    Também concordo, ótima análise.

    Permita-me complementar: $ 2.000,00 por mês em um curso que está começando, em uma instituição de qualidade duvidosa, e como tecnólogo?!? É muito melhor passar em vários outros cursos da UFPR e salvar essa grana (72.000,00) pra pagar a hora de vôo. Ainda que o cara não passe na UFPR, faz PUC, paga 1.000,00 e faz um curso que dá MUITO MAIS retorno. Ainda sobra 36.000,00 pra pagar as horas.

    Acorda pessoal: ciências aeronáuticas e aviação civil só serve pra quem já tem as carteiras e não tem faculdade ou pra quem tem MUITA grana. Pra quem tá começando, o que importa é as carteiras. Estudem um ano bem estudado num pre vestibular (pré enem) e passem em um curso de verdade em uma faculdade pública.

    • Thalyson Ramos
      4 anos ago

      beleza agente faz isso se voce me disser onde esconderam a faculdade publica que oferece um curso de ciencias aeronauticas !

      • Julio Petruchio
        4 anos ago

        Acho que o Chumbrega quis dizer cursar uma faculdade que não fosse “aviação” (meia palavra para um bom entendedor já basta), pois todo mundo sabe que no “Braziu! Non ecxiste” faculdade pública de aviação. E nem espere por isso, pois nossa digníssima “Presidanta” prometeu 800 aeroportos regionais p’ra mais aos franceses e subsídio para aviação regional (leia-se Tripazul) e até agora nada! Então, se alguém quiser cursar faculdade de aviação, terá de “sair na chuva, se queimar” (saudoso Vicente Matheus), “tirar o escorpião do bolso” e pagar.

  3. Humberto Rodrigues
    5 anos ago

    Parabéns Raul. Excelente análise sobre o texto da ACAP.
    Realmente esse discurso não cola mais, se eles querem vender o Curso devem focar nos pontos fortes e diferenciais desse para outros cursos de outras instituições.
    Quanto à sua opinião a respeito da atual situação da Aviação Civil, ela não é negativista e sim realista.
    É só lembrarmos daquela velha e famosa frase sobre os ciclos de altos e baixos da aviação: “Nos tempos de bonança, é a ultima a se levantar. Nos tempos de crise a primeira a cair.”

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