A mãe de todas as “peladas”

By: Author Raul MarinhoPosted on
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Em referência à “pelada” do vídeo apresentado ontem aqui, gostaria de compartilhar a história (ou o “causo”) que o nosso amigo Beto Arcaro enviou sobre o lendário Alberto Bertelli, aviador já falecido (e não foi num acidente aeronáutico!). É uma história de uma “pelada”, sem dúvida, mas num contexto completamente diferente, de uma época pioneira da aviação. Recriminar esse tipo de comportamento seria como criticar o Juan Manuel Fangio por correr com capacete de couro… Nos anos 1950, era como se pensava a segurança na Fórmula 1; já hoje, se um piloto fizesse a mesma coisa, seria insanidade. É a mesma coisa em relação às “peladas”, na minha opinião.

Bem, mas vamos ao causo, que é delicioso:

ESTÓRIA PARA AVIADORES 

Em Cananéia, me sentia no paraíso. Que coisa linda era Cananéia, em tudo aquilo que eu tinha lido nos livros do Grupo, Pedro Álvares Cabral, Martim Afonso, Padre Anchieta e daí por diante. O difícil em Cananéia era me livrar dos casamentos que apareciam. Estas cidades litorâneas que estacionaram, tem uma inflação de mulheres, os homens dão o fora a procura de outras coisas, pois se ficarem tem só de virar pescadores. Mas os pais não deixam as mulheres saírem do lugar. Essas são as conclusões que tirei nos tempos em que andei por lá.
O Cessninha saia de Cananéia com 200 quilos de camarão e ia para São Paulo. O avião era muito pequeno. Era necessário carregar mais e devido a isso fizemos uma sociedade e compramos o WACO-Cabine Velho. Velho somente no nome, pois tinha o Cabine Nova e o Cabine Velho.
Guardei o CESSNA no hangar em Sorocaba, pois morava ainda lá. Minhas filhas estavam fazendo o colégio. Meu sucessor no Aeroclube foi ver se a gasolina pegava fogo com fósforo e pegou mesmo de verdade, queimando 10 aviões e também o Cessninha, que ainda não estava pago, nessa foi também o BUCKER.
Em Cananéia, continuava voando com o WACO. Carregava-o de peixe e transportava para São Paulo. À tarde, ia de São Paulo para Sorocaba a fim de pernoitar.
No dia seguinte carregava o WACO com pão quente que vendia lá em Cananéia.
Numa destas, decolei de Sorocaba às 7:00 horas da manhã. O tempo estava ruim. Carregado de pão e antes da decolagem, completei os tanques de gasolina . Celestino que estava no hangar me ajudando, disse-me várias vezes: “não vai véio, que o tempo está muito ruim”. Eu disse-lhe: não tem problema, vou subir no topo, uma hora de vôo e furo no mar.
Dei um tchau para Celestino, decolei. Chuva miúda, teto baixo, 200 metros, instrumento, pau e bola, relógio, bússola ruim, o altímetro pulava de cem em cem metros, a carga era pouca, o WACO subia bastante, rumo 200°. Estou subindo, agoniado para sair no topo, chuva, 2.000 metros, deveria já estar no topo, manete já está quase no fim, a chuva engrossa, o pão quente dentro do avião embaça todos os vidros, passo o lenço no para-brisa, não adianta nada. Estou subindo 3.000 metros, não tem mais manete, a mistura está um palmo para fora, neca de topo. Com os instrumentos que tenho não dá para fazer reto horizontal, a chuva afina e engrossa mais, não passa, o WACO está voando que nem pato gordo. O motor deve estar dando no máximo 40 % de potência, 4.000 metros. Saí no topo. Que alívio, saí no lugar que o topo era mais baixo do meu rumo, olhei para trás, um pretão danado, pensei: para trás nunca. Já estava com uma hora de vôo, mas não sabia a resultante da velocidade. Tinha voado o tempo todo com o nariz do avião para cima. O vento deveria ser de frente, aquele mau tempo só podia ser com vento sul. Mais alguns minutos no rumo além de uma hora, comando o ar quente, reduzi o motor. Começo a descida rumo 180° para me colocar em ângulo reto com o mar.
Entro de novo no IFR. A chuva de novo, o pão não esfriou ainda, embaça tudo outra vez. Vou descendo, mantendo o rumo de 180° a 3.000 metros de altitude, não vejo bulhufas. Vou descendo, motor reduzido, velocidade quase de cruzeiro, a coisa desce que Deus me livre, 2.000 metros, neca, não vejo nada. Vou descendo 1.000 metros, nada. Reduzo um pouco a velocidade de descida, 500 metros, nada, só chuva às vezes grossa, às vezes fina. 300 metros, nada. Ataco o motor um pouco para reduzir a velocidade de afundamento, 200 metros de altitude, não vejo nada, passo o lenço no para-brisa, não adianta nada. 100 metros, medo terrível de não estar sobre o mar.
O altímetro era superordinário e não tinha indicação da pressão, mas se tivesse não adiantava de nada, eu não tinha a informação da mesma, senti uns calafrios, a boca secou, a “medorréia” tomou conta.
Empurrei a manete toda para a frente. Os 240 cavalos responderam firmes. Lá fui eu para cima de novo, sabia que era a 4.000 metros que estava o topo. Subi em espiral para não me afastar do ponto, subi em espiral só com pau ebola, não é fácil, caprichei, cheguei em cima, estimei que estava sobre Cananéia, me pareceu que o topo acabava logo ali adiante, calculei mais ou menos Paranaguá. Cananéia a Paranaguá é 20 minutos, rumo 240°. Voados os vinte minutos, nada. O topo ia embora para o sul, estimei Paranaguá em baixo, rumo 360°, Curitiba, mais 30 minutos, cheguei no pretão que deveria estar lá pelos 7 ou 8 mil metros de altura. Estimei que estaria perto de Curitiba, 120° que achei que deveria ser Curitiba, Cananéia uns 30 minutos neste rumo, vejo um DOUGLAS DC-3 pertinho. Balanço as asas, ele respondeu balançando também. Pensei rápido esse cara vem de São Paulo. Coloquei-me na recíproca dele. Li a bússola 65° a 70°, procurei vê-lo mais vezes, estava certinho a 180° com ele, se esse cara decolou de São Paulo, o tempo não deve estar muito ruim lá. Mantive aquele rumo, eu tinha voado alternando os tanques de gasolina. Tinha decolado às 7 horas, já era mais de 10 horas, minha autonomia era de no máximo 5 horas.
Comecei a pensar em economizar, reduzi o regime, mistura o máximo para fora, 11 horas, se quando vi o DC-3 era perto de Cananéia, então devo estar por perto de São Paulo, mas estava tudo fechado, não se via nada, tentar furar era suicídio, não tinha a menor idéia por onde andava, 11:30 horas, no rumo do DC-3, um tanque tinha pifado e o outro não marcava mais nada, eu tinha dentro do avião além dos pães, um saco cheio de sacos, sacos estes que eu ia levando para Cananéia para ensacar ostras, abri os mesmos, fiz um monte do meu lado, quando o motor parar meto esse monte de sacos na minha frente e vou planar na menor velocidade possível, até bater, fogo não pega, porque não tem mais gasolina, a cara não vai quebrar muito porque os sacos iriam amortecer a pancada, mas apareceu outro problema, uma vontade louca de fazer xixi. Então pensei, se eu bater o avião com a bexiga assim cheia, ela vai estourar, o jeito é fazer xixi aqui mesmo. Comecei e não parava mais. Pensei que a gasolina iria acabar primeiro do que o xixi.
Já eram 12 horas, tinha se completado as 5 horas de vôo e cada balançada que o motor dava, era um calafrio para mim, pensava, acabou a gasolina. Na minha frente, o tempo havia modificado. Daí um poço vi um buraco e muito rápido, mas vi terra, reduzi o motor, entrei meio em parafuso passando para baixo de uma camada, mas perdi o buraco, virei apertado, o buraco apareceu novamente, pulo mais para baixo e perdi de novo, já estava em baixo de duas camadas, agora o buraco ficou grande aí vi o chão, tinha alcançado a frente. Dalí para a frente o tempo era bom, céu azul. Estou ainda alto, vejo loteamentos de terrenos, cidade grande, o motor estava reduzido, eu tinha a certeza que quando eu empurrasse a manete, ele não iria acelerar, pois já estava com 5 horas e 40 minutos de vôo, já era um milagre.
Empurro a manete e ele responde gostoso, redondinho, mas sei que aquilo não vai durar, mas já estou enxergando e há muitos lugares para botar o bicho no chão sem muito perigo e meio abobado não consigo me localizar. Na frente, lá longe, brilha um barracão de zinco. Pensei logo: é hangar. Boto o nariz bem na reta do mesmo, firmo a vista para certificar-me, e é hangar e tem pista. Estou meio longe, os minutos foram intermináveis, aproximo direto, vou reduzindo o motor, altura que alcanço a pista com segurança, arredondo, estou aterrando curto, empurro a manete mais um pouco para ir mais para a frente, o motor espirra, não funciona mais, toco o chão nos três pontos no embalo, tiro o avião da pista. Assim fui conhecer o campo da FÁBRICA NACIONAL DE MOTORES no Rio de Janeiro.

One comment

  1. Rogério Aviador
    4 anos ago

    Da aflição só de ler.

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