Sobre a “seleção natural” de pilotos na aviação brasileira

By: Author Raul MarinhoPosted on
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Na seção de comentários ao post “Por que a formação de piloto é tão diferente da que acontece nas outras profissões?”, recebi uma mensagem muito instigante do leitor André Liotti, que reproduzo abaixo, fazendo uma analogia entre as dificuldades de ingresso no mercado de trabalho de pilotos e a seleção natural darwinista. Leiam-no, e depois eu retomo o texto:

Sou piloto em uma linha aérea, nessa já se vão 7 anos na comercial. Para chegar não foi fácil, mas a aviação e auto seletiva. Se colocar todos esses mecanismos que sugere, tira o poder aviação fazer a sua seleção natural de quem tem pedigree.

Costumo dizer que só alcança o sucesso quem não desiste, sou prova disso, tudo era desfavorável em todos os momentos, formação até a procura e conseguir o primeiro emprego na aviação.

Voltei

De fato, as dificuldades impostas ao pretendente a piloto para que este se forme e se estabeleça profissionalmente na aviação são equivalentes aos agentes ambientais que moldam a evolução das espécies no mundo natural. Da mesma forma que, para adaptar-se a um clima muito frio, uma espécie de urso pode desenvolver uma pelagem mais espessa no decorrer de gerações, um piloto sem a devida característica de persistência e obstinação não “sobrevive” no difícil mercado de pilotos brasileiro. Mas será que a pressão seletiva ambiental que hoje existe na aviação é a mais adequada para formar bons pilotos?

Eu, inicialmente, concordo com o André, e também acho que algumas pressões seletivas hoje presentes na aviação são realmente positivas para a formação de bons pilotos. Por exemplo: as já citadas persistência e obstinação são essenciais, pois você só se torna piloto profissional se realmente quiser muito isso, e estiver disposto a engolir muito sapo para chegar lá. Ninguém aguenta estudar pé-de-galinha igual um doido, depois tomar esporro de instrutor porque não mentem a proa, para em seguida ter que lidar com a ANAC com suas regras caóticas, aí ter que enfrentar o complicado processo de ingresso no mercado de trabalho, etc., se não for muito a fim de se tornar piloto. Isso é bom para aviação, pois faz com que os pilotos sejam pessoas que gostam do que fazem, diferente de, por exemplo, um burocrata de repartição pública, que atende o público de má vontade que está lá não porque gosta do que faz, mas exclusivamente por causa do salário e da estabilidade financeira.

Dentre todas as profissões, talvez a de piloto seja a que conte com a maior taxa de “vibradores”, isto é: de gente que vibra com o que faz, mesmo depois de vários anos na profissão – pelo menos, em relação à pilotagem em si. Você pode encontrar muito piloto insatisfeito com o emprego, com a escala, com o salário, com o patrão, etc., mas raramente vai encontrar um que diga que odeie voar, que ache que manejar os comandos de uma aeronave seja algo desagradável – pelo contrário: é comum encontrar pilotos que, nas horas de folga, prefira… Voar! (Você não vai encontrar um contador classificando um balanço por puro esporte no final de semana). Já nas outras profissões, ao contrário, você encontra muita gente insatisfeita com o trabalho que exerce, e que só o realiza por necessidade financeira. Então, é realmente positivo que o processo de formação aeronáutica seja difícil: isto faz com que os pilotos possuam esta característica única em termos de satisfação com o desempenho de sua atividade profissional.

O problema é que muitas outras pressões seletivas hoje presentes na aviação são, ou injustas, ou nocivas para a formação de bons pilotos (ou as duas coisas juntas). E é sobre estas que eu me referi no post que o André comentou. Vejamos quais são as principais, e suas consequências nefastas para a categoria dos pilotos:

Condição financeira

O fato de a formação aeronáutica ser cara, e de não haver opção de gratuidade, bolsa, ou financiamento específico, privilegia os de melhor condição financeira, e isto é não só socialmente injusto, como deletério para a aviação. Há até alguns anos, havia subsídio estatal à formação aeronáutica, e a ANAC concedeu bolsas para PPs e PCs (somente avião) até 2011. Hoje, não há nada: nem formação gratuita, nem bolsas, nem financiamento, nem subsídio. A questão de injustiça social deste fato é óbvia, então nem vou comentar; mas as consequências disto para a aviação nem tanto, então vou me deter neste aspecto, tomando como ilustração o programa de formação de PCHs da Líder Aviação.

A empresa lançou um programa em que o integrante se forma nos EUA, e depois é encaminhado diretamente para o processo seletivo de pilotos para atuar na operação off-shore da companhia. A formação custa US$100mil “cash”, e o trabalho que o formado irá desenvolver será o de pilotar nas plataformas de petróleo em regime 15 X 15. Vamos imaginar a pessoa que tem condições de sacar US$100mil de sua conta bancária para pagar sua formação de PCH. Imaginou? OK. Agora, imagine esta pessoa trabalhando numa operação off-shore, por 15 dias ininterruptos, acordando todo dia às 4:30h da manhã, e ralando até o por-do-sol. A imagem metal está clara na sua mente? Ótimo. Agora me responda: por quanto tempo você acha que esta pessoa continuará fazendo isso? Ou: qual é a chance de esta pessoa pedir demissão no médio prazo, em sua opinião?

Pode ser que eu tenha uma visão meio estereotipada das pessoas mais abastadas e da operação off-shore, mas eu acho que um sujeito de um nível sócio-econômico mais elevado pode achar que a brincadeira de pousar um helicóptero numa plataforma de petróleo seja divertida por um certo tempo. Porém, após alguns anos, eu duvido que essa pessoa não se sinta motivada a procurar outra ocupação profissional – talvez até por pressão familiar. O que quero concluir com esse exemplo do programa da Líder – e extrapolando para a aviação como um todo – é que eu acho que a presença de pilotos de poder econômico mais elevado vai aumentar a taxa de desistência da profissão, o que não será bom para a aviação no médio/longo prazo. Novamente, faço a ressalva de que essa minha análise pode estar equivocada por uma percepção estereotipada das pessoas mais ricas, mas é nesta direção que minha experiência de vida aponta.

O fato é que há países que se preocupam com esse aspecto, e possuem um processo de formação aeronáutico mais justo em termos sociais. Na França, por exemplo, a formação de pilotos para a linha aérea ocorre numa academia estatal, em que ricos e pobres concorrem em total igualdade de condições. E mesmo nos EUA, o país mais capitalista e liberal do mundo, há inúmeros programas de bolsas e de financiamento, tanto públicos como privados, que permitem que mesmo o americano pobre consiga tornar-se piloto sem grande dificuldade. Será que França e EUA estão errados, e nós certos?

O problema do QI

Como eu não me canso de comentar e analisar aqui, uma das principais barreiras para que um piloto consiga se estabelecer profissionalmente na aviação é o QI. Sem uma boa indicação, o caminho é muito mais árduo, e não raramente é fatal para a carreira de um piloto. Então, o resultado é que a comunidade de pilotos profissionais é formada, principalmente, por pessoas que tiveram êxito na obtenção de indicações profissionais, pois quem é “ruim de QI” muito provavelmente não tenha conseguido se estabelecer profissionalmente como piloto. É diferente de um funcionário público, por exemplo, que consegue o emprego somente por ter sido aprovado num concurso público, independente de ter algum QI.

O resultado disso é que os pilotos, em princípio, são pessoas pouco inclinadas a estabelecer relacionamentos conflituosos com seus empregadores – pessoas com maior tendência ao conflito teriam menor probabilidade de serem indicadas, uma vez que isso “queimaria o filme” da pessoa que indica. Mais do que isso, pessoas “boas de QI” também teriam uma maior tendência a se relacionar em “panelinhas”, e a proteger seu grupo contra as “panelinhas” rivais. Ou seja: no fim das contas, a pressão seletiva do QI acaba por privilegiar uma categoria profissional desunida na defesa de seus interesses trabalhistas, além do famoso “pano preto”, uma característica inerente às “panelinhas”. Alguma relação com o que se vê na prática?

A cultura de segurança

Outro problema que as atuais pressões seletivas para pilotos geram é o estabelecimento de uma cultura de segurança muito fraca em nosso país. Pilotos recém-formados “covardes” (e as aspas aqui são indispensáveis) têm muito mais dificuldade para conseguir e manter um emprego que os “corajosos” (idem). Assim, é muito mais fácil se estabelecer profissionalmente o piloto com menos cultura de segurança – desde que ele não morra no processo, é claro!.

Vamos imaginar a situação de um piloto recém-formado, admitido como copila de uma aeronave da aviação executiva. No seu primeiro voo, ao fazer o planejamento para seu comandante, ele recomenda não decolar devido a informações meteorológicas desfavoráveis quanto à rota a ser percorrida. O comandante insiste que dá para ir, mas o copila, que é um “covarde”, recusa-se a embarcar. O comandante, então, pega o primeiro manicaca “corajoso” disponível e o enfia no avião para fazer as vezes de copila. O voo enfrenta vários CBs, mas milagrosamente não cai. Na volta, quais seriam as chances deste copila ser demitido?

A sorte

Fora isso, há a sorte, pura e simplesmente. A aviação, como se sabe, é uma atividade conhecida pelos seus altos e baixos. Um ótimo piloto, que até tenha algum QI, mas que se forme na época errada (por exemplo, agora) terá muito mais dificuldade de se estabelecer profissionalmente do que um piloto mediano, até sem QI algum, mas que tenha se formado na crista de uma das ondas que a aviação produz de tempos em tempos. E isso é uma característica puramente aleatória, mas que certamente não contribui para a qualidade dos profissionais da aviação. Por exemplo: há diversos casos de PCs que se formaram há alguns anos que, mesmo sem a habilitação MLTE e sem o ICAO-4+, conseguiram ingressar direto do aeroclube para a linha aérea somente por questões conjunturais de mercado.

Concluindo

Eu sou favorável à existência de pressões seletivas para que os melhores pilotos se estabeleçam na aviação – tanto é que, recentemente, defendi a adição de maiores barreiras à entrada inclusive para o sujeito se matricular num curso de PC. Mas eu acho que deve haver as pressões seletivas certas, não as que o mercado acaba por estabelecer espontaneamente. Porque, do jeito que está, nós estamos privilegiando o ingresso de pilotos ricos, desunidos, “panopretistas”, e inconsequentes quanto à segurança de voo – embora obstinados e que gostam do que fazem. E não são estes os profissionais com o perfil de que a aviação precisa.

19 comments

  1. Paloma araujo
    3 anos ago

    oi,boa tarde como a vida é injusta não conheço ninguém da áerea da aviação,terminei o curso e passei na prova da anac e a escola se quer presta uma assistencia.algum de vcs poderia me indicar,dúvidas e esclarecimentos email:paloma-araujo12@live.com

    • raulmarinho
      3 anos ago

      Passou em que prova, terminou que curso, o que vc quer? Será que a vida é injusta mesmo, ou vc que esta perdida?

  2. Bruno Martins
    4 anos ago

    Será q alguém pode me indicar para trabalhar em alguma companhia aérea ???

  3. Pedro Sumi
    4 anos ago

    Por isso mesmo curso graduação superior em ciências aeronáuticas – Piloto Comercial. E o que vejo são muitos pilotos formados tecnicamente frequentando cada vez mais as salas de aula. para obter um diploma de terceiro grau e aprimorarem cada vez mais seus conhecimentos para não ficar estagnado ao mercado.

  4. Rover
    4 anos ago

    Penso que você não conhece a aviação brasileira, o texto caricato não comporta a realidade do país que infelizmente expatriou seus pilotos há 7 anos atrás. Os que restaram, com pouquíssimas exceções, são pilotos no sentido estrito da palavra.

    • Raul Marinho
      4 anos ago

      Caricato mesmo é o juízo que vc tem sobre os pilotos que atuam na aviação brasileira, meu caro… E já que vc acha que eu não conheço a aviação brasileira, vc poderia elucidar aqui como ela funciona, então.

  5. Eduardo Ruscalleda
    5 anos ago

    Só este simples cometário… Já foi para mim uma ENORME injeção de ânimo! Muito obrigado!

  6. Vitor Castro
    5 anos ago

    Excelente Raul!

  7. Chumbrega
    5 anos ago

    Eu ate concordo q deva existir uma seleção natural para as melhores colocações. Afinal,isso tb ocorre nas outras profissões (ora,nem todo médico q conheço trabalha no Sirio ou no Einstein). Entretanto,a Aviacao tem o marcante traço do QI. A principio,eu não tenho nada contra quem foi indicado,ate porque eu só consegui chegar onde cheguei por uma miraculosa indicação.mas com base na minha experiência,o principal efeito da “cultura da peixada”, e tomar o lugar daqueles q acreditam no mérito. O currículo q eu enviei varias vezes por internet e papel foi o mesmo q eu enviei pelo QI. A diferença foi q com o QI, 15 dias após a indicação,eu já havia feito seleção e sido contratado. E claro q sou grato pela indicação,mas me frustrei em relação a ter dependido do QI para alcançar algo totalmente viável por mérito…

    • André.
      5 anos ago

      Mas aí eu te pergunto: teu currículum em uma folha de papel era capaz de falar da sua personalidade? Descrevia bem o seu modo de agir, pensar, falar? Sua foto 3×4 te fazia juz? Abraço.

      • Chumbrega
        5 anos ago

        Fala Comando! Inicio esta “discussão”, ou melhor dizendo, troca de idéias, dizendo que procuro ver o ponto de vista de todo mundo. E, respondendo à sua pergunta, digo: não, não é. Você está certo em seu comentário. Um CV diz muito pouco sobre quem você é. Se as informações nele contidas estiverem certas, vc até sabe a experiência do cara, mas não sabe quem ele é. Dito isso…

        A RECÍPROCA TAMBÉM É VERDADEIRA. Você acha que o cara, por ser filho de fulano, ou coleguinha de ciclano, é também uma pessoa de boa personalidade? é uma pessoa decente em seu modo de agir, pensar, falar? Faz juz à boa imagem de quem indicou? Eu acho que não, você concorda?

        E é exatamente por isso que existem os processos seletivos. Ora, se a seleção funciona para outras indústrias, porque não deve funcionar para a aviação? Se um cara tem um CV adequado, boa apresentação pessoal, é estudado e etc, e um recrutador viu tudo isso, porque a indicação continua a ser necessária? É isso que não entendo. Uma seleção bem feita é capaz de eliminar as maçãs podres. Haverá exceções, como em qualquer outro tipo de empresa, mas via de regra a qualidade do profissional, indicado ou não, é a mesma.

        Repito o que eu disse antes: sou agradecido a quem me indicou (sem a indicação eu não teria chegado onde cheguei, q ainda é pouco), mas não acho que sou melhor piloto que o cara que ralou igual a mim, estava do meu lado na seleção, mas que não tinha o “indicado por fulano” no CV e por isso “não caiu pra dentro”.

        Faço uma ressalva: na aviação executiva eu até concordo que a indicação tenha que ter mais peso, afinal você praticamente vai voar o tempo todo com aquele cara, ou com aquele cara e mais um no máximo. Então, a empatia deve ser total. Mas não em companhia aérea. Tenho certeza que você já leu nos preâmbulos de SOPs e de manuais que o fabricante tem diversos pressupostos para a operação segura da aeronave: peixada e coleguismo não são nenhum deles.

        Por isso eu sou muito contra a indicação ser uma condição sine-qua-non para arrumar bom emprego na aviação, sobretudo em companhia aérea. Pra mim tem que funcionar assim:
        1 – A companhia que tem vagas divulga os pre requisitos no site (carteiras, horas, inglês e seja lá o que for), e quem cumpri-los se candidata
        2 – A todos que se candidatarem com os pre requisitos cumpridos, deve ser feita uma seleção com base em provas escritas e, se bobear, de vôo
        3 – Quem passar faz entrevista com o RH
        4 – Quem passar faz entrevista com os pilotos responsaveis pelo recrutamento. Somente nessa hora a indicação deveria contar alguma coisa, e não o contrário.
        Não sou o dono da verdade, mas se na Emirates funciona assim, acho que aqui também deveria funcionar.

        • André
          5 anos ago

          Acabamos concordando em gênero, número e grau :) De fato, a ordem 1,2,3,4 é o que deveria acontecer. E, de certa forma, acontece. Apenas o fato de que, quando um processo seletivo se inicia ele também dá trabalho, despesa… para o empregador, achar logo a “pessoa certa” é algo fundamental. O QI acontece nesta hora e, volto a insistir, faço uma distinção muito grande entre QI e apadrinhamento. No primeiro, o cara bom é simplesmente pinçado no meio dos demais como quem vê ouro na bateia. Embora possam haver outras pepitas no rio, prá que garimpar se você já tem o que queria? Esta acaba sendo a lógica. Desvantagem natural: podia ter outra pepita maior ali no meio do cascalho que passou direto; pode ser também que a pepita que escolhemos se revele, no fim, um ouro-de-tolo. Tudo pode.
          Mas, no fim, acredito que se o sujeito ganha um empurrão no começo, por QI, de alguma forma fez por merecer. E só vai se manter na posição se valer a pena. Do contrário se queima logo e cai fora.
          Agora, o apadrinhamento: nesta situação, alguém deve favores ou tem interesses nos favores de alguém. Ora, um vaso de parasitas não se vinga se ter o que parasitar. Então, estas empresas ou pessoas acabam sumindo com o tempo pois aviação é um troço muito caro por si só. Não dá para manter certos “luxos” durante muito tempo.
          E aí, vem a questão: acabaria sendo também uma total perda de tempo investir em uma empresa que não te dá valor, sendo capaz de colocar o primeiro apadrinhado no seu lugar. Provávelmente é uma empresa que não tem estrutura administrativa nem financeira para se manter sózinha e acaba dependendo de artifícios etc. Sou mais ficar em casa fazendo mecânica em carro velho.
          Acho que muitos de nós são prova disto – em todos os setores, não só na aviação. Não vejo apadrinhados como maioria em nada.
          Agora, há também processos seletivos burros nos quais se você sabe demais também é perigoso pois pode estar vindo aqui apenas para aprender um detalhezinho que te falta para ser meu concorrente amanhã… Como eu disse, no fim, é um casamento. Com direito a brigas, muchochos e pazes.
          Mas, no fim, todo processo seletivo é, por definição, falho. A gente é que pensa que não deveria ser. Um abraço e obrigado pelo bate-papo.

  8. André
    5 anos ago

    Rapaz, desta vez você se superou: se eu fosse rico era capaz até de me dignar a mandar uma das muitas dúzias de advogados do papai te processar por preconceito. O estereótipo foi lindo: rico, filho de papai, se forma piloto sem estudar ou aprender simplesmente porque sobra dinheiro para horas de vôo. Vai trabalhar offshore e, simplesmente, se enfada (talvez porque descobre que não dá pra pescar de currico durante o vôo). Cara, isso foi muito engraçado… Ainda bem que você fez ressalva de uma visão estereotipada :)
    Concordo que o QI pode mesmo inclinar uma pessoa a ser “vaca de presépio” de outras mas, por outro lado, QI significa empatia. Um sócio, ou mesmo um funcionário é uma espécie de casamento que dá certo ou não. Então, se queremos casar, não o fazemos com o(a) primeiro(a) que aparece; tem que funcionar junto. Daí o QI. Eu não vou te indicar um sujeito que eu sei que não se parece contigo em atitude, nem vou te indicar a ninguém que não precise de um sujeito com tuas características. Quem Indica tem a obrigação de saber a quem indicar.
    Acho que se tem feito uma leitura mais “política”, que soa mais como sinônima de apadrinhamento burro, puro e simples.
    Quanto ao exemplo do comandante Kamikaze aí eu te pergunto: sendo a regra ser kamikaze, só haverão kamikazes. Sendo a regra fazer direito, funciona direito. Ora, se tenho um comandante kamikaze e eu não estou a fim de voar mitshubishi zero, quem te disse que vou fazer tanta força para voar ao lado dele. Melhor ser eu mesmo e buscar outro comandante, mais alinhado comigo e que deve estar ansioso por achar um cara mais centrado que o bando de zé doidinhos (talvez até o cara do vídeo do piloto automático) que tem aparecido na beira dele.
    Quanto a dificultar o acesso a PC, soa na contramão de tudo o que veio antes de certa forma pois é mais uma dificuldade. Quase como se quem tá dentro buscasse emperrar a porta para quem esta fora ter de se espremer para entrar; uma válvula reguladora do fluxo…
    De fato, o que se vê nos diversos comentários, em última análise pode ser apenas a necessidade de uma fiscalização maior e de uma atitude mais séria das associações representativas. Você mesmo já fez aqui algumas críticas a estas (e a falta destas) e, recentemente, houve o relato escabroso após o incidente da Fretax.
    No mais, tenho a certeza de que você está no caminho certo fomentando a discussão em ângulos diversos, criando o terreno para que outros se manifestem e plantando talvez a semente que nos leve a um “Esprit de Corps” (nossa, como sou velho) e, mais ainda, vai encarar de bom humor este pitaco. Abraço.

    • Will Batera
      5 anos ago

      Parabéns André !!!!

  9. Enderson Rafael
    5 anos ago

    A passagem “Outro problema que as atuais pressões seletivas para pilotos geram é o estabelecimento de uma cultura de segurança muito fraca em nosso país. Pilotos recém-formados “covardes” (e as aspas aqui são indispensáveis) têm muito mais dificuldade para conseguir e manter um emprego que os “corajosos” (idem). Assim, é muito mais fácil se estabelecer profissionalmente o piloto com menos cultura de segurança – desde que ele não morra no processo, é claro!” é luminosa! Toca tb num ponto chave da segurança de voo: quando economizar passa a ficar mais caro que gastar prum operador? Essa é uma das grandes fronteiras da segurança de voo, e está diretamente relacionada ao comportamento da tripulação e à grande vilã da segurança em fatores humanos: a fadiga. Muito boa – ainda que triste – análise! Grande abraço!

  10. Gustavo
    5 anos ago

    Raul, é bem isso mesmo, tem que ter QI mesmo, se não fica quase impossível. Fora isso, o que mais me irrita é o maldito Pano Preto. Meus “amigos” da aviação já usaram desse artifício comigo,imagina os que eu nem conheço por aí. Eu tentei ser legal, solícito, sem ser puxa saco, mas agora eu cansei. Os caras que estão no comando das aeronaves, 99% não querem ajudar e querem que o recém formado se f…e essa que é a verdade, salvo raros comandantes (Comandantes de verdade). Resolví mudar a estratégia, e vou devagar e sempre. Já chequei as carteiras todas e vou focar no ICAO, pra quem sabe entrar numa Linha Aérea com menos dificuldade que uma executiva. Ao invés de ficar o dia todo no aeroporto esperando migalhas, vou ficar em casa afiando o machado!!!

  11. André Pavin
    5 anos ago

    Ótimo texto Raul, parabéns. Gostaria de dar uma ênfase a parte em que fala sobre o QI. Cada dia percebo mais que para se conseguir uma chance na linha aérea e executiva é preciso ter o famoso QI, por sorte tenho bons amigos na aviação que ajudei e me ajudam mas esse não é o caso de todos. Está cada vez mais difícil participar de uma seleção no caso de recém formados simplesmente entregando seu CV ao Dpto. de RH. Mas como sempre digo, essa doença chamada aviação é para quem gosta, sempre tivemos altos e baixos, muitas coisas mudaram e continuarão mudando (não no ritmo que gostaríamos), o jeito é seguirmos fortes e chegará a hora de cada um.

  12. Luciano Cavalcante
    5 anos ago

    Grande Raul… Falou e disse tudo…

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