“Quem são os profissionais que ocuparão os assentos 1P e 2P na aviação brasileira?”

By: Author Raul MarinhoPosted on
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Se você acha que o que eu escrevo aqui é pessimista e depressivo em relação ao mercado de trabalho para a aviação, então não leia o texto abaixo, do Ruy Flemming, que está circulando na facebookosfera. Mas se sua intenção é inteira-se da realidade dos pilotos recém-formados, não deixe de ler esse artigo, rico em números sobre a farsa do “apagão de pilotos“.

Quem são os profissionais que ocuparão os assentos 1P e 2P na aviação brasileira?

Boatos correm de um lado para o outro na mesma velocidade em que a pista 17 se alterna com a 35 para pousos e decolagens em Congonhas.

Há cerca de três anos faltariam pilotos no mercado e a solução seria “importar” estrangeiros sob pena de travarmos a aviação por aqui. O boato foi lançado em momento propício, já que os problemas com a aviação estavam vendendo jornais e garantindo pontos com IBOPE nas telinhas. Os problemas foram solucionados ou foi garantida a esperança de que receberíamos a infra-estrutura adequada. Controladores voltaram a controlar voos, as pistas receberam grooving e promessas foram jogadas ao vento. Nada mais antigo que o jornal de ontem. Assim, ou o assunto mudaria completamente e as atenções seriam voltadas para a transposição do rio São Francisco e o amontoamento de navios na Baía de Santos, ou teríamos que procurar algum aspecto interessante dentro do interminável tema que envolve a aviação.

A solução foi dizer que faltariam pilotos e começou o corre-corre das redações atrás de espaço a ser preenchido nos noticiários da TV e nos jornais que circularão no dia seguinte. Você certamente assistiu ou leu alguma notícia de que as pessoas poderiam sonhar tão alto quanto os níveis de cruzeiro dos jatos comerciais que teriam a garantia de um bom emprego.

O fato é que se formaram filas em escolas e aeroclubes. E as pessoas foram buscar seu lugar ao Sol sem se preocupar em observar o que realmente estava acontecendo.

O que fazer agora com os 1.670 pilotos comerciais de aviões que receberam suas licenças em 2012?

Antes mesmo da WebJet colocar os calços em toda sua frota de Boeing, os números já se mostravam incompatíveis.

Onde colocar os 1.200 pilotos comerciais de avião que se formaram em 2011?

Certamente, muitos dos 792 novos pilotos comerciais de aviões que passaram a disputar um assento de 2P em 2010 já penduraram suas licenças num quadro na parede.

Antes dos boatos, o Brasil formava entre 580 e 680 pilotos comerciais de avião. Os resultados dos primeiros meses de 2013 apontam para que o recorde de 1.670 licenças de piloto comercial de avião expedidas no ano passado seja superado. A aviação regular, que é o principal objetivo da maioria dos novos pilotos, teve um crescimento de exatos 13 aeronaves entre 2011 e 2012, saltando de 666 para 679. 2010 fechou com 621 e no ano anterior, 571. A taxa de crescimento dos últimos anos dificilmente chegava às 50 aeronaves anuais.

Claro que a média na aviação regular é de cinco tripulações por aeronave (uma tripulação é um piloto e um copiloto), mas ainda assim, não é possível encontrar cabines de pilotagem para toda essa demanda de formandos.

O crescimento da aviação não-regular (táxi aéreos) tem sido desprezível para aviões e ligeiramente mais acentuado para o caso de helicópteros.

Os números da aviação privada são mais consistentes, mas ainda assim estão longe de absorver todos os pilotos que estão sendo lançados ao mercado, porque, embora haja o registro de uma média recorde de cerca de 400 aeronaves ao ano nos últimos cinco anos, muitas delas referem-se a helicópteros ou são de particulares que pilotam seu próprio avião e não evoluem além da licença de Piloto Privado de Avião, que também experimentou recorde histórico com a emissão de 3.161 licenças somente em 2012.

Os jornais falam em prejuízos das grandes empresas aéreas que ultrapassam bastante a soma do bilhão. Quando o prejuízo chega a esse nível, saber se trata-se de dólares ou reais, parece ser um mero detalhe. A Gol, porém, dobrou o prejuízo registrado anteriormente e atingiu R$1,5 bi (http://economia.uol.com.br/noticias/redacao/2013/03/26/prejuizo-da-gol-dobra-em-2012-e-chega-a-r-151-bilhao.htm). No segundo semestre de 2012, a TAM estava quase no primeiro bi no vermelho (http://economia.estadao.com.br/noticias/economia,tam-deve-demitir-tripulantes-depois-de-fevereiro,133163,0.htm). Já se ouve novamente um zum zum zum no sentido de reduzir ligeiramente a frota e readequar quadros (http://exame.abril.com.br/negocios/noticias/gol-tem-prejuizo-no-4o-tri-e-reduzira-capacidade-domestica).

Uma bolha perigosa parece que está prestes a explodir. Quando acontecer, vai lançar sonhos para os ares e pulverizar investimentos. Como acontece regularmente na senóide da aviação, quem estiver mais bem preparado terá mais chances de sobreviver.
O que mudou tanto em tão pouco tempo?
Quem vai assumir os assentos do 1P e 2P da aviação brasileira?

Ruy Flemming

9 comments

  1. Thiago Henrique
    5 anos ago

    Raul, tenho uma dúvida, se as companhias têm mesmo esse prejuízo todo, porque não faliram ainda ? Tenho um amigo co-piloto um uma das companhias mencionadas acima. Há dois meses atrás, ele estava com medo, pois a mesma havia noticiado que devolveria seus 767, e no mês seguinte o colocariam em férias. Entretanto, agora que ele está voltando das férias, a notícia é que foram adquiridos 13 (se nao estou enganado) novos 767. Então, esse prejuízo divulgado é mesmo real, ou só história para boi dormir ? Não é apenas uma forma de, falando a grosso modo, pagar menos impostos ou coisa do tipo ?

    • Raul Marinho
      5 anos ago

      Há vários interesses envolvidos. As empresas aéreas são fortes geradoras de caixa, mesmo sendo pouco lucrativas ou dando prejuízo. Pode haver interesse em outras atividades que elas geram – por exemplo: os serviços de milhagem, como a Multiplus e o Smiles. Pode ser por confiança em dias melhores… O fato é que, quando a maré está a favor, não existe nada tão lucrativo quanto uma companhia aérea. E, convenhamos, quando uma companhia aérea vai á falência, o prejuízo fica com a sociedade (empregados e governo, principalmente), não com os acionistas…

      • Thiago Henrique
        5 anos ago

        Mas vc acreditaria que poderia ser um puro e simples “migué” ?

  2. Felipp Frassetto
    5 anos ago

    O próprio Ruy escreveu (em 2010 ou 2011) numa coluna sua em uma revista, demonstrando surpresa, que soube de um indivíduo casado e com filhos, que venderia a casa pra pagar a formação de PC!

  3. Menezes
    5 anos ago

    Fico muito preocupado com tudo isso. De uma coisa eu sei, do jeito que tá pode piorar mais ainda. Não é ser pessimista não pessoal (temos que ter cuidado com o que postamos nesse site né Raul hehe..), mas espero que esse CB passe logo.
    Aos “futuros aviadores” que foram influenciados pela mídia, acho que já é hora de acordar do sonho de grandes salários e vida fácil.
    Alias, alguém lucrou com esse sensacionalismo todo? A resposta é sim, aeroclubes até hoje usam esse propaganda enganosa.
    Parabéns pelo post Raul, sempre mostrando a realidade para quem quer ver. E quem não quer saber de nada disso pode assistir a novela das 18hs do plimplim. Só não use a FAB como aeroclube pelo amor de Deus rsrs…

  4. Gustavo
    5 anos ago

    Raul, lembro que 2 anos atrás meu primo saiu de um (PA-34) para ir pra GOL. Esse avião que ele pilotava ficou 8 meses sem piloto, pois realmente estavam todos indo pra linha aérea, e não tinha piloto pra assumir esse avião. Lembro também que antes o cara que tivesse PC MLTE IFR já entrava em qualquer táxi aéreo sem muita dificuldade, especialmente no norte do país. Mas como dito aí em cima, a mídia estragou a aviação, e hoje a situação está crítica e a verdade tem que ser dita, sim. Tenho medo de onde tudo isso vai chegar. Do jeito que está, logo logo irão exigir ICAO pra ficar voando em volta da biruta (Inva).

  5. Roberto Magalhães
    5 anos ago

    E em relação aos recém formados pilotos de Helicópteros que seguem os mesmo calvário que os de asas fixas? Eu queria muito ter uma orientação atualizada sobre esta situação, pois dentro dos aeroclubes a história é uma e dentro das cias de taxi aéro é outra completamente diferente.. estamos duros, lesos, lisos e órfãos…..

    • Raul Marinho
      5 anos ago

      Na verdade, é pior, por 2 motivos:
      1)Menos vagas de copila; e
      2)Mais restrições (das seguradoras, principalmente) aos que tem menos de 500h.

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