Sobre o pano preto – Ou: “On the black fabric”, para ficar mais chique!

By: Author Raul MarinhoPosted on
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Algumas considerações sobre o pano preto, uma prática que é tão antiga quanto a própria aviação – afinal, a polêmica Irmãos Wright-Santos Dumont só existe porque os americanos fizeram pano preto do seu voo de 1903 com o Flyer, e quando o Santos Dumont realizou seu voo de 1906 com o 14-Bis, ele ainda não era público:

1)      A origem do termo

Para começar, leia aqui a (suposta) origem do termo “pano preto”, que viria da época em que a tecnologia IFR chegou ao Brasil – mas não há certeza quanto a isso porque… Há muito pano preto sobre o assunto! Mas, de qualquer maneira, é interessante conhecer essa história (mesmo que não seja o que realmente aconteceu) porque ela nos remete ao próximo item.

2)      A arma da mediocridade

Se o pano preto era usado décadas atrás por comandantes medíocres, que temiam ser sobrepujados por seus copilotos, hoje em dia a história não é diferente. O pano preto é a principal arma dos medíocres, para tentar nivelar tudo por baixo, e assim não serem engolidos pelos mais competentes. Para ilustrar, reproduzo abaixo o relato publicado pelo leitor Eduardo Ruscalleda nos comentários do post “A lógica do pano preto“:

Realmente o pano preto se apresenta de diversas maneiras…

Estava com 70 horas de vôo, confiante e curtindo cada hora da minha instrução…

Quando me deparei com um instrutor que me destratou durante boa parte do vôo. Assumia o comando da aeronave do nada na final alegando que a aeronave estava voando sozinho (- Olha ai! Não tem piloto! Você está deixando o avião voar como ele quer!).

Por fim… Me convenceu que eu não sabia voar! Cheguei a questionar se ele estava certo.

Um amigo, “instrutor de verdade”, estava presente no dia da fatídica instrução e sabia dos problemas que o tal pano preto estava gerando no Aeroclube. Depois de algum dia fiz um vôo com o “instrutor de verdade”, onde graças a sua capacidade e vocação, pude ter a certeza de que tenho domínio da aeronave (pelo menos do Paulistinha!rs).

O que ocorre é que o tal instrutor pano preto além de estar cansado da função de instrutor, (como todos acreditam) provavelmente está tentando limitar a concorrência. (Descobri que vários alunos já apresentaram reclamações formais contra este senhor!)

Um detalhe importante: O tal instrutor pano preto, o mesmo que disse que eu não tinha domínio da aeronave, dormiu por mais de 1 hora durante a minha navegação de Minas Gerais até São Paulo! Se não confiasse realmente, não teria dormido!

3)      O Para Ser Piloto só existe por causa do pano preto!

Este blog provavelmente não existiria se a aviação fosse mais transparente. O que me motivou a fundar o Para Ser Piloto dois anos atrás foi o fato de que os aeroclubes e escolas de aviação fizeram o maior pano preto comigo, quanto à possibilidade de checar o PCA com 140h de voo – o que eu acabei fazendo por minha conta mesmo, e deu certo. Aí eu resolvi divulgar essa informação, um monte de gente se interessou, eu comecei a falar sobre outras coisas que também estavam obscuras, e o resultado disso é que hoje em dia o blog tem quase 100mil visitas/mês. Então, de certa forma, eu tenho que ser grato ao panopretismo das instituições de ensino aeronáutico brasileiras!

4)      Aeroclube: a casa do pano preto

Achei muito bem bolada a charge que o Canal Piloto publicou hoje sobre o pano preto (vide reprodução abaixo), em que se faz uma brincadeira com o filme “O clube da luta” para chegar ao jogo de palavras “Fight Club”/”Flight Club”.  Bem… De “Flight Club” para “Aero Club” e “aeroclube”, é um pulo, né? E é justamente neles, nos aeroclubes, onde ficam as casas do pano preto nacional. E num certo aeroclube de uma certa grande cidade da região Sudeste, então… É onde fica a sede social do panopretismo! (Vocês me desculpem, mas vou ter que fazer um certo pano preto sobre qual aeroclube estou me referindo porque o pessoal de lá já está bravo comigo, e se eu cito o nome, eles me processam!).

Pano Preto + Clube da Luta: “Flight Club”

Pano Preto 640 Canal Piloto Pano Preto + Clube da Luta: Flight Club

7 comments

  1. Beto Arcaro
    5 anos ago

    Uma coisa que me chamou a atenção no comentário do CP: “estava eu com minhas 70 Horas curtindo minha instrução”….
    Quando é que alguém vai entender, que não existe “Instrução pra PC”? Horas pra “PC” são horas de experiência “PIC”!
    “Pano Preto” das Escolas e Aeroclubes ?

    • Raul Marinho
      5 anos ago

      Mais ou menos, Betão… No Manual do Curso de PC da ANAC, essas horas estão regulamentadas, sim. É uma josta de manual, mal escrito e obsoleto, mas prevê que se faça essas horas sob uma determinada metodologia. Agora, para tirar o PC voando as 200h em aeronave particular, vc está 100% certo.

      • Beto Arcaro
        5 anos ago

        Então !?
        Pode ser Instrução, e pode ser “não instrução”!
        Ou será que a ANAC acha que só estas 50 Hs de diferença, “equalizam” a formação de dois PC’s com experiências diferentes?
        Um voa 110 Hs de instrução, com um cara que tem 100 Hs de vôo à mais do que ele.
        Outro voa 160 Hs como PIC.
        Quem é melhor “Formado”?
        Se fossem 110 Hs como PIC, bem “Supervisionado”, Solo, com critério,
        já estaria bom demais!
        “Pano Preto” por causa de 50 Hs de vôo?
        Mais uma vez, “Touché”, Dna. ANAC !

  2. Beto Arcaro
    5 anos ago

    Raul,
    Antes que você diga que eu tô fazendo “pano preto”, vou dar as fontes de onde tirei todas estas histórias.
    Primeiro, de um livro o qual considero genial, chamado “Asas da Loucura”.
    Escrito por um Americano, Paul Hoffman!
    Ele pesquisou sobre o que há de realidade”Histórica” sobre Santos Dumont e sobre a “mitificação” dele aquí no Brasil. O engraçado, é que como Americano, ele comprova e aceita que “Le Petit Santos” foi o primeiro a voar um Avião “As We Know It”.
    Olha o Link:

    http://www.livrariasaraiva.com.br/produto/2881904/asas-da-loucura-a-extraordinaria-vida-de-santos-dumont

    Outro livro também, bastante interessante é “Aeronaves Não Convencionais” do Peter M. Bowers, Ex engenheiro da Boeing.
    Esse já é antigo, mas é muito bom! Muitas informações sobre Langley e seu “Aerodrome”, e a briga dos Wright com o Glenn Curtiss.
    Só achei no Mercado Livre:

    http://lista.mercadolivre.com.br/aeronaves-n%C3%A3o-convencionais—avi%C3%B3es—peter-m.-bowers

  3. Beto Arcaro
    5 anos ago

    Outro dia estávamos conversando sobre esses “Pitís” repentinos na instrução…
    A gente passa por isso a vida inteira!
    O Pano Preto torna a instrução meio que “Bipolar”, né?
    Torna tudo meio “Bipolar”.
    Uma hora é, outra hora não é!
    Tudo que é certo, se repetido pelo Aluno com proficiência, passa à estar errado.
    Tanto no “Vôo”, quanto na “Vida”!
    Lá nos EUA, “Believe it or not”, eles chamam de “Black Veil”.(Não tô inventando, não!)
    Quem já leu bastante sobre o assunto sabe:
    Santos Dumont era, em Paris, no início do século XX, “O Rei do Pano Preto”!
    Copiava tudo de um grande amigo, Samuel Pierpoint Langley, Americano, Diretor do Smithsonian Institute. Como não fazia “Black Veil” de nada, o grande Cientista passava todas as intrincadas informações sobre o vôo (Foi seu Professor!) para o então “Rico e Francês” Alberto (Muuuuito rico!).
    Esse então, executava com maestria os preceitos de mestre Langley, e levava os “Louros” dos acertos.
    Levava fama de “Herói” também, quando as coisas não davam muito certo.
    Os coitados dos irmãos Wright, estavam atrás de dinheiro com a patente do “Flyer”.
    Só tinha um porém:
    Não tinham um bom produto! O “Flyer” não voava!(Ou no máximo, voava muito mal)
    Aí fizeram um “Pano Preto Reverso”!
    Esconderam o “Avião que não voava”!
    Se o Flyer tivesse dado certo em 1903, os Wright teriam alardeado a notícia pelo mundo, teriam patenteado, e teriam ganho milhões!
    Aí, entrou um outro “Panopretense” na parada!
    Um tal de Glenn Curtiss.
    Glenn chegou de mansinho, olhou, modificou a asa, deu palpites, e incrementou uma coisa: “O MOTOR”!
    Acontece que a “Trapizonga” dos Wright só voava (e voava bem!) se utilizasse os motores fabricados pelo Sr. Curtiss.
    “Muy amigo” o Curtiss cedeu seus motores para os Irmãos Wright excursionarem pelo País demonstrando sua invenção.
    Aí ficou bonito!
    Glenn Curtiss tascou-lhes um processo requerendo a Patente do Flyer!.
    Ganhou, e o máximo que os Irmãos Wright conseguiram foi uma pequena participação na empresa
    “Curtiss/Wright Aircraft Co.”.
    Depois a Empresa se dividiu em “Glenn Curtiss Aircraft Co.” e de forma até irônica, em “Wright Aircraft Engines”.
    Mas, de Wright, só ficou o nome!
    Tudo isso pra falar do “Pano Preto”, não?
    Pois é! Chego à conclusão que o Pano Preto existe em qualquer área, mas na Aviação, ele chega à ser até “Cultuado”.
    Fica a pergunta: Quem nasceu primeiro?

    • Pegando a parte da instrução no seu comentário (“Tudo que é certo, se repetido pelo Aluno com proficiência, passa à estar errado.”)

      É o conhecido problema da auto-afirmação por parte do instrutor. O tempo todo tomando atitudes que visam ressaltar sua “autoridade”, “habilidade” e personalidade na cabine.

      O engraçado é que agindo assim, a pessoa assina sem perceber seu diploma de incompetente. Afinal, o que um bom instrutor teria a temer? Temer que aluno com menos de 100hs de voo vá tomar a vaga dele??? No fundo no fundo, no seu inconsciente, o cara sabe das suas reais limitações e então entra nessa de ficar se auto-afirmando pro coitado do aluno. Principalmente quando o aluno aprende rápido e é mais jovem que ele..

      Tudo isso poderia ser resolvido com um pouco de humildade. Mas, tem gente que prefere, como disse o Raul, rebaixar aquele que por ventura tem mais facilidade/dom do que ele e medir o mundo com a sua régua, ao invés de refletir, reconhecer que não está no nível que gostaria, e buscar evoluir.

  4. Aaron Móes
    5 anos ago

    “Os aeroclubes e escolas de aviação fizeram o maior pano preto comigo, quanto à possibilidade de checar o PCA com 140h de voo – o que eu acabei fazendo por minha conta mesmo, e deu certo”
    Exatamente como fizeram comigo, e deu certo!

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