O conflito de interesses do checador próprio de um aeroclube/escola de aviação

By: Author Raul MarinhoPosted on
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O leitor Claudio Soriano Fadel me enviou uma mensagem sugerindo uma discussão que, entendo, ser bastante interessante para os propósitos deste blog:

(…) Será que as escolas que possuem checadores próprios não estariam, de alguma forma, deixando passar pilotos que não estão aptos ao mercado de trabalho? Não deveria ser a parte de cheques executada sem que as escolas pudessem influir no resultado? Acho que isso é o correto, já que, pelo jeito, tem muita escola passando por passar, pelo volume, e não pela qualidade.

Qual é sua opinião sobre isso?

Minha opinião é de que é possível, sim, que haja alunos sendo aprovados sem condições mínimas de pilotar uma aeronave, somente pelo interesse do empregador do checador – o aeroclube ou a escola de aviação. Em tese, a responsabilidade pela aprovação é pessoal do checador, e ele teria que reprovar o aluno mesmo que isso contrariasse os interesses de seu empregador. Mas, também em tese, o comandante de uma aeronave particular seria o responsável técnico pelo voo, e sabemos que muitos decolam sem condições de segurança porque pressionados pelo patrão, né?  Então, não ficaria surpreso se os checadores das escolas estivessem liberando os pilotos somente porque os diretores dos aeroclubes/escolas assim desejassem.

Por outro lado, eu acho que seria inviável que somente os checadores da ANAC tivessem a autoridade para checar pilotos. Em minha opinião, o que deveria haver é uma maior fiscalização dos cheques, com a rechecagem aleatória de uma parcela dos alunos checados nos aeroclubes/escolas, para controle de qualidade. E uma efetiva responsabilização dos checadores, com punições exemplares para quem for pego descumprindo suas obrigações. Além disso, acredito que, pelo menos para os INVA/Hs, seria melhor que somente os checadores da ANAC realizassem o cheque inicial.

E quanto a vocês, qual a opinião sobre isso?

14 comments

  1. Thiago thomaz de souza
    4 anos ago

    Quem me checou pph foi o dono da escola. Exigente ao extremo, frequentemente reprovava alunos pph e pch. Chequei com 43 horas, mas não foi nada fácil. Era comum ver alunos serem reprovados tanto pph quanto pch. Alguns até desistiam, depois da segunda reprovação e acabavam buscando outra escola para finalizar o curso…Cobra muito (teoria e prática) durante o curso e principalmente no vôo de cheque. Pode até ser uma exceção se tratando de instrução (não sei), mas compartilho aqui a minha experiência.

    • Raul Marinho
      4 anos ago

      Fico feliz em saber que ainda tem gente assim na aviação!

      • Thiago thomaz de souza
        4 anos ago

        Pois é, pra quem ta começando, aconselho procurar saber antes sobre a idoneidade da pessoa e sua história na aviação. Minha experiência foi na Helimaxy em Campinas – SP. Quem me indicou a escola na época foi o cmt Cleber Mansur, que pude conhecer depois de ler um livro indicado por você no seu antigo site. O nome do checador e dono da escola é Eden Gama…Aconselho pra quem quer ter uma instrução séria e de qualidade.

  2. alvarohoro
    4 anos ago

    Minha primeira vez que comento aqui no site. Recentemente chequei meu PPH em escola e vou te dizer que foi difícil. Um briefing de 1 hora, com planejamento de navegação analisado trecho por trecho, consulta meteorológica com leitura de TAF e muitas perguntas sobre regulamento, CT e sobre a máquina. Na inspeção externa tive que explicar detalhadamente cada passo que era feito e o porquê de fazê-lo. Durante o voo manobras cobradas com precisão e de acordo com cada uma me era questionado algumas perguntas sobre a teoria de tal manobra. No debriefing uma crítica sensata sobre o voo e alguns pontos que mesmo satisfatórios podem ser aprimorados. Sou instrutor de voo de avião e de todos os checks esse foi, sem sobra de dúvidas o mais cobrado. Achei bom, porém um pouco assustado pelo ponto fora da curva que foi esse check, e sim o checador era próprio de escola.

    • Raul Marinho
      4 anos ago

      Pois é… Como vc mesmo disse, foi um ponto fira da curva, né?

  3. Chumbrega
    4 anos ago

    Excelente tema Raul. E acho que você disse tudo, de forma resumida, em seu próprio post. Eu, sinceramente, acho que aqui no Brasil se alivia demais. Não apenas em escolas de aviação, mas até mesmo em companhia aérea. Obviamente que, via de regra, a tolerância em companhia aérea é menor, até porque o grupo é mais padronizado e homogêneo. E um cheque mau feito também não quer dizer que o cara seja mau piloto ou não esteja apto a exercer a função (ora, quem voa sabe que nossa performance não é a mesma todos os dias). Mas, na minha pouquíssima experiência, minha percepção é a de que aqui se alivia muito (é parte da cultura do país e do coleguismo).

    Dito isso, acho brilhante o tema e o fato do seu leitor ter feito este questionamento, ainda no começo da carreira. Eu acho que existem casos e casos: tem examinador que afrouxa pra atender às exigências da escola, mas eu acho que também tem gente consciente e que sabe que o emprego / reputação / licença de examinador / responsabilidade legal “tá na reta” em casos de um cheque mau executado ou muito permissivo.

    A sua opinião de que o cheque de INVAs deve ser feito por INSPAC é algo que eu compartilho em 100%. E acho que isso deveria se estender a cheques INICIAIS de PC e PLA. Pra mim, examinador credenciado deve fazer o inicial só de PP (e revalidação de qualquer carteira), mas o inicial de PC, INVA, PLA deveria ser INSPAC.

    E concordo com os comentários dos colegas sobre a ANAC ser patética. Sim, é mesmo um câncer em nossa aviação, um exemplo típico de serviço público mau prestado. Entretanto, nesse aspecto temos que comparar a nossa legislação com a da ICAO, e nesse caso estamos tentando nos aproximar dela. Respeito a opinião dos colegas, mas não conheço nenhum país que não tenha cheque como protocolo formalizado, ou que adote “INSPACs” em 100% dos cheques. Se houver, ficarei feliz em ser informado a esse respeito.

  4. Italo
    4 anos ago

    Se esse país fosse sério,não haveria nescessidade de cheque,pois seria feito durante o andamento do curso!

    • Chumbrega
      4 anos ago

      Discordo, nobre colega.
      Cheque existe em TODOS os países do mundo, sérios ou não. A ausência de cheques apenas agravaria a questão abordada pelo Raul.

  5. Leandro Foltram
    4 anos ago

    Se a ANAC fosse ágil e cumprisse os prazos, o ideal realmente seriam checadores deles.

    Mas, como sabemos que os prazos não servem para eles e só para nós, então é melhor deixar como está….

    Aliás, hoje faz 70 dias que fiz meu teste de proficiência ICAO e até agora nada de resultado. Eu e mais alguns amigos na mesma situação. Chega a ser engraçado.

    • Chumbrega
      4 anos ago

      Também discordo meu nobre colega!
      A FAA, que é uma autoridade de aviação civil que temos como exemplar (e é mesmo), também tem “examinadores credenciados”, chamados DPE. E lá eles são ágeis, pois você já sia com a licença “na mão”. Veja que a legislação da ICAO (me esqueci qual é o DOC, mas acho que é o 8333) reconhece a limitação do número de checadores próprios das autoridades e estimula o credenciamento de examinadores credenciados.

      • Leandro Foltram
        4 anos ago

        Chumbrega,

        Obrigado pelos esclarecimentos. Ajuda a entender o ambiente como um todo.

        Abs

  6. Beto Arcaro
    4 anos ago

    É óbvio que as Escolas e Aeroclubes estão agindo dessa forma!
    Agem dessa forma, por quê sabem que não estão formando Pilotos Privados de verdade.
    A Formação vai muito mal.
    Esse é o problema!
    Se você pegar um Aluno de PP pronto para o cheque aqui no Brasil e submetê-lo à um cheque de piloto privado “Padrão FAA”, ele não vai passar da inspeção externa.
    Não que o cheque FAA seja complicado demais (pelo contrário).A formação por lá, dá condições para que qualquer cidadão de “capacidades médias” consiga executar com proficiência, tudo que for exigido.
    Acho que “O Buraco é mais embaixo”!

    • Tiago Ribeiro
      4 anos ago

      Exatamente isso.

  7. Trabalhei como checador e auditor (TCE – Training Center Evaluator, na Coreia, e TRE – Type Rating Examiner, em Macau S.A.R., China). Em ambas eu era checador das empresas, nao era funcionario do CASA ou tampouco da AACM, respectivamente. Soh que lah fora ocorre o seguinte: a responsabilidade solidaria, caso algo saia errado depois, eh total, completa, implacavel. Os escombros nem pararam de fumacear e a autoridade jah estah levantando quem aprovou o sinistrado, querem as fichas, as notas, o retrospecto dos ultimos anos, se teve suspensoes, se o CRM era bom etc…vcs acham – honestamente – que aqui isso ocorreria? Ha aqui algum curso homologado (que me foi exigido fazer, antes de me investirem na posicao de checador) para que o sujeito seja homologado checador, e que – alem do bla-bla-bla de praxe em sala de aula – envolva treinamento e auditoria, principalmente em ambiente de simulador? Havera um external audit system sobre os checadores “privados”? Pq se nao houver uma que seja dessas coisas aih, o esquema jah nasce corrompido e portanto ineficaz. Eh soh perguntarem aos donos da Korean Air e/ou da Asiana, lah em Seul, pq eh que ateh hoje a instrucao e os check-rides estao terceirizados a Boeing Training (para quem eu prestava servicos) ou a CAE Airbus, dependendo da frota…

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